Já era julho avançado, no ano de 1975, e o sol impiedoso, típico das terras do interior nos meses de verão, fazia suar os soldados do pelotão de recrutas em formatura na parada da Escola Prática de Cavalaria de Santarém. Os soldados todos equipados com mochila, cantil, espingarda G3 e quatro cartucheiras dependuradas no cinturão. O alcatrão do chão da parada estava tão quente que até parecia que escaldava. À ordem do alferes Couto, os soldados embarcaram em dois camiões Berliet, sem capota, com destino à carreira de tiro que ficava a seis ou sete quilómetros do quartel. O desconforto de estarem sentados em bancos corridos de madeira, encostados aos taipais laterais do camião, era compensado pela frescura do vento, resultante da deslocação do carro. Alguma excitação e um misto de curiosidade e receio pois era a primeira vez que iam disparar balas a sério. Já estavam habituados à arma. Usaram-na na ordem unida, nas marchas, nos exercícios de campo e nos treinos de combate. Muitas vezes a desmontaram, limparam e olearam. Conheciam-na bem.
Chegados à carreira de tiro desmontaram da viatura, e o primeiro grupo de dez instruendos formou em linha, frente aos alvos colocados a vinte metros. O alferes repetiu pela enésima vez as instruções de segurança: nunca, nunca apontem a arma para ninguém; só disparam à ordem de fogo; só destravam a patilha de segurança quando receberem ordem de fogo e, quando acabarem a série de disparos, voltam a pôr a patilha na posição de segurança; se a arma encravar não se voltem para trás, apontem a arma para o ar e levantem a mão esquerda e aguardem que o instrutor vos ajude. Depois gritou: preparar… apontar…FOGO. O barulho ensurdecedor de dez armas a disparar em simultâneo. E repetiu FOGO. Novamente o barulho e novamente FOGO. Uma das armas não disparou. A do Manuel Martins o soldado que estava na pista oito. Desobedecendo às instruções de segurança o Manuel voltou-se para trás com a arma em posição horizontal, e durante o movimento de rotação apontou-a aos sete camaradas que se encontravam à sua esquerda, finalizando o movimento com a arma apontada ao alferes que, de imediato, agarrou a arma pelo cano apontando-a para cima e deu um safanão ao recruta. Percebia-se, pela cara do Manuel, que ele não tinha sequer a noção que tinha posto em risco a vida dos seus camaradas e a do alferes Couto.
- Entrega a arma ao furriel Travassos e vai imediatamente para o camião e só sais de lá quando eu mandar, gritou o alferes irritadíssimo. Terminado o exercício, voltaram para os camiões. O alferes fez sinal ao furriel para que o acompanhasse no regresso ao quartel e entraram ambos na cabine do camião que seguia na frente.
- Travassos, vou ter que chumbar este gajo na recruta, e vou fazer um relatório pedindo ao comandante que considere o Manuel inapto para todo o serviço. Reconheço que ele é leal, obediente e é um dos melhores na pista de obstáculos e em toda a atividade física, mas não consegue aprender as coisas mais básicas. Até parece que é atrasado! Não atina com nada, e em combate seria mais perigoso para as nossas tropas do que o inimigo. E talvez esteja a prestar-lhe um favor, assim ficará isento do serviço militar obrigatório. Não é o que todos querem? ficar livre da tropa??
- O meu alferes não conhece a história deste rapaz. Ele nasceu numa pequena aldeia de montanha no interior de Trás-os-Montes aonde ainda não chegara a eletricidade nem a civilização. O pai gastava quase todo o dinheiro da jorna em vinho. Chegava sempre bêbado a casa e maltratava a mãe. O pouco dinheiro que entregava em casa mal dava para comprar uma côdea de pão. Aos nove anos, o Manuel deixou a escola e começou a trabalhar como guardador de cabras. Tinha ele doze anos quando o pai morreu de cirrose. Depois da morte do pai, foi o Manuel que garantiu, com a sua miserável jorna, o sustento dele, da mãe e as despesas da casa. À cerca de um ano, a mãe faleceu de uma doença da qual ele não sabe o nome. Duvido que ele tenha vontade de regressar para a vida civil.
- Quando chegarmos ao quartel falo com ele.
O alferes Couto chamou o recruta Manuel ao seu gabinete.
- Manuel Martins, já deves ter percebido que não tens jeito nenhum para ser soldado atirador. Vou fazer um relatório ao comando a solicitar que sejas dispensado do serviço militar. Estás cheio de sorte, vais ficar livre da tropa. Estás contente?
Os olhos do Manuel encheram-se de lágrimas, de medo, de desanimo e de súplica.
- Mas então tu não queres sair da tropa? Olha que todos os teus camaradas só cá estão porque são obrigados. Tu és o único que quer ficar. Ó pá! podes ao menos explicar por que razão queres ficar??
- Meu alferes eu aqui como todos os dias. E tenho amigos, sim, mesmo quando gozam comigo porque não falo como eles, porque não tenho namorada e porque sou desajeitado, eu acho que eles são meus amigos. Eu, na minha terra, vivia sozinho rodeado de cabras. Posso não ter jeito para armas, mas, se me quiserem, posso ajudar na cozinha e para isso tenho bastante jeito, e não tenho medo de trabalhar.
O alferes fez o relatório, mas, em vez de solicitar a dispensa do serviço, sugeriu que o Manuel fosse colocado para trabalhar na cozinha. E assim aconteceu. Daí em diante o alferes Couto era o mais bem servido na messe. O Manuel não esquecia quem lhe fazia bem.
17/1/2026