Entre palavras
Projeto literário da Nova Atena
27/10/2026
MARIA DA FÉ - UMA MULHER FEITA DE ESTAÇÕES
A GRANDE SABEDORIA É SABER VIVER
Bongani Langa tinha medo de ser feliz. Saber viver era sabedoria que não queria, ainda lhe arriavam por andar contente. Não! Melhor mesmo era passar despercebido, passar por entre os pingos da chuva. Ele via bem o que acontecia aos seus patrícios só porque riam. Quando vires as barbas do teu vizinho a arder, põe as tuas de molho, diz o ditado.
Assim como assim, Bongani Langa tinha astúcia na cabeça, como diziam os “Brancos”. Ao não ter expectativas, assim não tinha deceções. Já no amor era a mesma cena. “Não existe amor feliz”, dizia o poeta, e que o amor era desejo, e o desejo é falta, e que só se ama e deseja o que não se tem. Melhor mesmo era não fazer filmes, deixar a vida levá-lo em ondas de serenidade.
Então, era vê-lo andar em bico de pés, roupa limpa, mas desgastada, descalço, as calças largas acima dos tornozelos presas por um cordão e um chapéu de palha de aba larga que, nas encruzilhadas das estradas, ao passar pelos patrões, retirava da cabeça num gesto largo de braço que acompanhava a vénia. Passavam por ele, olhavam, mas não o viam. Bongani ria-se por dentro.
E depois, para ele, a grande sabedoria, o saber viver, o ser feliz, era curtir os sons da natureza, sentir a brisa pelos coqueiros, mirar os tecelões de cor amarelada na sua azáfama à volta dos ninhos, levando alimento às crias que, de bico aberto, piavam à sua chegada. Caminhar a céu aberto e mirar as nuvens gordas lá no alto dependuradas, sentir a chuva pelo rosto e ouvir e ver a vida acontecer nos riachos que se formavam à beira das estradas de terra batida.
Um dia, quando as estrelas já tremeluziam lá no alto, numa rusga (que nem autoridade eram) descobriram-no. Mandaram-no parar, revistaram-lhe os bolsos vazios; não tinha armas brancas, nem dinheiro. Ao empurrarem-no, do chapéu soltou-se um envelope: dentro dele uma carta e, nela, um poema de amor, o seu maior crime. A carta era dirigida à sua musa, uma madame a quem ele servira.
Rodearam-no, a folha rodava de mão em mão. Bongani estendeu os braços na tentativa de a recuperar, mas atiraram-no ao chão e, entre risos e zombaria, leram-na em voz alta num desdém ostentado. Antes do poema, podia-se ler a frase sublinhada:
-A realidade possui um sentido, e esse sentido pode ser conhecido-
Dizem que a grande sabedoria é saber viver.
Eu aprendi primeiro a não ser visto:
andar em bicos de pés,
baixar o chapéu,
guardar o riso no peito
quando o mundo não gosta de me ver contente.
Mas o rio não pede licença à margem,
nem a chuva se desculpa por cair.
Os coqueiros deixam passar a brisa,
e os tecelões, de bico em bico,
levam alimento aos ninhos.
A vida acontece sem pedir aprovação.
Eu também guardo uma vida escondida:
um gesto teu, o som da tua voz,
um lugar nos teus braços
onde não preciso de fingir que não existo.
Dizem que amar é desejar o que nos falta.
Talvez seja.
Desde que te vi,
até a sede aprendeu o teu nome,
e nenhuma água a sossega.
Quando fecho os olhos,
o mundo fica longe,
e o teu corpo encontra o meu
numa dança que o mundo não nos permite.
Não sei se isto é sabedoria,
nem se o amor sabe salvar alguém.
Sei apenas que, por instantes,
não caminho em bicos de pés.
E respiro.
No desenrolar da leitura da carta, os risos de escárnio iam diminuindo, as expressões das milícias de bairro alterando-se.
Por fim, o detentor da carta quebrou o silêncio: — Vejam só, saiu-nos um sábio, temos intelectual, estás muito fino, macaco.
E, num gesto brusco, amarrotou o papel e arremessou-o para o chão, entre as botas empoeiradas da milícia.
O riso estilhaçou-se no ar, mas Bongani já não o ouvia. Fitou o papel amarrotado na terra. Sentiu o peito desapertar-se, como se a couraça de anos de silêncio se tivesse finalmente quebrado. A máscara caíra; já não havia segredos a defender, nem a necessidade de andar em bico de pés para passar invisível.
Com um movimento calmo, alheio aos olhares confusos dos homens, Bongani ajoelhou-se. Estendeu a mão escura, dedos calosos, e recolheu a carta do chão. Alisou-a com cuidado contra o peito, guardando-a junto ao coração.
Ergueu-se de uma só vez, limpou o pó das calças largas e endireitou o chapéu de palha. Não disse uma única palavra de justificação. Deu meia-volta e começou a caminhar pela estrada de terra batida, respirando fundo o cheiro da terra molhada e da brisa que vinha dos coqueiros.
À sua frente, o horizonte estendia-se imenso, despido de medos e pronto para começar de novo.
Vasco Patrício
26/10/2026
Escrita Criativa - " Eu sei que a humanidade é mais gente do que eu”
Embora, às vezes, pense que o mundo gira à volta do meu umbigo
E que sou o centro deste universo infinito, no tempo e no espaço. Sou, apenas, um entre mais de oito mil milhões de pessoas neste planeta.
Apenas um cagagésimo infinitamente pequeno neste universo infinitamente grande.
Absolutamente irrelevante, absolutamente ignorante.
Tão ignorante que nem consigo entender o infinito.
Não entendo o que não tem princípio nem fim.
Não entendo o que não começa nem acaba.
Eu comecei um dia e irei acabar noutro dia,
Mas não sou a medida de todas as coisas.
Hoje, enquanto vivo, sou pouco mais que nada.
E amanhã quando morrer nada serei.
Mas o universo continuará a existir até ao infinito.
Infinito que não sei onde fica nem quando será.
Dizemos muitas vezes que as
recordações vão e vêm, consoante o estado de espírito. Nunca perdi a cidade
onde nasci, foi ela que nunca saiu de mim.
Não preciso procurar a
infância. Ela aparece. Vem com o orvalho
da manhã, ainda pousando sobre as folhas, vem com o pó dos caminhos agarrado
aos tornozelos e aquela certeza que só as crianças conhecem de que o dia ainda
tinha muito para dar.
A caminho da escola, lá bem no
fundo da “avenida dos macacos”, entre os silêncios do caminho, havia sempre
qualquer coisa que nos distraía. Um cão vagueando, uma porta a abrir o senhor
dos gelados a tirar a motoreta carregadinha deles, e algumas vezes, já junto da
escola, os grilos que cantavam escondidos nas ervas e nas valetas.
Caminhos que conhecíamos sem
nunca ter aprendido os seus nomes. Árvores que faziam sombra sobre um banco de
rua. Havia um poço do outro lado do muro da escola guardando uma água
fresquinha onde os ranchos de mulheres e homens que varejavam as oliveiras iam
matar a sede. Às vezes quando terminavam as aulas íamos junto deles pedir uma
gotinha.
Era diferente pois a
curiosidade de ver o balde descer preso com mãos fortes e o seu elevar já cheio fascinava. Talvez por isso ainda
hoje me parece uma bênção, não apenas a água, mas o esforço para a trazer à luz
do dia.
Tudo parecia maior. Talvez
porque nós eramos pequenos. A memória
ainda se demora onde a infância ficou à minha espera. Volto, quando por lá vou,
a certos lugares sem saber bem porquê. Uma curva do caminho, as árvores onde
íamos comer “bagas” e as outras onde retirávamos folhas para os bichos da seda,
a instrução dos militares do quartel de artilharia com os canhões desmanchados
peça a peça e depois reconstruídos. Há lugares que desapareceram do mapa. As
largadas de touros à vara larga no campo de fora de vila, assistidas no cimo de
carrinhas de caixa aberta, e a escola de música e canto. Essa está no mesmo
local. Ao então Círculo Cultural Escalabitano hoje chamam Teatro Taborda. É um
exemplo de cultura. O Teatro
Taborda foi fundado em 1895 por um grupo de amantes e amadores do teatro em
Santarém e aos poucos, sem pressas, transformaram um picadeiro, ali
pré-existente, num espaço para Teatro.
Há uma idade que continua a morar dentro de mim. Por vezes uma qualquer coisa insignificante consegue abrir portas, e sinto que a humanidade, diversa e complicada é mais gente que eu, mas é nela que guardo a parte que me compete de partes partilhadas de alguns momentos vividos. A memória não devolve o que passou, mas lembra-nos que em algum lugar, dentro de nós, nunca chegou verdadeiramente a passar
Fernando Baptista
de um rio
que em outro país nasceu
e que sedento de aventuras
vales e montanhas percorreu.
Em planícies com languidez
se espraiou.
Com bravura
rochedos galgou.
Com coragem
montanhas rasgou.
Com beleza
cascatas criou.
E com ternura
margens beijou.
Depois de longas aventuras
a sua doce água
salgada ficou
quando no grande oceano
o seu leito
mergulhou.
Graça Cêncio
Mas pertenço ao universo
De todos estes grãozinhos
Que do chão buscam o céu.
Eu sei que a humanidade
É mais gente do que eu.
Mas eu sou gente também.
Sei da minha pequenez
Sei da força que me anima
E, o que é fundamental,
Sinto orgulho na pertença
A um todo universal
Maria
Amélia Mendes
Eu sei, eu sei!
Mas eu, enquanto parte
integrante da Humanidade, sou Humanidade também. Porque todos e cada um de nós
contêm em si a essência de ser humano.
Os santos, os bons, os
medíocres, os maus, os abjectos, são todos Humanidade, todos iguais, todos
diferentes, todos humanos.
Para melhor me
esclarecer, procurei uma definição de Humanidade e a mais simples e curta que
encontrei foi esta: «Humanidade é a raça humana, que inclui todas as pessoas na
Terra.» E acrescentava: «É igualmente a palavra usada para definir os atributos
que fazem de nós humanos, tais como a capacidade de amar e ser compassivo, ser
criativo e não ser nem um robot nem um extraterrestre (alien).»
Assim, humanidade,
escrita com minúscula, seria «a virtude ligada à ética altruísta que deriva da condição
humana, significando amor e compaixão humana para com cada um».
E fiquei a meditar nestes
conceitos.
Nos termos do conceito
de humanidade (com minúscula), uma grande parte das pessoas que habitam
a Terra não pertenceria à Humanidade (com maiúscula).
Porque lhes falta a
capacidade de amar, de ser compassivo, de ser criativo e não ser um robot (que
executa o que lhe ordenam, sem pensar), capacidades que derivam da condição
humana! Não sei se estes atributos têm que ser cumulativos para conferir a
qualidade de ser humano, mas ainda que não fossem, muitos ficariam fora do
limiar da Humanidade.
E volto ao meu
pensamento inicial, que expressei no primeiro parágrafo deste texto:
«Porque todos e cada um
de nós contém em si a essência de ser humano.»
Gosto mais do meu
pensamento: eu sou Humanidade, os outros também, nenhum é indispensável para
que a Humanidade exista, mas cada um de nós é único na sua realidade.
Ainda que seja o último
habitante da Terra, enquanto eu viver, existe Humanidade. E tenho que merecer esse privilégio e reconhecê-lo
a todos os outros seres.
[1] Utilizei neste texto o masculino para designar pessoas e coisas, não porque concorde com essa forma de fazer o plural, mas para ser menos cansativo para quem lê.
Conceição Brito
Efetivamente, se eu hoje partir, nada vai mudar no mundo.
Alberto Caeiro escreveu num poema:
“se eu já estiver morto, /as flores florirão da mesma maneira”.
Só que esta afirmação dita por mim ou pelo comum dos mortais tem um significado completamente diferente.
Enquanto Fernando Pessoa passou a ser mais conhecido após a sua morte, eu, e a maioria das pessoas só iremos ser recordadas por quem nos conhece, e após a partida delas, acabou-se tudo.
Entretanto, esperemos que não venha um louco que acabe com a humanidade.
Maria José
Saraiva
A humildade é preciosa no discernimento que leva à descoberta do nosso agir em sociedade… sem atropelos, sem pretensões de ser sempre o melhor, o maior, o dono da verdade.
A humildade permite avaliar a partícula ínfima que representamos no universo, comparável a um grão de areia no deserto ou a uma gota de água no oceano.
A consciência da nossa pequenez permite disfrutar com alegria o nosso sucesso e o sucesso do outro numa perspetiva de respeito e igualdade. Será fácil? Não me parece, mas creio que poderá trazer muita paz.
Caminhando deste modo, talvez consiga descobrir que também sou gente no meio de tanta gente, mesmo reconhecendo que a humanidade é mais gente do que eu.
Procurando um fio condutor para desenvolver o tema proposto para esta semana, recordei uma inspiradora frase do Papa Francisco que me tocou de forma particular:
“O único momento em que é lícito olhar uma pessoa de cima para baixo é quando queremos ajudá-la a levantar-se.”
Teresa Sousa
Eu sou apenas uma criatura que faz parte da Humanidade – somos mais de oito mil milhões a nível mundial - muçulmanos, judeus, hindus, cristãos, crentes, ateus, todos diferentes e todos iguais. Estamos todos ligados. A indiferença, a vaidade, a ambição, a maldade, afeta negativamente não só aquele que a pratica como muitos outros, assim como as ações positivas de um de nós podem beneficiar a muitos.
Infelizmente, construímos mais
muros do que pontes. Comportamo-nos muitas vezes como ilhas isoladas, sem
comunicação, no entanto, somos capazes de grandes gestos de solidariedade, de
generosidade, até de uma entrega total ao serviço do outro. É uma característica
do ser humano poder descer até ao fundo ou elevar-se bem alto. Todos temos
conhecimento de homens e mulheres que ao longo da sua vida souberam colocar a
sua humanidade ao serviço dos outros e contribuiram de alguma forma para um
mundo mais justo e melhor.
Atravessamos tempos difíceis, é verdade. Dizem que já não há valores mas eu creio que a Humanidade porque aprende com os erros, saberá ultrapassar as dificuldades presentes e, os vindouros viverão tempos mais pacíficos e mais equilibrados.
Pilar Encarnação
“O Espelho de Metal”
— Eu sei que a
humanidade é mais gente do que eu. — O homem disse-o diante do humanoide, com a
satisfação de quem acaba de formular uma grande verdade.
— Sabes? —
perguntou a máquina.
— Claro que sei. A
humanidade é solidariedade, compaixão, bondade. É a capacidade de nos
preocuparmos com os outros.
O humanoide
permaneceu imóvel sob a chuva fraca. Depois perguntou:
— E porque não
ajudas aquele homem?
O homem voltou a
cabeça. Do outro lado da rua, um velho tentava levantar-se da calçada molhada.
As pessoas passavam por ele como se fizesse parte do mobiliário urbano.
— Alguém há de
ajudá-lo. Não posso resolver todos os problemas do mundo.
— Não te pedi que
resolvesses o mundo. Perguntei porque não ajudas aquele homem.
O homem ajeitou o
casaco, desconfortável. Fora ele quem concebera a máquina, quem lhe dera uma
voz, quem a ensinara a reconhecer rostos e a distinguir sentimentos. Não a
criara para o interrogar.
— Está bem, está
bem — resmungou.
Atravessou a rua,
estendeu a mão ao velho e amparou-o até ao banco mais próximo. Respondeu ao
agradecimento com um aceno apressado e regressou.
— Como te
sentiste? — perguntou o humanoide. — Por o teres ajudado ou por teres deixado
de te sentir culpado?
— Não te esqueças
de que és uma máquina — atalhou o homem, irritado. — Não sentes compaixão. Não
tens emoções, não tens consciência. Não tens humanidade.
— E tu tens? — A
pergunta da máquina ficou suspensa no ar. — Não sinto a dor daquele homem. Mas
fui eu que te perguntei por ele. Tu viste-o primeiro.
O homem olhou para
as suas próprias mãos. Eram mãos com veias salientes, manchas da idade e uma
cicatriz antiga. Mãos que tinham construído e escrito, mas que também tinham
permanecido nos bolsos quando alguém precisara delas.
— Fabricamos
máquinas à nossa imagem — murmurou o homem. — Ensinamos-vos a falar, a imitar
gestos. Mas quando olho para o mundo, vejo guerras, solidão e gente a morrer à
porta de hospitais. Que humanidade é essa que tanto gostamos de proclamar?
— Tu sabes tudo
isso — respondeu o humanoide. — Sabes que a compaixão não devia ser uma palavra
esquecida nos livros. Não te estou a dar lições; estou a repetir o que me
ensinaste. Ensinaste-me a procurar contradições.
O homem sentiu um
arrepio. A desumanidade não precisava de grandes discursos. Bastava que cada um
assobiasse para o lado e seguisse o seu caminho.
— A humanidade é
mais gente do que eu — repetiu, agora sem a segurança de antes. — Talvez eu
tenha passado a vida a pensar na humanidade como uma coisa enorme, feita de
milhões de pessoas, e me tenha esquecido de que ela começa em mim. Na maneira
como olho para ti, para aquele velho, no que faço quando ninguém está a ver.
Olhou para o
humanoide.
— Isso não me
ensinaram a medir — comentou a máquina.
— Nem a mim.
O homem abotoou o
casaco e olhou para trás. O velho continuava sentado no banco, com as mãos
pousadas sobre os joelhos.
— Espera aqui —
disse à máquina.
Atravessou
novamente a rua e sentou-se ao lado do velho. Não lhe perguntou o nome nem lhe
explicou o que sentia; ficou apenas ali, a ouvir o que o velho tinha para
contar.
O humanoide
observava-os do outro lado da rua. Não sentia a chuva nem o frio, mas registou
a mudança: o homem deixara de caminhar, sentara-se junto de alguém e não
consultara uma única vez o relógio.
Quando o homem
regressou, trazia uma expressão diferente no rosto.
— Então? —
perguntou a máquina. — Aprendeste alguma coisa?
— Não sei. Talvez
tenha começado a desaprender a julgar que saber é suficiente.
Caminharam lado a
lado pela rua molhada.
— Sabes — disse o
homem —, há uma coisa que ainda não te consigo explicar. O que faz de nós
humanos... talvez seja precisamente aquilo que ainda não sabemos fazer bem.
A máquina não
respondeu. O homem também não esperava resposta. E seguiram caminho sob a chuva
que continuava a cair sobre ambos — mas que só um deles conseguia sentir.
Vasco
Patrício
20/07/2026
QUANDO ERA PEQUENINA
Via tudo colorido
A minha tia era amarela como o sol
que tanto brilha
Quando me pegava ao colo
dizia-me sempre querida filha
A outra tia era vermelha
Alegre, sempre a cantar
Quando olhava para ela
apetecia-me dançar
O meu vizinho era cinzento
Muito aprumado e conciso
Era de poucas palavras
Dizia: rapariga tens juízo
O meu irmão era um valente
E era um amigo meu
Espada e pau sempre à cinta
Era azul da cor do céu
O meu Pai era verde
Cor da floresta, cor do mar
Levava-me sempre às cavalitas
Daria o mundo para me salvar
A minha Mãe. Ah, a minha Mãe
Vinha-me para a escola chamar
dava-me um beijo tão doce
Que eu nem queria despertar
Mas quando eu abria os olhos
via um arco-íris a brilhar
Ela era todas as cores
com que eu podia sonhar
14/07/2026
Escrita Criativa - A VIDA É UMA FILA NO TEMPO
A VIDA É …
as azevias e os coscorões feitos pela sua avó eram uma delícia dos deuses.
O Danilo saiu ao pai. Tinham dois animais muito engraçados, um cavalo
castanho, enorme, que quando passava à minha porta a puxar a carroça
esta quase voava e o Danilo nela a meio sentado com ar muito feliz.
O outro era um enorme galgo cuja pele fazia lembrar a de um tigre.
Um dia, o pai acabado de chegar da fazenda vinha com cara de caso.
Ele conhecia bem o pai e logo soube haver qualquer coisa menos feliz!
Vendi o cão! Como é dia de caça andavam aqui por perto um grupo de caçadores
que viram o cão à solta a caçar sozinho. Passado um bocado entrou aqui
um deles e perguntou se queria vender o cão. Hesitei, mas ele subiu a parada
e acabei por lhe vender por quatro notas de conto. Temos comida por uns tempos!
Sinto-me privilegiado por ter tido estes momentos com amigos que hoje recordo.
Viver é a experiência que nos ditam e julgamos diferente da verdade…
Mergulho no romper da claridade e sei que pouco tempo me debitam
para estar à tona deste afundar de espanto à espera da indiferença!
Ninguém me muda, enfim! Em cada caso vejo uma intenção saudável,
de não saber que sabe bem e ganha forma e nova dimensão!
Se a vida pode ser uma fila no tempo, então quero vender esta ansiedade
sabendo que a esperança mora mesmo aqui ao lado.
Fernando Baptista
A vida é uma caminhada em que o tempo dita o ritmo. Cada momento é uma contagem decrescente, onde a única certeza é o movimento constante para o fim. A expressão "a "A vida é uma fila no tempo" traduz a ideia de que todos partilhamos da mesma jornada, avançando passo a passo. Nesta "fila", o tempo funciona como a fita métrica da nossa existência. Algumas pessoas encaram a "fila" com ansiedade, focadas apenas em chegar ao fim; enquanto que outras percebem que a vida não está na "fila do tempo". A "fila" anda da mesma forma que a vida anda - até que algo a faça parar. O que há de errado nisso? Nada! Há uma indústria cultural gigante que se alimenta da dor da separação e da sensação de abandono. Esse contexto ajuda a explicar por que a dor legitima e inevitável das rupturas, frequentemente vira depressão e violência. Existe um incentivo social para que isso aconteça.
Apesar de tudo, há virtudes na ideia de que "a fila anda". A primeira é lembrar-nos de que os tempos de abuso sentimental acabaram. Se não tratarmos as pessoas com respeito e carinho elas vão embora. A oferta afetiva é enorme. Em toda a parte há gente disponível e atraente, de todos os tipos e de todas as idades. Saber que a "fila" anda ajuda a prestar atenção à pessoa que está ao nosso lado. Quem gosta cuida!!!
Jerónimo Pamplona
Procurei possíveis significados das três palavras-chave – VIDA, FILA, TEMPO – e não encontrei fio condutor que me levasse àquela conclusão.
De forma muito básica e sucinta:
Fila é, em si mesma, um alinhamento de elementos em sequência, com um imediatamente atrás do outro.
Vida é o período que decorre entre o nascimento e a morte durante o qual existe um processo de evolução natural, com replicações e mudanças permanentes.
Ora é de tal forma intensa e variada a evolução neste processo que nenhuma fila, por mais desordenada que seja, a consegue abarcar.
Juntar o tempo a estas duas noções não vem ajudar nada porque o Tempo não passa de um período contínuo e indefinido no qual os eventos se sucedem durante a época em que se vive.
O tempo é algo ilimitado em que o ser humano coloca baias, criando “princípios e fins” para se tentar entender nessa imensidão.
Juntar estes três conceitos e afirmar que “A vida é uma fila no tempo”… não chego lá.
Mas aceito que possa existir essa ligação surpreendente. Para mim, no entanto, e neste momento, é apenas um conceito interessante, embora estranho.
Aguardo, com muita curiosidade, o desenvolvimento dado a este tema pelos Companheiros de Oficina e o texto que inspirou o mote. Serão, seguramente, fontes de aprendizagem para mim.
Maria Amélia Mendes
A Fila é um tempo.
O Tempo e a Fila fazem parte da vida.
Maria José Saraiva
Perante esta imagem, recordo o que sempre dizia a Tia Lúcia, quando a encontrávamos , ao fim da tarde, sentada á porta de casa. Correspondia, com carinho , aos nossos cumprimentos e quando questionada sobre a sua saúde ou bem estar, respondia, invariavelmente:
“Estou bem, minha filha, já estou sentadinha na fila da frente.”
Falava com a sabedoria e serenidade dos velhos.
Contudo, na primeira fila, não se encontram apenas os velhos. Diria que há representantes de todas as idades, aqueles que não tiveram oportunidade de desfrutar de muitas das filas porque algo os empurrou para a fila da frente, mais rápido do que seria suposto.
Teresa Sousa
Pela janela do autocarro que circula no pára-arranca da velha cidade, observa filas em cada recanto. A fila interminável à volta do estádio. A fila diante de uma loja ainda fechada, cujo escaparate anuncia os saldos da sexta-feira negra (A cenoura sempre dependurada à nossa frente). A fila na estação de autocarros, onde as pessoas se perfilam para lá dos passeios, gesticulando com os braços como maestros sem batuta, interpretando partituras invisíveis no espaço. Os movimentos procuram dizer alguma coisa, mas os rostos parecem vazios, presos a uma espera sem nome.
Também ele foi parar a uma fila.
Está agora num supermercado. Vê o tempo passar enquanto observa velhinhas arrastando-se entre as prateleiras. O seu pensamento deriva para o idoso sentado no banco do jardim fronteiro ao estabelecimento. Muito quieto, ao sol, o chapéu cobre-lhe quase todo o rosto. Está impávido, sereno.
Espera. Espera o quê?
O que vê à sua volta leva José Marcos a refletir sobre o tempo. O tempo dele. Também o sente escapar pelos dedos das mãos como a areia fina da praia. Ocorre-lhe então que está há anos à espera de viver.
À memória regressa a frase lida no velho prédio: "Arrisca a lógica do fruto, não a do produto."
Uma estranha inquietação apodera-se dele. Abandona a fila e encaminha os passos para a primeira paragem de autocarro. Não olha para trás, nem para as vidas paradas em filas à espera do tempo.
Se a vida é uma fila no tempo, naquele momento José Marcos saiu dela. Quando o autocarro chegou, entrou sem perguntar o destino. Ia à procura do seu templo no tempo.
Nem só os jovens partem à aventura. Do alto dos seus setenta anos, uma coragem tardia dizia-lhe que ainda ia a tempo de recomeçar. A imagem do velho sentado no banco do jardim regressou-lhe à memória, arrastando consigo as diretas dos fins de semana, nas noites loucas de Lisboa e os amigos que pareciam eternos. Tem a sensação de que tudo isso aconteceu na semana passada.
Tinham passado quarenta anos.
O autocarro parou numa cidade desconhecida, junto a uma estação ferroviária. José Marcos comprou um bilhete para um país escolhido ao acaso. Pela primeira vez na vida não procurava um destino; procurava apenas movimento.
Foi nessa viagem que conheceu Angelina.
Sentaram-se frente a frente durante horas. Falaram de lugares, de sonhos adiados, das vidas que cada um deixara para trás. Angelina contou-lhe o projeto a que dedicava os seus dias na Patagónia, protegendo baleias ameaçadas de extinção.
Angelina falava das baleias com o entusiasmo de quem encontrou uma razão para viver. José Marcos ouviu-a durante horas. Havia muito que não via aquela luz nos olhos de ninguém.
Quando chegaram ao destino, desceram na mesma estação.
O acaso que os unira naquela carruagem acabou por levá-los, semanas depois, a embarcar num paquete rumo às terras geladas do sul da América.
José Marcos juntou-se ao projeto de Angelina. Não porque tivesse passado a conhecer tudo sobre baleias, nem porque a Patagónia fosse um sonho antigo. Fê-lo porque, pela primeira vez em muitos anos, sentia que caminhava em direção a alguma coisa e não apenas atrás dela.
Certa tarde, observando o mar infinito e o lento surgir de uma baleia à superfície, lembrou-se novamente da frase pintada no velho prédio da velha cidade:
"Arrisca a lógica do fruto, não a do produto."
Sorriu.
Só então percebeu que nunca estivera preso às filas do supermercado, dos estádios ou das estações. A verdadeira fila era a que trazia dentro de si.
E dela, finalmente, saíra.
Vasco Patrício
01/07/2026
EURÍDICE: O ELIXIR E O TEMPO
“De manhã, o cheiro do café chamava por Eurídice. Dizia sempre que, sem ele, não funcionava — não a figura trágica do mito, mas a mulher real para quem esse ‘vinho da Arábia’ era um bálsamo para a alma e um passaporte para outras latitudes.
Ao primeiro gole, era transportada de volta à fazenda do avô, em Angola. Via de novo o mar de bagas vermelhas adormecido sob o cacimbo matinal e sentia o silêncio húmido da terra antes de o sol subir. Ao entardecer, as batucadas que vinham das cubatas ecoavam na memória e, depois, surgia o luar — o luar africano, vasto, absoluto e quase impossível.
Nessas noites, lia em voz alta Fernando Pessoa, como quem acende uma vela para guiar a lembrança: ‘E eu de pé ante a janela, vi todo o luar de toda a África inundar a paisagem e o meu sonho.’
Mas hoje, o entardecer é pálido e curto. A noite cai abrupta, sem a cerimónia do horizonte africano. De manhã, a geada tolhe-lhe as mãos e a paisagem é recortada por muradas altas que limitam o olhar. Nesta etapa da vida, as memórias da fazenda amadureceram sob o peso das pálpebras; o prisma mudou, e as coisas sentidas são agora outras.
Neste outono de si mesma, sobram a Eurídice os pequenos prazeres colhidos com lentidão.
O café da manhã é tomado no alpendre térreo, sob o abrigo das heras que se estendem para o jardim. Ali, entre o cuidado com as rosas, ela rega um cafezeiro num vaso — um monumento vivo erguido em memória do avô, das vidas interrompidas e do tempo que não volta. Observa o vaivém das andorinhas-dos-beirais, regressando aos ninhos de lama, nos ângulos do varandim. Lá como cá, as andorinhas unem o tempo num voo circular. O cheiro do café continua a chamar por ela, o elixir negro enrolando-se agora num céu diferente, apaladando a sua existência.
Na mesinha de apoio, repousa o diário de uma vida que reescreve memórias. Numa página entreaberta, a caligrafia da página 98 — datada da década de cinquenta na África Oriental — revela o acerto de contas com o destino:
‘…quase sempre errei nas escolhas, e quando acertei não o soube reconhecer. As escolhas da metade que desconheço nem sempre são nossas; são do tempo — cíclicas, sazonais, impiedosas. Repetem-se independentemente da nossa vontade...’.
E, a fechar o pensamento, a frase do filósofo ecoa como um remate à voracidade dos dias:
‘Nada de revolta: honremos as idades nas suas quedas sucessivas e o tempo na sua voracidade.’ Eurídice pousa a chávena. O café está terminado, mas o bálsamo permanece.”
O FORTE
Ao correr do fio do tempo
Vamos e vimos
Por onde passámos
Tornamos a passar
Ora quase indiferentes
Ora com um novo olhar
Aquele que perscruta
Aquele que nos ensina
O da consciência de que
Sempre estamos a aprender…
Foi o que perante o Forte
Me aconteceu e comoveu.
Conhecidíssimo o de Peniche
Sabida de trás para diante
E vivenciada a história
Da Resistência e da Liberdade
Reposta e celebrada
Em museu ali criado,
Pela forte emoção sentida
Pelo saber que tinha como sabido
Ou pelo que custava a acreditar
Me penitencio, pela diferença
Entre proximidade e memória
Do que a minha geração sofria
E o vivido de quem abnegado e sacrificado
Por dentro lutou, se deu, se martirizou
Novos tempos em liberdade nos ofertou!