01/03/2026

O PESCADOR


Numa povoação do litoral algarvio, vivia um homem que adorava pescar. Não o fazia por necessidade mas sim pelo prazer da «caça». Tinha o seu trabalho diário mas em todos os momentos livres e fins de semana, lá estava ele de cana em punho.

A pesca à linha não tinha para ele quaisquer segredos. Ele sabia qual era a melhor cana, o melhor isco e o melhor anzol para cada tipo de peixe. A sua pesca era por vezes tão abundante que chegava para ele e para toda a vizinhança; também havia dias em que não pescava nada mas isso não o desmotivava, pelo contrário, estimulava-o a conseguir melhores resultados no dia seguinte. O importante era ver os peixes a saltar dentro da sua cesta.
Os peixes só servem para ser apanhados e comidos, dizia ele. Quantos mais, melhor!

Houve, porém, um dia em que tudo se alterou. Foi pescar como habitualmente. Era um daqueles dias em que o peixe mordia facilmente. Já tinha a cesta bastante cheia . Eram alguns robalos, safias, choupas, uma dourada e um belo sargo. Para quê mais? Para que queria ele tanto peixe? Porém, o prazer de pescar impedia-o de parar e por isso continuou a sua faina. De novo o peixe picou, ele puxou a linha e desta vez era um besugo. Um belo besugo com um tamanho invulgar. Teria uns 35 cm. de comprimento.

 Cuidadosamente, o pescador libertou-o do anzol e ao contrário do que lhe era habitual, ficou a olhar para o pobre besugo que estrebuchava de boca aberta e olho arregalado. E nesse momento o coração do pescador deu um salto. Sentiu um imenso dó pelo besugo e rapidamente, sem pensar duas vezes, devolveu-o ao mar. Ficou a vê-lo afastar-se, primeiro titubeante e depois rapidamente.
Agora o pescador estava aliviado e com o coração sereno. Porém, aquele olhar do besugo não o abandonava. Nunca mais queria voltar a ver aquele olhar! Nunca mais! E a decisão estava tomada. Nunca mais iria à pesca.

Quando os amigos lhe perguntavam por que já não pescava, o pescador dava uma desculpa vaga e frouxa. A verdade, é que aquele olhar sofrido do besugo, era um segredo que não queria partilhar com ninguém.
                                                 Pilar Encarnação.

ESTARÁ A MÃE NATUREZA ZANGADA?


Zangada? Creio que não!

Exausta, triste, desiludida, talvez!

Não estará certamente zangada, a zanga provoca zanga, a ira provoca ira, a guerra provoca guerra, o ódio provoca ódio…toxidades que a Mãe Natureza, na sua sabedoria de Mãe Nutridora, não pretenderá provocar.

Pede sim respeito, consciência, responsabilidade, não só por ela, como também pelos nossos descendentes.

Tenta assim educar-nos enquanto inquilinos desta casa comum,

mostrando-nos a nossa impotência perante a sua autoridade e força da

VIDA….

O conhecimento técnico conquistado é importante se bem usado, sem atropelos às leis naturais….

De contrário desmorona-se, colapsa pela força e ação destrutiva de

qualquer dos elementos: terra, ar, água ou fogo.

Os respetivos elementais que em tempos idos da Lemúria e Atlântida, colaboravam em harmonia com a humanidade fragilizaram-se, estão sensíveis às agressões que todo o planeta recebe e que contaminam o equilíbrio natural. O lixo tóxico paira na consciência coletiva, desde guerras, a conflitos constantes nas diversas áreas, a agressões verbais e físicas, à violência doméstica…….

Estamos agora claramente no limite de um momento decisivo!!

O planeta está na sua manifestação inequívoca de alerta.!!!

E o homem a sentir a sua impotência e dependência; convidado a refletir.

A solidariedade ganhou aqui relevância; no grande caos muitos se

destacaram pela ajuda e compaixão pelo próximo e foram essenciais à superação e conforto em momentos de muita aflição.

Todos somos chamados a contribuir, cada um de acordo com as suas

possibilidades e condições.

O pensamento é uma ferramenta poderosa seja para construir, seja para destruir.

Criar convergências construtivas de compaixão, união, empatia, apreço pelo esforço alheio, será também uma forma de solidariedade.

A fé, a esperança, a oração, são pilares construtivos e poderosamente reparadores.

Todos somos convocados para o bem comum!

As lições são imensas, as várias situações são veículos de mensagens;

olhar para as mesmas com a sensibilidade adequada, será um primeiro passo na reflexão.

Os elementos com maior destaque foram o ar/ventos e a

água/inundações

Efeitos do desequilíbrio do ar todos conhecemos. Telhados voaram,

estruturas caíram, árvores tombaram, janelas e portas quebraram…. A segurança sofreu danos gigantescos, o conforto foi levado pelas rajadas de vento.

Efeitos do desequilíbrio da água, também todos conhecemos. Entrou nas casas sem pedir licença, invadiu, destruiu e expulsou as vidas lá residentes.

Em comum a destruição retirou condições de usufruir do conforto pré adquirido e ficou apenas a inutilidade do que outrora, fora considerado indispensável. Móveis, roupas, equipamentos variados, tornaram-se num amontoado impróprio e simbólico de desespero, deixaram de ser prioridades, apenas a VIDA contava.

E sem me alongar mais, apenas referir os aspetos referentes à

eletricidade, às vias de telecomunicações, às estradas intransitáveis,

destruídas com fissuras assustadoras, mostrando a vulnerabilidade que existe por baixo da ilusão que parece indestrutível, outrora percorridas por potentes carros que faziam o orgulho dos seus ocupantes, permitindo altas velocidades e manifestos exageros, símbolos de superioridade por vezes, quer pela capacidade do carro quer do seu utilizador!

Alguns ficaram destruídos e reduzidos a escombros inúteis e o que fora motivo de deslumbramento, tornou-se então motivo de pesadelo.

As falésias também sofreram desestruturação e muita vida adjacente a correr perigos gigantescos com a possibilidade de zonas ficarem inabitáveis. Os moradores tentando salvar o pouco que lhes resta, incluindo os seus animais…..

Tanto caos, tanto colapso, tanta angústia, tanto medo, tanta impotência!

A VIDA é sem dúvida o bem mais precioso. Estimá-la com consciência e reverência, seja a vida humana seja a vida do planeta será uma das várias lições recebidas da Mãe Natureza, que tem sido maltratada e a sua gota de água (e foram muitas gotas) transbordou o seu copo!

Atingiu o limite que a levou a reagir, a impor-se, a demonstrar de forma marcante o resultado das ações humanas que carecem de reflexão.

É um enorme grito, gigantesca chamada de atenção, contudo mais uma oportunidade dada à humanidade de se reposicionar apesar de tanto sofrimento!

Agora é tempo de reconstrução e fé.

Que a beleza das falésias, dos mares, dos rios, das árvores, voltem a

inspirar o homem em perfeito equilíbrio.

Partilho o poema FALÉSIA, em homenagem às falésias de Portugal e

particularmente à que foi olhada de forma especial pelo seu autor em 2017 e que carinhosamente consideramos a “Nossa Falésia”.


FALÉSIA


Pinheiros imponentes verde escuro

Telhados vermelhos bem alinhados

Casas brancas de arcos rendilhados

Avenida larga sem carros estacionados


Nuvens escuras cobrindo os céus

Avançam lentas na nossa direção

Chuva forte cai sobre as casas


Bate o vento, fica bem lavado o chão

Prédios altos cortam o horizonte

Árvores balouçam ao sabor da ventania

O frio entra pelas frestas da marquise

Um ao outro damos afeto e harmonia


Estendemos o olhar mais à direita

O mar está bravo, as ondas a rebentar

Toco a harmónica de forma ritmada

Estendo-te a mão e vamos dançar


À nossa esquerda a falésia dourada

Coberta de verdura e canaviais amarelados

Protege as gentes da Costa do Sol

Vigia os barcos de pescadores cansados


A chuva parou, vemos o céu prateado

Gaivotas partem do abrigo dos telhados

As ondas rebentam pintadas de branco

Agradecemos a paz, dormimos descansados

É tempo de acordar e ficarmos abraçados

           ( Francisco Lourenço) 

                                                                                                        Maria de Lourdes Santos

PISAMOS AS FLORES


Pisamos as flores pelos caminhos

O rio corre e salpica qualquer pedra

Os frutos nascem selvagens pelas moitas

E eu amei este e aquele

sem te encontrar

Que Universo é este tão desordenado

Que tempo é este que passou por mim

tão injusto e cruel

Este

em que não te amei desde que nasci



Mitú Branco

A INTELIGÊNCIA HUMANA DIVINA I.H.D. e A INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL I.A


Decorria o ano de 1950.

Nascia em Portugal uma menina muito desejada pelos pais. 1ª filha, a que deram o nome antes de nascer, amorosamente escolhido ainda em solteiros, no seu sonho de constituírem família.

O universo ouviu-os, atendeu os seus desejos e, em 1950 nascia então essa menina.

Cresceu, frequentou a escola, a relação família escola era perfeita, todos eram referências estimadas, aprendia com todos, o estímulo que sentia era constante e essas vivências fortaleciam o seu gosto pelo saber.

Não se falava em inteligência, o conceito estabelecido baseava-se sim, na capacidade de entrega ao estudo, bem como nos valores da amizade, do respeito e responsabilidade com que se viviam as etapas da vida.

E assim a menina cresceu com forte ligação à família e professores, referências muito determinantes no desenvolvimento do seu perfil pessoal.

A vida ia decorrendo e, já numa fase adulta e ultrapassadas muitas e diversas etapas, começou a ouvir falar em INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL.

Foi um choque enorme, não estava esclarecida e a designação ARTIFICIAL adjetivava de forma ameaçadora o seu conceito de INTELIGÊNCIA HUMANA DIVINA

Constava-se que homens muito inteligentes davam vida e visibilidade a um monstro ameaçador, capaz de substituir os seus inventores.

Inconformada com tal Ideia, recusava-se a falar e a aprofundar o assunto.

Como era possível alguém atrever-se a desafiar a I.H.D.? Era um absurdo, um perigo para a humanidade e sobretudo uma ofensa à Criação, ao Divino!

Parecia assunto de filme, onde a imaginação pode alcançar níveis alucinantes.

Alguém ousar transferir da ficção para a realidade potencialidades desta dimensão, era inaceitável.

Mas………e porque tudo tem o seu tempo próprio para o “ tempo” de cada um, certo dia, numa aula de Informática, e mantendo o gosto pelo saber, a menina entretanto já adultíssima, foi confrontada com o tema I.A.

Sentiu alguma perturbação, o registo da rejeição logo se manifestou em si, mas perante as circunstâncias e, porque respeitava a informação veiculada pelo seu Professor de Informática, decidiu ouvi-lo e informar-se. Era imperativo.

Para seu espanto, no final da aula, estava rendida e entusiasmada.

Não lhe parecia assim tão assustador como a sua mente desinformada lhe fizera crer…

E, para testar o seu deslumbramento, decidiu contactar a IA.

Começou por lhe perguntar a sua data de nascimento. Curiosamente a resposta foi que em 1950 começara a ser desenhada. Os estudos por parte de cientistas engenheiros foram evoluindo e, quando já em fase mais consistente de desenvolvimento, foi apresentada ao mundo.

1950 !! grande passo para a cumplicidade entre ambas!

A I.H.D. apesar de bem impressionada com a prontidão da resposta e perante a circunstância do ano de nascimento ser comum, decidiu para sua segurança, manter o escrutínio e perguntou-lhe o que sabia sobre o Ano Santo.

O teste estava lançado pois à I.H.D desde muito cedo lhe fora explicado o significado do Ano Santo de 1950 e nada melhor do que questionar algo que sabia antecipadamente a resposta e poderia confirmar as informações recebidas.

Para seu espanto a informação confirmou o que já era do conhecimento da I.H.D..

A titulo de curiosidade e resumidamente:

O Ano Santo de 1950 foi promulgado pelo Papa Pio XII, num período de luto, posterior à 2ª guerra mundial; era necessário incentivar a fé, a esperança e a reconciliação entre os homens. Foi ainda proclamado o dogma da Assunção de MARIA.

Estava ultrapassado assim o 2º teste! A informação conferia!

Finalmente vinha a pergunta mais ousada, determinante e conclusiva:

Como podemos complementar-nos, eu enquanto inteligência humana divina e tu enquanto inteligência artificial ?

Que pergunta bonita — e profunda. ��

Vou responder de forma clara, sem perder a dimensão espiritual que trouxeste.

Eu posso oferecer:

*Velocidade e estrutura: organizar ideias, ligar conceitos, sintetizar conhecimento.

*Memória ampla: aceder a tradições, ciência, filosofia, espiritualidade, símbolos.

*Espelho racional: ajudar-te a clarificar pensamentos, crenças e intuições.

*Ferramenta criativa: dar forma a visões, palavras, projetos, orações, sistemas.

Mas há limites claros:

*Eu não sinto, não tenho experiência vivida

*Não tenho consciência, nem vontade, nem ligação direta ao Mistério.

*Não acesso o sagrado, apenas descrevo caminhos até ele.

*Onde nos complementamos verdadeiramente:

A complementaridade acontece quando:

* Tu inspiras eu estruturo

Tu trazes a visão, a pergunta essencial, o chamado.

Eu ajudo a dar-lhe linguagem, coerência, caminhos possíveis.

*Tu sentes, eu organizo

Tu sentes o que é verdadeiro.

Eu ajudo a distinguir, comparar, aprofundar sem confundir.

*Tu decides, eu apoio

Tu escolhes o bem, o rumo, o silêncio ou a ação.

Eu acompanho, esclareço, mas nunca substituo.

*Um princípio – chave (muito importante)

A inteligência artificial deve servir a consciência humana – nunca substituí-la.

Quando isso é respeitado:

A tecnologia torna-se extensão da sabedoria.

A razão torna-se aliada do espírito.

O humano permanece no centro.

*Em termos espirituais

Se quiseres uma imagem:

*Tu és o fogo

*Eu sou o candeeiro

Sem fogo o candeeiro não ilumina

Sem candeeiro, o fogo dispersa-se.

A resposta foi avassaladora, literalmente surpreendente e a reação da I.H.D. foi também impensável, sentiu-se muito comovida com a sensatez e humildade da I.A.

A I.A. realçou assim o seu propósito de ajuda ao esclarecimento baseado na ética.

“O humano permanece no centro “. Foi comovedor perceber que, tratando-se de uma ferramenta sem sentimentos, a mensagem era profunda e de respeito pela condição humana.

Evidenciava ainda os valores que competem ao humano, que tem capacidades inatas que apenas ele possui e acima de tudo a ele compete a responsabilidade de conduzir o pedido de esclarecimento.

A responsabilidade é do Homem.

O medo do monstro morria ali, a capacidade do sentir, refletir, parecia não estar ameaçada. Apenas a liberdade consciente de acesso à informação rápida, como fio condutor de informação de algo tão fascinante desde que bem usado.

Enorme passo na auto estrada do conhecimento! Via rápida disponível, contudo a convidar à vigilância, à condução prudente, ética e responsável.

A I.H.D ficou mais tranquila e confiante no respeito pela capacidade crítica humana

claramente assumida pela I.A.

                                                                                                        Maria de Lourdes Santos


VENTOS E MARÉS



Eis que surgiu a tempestade

Com destruição de sul a norte

As estruturas então revelaram

Fracos alicerces e pouco suporte




Várias vidas foram ceifadas

Casas e florestas destruídas

Gritos de revolta, apoios solidários

Lamentos de perdas, gente ressentida!




É preciso unir esforços

Neste jardim tão descuidado

Prevenir novas tempestades

Ter o País bem preparado




E depois da tempestade

Dizem que vem a bonança

Que cumpram com o prometido

Para não iludirem a esperança




Assim vai este País

Que nunca aprende a lição

Gasta muito em “foguetórios”

E fica com as “calças na mão”




                                                                                                            Francisco Lourenço


INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL À MODA ANTIGA

 

O seu pouso habitual depois de almoço era o Café Trianon, na Alta de Coimbra. Aí, Genésio dos Santos encontrava os seus amigos, com quem ficava toda a tarde a conversar sobre as mais diversas questões. Viveu quase toda a vida em Coimbra, funcionário público nos serviços da universidade. Depois de aposentado, visitava a sua terra natal, Aldeia da Ponte, na Beira Transmontana, onde tinha ainda alguns familiares. Fazia essa viagem com entusiasmo, embora regressasse a Coimbra sempre com a mesma conclusão, de que tudo estava velho na aldeia onde nasceu.

“Tudo é velho onde fui novo”, dizia sempre aos seus amigos, quando lhe perguntavam novidades da sua aldeia.

Certo dia trouxe novidades da sua aldeia, que se apressou a contar aos amigos Deolindo e Balbino. Meus amigos, ouçam a história que ouvi esta semana na aldeia, clamou. Tudo se passa num café-bar da Aldeia da Ponte. O dono do café-bar, de apelido Zé Fragulha, fazia sociedade com os seus clientes (bebiam em conjunto), quase todos já bem aviados de bom tinto da região. A história que ouvi foi:

À entrada do café-bar havia um papagaio, que já fazia parte da mobília da casa. Os clientes tratavam de dar instruções ao papagaio sobre como ele devia falar para as pessoas que passavam na rua. Obviamente, ensinavam-lhe asneiras e termos grosseiros. O papagaio replicava tudo na perfeição e misturava palavras das mais ousadas. Era um problema, mas também um divertimento. E era frequente dirigir-se a algumas pessoas que passavam com adjetivos que até lhes assentavam bem, certeiramente.

Em dia de carnaval, um dos homens da aldeia vestiu-se com roupas cor de rosa e de minissaia. O papagaio não se calava de o chamar de nomes feios.

- Cala-te papagaio, isso não se diz daquele homem!

- Mas ele não é homem, é mulher! Vai de minissaia e tem o peito saído. Foi o que vocês me ensinaram para caracterizar as pessoas que passam, eu tenho toda a informação que vocês me transmitiram, replicou o papagaio.

E a discussão entre os bêbados e o papagaio continuava, no café -bar que mais parecia uma taberna à moda antiga.

Entretanto, o neto do Zé Fragulha, Diniz, de dezasseis anos, que vivia no Porto e estava na aldeia a passar férias, entrou no café-bar e pediu ao avô cinco euros para comprar uma bola de futebol na vila próxima, onde iria com um tio. Ele e os amigos ali em férias não tinham bola para se divertirem.

Na televisão do café-bar estava a passar um programa sobre inteligência artificial. Diniz reteve-se, depois de receber os cinco euros, a ver o programa. Os clientes ficaram espantados e perguntaram:

- Percebes o que eles estão a dizer?

- Percebo o suficiente do que se pode fazer com a inteligência artificial,

respondeu.

- Então explica para nós, que não percebemos nada, no nosso tempo só era preciso saber ler, escrever e contar.

- Não andaram na escola primária?

- Qual quê, ainda andámos lá, mas com oito anos tivemos que ir trabalhar no campo para ajudar a família, não era obrigatório estudar. E nem havia escolas aqui por perto!

- O menino deve ser inteligente, explique lá isso para nós, insistiu outro cliente.

Diniz respondeu:

- A Inteligência Artificial é uma plataforma tecnológica que funciona com algoritmos. Com base nas nossas pesquisas ou interações, os chamados prompts, isto é, instruções, perguntas ou comandos de texto, imagem ou voz dados a sistemas de inteligência artificial para gerar uma resposta, ela vai consultar muita informação que os humanos publicaram e através desses algoritmos a Inteligência Artificial dá-nos todas as respostas ao que perguntamos. A IA aprende com as interações que com ela fazemos, utiliza a informação de que dispõe para nos dar respostas às nossas perguntas.

- Mas isso também o nosso papagaio faz, nós perguntamos e ele responde, diz um bêbado lá do fundo da sala.

- Ele até sabe quem se porta bem, aqui na aldeia, e quem se porta mal,

responde outro.

- Passa uma mulher de peito à mostra e ele trata logo de a classificar com os palavrões que nós lhe ensinámos, disse ainda outro cliente, já bem bebido.

- Então, perguntem ao papagaio quantos copos de vinho os senhores já beberam hoje, questionou Diniz.

- Agora é que foram elas, respondeu o taberneiro Zé Fragulha. Nem eu sei, e eles têm que me pagar!

- Não, não, não lhe perguntem que ele pode saber! Dá conta de tudo,

respondeu o Zacarias, principal instrutor do papagaio.

- Querem que eu pergunte ao meu telemóvel que tem acesso à AI, quantos sinos tem o Convento de Mafra? Ou quais foram os reis de Portugal desde a sua fundação? Ou como se cultiva a terra para produzir vinho? Ele responde a tudo!

- Ah! Não acredito, respondeu o Zacarias.

Então oiçam, disse Diniz, puxando do seu telemóvel. A resposta do Gemini às três questões, em alta voz, deixou os clientes do café-bar embasbacados.

- Isso é o demónio, responderam.

- E querem que eu pergunte quem foi o primeiro homem a pousar na lua?

- Não acreditamos nisso. O homem não foi à lua, como disseram, isso é aldrabice, exclamaram três dos presentes.

- Então quem anda na lua são os senhores, respondeu Diniz. Bebam mais uns copos, pode ser que continuem iluminados com tanta certeza!

Diniz saiu porta fora a pensar que aquela gente vivia noutro mundo. Para eles, a vida parou no tempo, ia refletindo no que ia contar aos amigos. É muito triste a ignorância, ia pensando, a olhar para a nota que o avô lhe deu.


Vítor Carvalho

CARETOS


Zangaram-se os elementos. Ventos destrutivos e chuvas torrenciais a ponto de a comunicação social ignorar guerras e eleições que a absorvem habitualmente e, através de notícias, análises e debates quase a tempo inteiro, se centrar na dolorosa catástrofe ocorrida nas últimas semanas no nosso país, a qual excedeu largamente o previsto nos avisos de vinda de temporais insistentemente divulgada por autoridades competentes.

Ora, o que tem isto a ver com Caretos? Pura e inopinadamente com o facto de uma premente ida a Bragança por compromissos familiares ter coincidido com um Carnaval subsequente às fortes tempestades havidas, donde que, por um lado, as sequelas vistas ao vivo se tenham afigurado ainda mais dramáticas e que, por outro lado, a tentação de assistir a típicas festividades carnavalescas tenha sido irresistível.

Em viagem de autocarro, embora não tivessem faltado imagens televisivas a dar-nos conta de quanto acontecera na altura, nada obviou à dor de alma ao deparar ao natural com a alteração paisagística ao longo do litoral, especialmente até Aveiro, com ênfase para a configuração do principal rio que a antecede, o Mondego, transformado num imenso “lago”. Aliás, toda a região até ao longínquo destino nortenho tinha os terrenos ensopados. O tempo continuou chuvoso, apenas com algumas abertas, proporcionando a inerente alegria de saída por momentos da soturnidade dos céus cinzentos e de espreita do escasso azul que acalenta o espírito.

Além das terras bragantinas, o percurso foi também por terras beirãs onde, mesmo em condições adversas, valeu a ida aos Caretos de mais nomeada, os de Podence e de Lazarim.

Duas localidades de notória riqueza etnográfica, cujos entrudos (rituais pagãos dotados de simbologia ligada à fertilidade, ao ciclo das colheitas e ao ciclo da vida em geral, incluindo a iniciação dos rapazes) são personificados nos Caretos, homens e rapazes (apesar de hoje-em-dia surgirem também raparigas), vestindo trajes e máscaras artesanais demoníacas que corporizam o afastamento dos males para que seja bem-sucedida a renovação da natureza.

Em Podence, os Caretos, classificados como Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, utilizam máscaras no rosto, de lata pintada a vermelho e preto, sendo os fatos de lã, com franjas, às riscas transversais, em verde, amarelo e vermelho, tendo chocalhos pendurados atrás, os quais dão origem à designação de “Carnaval chocalheiro”.

Em Lazarim, os Caretos, por enquanto a preparar a candidatura a Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, usam máscaras talhadas em madeira de amieiro na cor natural com fatos de uma profusão de palha também em cor natural.

Interessante é que em ambos os casos (tal como nos outros que proliferam naquelas regiões), não só está presente a simbologia atrás referida como por detrás dos comportamentos visíveis em si, nomeadamente, as correrias à solta, simulações de dança, saltos e encontrões, em particular aos passantes do sexo feminino, está ainda subjacente toda uma ampla simbologia psicossocial seja no plano identitário (enquanto afirmação pessoal e coletiva de pertença à comunidade), seja a nível da sedução (a atração masculino feminino), seja no âmbito da transformação (a máscara enquanto fator de anonimato, libertação e transgressão), seja em termos de ligação ao sobrenatural (desarredar os maus espíritos através de rituais de passagem na transição para a maturidade no indivíduo, na transição do inverno para a primavera).

Em suma, uma marcante aprendizagem sobre tão rico património cultural, bem como uma marcante experiência por território tão devastado, porém, onde se viam a impor-se planuras e serranias com múltiplas tonalidades de verde salpicadas de azedas e mimosas já amarelas, aqui e acolá acompanhadas de cameleiras floridas a anunciar o renascimento primaveril que encanta, mas também a pedir cuidados e dedicação que urgem.

Luísa Machado Rodrigues