Conheceram-se numa festa onde havia muitos amigos seus. Adolfo foi
apresentado a Dionísia nessa festa. Dançaram até altas horas da noite. A
atração foi notória e trocaram números de telefone.
Três dias depois, Dionísia recebeu um telefonema de Adolfo, convidando-
a para tomar café e passear à beira mar. Ela quis conhecê-lo melhor,
depois de algumas observações que as amigas lhe fizeram sobre a
personalidade do seu novo pretendente. Diziam-lhe que ele era conhecido
por ser muito cerebral, nada emotivo, com comportamentos um pouco
fora do normal, muito autocentrado, narcísico até, nunca tendo
evidenciado alterações de humor quando os amigos contavam histórias.
Estas observações das amigas aguçaram a curiosidade em conhecê-lo
melhor. Dionísia sempre tinha sido muito curiosa e amante de desafios.
Era uma elegante e bonita mulher, nos seus vinte e um anos. Tinha já tido
vários namorados, mas de pouca duração, nenhum lhe alterou a sua
natureza, gostava de divertir-se, esperando alguém por quem
verdadeiramente se apaixonasse. Trabalhavam os dois no sistema
bancário, mas em bancos diferentes. Nenhum deles quis tentar a
universidade, quiseram arranjar emprego e deixar de depender dos pais.
Não passearam à beira mar como ele tinha proposto, antes ficaram a
conversar numa esplanada. Um mês depois de se conhecerem,
combinaram ir de novo à discoteca. Algumas amigas dela foram também,
dançaram alegremente, mas Adolfo tomou todo o tempo de Dionísia,
inclusive saíram várias vezes para o parque onde se situava a discoteca. As
bebidas e o calor da noite lisboeta fizeram esquecer as amigas. Um carro
na escuridão serviu de encosto para ele lhe “pôr o selo”.
Casaram seis meses depois, quando a barriga de Dionísia começava a ficar
gordinha.
O bebé nasceu saudável e era o encanto da avó materna. Quando o casal
aceitava convites para passeios com amigos, a avó disponibilizava-se com
agrado em ficar com a neta.
O prédio onde moravam, na periferia da capital, tinha apenas quatro
andares, um rés-do-chão e três andares sem elevador. Viviam ao todo
naquele bloco oito famílias, que se conheciam bem, pois todos eram
moradores desde o início da utilização do prédio, com exceção do jovem
casal. Outros blocos semelhantes formavam o essencial daquela rua
pacata da freguesia de Odivelas. Os moradores cruzavam-se no café do
meio da rua. No café e nas saídas diárias para passear os cães, os vizinhos
criaram uma ligação forte de proximidade, um “espírito de bairro”.
A rua era pacata, mas naquele prédio os novos inquilinos quebravam
frequentemente o silêncio das paredes. Discutiam altas horas da noite e
gritos de criança eram frequentes naquele contexto. Os vizinhos estavam
preocupados, sobretudo com o efeito que as discussões teriam na criança
de menos de dois anos.
Os pais de Adolfo viviam em Trás-os-Montes, eram agricultores
remediados. O pai teve um princípio de acidente vascular cerebral e o
filho quis ir vê-lo ao hospital, em Vila Real.
Saíram de Odivelas pela manhã, depois de entregarem a filha à avó
materna. Decidiram parar no meio do caminho para almoçar na Bairrada,
num restaurante especializado em leitão.
Adolfo comeu e bebeu abundantemente. Mas no fim, quando veio a
conta, protestou com o empregado dizendo que o leitão não era de boa
qualidade e tinha muitos ossos. Esta discussão chamou a atenção de
outros comensais, admirados com aquela reação intempestiva daquele
cliente. Logo que entraram no carro para prosseguir viagem, começaram
em discussão violenta sobre os comportamentos que Adolfo andava a
evidenciar nos últimos meses. Ela insinuou pela primeira vez a eventual
separação do casal. Ele parou o carro na berma da autoestrada e bateu-
lhe, duas violentas bofetadas deixaram-lhe a cara muito vermelha. O resto
da viagem foi um choro permanente. Dionísia ameaçou sair do carro
quando passassem por Lamego e pedir boleia para Lisboa. Com violência
verbal e física, conduzindo a alta velocidade, ele ameaçou-a de morte se
fizesse isso. Dionísia esperou no carro até que ele regressasse de visitar o
pai. O regresso a Odivelas decorreu em silêncio.
A partir daquela viagem, a vida do casal mudou drasticamente. Acusações
de adultério eram frequentes nas discussões a altas horas da noite, com
crescente inquietação dos vizinhos, que temiam um dramático desfecho
daquelas discussões.
Certo dia, um dos vizinhos fez queixa na esquadra da PSP que serve
Odivelas. Pensou que a polícia devia estar atenta a uma eventual
desavença séria daquele casal. Algumas rondas da polícia confirmaram as
perturbações para a vizinhança. O casal passou a estar referenciado.
Num fim de tarde de outubro, o que era temido aconteceu. Com uma
agressividade nunca vista, Adolfo abriu a porta de casa e empurrou
Dionísia para o patamar da escadaria. Da luta corpo a corpo aconteceu
que Adolfo foi parar ao fundo da escadaria daquele andar, de cabeça para
baixo. Morreu com a cabeça enfiada no contador da água cuja porta
estava aberta. A PSP e depois a Polícia Judiciária tomaram conta da
ocorrência. Formularam acusação de homicídio por parte da esposa,
Dionísia. Seis meses depois, começou o julgamento em Loures, no Juízo
Central Criminal. A maior parte dos vizinhos disponibilizou-se para
testemunhar. Interrogados, nenhum assumiu explicitamente quem tinha
cometido o crime. Numa das sessões do julgamento, Dionísia descreveu
pormenorizadamente as cenas do restaurante do leitão e na subsequente
viagem a Vila Real. Os vizinhos estavam incrédulos, porque Dionísia nada
disso tinha contado antes. As dúvidas sobre os factos apurados
avolumavam- se. Seriam os dois mentalmente saudáveis? A certa altura
do julgamento, quando tudo parecia estar orientado para a condenação
de Dionísia, o vizinho que morava no andar de cima esclareceu o coletivo
de juízes do seguinte:
“Senhores juízes, eu e a minha mulher naquele dia chegámos a casa com
alguns minutos de diferença. Fomos às compras, saímos da paragem do
autocarro, que fica longe de casa, e eu fiquei no café a jogar na
raspadinha. A minha mulher seguiu para casa, mas ela encontrou uma
amiga e demoraram na conversa. Acabei por entrar primeiro no prédio.
Mas eu não tinha chave de casa, tinha-me esquecido dela naquele dia.
Esperei pela minha mulher nas escadas do meu andar, por cima do andar
do casal desavindo. E, sentado num degrau, no escuro, porque a luz das
escadas tem sensor que se apaga sem movimento, eu ouvi a discussão
que o casal estava a ter. E vi a porta da casa do casal a abrir-se e o Sr.
Adolfo a empurrar a mulher; a luz do patamar acendeu-se e eu vi a luta
dos dois a ver quem ia ao chão, num jogo de empurra. A Sr.ª Dionísia
defendeu-se muito bem dos empurrões do marido. E nas voltas do
empurra ele escorregou escada abaixo. Eu acho que ela agiu em legítima
defesa, não penso que houvesse intenção de matar”.
Fez-se silêncio na sala de audiências.
O coletivo de juízes marcou nova sessão para uma semana depois.
A sentença ilibou de crime a vítima de muitas ações de violência
doméstica. A paz regressou àquele bairro.
VITOR CARVALHO
20 DE JUNHO 2026