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Entre palavras
Projeto literário da Nova Atena
27/04/2026
08/04/2026
ESCRITA CRIATIVA - Mote: "Longe de todos não sei se consigo viver"
LIMITAM-SE A CONTINUAR
Numa tarde cinzenta, em
pleno quadro de cheias generalizadas, detive-me a observar o Tejo num pequeno
porto da Vala do Carregado. O rio extravasara os seus limites habituais,
invadira margens, cobrira caminhos, misturara água com terra, troncos e
destroços. Tudo parecia fora do lugar. Como acontece na vida, quando ela cresce
demais e já não cabe nos contornos que lhe traçámos. O ar estava pesado,
saturado de humidade e de uma tensão silenciosa. Havia um desconforto antigo,
um pressentimento de que nada estava verdadeiramente seguro. Foi então que, ao
longe, um vulto começou a destacar-se. Durante algum tempo resistiu à forma,
confundindo-se com a água revolta e com a luz baça da tarde. Aproximava-se
devagar, teimoso, como quem sabe que parar não é opção. Interroguei-me se
conseguiriam chegar.
Entre chuvas sucessivas e
águas a transbordar, uma velha bateira aproximou-se com a perícia de muitos
anos, acariciando o que restava do cais, outrora firme e resistente, agora
submetido à corrente impiedosa. O casal — primeiro a senhora — arrastou-se
lentamente pelas tábuas incertas e pelos corrimãos que pareciam acenar à vida,
tal era a força do rio.
Os rostos enrugados
depreendiam vida por debaixo das silhuetas encharcadas e vestidas de negro,
cada gesto medido e seguro, marcado por décadas de convivência com águas e
tempestades.
Não houve dramatismo. Um
simples “bom dia” atravessou a chuva, dito com naturalidade, como se o temporal
fosse apenas mais um dia. Não valia a pena chorar nem mostrar fragilidade. As
cheias não recuam por piedade.
A vida também não. Segue o
seu curso, indiferente aos lamentos. E eles sabiam desde sempre que longe de
todos não se consegue viver.
Quando tudo ficou seguro, caminharam pela erva
encharcada, tranquilos, apoiando-se no equilíbrio construído ao longo dos anos.
O rio manteve-se cheio. O tempo permaneceu adverso. Mas neles havia uma
dignidade que não se deixava submergir.
Fiquei a observá-los por
debaixo do meu chapéu, que copiosamente continuava a chorar, com uma admiração
funda e silenciosa. Não pelo esforço, mas pela forma. Percebi que há quem
envelheça sem perder a verticalidade da alma. Quem, mesmo cercado pela água,
sabe onde firmar os pés. Ali, à beira do Tejo, compreendi que certas vidas não
esperaram que a vida fosse justa simplesmente se limitaram a vivê-la.
Fernando
Baptista
A minha primeira reacção ao
ler o tema desta semana foi “…todos… QUEM?” - longe de quem não sei se consigo
viver?
Se é da espécie humana,
direi já que me inclino para o SIM.
O ser humano é um ser
sociável, gregário, que só se concebe a si mesmo enquanto fazendo parte de um
grupo. Nós, seres vivos desta espécie, não sobrevivemos sozinhos.
Então, os “todos” serão os
outros seres da mesma espécie – humanos como eu - da mesma comunidade a que
pertenço?
Estes eu subdivido nos que
me são queridos, próximos, e os que são estranhos e desconhecidos à minha
volta.
Os desconhecidos, claro que
conseguiria viver longe eles. Não temos laços que nos prendam. Somos estranhos
e não construímos nada em comum que queiramos preservar.
Restam os que são próximos e
os que são queridos. Viver sem eles seria horrível, era como perder a minha
própria identidade.
Mas conseguiria viver – mal,
por pouco tempo, talvez desejando um fim rápido e libertador.
Sinto que estamos natural e
irremediavelmente “condenados” a preservar o maior dom que nos foi concedido ao
entrarmos neste mundo – a VIDA.
Maria
Amélia Mendes
(DIÁLOGO
A DUAS VOZES)
1ª
VOZ
1. Vais para o Corvo?!!!
2. Mas conheces lá alguém? Ninguém claro, como
te vais aguentar sozinha, sem amigos nem família? E com o mau tempo que está
sempre a castigar o arquipélago vais estar isolada e quase Longe reclusa
naquela minúscula ilha.
3. Só tem uma povoação... está bem, pronto, é uma cidade,
mas parece uma aldeia, tem pr’ai umas mil pessoas…
4. Mesmo que tenha mais
pessoas, tu não conheces nenhuma e os ilhéus
desconfiam dos continentais,
não vai ser fácil arranjar ligações ou amigos.
5. Claro que com o passar do
tempo alguém hás-de ir conhecendo, nem que seja o merceeiro local ou a médica,
mas isso não é vida.
6. Está bem, podem ser
excelentes pessoas, mas e até descobrires se são ou não como vais conseguir
aguentar sozinha?
2ª VOZ
1. Sim, decidi ir viver para
o Corvo…Calma, não é para sempre, é só durante algum tempo. Quero mudar de
ambiente, de geografia, como se fosse começar do zero e construir a partir do
nada com a bagagem que já transporto
2. Não, não conheço lá
ninguém mas passo a conhecer. A família está à distância de um telefonema e
amigos estão em todo o Mundo, assim os saibamos procurar e encontrar. E não faz
mal nenhum aprender a viver só comigo algum tempo, eu até gosto da minha
companhia.
3. É pequena sim, não passa
de um vulcão com umas casitas a escorregar pelas fajãs até ao oceano…mas para
mim é suficiente. Sossego e uma beleza de fazer vir lágrimas aos olhos.
4. Vai acontecer o que tiver
que acontecer. E eu tenho muita curiosidade de
conhecer aquelas pessoas,
corajosas ou desesperadas, que decidem viver
naquela pontinha de costas
para a europa.
5. Não digas que não é vida!
Vou viver rodeada de vida, nunca estarei sozinha. Só se for tão burra ou
negligente que deixe passar essa oportunidade
6. Esse será o grande
desafio. Vou ficar a saber se consigo viver longe de todos – quando, na
verdade, estamos sempre perto de alguém. Nem que seja só de nós próprias
Conceição Brito
Desde muito nova Mariana
tinha aversão às freiras. Criada numa família muito católica foi obrigada a ir
para um colégio de freiras e foi uma experiência traumatizante. Interrogava-se,
porque eram tão azedas? O que a vida lhes tinha feito para as modificarem a tal
modo que nenhuma empatia tinham. Será que tinham professado porque sentiam
vocação para tal ou porque dificuldades na vida as tinham empurrado para esse
caminho?
Nos livros que Mariana leu e
que falavam em freiras percebia que eram mulheres como quaisquer outras. Tinham
as hormonas a pulsar durante a fase adulta da vida e o fato de não satisfazerem
as necessidades sexuais provocava nelas um azedume que as transtornava.
Hoje, Mariana sabe que há a
chamada crise das vocações, mas em pleno século XXI, o que levará algumas
mulheres a irem para o convento e até para a clausura.
Não, decididamente Mariana
não tinha vocação para freira. Desde muito cedo percebeu que longe de tudo e de
todos, não sabia se conseguiria viver.
Maria
José Saraiva
As raízes de Amélia encontravam-se naquela aldeia, naquela quinta, naquela casa enorme que acolhia uma grande família.
A vida académica de uns e a vida profissional de outros, foi dispersando aquele núcleo. Contudo, nas férias e nas datas festivas aquela casa continuava a ser o ponto de encontro onde todos iam beber do amor que os unia desde o berço.
Amélia, como professora
primária, foi conseguindo colocação por perto, o que lhe permitiu continuar a
viver na aldeia dando apoio aos que iam envelhecendo, tornando-se a âncora
daquela família. Muito amada por todos, é certo, mas…à medida que os anos
passavam, tanta coisa ficou por viver, em prol duma abnegação cada vez mais exigente.
Sempre que a casa se enchia
era uma felicidade, não faltando o sorriso acolhedor que todos procuravam e o
colo para os mais pequenos.
Mais difícil era voltar a
ver a casa cada vez mais vazia.
Depois da partida dos pais,
a solidão começou a instalar-se… sobrava tanta casa! Sobrava tanto tempo!
Pela primeira vez o sorriso
se desvaneceu no rosto de Amélia.
Pela primeira vez lhe
ouviram um desabafo: “Longe de todos, não sei se consigo sobreviver!”
Teresa
Sousa
Era uma família grande,
alegre, deliciosamente ruidosa, unida, de beijos,
toques e abraços fáceis e
carinhosos.
Pai militar, Mãe cem por
cento Mãe.
Os primeiros seis filhos,
rapazes.
E chega o sétimo.
Finalmente, a tão desejada menina.
E logo mais um rapaz e por
fim mais duas meninas.
O Pai, austero e
disciplinador, sempre com o objectivo de criar filhos
capazes, em adultos, de
criar os seus próprios filhos.
A Mãe, protectora e
carinhosa conduzia a prole no dia-a-dia e ensinava a
sua primeira menina a ser,
simultaneamente, forte em carácter, firme com
os irmãos mais velhos,
protectora e Mãe dos mais pequenos.
Com o passar dos anos e já
na universidade, era ela que cuidava de todos.
Sempre ralhava e enquanto o
fazia, sorria consigo própria e pensava:
longe de todos e de toda
esta algazarra não sei se conseguiria viver.
Os dez irmãos se
licenciaram, casaram, e nove tiveram filhos.
Ela foi a última a casar.
Nunca teve filhos mas os irmãos e sobrinhos
tinham nela e na sua casa um
porto seguro, a certeza da continuação da
algazarra própria de uma
grande família, alegre, unida.
Teresa
Barroso
Como se o que existe
existisse para poder ser perdido e tornar-se precioso
Liese Mueller
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Mesmo Longe de Todos
Todos é uma imensidão.
Quando Josemar entrou nessa idade em que a vida promete todas as independências, entrou também em sofrimento. Imaginam porquê? Males de amores.
Mas, na verdade, nem foi esse o seu primeiro desencanto. Nem o seu primeiro sofrer.
Nem sequer o seu primeiro medo. Tudo começara muito antes, quando ainda era menino e percebeu , de repente, que não ía estar cá para sempre. Lembra-se de ter perguntado:
— O que é a morte?
Ninguém lhe respondeu.
Vieram depois os males de
amores. Paixão daquelas que se juram do caixão à cova. E ainda hoje se Todos é
uma imensidão.
Quando Josemar entrou nessa
idade em que a vida promete todas as independências, entrou também em
sofrimento. Imaginam porquê? Males de amores.
Mas, na verdade, nem foi
esse o seu primeiro desencanto. Nem o seu primeiro sofrer. Nem sequer o seu
primeiro medo.
Tudo começara muito antes,
quando ainda era menino e percebeu, de repente, que não ia estar recorda da sua
pobre mãe dizer-lhe, com a serenidade de quem já conhecia bem a vida:
— Josemar, por morrer uma
andorinha não acaba a primavera.
A sua velhinha sabia o que
dizia. Sabia que passamos a vida a correr atrás de miragens, de idealizações de
nós próprios. E que, muitas vezes, procuramos nas mulheres amadas o reflexo de
um amor incondicional — aquele que nos foi dado à nascença e que ficou colado à
pele, impregnando-nos de medos. Até do medo de que, longe de todos, não
saberíamos viver.
Um dia mandaram Josemar para
longe de todos. Para a guerra.
Foi aí que saiu debaixo das
saias da mãe e começou, finalmente, a ser homem.
Teve de sobreviver. Que
remédio. O caminho é sempre seguir em frente, porque o remediado, remediado
está. Chorou, claro. Comeu o pão que o diabo amassou, como acontece a quem
aprende sozinho, à força da vida. Mas foi nesse aprendizado duro que ganhou
traquejo para enfrentar as desventuras do mundo.
Os trabalhões foram tantos
que aprendeu até a cair.
E, pouco a pouco, a
distância deixou de o assustar.
Passou então a dar a si
próprio alguns recados.
Primeiro: tens de aprender a
não viver longe de ti, Josemar.
Depois: mesmo longe de
todos, continuas com eles. Talvez até de forma mais altruísta.
Pensas neles, não pensas?
Então estás com eles. E se estás com eles assim, em pensamento, talvez consigas
também viver sem eles.
Porque o homem habitua-se a
tudo.
À paixão.
Ao desencanto.
Ao medo.
À guerra.
Às perguntas sem resposta.
Até às mortes.
Talvez o homem já venha
preparado para isso.
Para perder.
Para continuar.
Para aprender a viver.
Como as primaveras que
regressam, mesmo depois de cair uma andorinha.
Mesmo quando, um dia, se
descobre que está longe de todos.
Vasco
Patrício
01/04/2026
MÉDIO ORIENTE
Por mais fundamentos que haja para justificar que tenha acabado de estalar uma nova guerra armada no Médio Oriente1 , envolvendo dois países contra um, e que um dos atacantes se envolvesse dias depois noutra guerra2 contra um outro país da região, é difícil encarar a situação de ânimo leve. Até onde e até quando prosseguirá o ciclo “ataca, retalia, contra-ataca, retalia”?
Trazer à coação tão delicada e complexa temática sem ter domínio do assunto é um atrevimento e corro o risco de não escapar ao adágio “quem te manda a ti sapateiro tocar violão?”. No entanto, acontece que tive uma experiência pessoal em meio académico de contacto direto simultaneamente com colegas do Líbano, Síria e Tunísia. Países estes, como é conhecido, que ficaram subordinados à França no período entre as duas Grandes Guerras Mundiais, o que levou posteriormente a que muitos estudantes seus frequentassem universidades francesas, nomeadamente, a que eu frequentava na altura.
No caso dos estudantes pós-graduados portugueses, entre os quais me incluo, as razões de ida para o exterior não eram as mesmas. A ida para fora do país tinha a ver com a falta de resposta nacional para prosseguimento de estudos após a licenciatura. A escolha recaiu sobre Lyon em França dado ser um dos polos académicos europeus de convergência de estudantes estrangeiros com relativa proximidade de Portugal. De cá éramos dois únicos pós-graduados, tendo a convivialidade entre todos os estudantes estrangeiros sido excelente, embora um pouco mais fechada com os franceses.
Ora, estava-se em 1982-83, período de uma das crises mais violentas precisamente no Líbano, cujo respetivo presidente era então Bashir Gemayel. Este tinha a particularidade de ser pró-israelita, o que favoreceu um momento histórico de grave conflitualidade em virtude do Líbano abrigar a OLP 3 que defendia a causa palestiniana, rejeitada por Israel. Dentre os graves acontecimentos registados nesse período destacam-se, por um lado, a invasão do Líbano por Israel e, pelo lado muçulmano, a retirada da OLP do Líbano e o assassinato do presidente libanês à época.
Coincidência das coincidências, no claustro da universidade, ao lá entrar na manhã do acontecimento (14.09.1982), em vez do que era habitual, estava quase vazio, o silêncio era ensurdecedor e, num dos recantos, avistava-se um grupo de estudantes reunidos com cara de caso.
Ia acompanhada, aproximámo-nos, eram precisamente os colegas do Líbano, deram-nos a notícia do assassinato, mostraram-se silenciosos e apreensivos. Não sabíamos nem soubemos se eram pró-Israel ou pró-muçulmanos, se eram todos do mesmo lado ou de lados opostos. A beleza foi vê-los abraçados tipo jogo de râguebi, chegar um colega sírio e outro tunisino, e envolverem-se no mesmo abraço (note-se quanto à Tunísia que havia rivalidade Médio Oriente e Magreb).
Para sempre retenho aquela imagem de boa convivência e mútua solidariedade confirmada pela escassa conversa que travámos, dadas as circunstâncias, na qual acentuaram em uníssono que aquela boa relação reproduzia uma efetiva facilidade de convívio entre os seus povos. Diziam, não fora a interferência e o permanente belicismo entre as elites e paz teriam…
Acreditei, quero acreditar. Virá o dia da não guerra, assim seja encontrada outra via!
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1 EUA e Israel contra o Irão (2026.02.28)
2 Israel contra o Líbano (2026.03.02)
3 Organização de Libertação da PalestinaS
Luísa Machado Rodrigues
“QUANDO ESTÁ FRIO NO TEMPO FRIO, PARA MIM É COMO SE ESTIVESSE AGRADÁVEL”
Sou a Fada Madrinha e Amiguinha.
NOTA: Escrevi este texto em Janeiro de 2022, cujo título foi sugerido pela
nossa Professora da Disciplina de Escrita Criativa.
Hoje em Março de 2026, apenas adapto alguns detalhes atuais referentes
às intempéries recentes, ainda tão presentes na nossa memória.
CARTA A FERNANDO PESSOA
Caro Fernando Pessoa,
Antes de mais, permite que te trate com familiaridade. Na realidade, eu estou cá e tu ainda andas por aí – e andarás, disso não tenho dúvidas – pelo que assim é mais fácil o nosso convívio.
No tempo em que fiz o ensino secundário, não se falava muito em ti, e o que se falava já foi há muitos anos, já me tinha esquecido. Só há bem pouco tempo, menos de dois anos, é que comecei a ter um contacto mais estreito com aquilo que nos deixaste – coisas tão fascinantes que nos acompanham como algo que não se pode dispensar. O que evidencia de forma certeira, e mais uma vez, que só morre quem é esquecido – “a morte é o esquecimento”, terá dito alguém. Ora, tu estás vivo e bem vivo e embora eu não espere resposta da tua parte isso não me impede de te contar como surgiste no meu caminho.
No início da minha vida profissional, recebi um postal de boas festas que incluía um poema que me deixou encantado e que aqui reproduzo:
DÁ-ME UM BEIJO
Dá-me um beijo
como aqueles que me davas ao portão
sob a azálea cheia de flores
e onde eu jovem enamorada
me entregava com paixão
Dá-me um beijo
fecha os olhos
não vejas o branco dos meus cabelos
e as linhas que o tempo
desenhou no meu rosto
Pensa apenas que a Primavera voltou
a azálea floriu
e o nosso abraço continua como outrora
forte, terno
como uma flor que não murchou
Mitú Branco
LOTARIA DA FELICIDADE
Os valores do Maio 68 tardaram a chegar àquela região, conhecida pelo formalismo nas relações entre as pessoas, ao nível de todos os estratos sociais e mais ainda nos contactos entre gentes de classes sociais diferentes. A influência massiva da igreja católica também contribuía para que nada se alterasse na submissão de uns em relação aos outros. Um sinal de todo este modo de pensar e atuar era o gesto físico de inclinação da cabeça perante alguém de estatuto social superior que passava, seja para dizer um simples “bom dia”, seja para iniciar algum tipo de conversa.
Eram assim os comportamentos daquela cidade de província no Norte de Portugal, mais pronunciados ainda quando se tratava de aldeias ou concelhos rurais.
Os encontros entre rapazes e raparigas eram também muito formais, se excluirmos aqueles casos em que uns e outros frequentavam a mesma escola secundária oficial ou colégio particular. Nesses ambientes criavam-se relações fortes de amizade, que duravam a vida inteira. Em algumas circunstâncias, outros tipos de encontros aconteciam nas festas populares ou nos bailes organizados pelas associações de bombeiros ou similares.
Era a normalidade, mas havia exceções, em particular raparigas que, por razões diversas, não frequentavam esses ambientes populares.
Alexandre e Rosalinda pertenciam ao mesmo concelho, mas de povoações diferentes e distantes. Nunca se cruzaram de perto nem se falaram até à idade adulta, ele mais velho que ela. Mas sabiam quem eram, de onde eram e a que famílias pertenciam – famílias que não tinham relações entre si. Alexandre foi para a cidade grande quando Rosalinda era ainda muito jovem, estava a meio do ensino secundário.
Alexandre cumpriu o serviço militar no Porto e por lá ficou a trabalhar depois dessa missão compulsiva. Só raramente ia à sua terra natal ver a família. Depois de feito o Magistério Primário, Rosalinda começou a trabalhar em aldeias da região Norte, todos os anos letivos saltitando de terra em terra, por não ser professora com lugar efetivo.
Vidas distantes, sabiam que existiam, mas não se conheciam, as hipóteses de se encontrarem eram deixadas à roda da sorte. A sorte, sempre a sorte a marcar destinos naqueles ambientes. Mas a sorte também se procura, e foi o que levou Alexandre à iniciativa de enviar uma carta para a morada dos pais de Rosalinda. No seu interior dizia poucas palavras, resumidas a isto: “Cruzámo-nos uma vez, agora sei de onde a Rosalinda é e penso que não vai ser fácil cruzarmo-nos outra vez, dado termos ocupações tão distantes. Venho simplesmente convidá-la a ir tomar café à cidade mais próxima, podemos encontrar-nos no café junto à central de camionagem.
Se estiver interessada, diga-me o dia e hora, num fim de semana qualquer.
Entretanto, poderá recolher as informações que entender, eu já o fiz, num certo sentido”.
Na volta do correio, a resposta de Rosalinda era também breve, mas
simpática. Dizia, resumidamente: “Porque não? acho boa ideia, é sempre interessante conhecer pessoas da mesma região. Dou aulas em ambientes muito fechados, sem ninguém interessante para conversar. Pode ser dia tal às tantas horas no café junto à Central de Camionagem”.
Assim aconteceu: passaram a tarde a conversar, frente a frente, um livro e um jornal a separá-los. Falaram de tudo um pouco, do ensino no colégio interno onde ela esteve sete anos, da vida militar e dos estudos que ele fez nesse tempo, das pessoas que os rodeavam, etc. Riram-se muito quando ela contou que estava a dar aulas numa aldeia onde não havia estrada de acesso, eram caminhos enlameados no inverno, por entre grandes blocos de pedra, não havia eletricidade, os mortos eram transportados numa paviola que mais parecia um andor, carregado por quatro homens pelas matas em direção ao cemitério da freguesia, bem distante. Havia bastantes alunos na povoação, famílias numerosas, do primeiro ao quarto ano da escola primária, sendo ela a única professora para os diversos anos. Faziam muitas brincadeiras, alunos interessados, eram aparentemente felizes. Rosalinda estava instalada na aldeia em um
quarto pertencente ao casal que tinha a única loja comercial da povoação, “a venda da tia Joaquina”, como era conhecida. Só ali havia telefone, único meio de comunicação para o exterior, para além das cartas dos CTT que o carteiro levava de bicicleta duas vezes por semana. Era o Portugal profundo, espelho do regime do dito Estado Novo.
Passou depressa o tempo para regressarem à camioneta de carreira que os levaria de regresso às suas aldeias, distantes vários quilómetros, por onde a camioneta passava.
Por muitos momentos, a conversa limitou-se a uma troca de olhares e de sorrisos. Não falaram de namoro nem de namorados, mas o aperto de mãos no final da conversa foi quente e significante.
Tomaram apenas café, não compraram jornais nem bilhetes de lotaria.
Muitos anos mais tarde, no tempo em que os netos começam a não precisar da ajuda das avós, Rosalinda chamou Alexandre para lhe ler uma passagem de um livro que andava a ler, “DOM CASMURRO”, de Machado de Assis. Dizia o texto: “Se a felicidade conjugal pode ser comparada à sorte grande, eles a tiraram no bilhete comprado de sociedade”.
Vítor Carvalho