Soraia acabava de regressar de umas curtas férias na Extremadura espanhola. O apoio que dava a muitos idosos, indo a suas casas prestar serviços de fisioterapia, não lhe permitia estar ausente muitos dias. A par disso, Soraia prestava também serviços de fisioterapia num luxuoso centro de acolhimento de idosos. Mediante acordo escrito e reconhecido por um notário, esse centro aceitava receber e tratar de doentes todo o resto das suas vidas em troca da entrega efetiva da sua casa quando do seu falecimento. Naturalmente que o Centro fazia cálculos de probabilidades de esperança de vida versus valor da casa recebida em troca, sendo que o contrato estabelecia cláusulas e condições de renúncia de qualquer das partes.
- Bom dia Sr. Joaquim, como se sente hoje depois destes dias sem tratamento? Perguntava Soraia ao seu doente.
- Muito mal, muito mal! Nenhum familiar me veio ver, só os meus vizinhos da moradia ao lado passaram por aqui, duas vezes. A minha cuidadora, Srª Maria, veio cá como habitualmente para fazer o comer, mas lá tem a sua vida, pouco tempo aqui esteve.
- Nenhum filho veio vê-lo?! Perguntou Soraia, espantada.
- Não, nem me telefonaram. São uns ingratos, não querem saber do pai, se calhar têm pressa de herdar o que tenho - dinheiro, casas e terrenos.
- Estão muito ocupados nas suas vidas profissionais, não é verdade?
- Deve ser isso, ganham bem, são os três formados, sacrifiquei-me muito para lhes dar um curso superior. Às vezes penso que, se dependessem mais de mim, tinham mais atenção para comigo, depois que a mãe faleceu. Assim, estou sozinho, tenho-a a si, que me ajuda muito.
- Conte lá como conseguiu arranjar tanta coisa, foi só do restaurante que teve?
- O restaurante permitiu-me comprar muitas propriedades e mandar estudar os filhos, mas o meu pecúlio começou desde cedo a engrossar. Já fiz muitas coisas na vida, depois que vim de Trás-os-Montes para trabalhar na siderurgia do Barreiro. Comecei como fogueiro, controlava os sistemas de produção de vapor, como caldeiras e fornos, que fazem o aquecimento dos equipamentos de produção de aço e controlava também a sua manutenção e segurança operacional.
- Então tinha um cargo importante na siderurgia?!
- Nem por isso, os chefes valorizavam o meu trabalho, mas recebia pouco. Era trabalho violento e procurei um mais leve num restaurante.
- Ganhava mais no restaurante do que na siderurgia?
- Não foi só por isso, tratou-se de uma perseguição política. Houve um concurso para compra de equipamentos novos e eu vi as três propostas de fornecimento. Tinham valores muito diferentes, o que estranhei. Compraram os equipamentos mais caros. Fiz perguntas que não foram bem recebidas por quem decidiu. Pouco tempo depois falava-se que a compra tinha sido feita a quem dava uma comissão/percentagem mais elevada como luvas, a quem tomou a decisão. Fui ameaçado por fazer perguntas. Pouco tempo depois fui acusado de ser comunista, fui perseguido pela PIDE e puseram-me na rua. Era assim que se escondia a corrupção no Estado Novo. Tive que aceitar o que me ofereciam no restaurante. Mas olhe, foi a minha sorte. Aprendi tudo sobre cozinhar e gerir um restaurante. Dois anos depois abri o meu primeiro restaurante no Barreiro. No ano seguinte abri outro no Seixal, depois outro no concelho de Palmela. Ganhei muito dinheiro, comprei propriedades e mandei estudar os filhos. Continuando na siderurgia não teria essas possibilidades…
- Teve sempre boa saúde, isso também ajudou, não foi?
- Olhe que nem sempre! Já tive problemas do coração, fui operado e pensei que não voltava vivo da sala de operações. Antes disso, fiz muitos exames. Um dia entrei para um túnel para fazer ressonância, diziam, muito quietinho, vi máquinas a rodar à minha volta, uma enorme barulheira, parecia que eu tinha morrido e andava a voar no espaço. “Será que morri”? pensei. Tive a noção que tinha andado no meio das estrelas. Quando saí do túnel fiquei incrédulo: estava vivo! Imediatamente antes de fazer a operação ao coração assumi que poderia não sair dali vivo. Fiz uma reflexão profunda sobre a vida e sobre a morte. Olhei para trás, viajei no tempo, desde Trás-os-Montes até aos restaurantes, passando pela siderurgia, sempre a projetar o futuro, assumindo erros e celebrando vitórias, preocupando-me com o que realmente importa, a família, o amor, a amizade, os amigos, mais do que a ambição de ter mais e mais património. Agora, não tenho o mais importante, sinto-me só.
- Se quiser dar-me os contactos dos seus filhos eu telefono-lhes a dar conta da sua situação.
- Agradeço, mas acho que não vale a pena. Quando souberem que eu morri, aparecem logo todos. Mas vão ter uma surpresa, não vão ser herdeiros de tudo o que eu tenho. Quem cuidar de mim até eu morrer vai ficar com esta casa, que tem o valor da quota disponível. Herdam a parte da mãe, algum dinheiro e pouco mais.
- Sempre se deu bem com os seus filhos?
- Eu acho que sim, embora eles digam que eu lhes batia muito, por serem traquinas. Eu tentei educá-los como fui educado, era assim na minha terra. E singrei na vida.
Soraia não dormiu bem nessa noite, a pensar naquela figura de aparentemente “pai tirano solitário”. Fez cálculos de probabilidades durante longas horas. Foi ver na internet informação sobre esperança média de vida, para os homens. Estudou características que atrasam ou adiantam a esperança de vida. Sentia que ele lhe iria fazer uma proposta.
Consultou o seu companheiro, com quem vivia há três anos. Ambos divorciados, estavam agora numa fase de redução de compromissos rígidos, vivendo em “união de facto” e tendo vidas soltas, ela em idade ativa e ele reformado, vinte anos mais velho.
Algumas semanas decorreram depois desta conversa com o Sr. Joaquim.
Os tratamentos passaram a ser de três vezes por semana. No fim, o Sr. Joaquim falava sempre no seu projeto. Soraia percebeu que ele lhe iria fazer uma proposta. Nunca lhe disse que “não” nem que “sim”.
- Já assinei contrato com o centro de acolhimento para entregar a minha moradia da Aroeira em troca de acolhimento perpétuo aqui, neste centro.
- Por que não me disse antes?
- Porque a vi hesitante e eu sempre tomei decisões rápidas, não podia viver nesta angústia. Desculpe. Espero que continue a tratar-me aqui. E que faça um controlo sobre a minha saúde e sobre a forma como aqui me tratam. Vou recompensá-la por essa tarefa.