É dia 20 de setembro de 2021.O Verão a despedir-se e o equinócio a aproximar-se.
A Costa da Caparica, em fim de tarde, numa generosa e extensa oferta de fresco areal
dourado, rendilhado por fios prateados de água cristalina, resiste ao peso dos corpos que
se deslocam acariciados pela brisa amena e usufruem a maré baixa. É o convite irrecusável
à deliciosa caminhada numa contagiante tranquilidade.
Ao longe, silhuetas indefinidas junto a um barco, suscitam-nos curiosidade. Avançamos até
lá.
Cruzamo-nos com muita gente que transporta sacos verdes, dentro dos quais algo mexe.
Finalmente chegamos ao local da grande concentração que ali permanece silenciosa, mas
aparentemente esclarecida.
Nós, no entanto …..em total tentativa de entendimento de tantos sinais para descodificar,
vamos fazendo perguntas.
O areal está irreconhecível, coberto por milhares de gaivotas! O sol, na linha do horizonte, a
despedir-se, envolto em lençóis alaranjados e nós deslumbrados continuamos
embrenhados em absoluto êxtase e espanto!
O barco (Rei dos Mares), está ocupado por pescadores em expetativa e olhar dirigido para a
linha do horizonte.
O areal está coberto com plásticos, qual manta de retalhos!!! Preparativos para futuro ou
vestígios do passado?
Decido perguntar a um pescador se há peixe e a resposta é clara: “já não há mas vai haver,
já não demora”…. O sol entretanto desaparece, o frio aparece e o peixe? ainda não visível.
Apetece-me perguntar a previsibilidade horária, contudo, e porque a magia paira no ar,
deve ser aceite e respeitada na sua autenticidade…..
Aguardo, e o meu olhar percorre incessantemente tudo que visualmente me é oferecido.
Finalmente….. os tratores iniciam a marcha, avançam mar adentro, os pescadores avançam
em paralelo, como cumprindo um ritual e orientando o percurso.
A excitação do espetáculo sem informação complementar continua, apenas a intuição
desperta, supera o desconforto do frio e do desconhecimento.
As gaivotas num impulso coletivo, ultrapassam os homens e as máquinas, avançam
agressivamente e lá longe, numa pirueta coletiva invertem o sentido, acompanhando do
alto, a rede a ser puxada para terra.
Finalmente o pescado chega ao areal, começamos a entender, é lançado freneticamente
sobre a manta de retalhos e começa a seleção rápida, tal a pressão de ataque provocada
pelas gaivotas que baixam em massa e em estridentes gritos. Peixe agrupado e
rapidamente começa a venda tentadora perante tanta variedade.
Apetece comprar muito peixe vivo, garantidamente fresco.
E agora sim, também temos sacos verdes cheios de bom peixe, mas onde a luta entre a
vida e a morte se trava.
Toda a magia anterior se desvanece, sinto-me angustiada e dividida. Os indefesos
capturados estão agora em agonia nos sacos que acumulo nas mãos. Sinto imediatamente
a diferença do sentimento entre comprá-los no mercado e comprá-los no areal onde lutam
pela vida desesperadamente. Torna-se tudo tão estranho…REFLITO enquanto os
transporto.
As vivências são a grande escola; ensinam a sentir verdadeiramente e serão elas o grande
impulsionador da autêntica transformação que provoca desassossego. Tudo é dinâmico, a
vida é uma sequência de experiências que por vezes nos permitem sentir, aprofundar,
refletir, embora nem sempre conclusivamente!
Os peixes fazem parte da cadeia alimentar e são preciosos na manutenção da nossa saúde!
Mas, apesar de tudo, o desassossego mantém-se!!
Foi uma vivência marcante, muito pessoal e dolorosa.
Foi um fim de tarde inesquecível. Também o verão está sujeito aos ciclos da vida.
Maria de Lourdes Santos
19 de Maio de 2026