07/06/2026

Tema: A minha casa sou eu


Lá fora o vento tange o violino de cordas retesadas.

Tudo são guedelhas desgrenhadas, corpos erectos que baloiçam.

Oiço o escuro e não o posso ver, vejo o vento e não sei escutar.

Não sei do meu sorriso de romã a abrir. Só tenho vertigens de linho!

Sou o barro que se amassa e molda. Em cada volta sou diferente.

A minha casa sou eu! A criança que mora em mim espanta-se de repente!

Adeus sobreiros das bolotas assadas no forno que enferrujou.

Quero picar os dedos nas ortigas, colher espargos nas balsas dos carreiros,

sonhar de novo com Júlio Verne, e pasmar com a história dos três porquinhos.

Rasgar a noite, doente de paixão, segredar ao papel o primeiro verso, solfejar

a dor de uma canção e dar contas de tudo aquilo que não fiz para matar a

sede.              

Já não sou a minha casa! Que vou dizer ao menino que em mim ainda mora?

Que hoje a casa é nossa, e nela vivem milhares de crianças com cheiro a lua e

mel.

Cavalguei o meu corcel, na noite opaca, sem arreios, sem manta, sem selim.

Sem trajo de cavalgar. Em seu lugar uma casaca, e na botoeira um ramo de

alecrim.

Bati à porta da nossa casa na esquiva madrugada perfumada de aloendros e

poejos.

Fomos amantes na cama desejada e adormeci sobre lençóis de beijos...

Afundei as raízes do meu crer e floresci em versos no madrugar de um poema.

Espalhei o aroma de rimas que escrevi em textos dispersos.

Enquanto a minha carne for poesia, o amor me mate de sede e a fé de

sustento.

Vejo-me no entardecer da paixão, nas derrocadas do futuro, no tédio indefinido,

que só tem sentido quando a seara dá pão no cansaço do obscuro.

No fogo que ateei restam brasas no lume agora calor em mãos rasas.

O batente daquela porta fechada sofreu o silêncio da noite amuada

sem ter no bronze um gemido de dor, com garras aduncas do parece-mal.

Abriremos a porta na manhã clara do novo dia que desponta solarengo.

Escorrem mistérios futuros em cada madeixa que o sol pendura nos rochedos!

Tudo é luz azul e os medos de sombras que escondem escuros

abrem-se em gestos transparentes e vales preguiçosos junto ao mar.


                                                                                                    Fernando Baptista


NÃO! A MINHA CASA NÃO SOU EU! A MINHA CASA SOMOS NÓS!!! EU E A GABI:

COPROPRIETÁRIOS!

A familia que se constituiu em 20 de agosto de 1966 pela junção, no casamento católico, de Maria Gabriela Coutinho Lourenço e Jerónimo Augusto Esteves Pamplona. Este casamento deu origem a quatro netos equatro filhos: três rapazes e uma rapariga que coabitram connosco até constituirem as suas próprias familias e fundarem as suas casas em Munique, Alemanha, Linda- a – Velha, Carnaxide, Atouguia da Baleia, Peniche. Quem visitar a nossa casa em Algés, verificará que nas paredes da sala comum existem 14 quadros: 11 pintados pela Gabi e 3 comprados por mutuo acordo, sinal claro de que a minha casa é nossa desde o momento da compra em 1972.

Os ditados populares* sobre a casa ensinam-nos que a habitação é mais do que um espaço fisico – é o reflexo da nossa personalidade, um refugio de paz e a base da nossa vida:

-Boa romaria faz quem em sua casa fica em paz. 

- A roupa suja lava-se em casa.

- O lar é o reflexo do coração.

- Uma casa você vê, um lar você sente.

-A casa deve ser o estojo da vida, a máquina da felicidade.

- Lar é familia, amor e aconchego.

- Cada espaço tem a sua cara e um pouquinho da sua personalidade


Frases de personalidades célebres*:

«A verdadeira felicidade está na própria casa, entre as alegrias da familia» (Leon Tolstoi)

«Onde quer que viva, esse é o seu templo, se o tratar como tal» (Buda)

«Uma atmosfera de amor em sua casa é muito importante. Faça tudo o que puder para criar um lar tranquilo e com harmonia» (Dalai Lama)

* Fonte - Google

                                                                                            Jerónimo Pamplona



A minha casa é o meu corpo, uma casa construída por pedras vivas.

Uma casa cujo modelo não escolhi porquanto o projecto aconteceu no momento da

concepção. Uma casa irrepetível e insubstituível.

Uma realidade que me permite concluir:

“A minha casa é o meu corpo, sou eu!”


Mas… também existe a casa onde vivo, uma casa de pedra e cal que me acolhe e

abriga, que é substituível, que posso modelar de acordo com o meu gosto e as minhas

necessidades.

Curiosamente, a casa onde também me consigo rever, onde cada objecto tem uma

história para contar. Diria que é o museu que reúne o espólio de toda uma vida.

Analisando tudo em pormenor, também consigo afirmar:

“Esta casa, a minha casa, sou eu!”


                                                                q                                            Teresa Sousa


A Minha Casa Sou Eu

Ambrósia era uma “arrumadinha da silva”, sempre “cheia de nove  horas".Graduada,doutorada, bem-sucedida, organizara a vida com a precisão de quem acredita que o sucesso se constrói a régua e esquadro. Tinha uma carreira de prestígio, um palacete opulento na zona nobre da capital, viagens constantes, reconhecimento. Ainda assim, a casa quetransportava dentro de si permanecia estranhamente despida. Faltava-lhe sempre qualquer coisa.

Desconhecia a velha sabedoria de que há mais felicidade em dar do que em receber. Recusava-se a olhar para as próprias cegueiras interiores. Para ela, a máxima era absoluta:“A minha casa sou eu.”

E era verdade. Mas ignorava a regra essencial: para arrumar uma casa, é preciso primeiro ter a coragem de a desarrumar. E Ambrósia jamais desarrumara a sua. Na sua vida — tal como nas divisões do palacete — tudo permanecia excessivamente alinhado, previsível,intacto.

Nunca permitira verdadeiramente que gostassem dela. Sempre que a vida insinuava afetos, via neles uma ameaça. O amor parecia-lhe um fogo descontrolado: bastava uma fagulha para incendiar tudo o que levara anos a construir. Não, a paixão não fazia parte da sua arquitetura. Gostar de alguém era perigoso. Os inquilinos podiam ser inconvenientes,ingratos, passageiros. Convencera-se de que as casas sólidas não precisam de obras nem remodelações. Venham temporais, os seus alicerces de betão resistiriam sempre.

Mas os alicerces do coração obedecem a outras leis. O coração não se governa: ou ama e se desarruma, ou torna-se apenas uma casa vazia.

Invejava secretamente Hirondina, a empregada, que vivia numa casa humilde, apertada de espaço e cheia de vida. Havia nela a serenidade de quem aprende diariamente a dar e receber amor. Os netos enchiam-lhe os dias, as memórias, a mesa, a alma.

Ao contrário de Hirondina, que tinha a casa cheia de vida, Ambrósia tinha o palacete cheio de espaço. Pelos corredores de mármore, restava-lhe apenas a companhia de um olhar fiel e sem voz, uma presença que adornava a solidão do palacete como uma escultura viva. Ali guardava, no segredo daquela criatura que não julgava, o resto de calor humano que não seatrevia  a dar ao mundo.

“A minha casa sou eu”, repetia.

Mas ao construir uma fortaleza imune à dor, construíra também uma prisão imune à vida. Apregoava frequentemente: “Cá em casa só entra quem eu quero”. A verdade é que nunca deixara entrar ninguém.

E assim passou os anos: vigilante à porta da própria existência, sem perceber que, enquanto se protegia da perda, também se afastava da possibilidade de ser amada. Nunca saberia o que é permanecer no coração de alguém da forma como Marguerite Yourcenar um dia escreveu:

“Você nunca saberá que sua alma viaja, como um doce coração abrigado no fundo do meu coração. E que nada: nem o tempo, nem outros amores, nem a idade, jamais fará com que você deixe de existir em mim. Que toda a beleza do mundo carrega seu rosto, e que um pouco de sua voz ecoa no meu canto.”

Agora, olha em redor e tudo na casa lhe pesa. Não são apenas os anos. Numa parede, uma pintura retratava-a numa postura que não reconhecia.

O palacete continua opulento, mas despido de fotos, desabitado de memórias. As divisões permanecem intactas, silenciosas, vazias de história. Nada ali será demolido — mas também nada será lembrado.

O silêncio esmagava. Ambrósia ligou o rádio, a sua habitual companhia nas noites de tédio. A voz da fadista arrastava-se pela sala, ecoando nas paredes gélidas:

“Eu tinha as chaves da vida e fui roubada Mataram dentro de mim toda a poesia Deixaram só tristezas sem mais nada E a fonte dos meus olhos que eu não queria”

Ficou apenas o eco de uma vida demasiado arrumada para ter sido verdadeiramente vivida. No fim, diante daquele rádio, o seu lamento absoluto:

— “Eu tinha as chaves da vida... e não a abri”. 

(Nota do autor: Excerto do fado Eu tinha as chaves da vida, com letra de Júlio de Sousa e

música de Mário Moniz Pereira, imortalizado por Lucília do Carmo).

                                                                                                    Vasco Patrício

01/06/2026

NA FRONTEIRA DA TERNURA


Na fronteira da ternura

Onde a minha mão procura a tua,

Na busca de uma carícia ansiada,

Na espera serena e ansiosa do desejo

De me perder no teu olhar

Longa, serena e irremediavelmente,

Num mar fluido de sentidos e sentimentos,

Emoções e desejos,

Na plenitude do sorriso alegre e triste

Que recordo de ti.

Num tempo breve e longo,

Num espaço perto e distante,

Vividos na simbiose da noite e da lua,

Do dia e do sol,

Num longo diálogo

De palavras e emoções

De folhear e desvendar o livro da vida

Num encontro de silêncios e palavras

De gestos ousados e tímidos

De avanços e recuos

Na procura permanente do ouvir e sentir

Palavras sempre novas.

Na urgência de inventar um olhar mais profundo,

Um beijo mais doce, à flor da boca,

um procurar lento à flor da tua pele

que tarda em chegar a mim.


Maria de Freitas

maio 2026

DEVANEIOS (DESAFIO / TEXTO COLETIVO)

 Amo, pelas tardes demoradas de Verão, o sossego da

cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste

acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício.

(texto de Fernando Pessoa/Bernardo Soares)



Amo o Pôr-Do-Sol visto da minha janela. O sol esconde-se

atrás do Rio, a Lua surge e traz a noite consigo. Agora

descanso e faz-se silêncio.

Lembro-me das árvores que no passeio voltam e revoltam ao

sabor do vento, espalhando a sua sombra sobre o mundo.

Prefiro a vida real do que a sonhada; o sonho é demasiado

agradável e envolvente e rouba-me a prudência.

Não vou atrás do sonho, ele é que tenta levar-me. Resisto-lhe.

Ele abraça-me na sua imaterialidade envolvente e, arrasta-me

num voo rasante  um pé cá, um pé lá...

Descolo, rendida.

É tão bom voar!!!....

O sossego da cidade permite o desenrolar do bulício do meu

sonho.

Será razoável pensar que é possível idealizar algo ou ser

criativo em redor de algo que nunca se viu, nem de que há

registo oral ou escrito?

(A suposição é de que é preciso ter lido muito sem sair do seu

pequeno mundo).

Será possível imaginar ou descrever o comportamento de um

budista sem ter lido ou vivido os ensinamentos de Buda?

Amo o sonho do fim da tarde em que sou embalada pelo vento

entre as árvores.

Olho os verdes do arvoredo sacudido pelos ventos de Maio.

Há poeiras no ar e pessoas que se queixam de alergias.

Há árvores floridas e flores de mil cores. Maio de mil feições.

Volto ao real. Operários regressam das fábricas, varinas

regressam com cabazes à cabeça. Os gatos miam nos becos

sujos e escuros.

A vida normal desfila à minha frente, mas não a vejo. Imagino-

me longe, na espuma duma onda nascida no casco do navio

que parte para longe, rumo ao desconhecido.

Grupos de crianças sorridentes e barulhentas a caminho de

casa, contrastando com as filas de homens e mulheres, de

olhar cansado, no final de um dia de trabalho.

Uma criança corre atrás duma bola. O que pensará ela das

pessoas apressadas que caminham absortas? Será que se fixa

na cor dos sapatos ou na cor dos olhos, na roupa, nos

chapéus, nos objetos? De noite sonhará com estas pessoas ou

com nuvens em forma de ondas e cavalos?

Com que elementos constrói o seu imaginário? Talvez com o

barulho das folhas das árvores, quando o vento sopra. Talvez

com o chilrear dos pássaros do parque onde passeia ao

domingo. Talvez com o barulho dos elétricos que descem e

sobem a rua. Talvez com os abraços quentes e apertados dos

avós que a escondem num ninho pequeno e seguro.

Este mundo que sonha é apenas seu. Nele vive, cresce, sorri e

descobre.


ALUNOS E PROF.ª DE LITERATURA PORTUGUESA SÉC.XX

SEM POESIA ESMORECE A UTOPIA


Sem poesia, não canta a cotovia

Falam as armas, esmorece a utopia

Negoceiam os poderosos, a falsa harmonia

Nos campos minados, não cria a cotovia!

Nos ninhos destruídos, não chilreia a alegria

Valha-nos a esperança, de ter paz um dia

Que se calem as armas,

Que se escute alegre sinfonia!


Francisco Lourenço

19 de Maio de 2026

ARTE XÁVEGA - PESCA ARTESANAL

 

É dia 20 de setembro de 2021.O Verão a despedir-se e o equinócio a aproximar-se.

A Costa da Caparica, em fim de tarde, numa generosa e extensa oferta de fresco areal 

dourado, rendilhado por fios prateados de água cristalina, resiste ao peso dos corpos que 

se deslocam acariciados pela brisa amena e usufruem a maré baixa. É o convite irrecusável 

à deliciosa caminhada numa contagiante tranquilidade.

Ao longe, silhuetas indefinidas junto a um barco, suscitam-nos curiosidade. Avançamos até 

lá.

Cruzamo-nos com muita gente que transporta sacos verdes, dentro dos quais algo mexe.

Finalmente chegamos ao local da grande concentração que ali permanece silenciosa, mas

aparentemente esclarecida.

Nós, no entanto …..em total tentativa de entendimento de tantos sinais para descodificar, 

vamos fazendo perguntas.

O areal está irreconhecível, coberto por milhares de gaivotas! O sol, na linha do horizonte, a

despedir-se, envolto em lençóis alaranjados e nós deslumbrados continuamos 

embrenhados em absoluto êxtase e espanto!

O barco (Rei dos Mares), está ocupado por pescadores em expetativa e olhar dirigido para a

linha do horizonte.

O areal está coberto com plásticos, qual manta de retalhos!!! Preparativos para futuro ou

vestígios do passado?

Decido perguntar a um pescador se há peixe e a resposta é clara: “já não há mas vai haver, 

já não demora”…. O sol entretanto desaparece, o frio aparece e o peixe? ainda não visível.

Apetece-me perguntar a previsibilidade horária, contudo, e porque a magia paira no ar, 

deve ser aceite e respeitada na sua autenticidade…..

Aguardo, e o meu olhar percorre incessantemente tudo que visualmente me é oferecido.

Finalmente….. os tratores iniciam a marcha, avançam mar adentro, os pescadores avançam

em paralelo, como cumprindo um ritual e orientando o percurso.

A excitação do espetáculo sem informação complementar continua, apenas a intuição 

desperta, supera o desconforto do frio e do desconhecimento.

As gaivotas num impulso coletivo, ultrapassam os homens e as máquinas, avançam

agressivamente e lá longe, numa pirueta coletiva invertem o sentido, acompanhando do 

alto, a rede a ser puxada para terra.

Finalmente o pescado chega ao areal, começamos a entender, é lançado freneticamente 

sobre a manta de retalhos e começa a seleção rápida, tal a pressão de ataque provocada 

pelas gaivotas que baixam em massa e em estridentes gritos. Peixe agrupado e 

rapidamente começa a venda tentadora perante tanta variedade.

Apetece comprar muito peixe vivo, garantidamente fresco.

E agora sim, também temos sacos verdes cheios de bom peixe, mas onde a luta entre a 

vida  e a morte se trava.

Toda a magia anterior se desvanece, sinto-me angustiada e dividida. Os indefesos 

capturados estão agora em agonia nos sacos que acumulo nas mãos. Sinto imediatamente 

a diferença do sentimento entre comprá-los no mercado e comprá-los no areal onde lutam 

pela vida desesperadamente. Torna-se tudo tão estranho…REFLITO enquanto os 

transporto.

As vivências são a grande escola; ensinam a sentir verdadeiramente e serão elas o grande

impulsionador da autêntica transformação que provoca desassossego. Tudo é dinâmico, a 

vida é uma sequência de experiências que por vezes nos permitem sentir, aprofundar, 

refletir, embora nem sempre conclusivamente!

Os peixes fazem parte da cadeia alimentar e são preciosos na manutenção da nossa saúde!

Mas, apesar de tudo, o desassossego mantém-se!!

Foi uma vivência marcante, muito pessoal e dolorosa.

Foi um fim de tarde inesquecível. Também o verão está sujeito aos ciclos da vida.


Maria de Lourdes Santos

19 de Maio de 2026

O RELÓGIO MISTERIOSO

 O Sr. Caeiro era um relojoeiro dos antigos. Todos os dias, na sua velha oficina, dava corda aos numerosos relógios que possuía. Eles cobriam por completo as paredes, ou jaziam muito bem arrumados nas estantes, nas mesas ou nas gavetas. Havia-os de todos os tamanhos e feitios. Grandes, de pé alto, com pêndulos brilhantes e pesados, mais pequenos, redondos ou quadrados, em madeira polida, em prata ou em metal cromado. Por toda a parte havia relógios que o Sr. Caeiro, diariamente, munido de um espanador e um pequeno pano de flanela, limpava cuidadosamente.

 Certo dia em que uma vez mais cumpria o seu ritual diário no meio daquele tic tac monótono a que estava tão acostumado, ouviu um toque sonoro, quase estridente, vindo de uma das gavetas onde guardava os relógios recentemente reparados e que aguardavam os seus proprietários. Abrindo a gaveta verificou que o som provinha de um estojo forrado a verde onde estava um belo relógio de bolso, antigo, em prata lavrada. Que toque seria aquele? Alarme num relógio antigo, de bolso? E como é que ele não vira nada de estranho quando reparara o relógio? A verdade é que não tinha sido necessário desmontar o seu maquinismo pois, apenas tivera que reforçar um pequeno elo que se tinha soltado.

 Olhando atentamente para o relógio, o Sr. Caeiro, lembrou-se de quem o trouxera. Era um homem alto, magro, de meia idade, educado, com ligeiro sotaque e com voz de quem estava habituado a dar ordens. Chegou apressado, colocou o estojo no balcão e declarou que só deixaria o mesmo, se lhe fosse garantido que o relógio estaria pronto na manhã do dia seguinte. Rapidamente voltou a sair, depois de receber uma resposta afirmativa.

 Quem seria? Provavelmente um militar altamente graduado, pensou o Sr. Caeiro.

 Absorto nesses pensamentos pôs-se a manuseá-lo mais atentamente. Era um belo e curioso relógio. Maciço, pesado demais para andar no bolso e com uma invulgar gravação que ele tentara em vão decifrar com o auxílio de uma lupa. Naquele momento,um novo toque ainda mais vibrante acompanhado de uma pequena luz intermitente, chamou a sua atenção. Que significado poderia ter?

 Verdadeiramente intrigado, o relojoeiro estava decidido a abrir o relógio para estudar o seu maquinismo mas não teve qualquer oportunidade, pois o seu proprietário acabava de entrar na loja.

 Desejoso de saber algo mais sobre tão curioso objeto, o Sr. Caeiro, exclamou: - É um relógio muito raro; nunca tinha visto um relógio de bolso com alarme!

 Ao ouvir falar em alarme, o proprietário ficou pálido, o seu rosto endureceu e nervosamente respondeu quase sem mexer os lábios:  - Desculpe, tenho uma viagem longa para fazer e estou muito atrasado. E deixando uma nota no balcão, saiu apressadamente, deixando o Sr. Caeiro, boquiaberto.

 Havia ali mistério e ele queria muito desvendá-lo.

 Decididamente começou a pesquisar na internet e em pouco tempo encontrou alguns dados. O dono do relógio era natural do Hindustão, general na reserva e vivia em Portugal havia alguns anos. Nada mais conseguiu saber e teve que dedicar-se aos seus afazeres.

 Na manhã seguinte, enquanto conduzia o carro a caminho da relojoaria, foi surpreendido por uma notícia que não podia deixá-lo indiferente. Houve uma tentativa de golpe de Estado no Hindustão. Os revoltosos que se preparavam para provocar uma verdadeira hecatombe, foram convencidos a depôr as armas e a negociar as suas reivindicações pacificamente. Uma vez mais, o «General Sem Medo» avançou desarmado até junto dos manifestantes e dissuadiu-os de utilizar a força das armas.

 Seria possível que o «General Sem Medo» fosse o proprietário do belo relógio de bolso, pensou o sr. Caeiro.  Seria possível ou estaria a deixar-se levar pela sua imaginação? Não tinha como saber e o assunto começou a ficar esquecido.

 Passaram muitas semanas e um belo dia, enquanto passava os olhos por uma revista da especialidade que recebia habitualmente do estrangeiro, chamou-lhe a atenção um artigo sobre os relógios mais raros do mundo e lá estava a história do belo relógio de bolso. Não era único pois havia um outro semelhante a ele. Ambos tinham alarme e tinham sido a obra mais famosa de um ourives e mestre relojoeiro que habitou no Hindustão em tempos já longínquos.  O alarme só era operacionado em caso de grande perigo e funcionava por sistema remoto.

 Ambos os relógios estavam na posse de militares, famosos pelo seu amor à pátria e o seu heroísmo mas um deles já tinha falecido. Só restava o General Sem Medo que sempre que o alarme soava, apesar de ter de habitar no estrangeiro por motivos políticos, sentia o dever de regressar ao seu país e, apesar do perigo que corria, ajudar a resolver a crise.

 O «General Sem Medo» era pois o proprietário do belo relógio de prata. Estava descoberto o mistério. 

04/05/2026 
 Pilar Encarnação

- VÓS, SE ME LERDES, DIR-ME-EIS SE VALE OU NAO A PENA CONTINUAR


Navegando num mar de incertezas, ouso dar-vos a conhecer
alguns dos meus versos...às vezes ben controversos, sempre com verso e reverso
de uma medalha que não foi conquistada em dura batalha, mas em momentos de lazer em que escrevo para vencer o tempo, antes que o tempo me vença a mim.
A todos os que me têm feito acreditar...
Um abraço

Fernando de Almeida Serrano