08/04/2026

ESCRITA CRIATIVA - Mote: “Longe de todos não sei se consigo viver

 


 LIMITAM-SE A CONTINUAR

 

Numa tarde cinzenta, em pleno quadro de cheias generalizadas, detive-me a observar o Tejo num pequeno porto da Vala do Carregado. O rio extravasara os seus limites habituais, invadira margens, cobrira caminhos, misturara água com terra, troncos e destroços. Tudo parecia fora do lugar. Como acontece na vida, quando ela cresce demais e já não cabe nos contornos que lhe traçámos. O ar estava pesado, saturado de humidade e de uma tensão silenciosa. Havia um desconforto antigo, um pressentimento de que nada estava verdadeiramente seguro. Foi então que, ao longe, um vulto começou a destacar-se. Durante algum tempo resistiu à forma, confundindo-se com a água revolta e com a luz baça da tarde. Aproximava-se devagar, teimoso, como quem sabe que parar não é opção. Interroguei-me se conseguiriam chegar.

Entre chuvas sucessivas e águas a transbordar, uma velha bateira aproximou-se com a perícia de muitos anos, acariciando o que restava do cais, outrora firme e resistente, agora submetido à corrente impiedosa. O casal — primeiro a senhora — arrastou-se lentamente pelas tábuas incertas e pelos corrimãos que pareciam acenar à vida, tal era a força do rio.

Os rostos enrugados depreendiam vida por debaixo das silhuetas encharcadas e vestidas de negro, cada gesto medido e seguro, marcado por décadas de convivência com águas e tempestades.

Não houve dramatismo. Um simples “bom dia” atravessou a chuva, dito com naturalidade, como se o temporal fosse apenas mais um dia. Não valia a pena chorar nem mostrar fragilidade. As cheias não recuam por piedade.

A vida também não. Segue o seu curso, indiferente aos lamentos. E eles sabiam desde sempre que longe de todos não se consegue viver.

 Quando tudo ficou seguro, caminharam pela erva encharcada, tranquilos, apoiando-se no equilíbrio construído ao longo dos anos. O rio manteve-se cheio. O tempo permaneceu adverso. Mas neles havia uma dignidade que não se deixava submergir.

Fiquei a observá-los por debaixo do meu chapéu, que copiosamente continuava a chorar, com uma admiração funda e silenciosa. Não pelo esforço, mas pela forma. Percebi que há quem envelheça sem perder a verticalidade da alma. Quem, mesmo cercado pela água, sabe onde firmar os pés. Ali, à beira do Tejo, compreendi que certas vidas não esperaram que a vida fosse justa simplesmente se limitaram a vivê-la.

 

Fernando Baptista

 

A minha primeira reacção ao ler o tema desta semana foi “…todos… QUEM?” - longe de quem não sei se consigo viver?

Se é da espécie humana, direi já que me inclino para o SIM.

O ser humano é um ser sociável, gregário, que só se concebe a si mesmo enquanto fazendo parte de um grupo. Nós, seres vivos desta espécie, não sobrevivemos sozinhos.

Então, os “todos” serão os outros seres da mesma espécie – humanos como eu - da mesma comunidade a que pertenço?

Estes eu subdivido nos que me são queridos, próximos, e os que são estranhos e desconhecidos à minha volta.

Os desconhecidos, claro que conseguiria viver longe eles. Não temos laços que nos prendam. Somos estranhos e não construímos nada em comum que queiramos preservar.

Restam os que são próximos e os que são queridos. Viver sem eles seria horrível, era como perder a minha própria identidade.

Mas conseguiria viver – mal, por pouco tempo, talvez desejando um fim rápido e libertador.

Sinto que estamos natural e irremediavelmente “condenados” a preservar o maior dom que nos foi concedido ao entrarmos neste mundo – a VIDA.

Maria Amélia Mendes



(DIÁLOGO A DUAS VOZES)

1ª VOZ

1. Vais para o Corvo?!!!

2. Mas conheces lá alguém? Ninguém claro, como te vais aguentar sozinha, sem amigos nem família? E com o mau tempo que está sempre a castigar o arquipélago vais estar isolada e quase Longe reclusa naquela minúscula ilha.

3. Só tem uma povoação... está bem, pronto, é uma cidade, mas parece uma aldeia, tem pr’ai umas mil pessoas…

4. Mesmo que tenha mais pessoas, tu não conheces nenhuma e os ilhéus

desconfiam dos continentais, não vai ser fácil arranjar ligações ou amigos.

5. Claro que com o passar do tempo alguém hás-de ir conhecendo, nem que seja o merceeiro local ou a médica, mas isso não é vida.

6. Está bem, podem ser excelentes pessoas, mas e até descobrires se são ou não como vais conseguir aguentar sozinha?

2ª VOZ 

1. Sim, decidi ir viver para o Corvo…Calma, não é para sempre, é só durante algum tempo. Quero mudar de ambiente, de geografia, como se fosse começar do zero e construir a partir do nada com a bagagem que já transporto

2. Não, não conheço lá ninguém mas passo a conhecer. A família está à distância de um telefonema e amigos estão em todo o Mundo, assim os saibamos procurar e encontrar. E não faz mal nenhum aprender a viver só comigo algum tempo, eu até gosto da minha companhia.

3. É pequena sim, não passa de um vulcão com umas casitas a escorregar pelas fajãs até ao oceano…mas para mim é suficiente. Sossego e uma beleza de fazer vir lágrimas aos olhos.

4. Vai acontecer o que tiver que acontecer. E eu tenho muita curiosidade de

conhecer aquelas pessoas, corajosas ou desesperadas, que decidem viver

naquela pontinha de costas para a europa.

5. Não digas que não é vida! Vou viver rodeada de vida, nunca estarei sozinha. Só se for tão burra ou negligente que deixe passar essa oportunidade

6. Esse será o grande desafio. Vou ficar a saber se consigo viver longe de todos – quando, na verdade, estamos sempre perto de alguém. Nem que seja só de nós próprias

Conceição Brito

 

Desde muito nova Mariana tinha aversão às freiras. Criada numa família muito católica foi obrigada a ir para um colégio de freiras e foi uma experiência traumatizante. Interrogava-se, porque eram tão azedas? O que a vida lhes tinha feito para as modificarem a tal modo que nenhuma empatia tinham. Será que tinham professado porque sentiam vocação para tal ou porque dificuldades na vida as tinham empurrado para esse caminho?

Nos livros que Mariana leu e que falavam em freiras percebia que eram mulheres como quaisquer outras. Tinham as hormonas a pulsar durante a fase adulta da vida e o fato de não satisfazerem as necessidades sexuais provocava nelas um azedume que as transtornava.

Hoje, Mariana sabe que há a chamada crise das vocações, mas em pleno século XXI, o que levará algumas mulheres a irem para o convento e até para a clausura.

Não, decididamente Mariana não tinha vocação para freira. Desde muito cedo percebeu que longe de tudo e de todos, não sabia se conseguiria viver.

Maria José Saraiva

 

As raízes de Amélia encontravam-se naquela aldeia, naquela quinta, naquela casa enorme que acolhia uma grande família.

A vida académica de uns e a vida profissional de outros, foi dispersando aquele núcleo. Contudo, nas férias e nas datas festivas aquela casa continuava a ser o ponto de encontro onde todos iam beber do amor que os unia desde o berço.

Amélia, como professora primária, foi conseguindo colocação por perto, o que lhe permitiu continuar a viver na aldeia dando apoio aos que iam envelhecendo, tornando-se a âncora daquela família. Muito amada por todos, é certo, mas…à medida que os anos passavam, tanta coisa ficou por viver, em prol duma abnegação cada vez mais exigente.

Sempre que a casa se enchia era uma felicidade, não faltando o sorriso acolhedor que todos procuravam e o colo para os mais pequenos.

Mais difícil era voltar a ver a casa cada vez mais vazia.

Depois da partida dos pais, a solidão começou a instalar-se… sobrava tanta casa! Sobrava tanto tempo!

Pela primeira vez o sorriso se desvaneceu no rosto de Amélia.

Pela primeira vez lhe ouviram um desabafo: “Longe de todos, não sei se consigo sobreviver!”

Teresa Sousa

 

Era uma família grande, alegre, deliciosamente ruidosa, unida, de beijos,

toques e abraços fáceis e carinhosos.

Pai militar, Mãe cem por cento Mãe.

Os primeiros seis filhos, rapazes.

E chega o sétimo. Finalmente, a tão desejada menina.

E logo mais um rapaz e por fim mais duas meninas.

O Pai, austero e disciplinador, sempre com o objectivo de criar filhos

capazes, em adultos, de criar os seus próprios filhos.

A Mãe, protectora e carinhosa conduzia a prole no dia-a-dia e ensinava a

sua primeira menina a ser, simultaneamente, forte em carácter, firme com

os irmãos mais velhos, protectora e Mãe dos mais pequenos.

Com o passar dos anos e já na universidade, era ela que cuidava de todos.

Sempre ralhava e enquanto o fazia, sorria consigo própria e pensava:

longe de todos e de toda esta algazarra não sei se conseguiria viver.

Os dez irmãos se licenciaram, casaram, e nove tiveram filhos.

Ela foi a última a casar. Nunca teve filhos mas os irmãos e sobrinhos

tinham nela e na sua casa um porto seguro, a certeza da continuação da

algazarra própria de uma grande família, alegre, unida.

 

Teresa Barroso

 

Como se o que existe existisse para poder ser perdido e tornar-se precioso

Liese Mueller

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Mesmo Longe de Todos 

Todos é uma imensidão.

Quando Josemar entrou nessa idade em que a vida promete todas as independências, entrou também em sofrimento. Imaginam porquê? Males de amores.

Mas, na verdade, nem foi esse o seu primeiro desencanto. Nem o seu primeiro sofrer.

Nem sequer o seu primeiro medo. Tudo começara muito antes, quando ainda era menino e percebeu , de repente, que não ía estar cá para sempre. Lembra-se de ter perguntado:

— O que é a morte?

Ninguém lhe respondeu.

Vieram depois os males de amores. Paixão daquelas que se juram do caixão à cova. E ainda hoje se Todos é uma imensidão.

Quando Josemar entrou nessa idade em que a vida promete todas as independências, entrou também em sofrimento. Imaginam porquê? Males de amores.

Mas, na verdade, nem foi esse o seu primeiro desencanto. Nem o seu primeiro sofrer. Nem sequer o seu primeiro medo. 

Tudo começara muito antes, quando ainda era menino e percebeu, de repente, que não ia estar recorda da sua pobre mãe dizer-lhe, com a serenidade de quem já conhecia bem a vida:

— Josemar, por morrer uma andorinha não acaba a primavera.

A sua velhinha sabia o que dizia. Sabia que passamos a vida a correr atrás de miragens, de idealizações de nós próprios. E que, muitas vezes, procuramos nas mulheres amadas o reflexo de um amor incondicional — aquele que nos foi dado à nascença e que ficou colado à pele, impregnando-nos de medos. Até do medo de que, longe de todos, não saberíamos viver.

Um dia mandaram Josemar para longe de todos. Para a guerra.

Foi aí que saiu debaixo das saias da mãe e começou, finalmente, a ser homem.

Teve de sobreviver. Que remédio. O caminho é sempre seguir em frente, porque o remediado, remediado está. Chorou, claro. Comeu o pão que o diabo amassou, como acontece a quem aprende sozinho, à força da vida. Mas foi nesse aprendizado duro que ganhou traquejo para enfrentar as desventuras do mundo.

Os trabalhões foram tantos que aprendeu até a cair.

E, pouco a pouco, a distância deixou de o assustar.

Passou então a dar a si próprio alguns recados.

Primeiro: tens de aprender a não viver longe de ti, Josemar.

Depois: mesmo longe de todos, continuas com eles. Talvez até de forma mais altruísta.

Pensas neles, não pensas? Então estás com eles. E se estás com eles assim, em pensamento, talvez consigas também viver sem eles.

Porque o homem habitua-se a tudo.

À paixão.

Ao desencanto.

Ao medo.

À guerra.

Às perguntas sem resposta.

Até às mortes.

Talvez o homem já venha preparado para isso.

Para perder.

Para continuar.

Para aprender a viver.

Como as primaveras que regressam, mesmo depois de cair uma andorinha.

Mesmo quando, um dia, se descobre que está longe de todos.

Vasco Patrício

 

01/04/2026

MÉDIO ORIENTE


Por mais fundamentos que haja para justificar que tenha acabado de estalar uma nova guerra armada no Médio Oriente1 , envolvendo dois países contra um, e que um dos atacantes se envolvesse dias depois noutra guerra2 contra um outro país da região, é difícil encarar a situação de ânimo leve. Até onde e até quando prosseguirá o ciclo “ataca, retalia, contra-ataca, retalia”?

Trazer à coação tão delicada e complexa temática sem ter domínio do assunto é um atrevimento e corro o risco de não escapar ao adágio “quem te manda a ti sapateiro tocar violão?”. No entanto, acontece que tive uma experiência pessoal em meio académico de contacto direto simultaneamente com colegas do Líbano, Síria e Tunísia. Países estes, como é conhecido, que ficaram subordinados à França no período entre as duas Grandes Guerras Mundiais, o que levou posteriormente a que muitos estudantes seus frequentassem universidades francesas, nomeadamente, a que eu frequentava na altura.

No caso dos estudantes pós-graduados portugueses, entre os quais me incluo, as razões de ida para o exterior não eram as mesmas. A ida para fora do país tinha a ver com a falta de resposta nacional para prosseguimento de estudos após a licenciatura. A escolha recaiu sobre Lyon em França dado ser um dos polos académicos europeus de convergência de estudantes estrangeiros com relativa proximidade de Portugal. De cá éramos dois únicos pós-graduados, tendo a convivialidade entre todos os estudantes estrangeiros sido excelente, embora um pouco mais fechada com os franceses.

Ora, estava-se em 1982-83, período de uma das crises mais violentas precisamente no Líbano, cujo respetivo presidente era então Bashir Gemayel. Este tinha a particularidade de ser pró-israelita, o que favoreceu um momento histórico de grave conflitualidade em virtude do Líbano abrigar a OLP 3 que defendia a causa palestiniana, rejeitada por Israel. Dentre os graves acontecimentos registados nesse período destacam-se, por um lado, a invasão do Líbano por Israel e, pelo lado muçulmano, a retirada da OLP do Líbano e o assassinato do presidente libanês à época.

Coincidência das coincidências, no claustro da universidade, ao lá entrar na manhã do acontecimento (14.09.1982), em vez do que era habitual, estava quase vazio, o silêncio era ensurdecedor e, num dos recantos, avistava-se um grupo de estudantes reunidos com cara de caso.

Ia acompanhada, aproximámo-nos, eram precisamente os colegas do Líbano, deram-nos a notícia do assassinato, mostraram-se silenciosos e apreensivos. Não sabíamos nem soubemos se eram pró-Israel ou pró-muçulmanos, se eram todos do mesmo lado ou de lados opostos. A beleza foi vê-los abraçados tipo jogo de râguebi, chegar um colega sírio e outro tunisino, e envolverem-se no mesmo abraço (note-se quanto à Tunísia que havia rivalidade Médio Oriente e Magreb).

Para sempre retenho aquela imagem de boa convivência e mútua solidariedade confirmada pela escassa conversa que travámos, dadas as circunstâncias, na qual acentuaram em uníssono que aquela boa relação reproduzia uma efetiva facilidade de convívio entre os seus povos. Diziam, não fora a interferência e o permanente belicismo entre as elites e paz teriam…

Acreditei, quero acreditar. Virá o dia da não guerra, assim seja encontrada outra via!


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1 EUA e Israel contra o Irão (2026.02.28)

2 Israel contra o Líbano (2026.03.02)

3 Organização de Libertação da PalestinaS

Luísa Machado Rodrigues


“QUANDO ESTÁ FRIO NO TEMPO FRIO, PARA MIM É COMO SE ESTIVESSE AGRADÁVEL”

 Sou a Fada Madrinha e Amiguinha.

Tenho poderes mágicos. 
Vivo no Planeta da dualidade, dos opostos extremados, e esta polaridade diverte-me e disciplina-me.
Viajo ininterruptamente, doze meses por ano entre Polo Norte e Polo Sul, Polo Sul e Polo Norte…. E a média que me proponho e alcanço chama-se EQUILÍBRIO. 
A velocidade é constante e tudo é exequível porque tenho atributos
mágicos muito especiais além da poderosa varinha de condão.!!
Naturalmente sou adaptável às temperaturas, não necessito de equipamentos especiais para superar as baixas ou as altas amplitudes térmicas. 
O meu mundo é de facilidade e graça!!! 
A alegria é permanente, não sou influenciável e as oscilações climáticas não têm qualquer poder sobre mim, “quando está frio no tempo frio, é como se estivesse agradável”.
Essa circunstância facilita imenso a minha vida no Planeta dos humanos que normalmente são sensíveis ao estado do tempo, contudo não são sensíveis nem se apercebem da minha presença!
Eu, porém, apercebo-me e SINTO a deles… por vezes ruidosa, danosa, desastrosa em excesso.
O meu mundo é de tranquilidade, silêncio, serviço…
A música suave também me encanta!!
Quando a ela me entrego, a natureza rejubila, comunico com as plantas e os pássaros planam em danças ternurentas de maravilhosas coreografias.
Também os golfinhos me escutam maravilhados, retribuindo lindos sons e piruetas.
As marés acalmam-se, dançam, avançam, recuam, enquanto eu sobrevoo os oceanos cantando normalmente à boleia das lunações. Trabalhamos em parceria e não há desilusões!
Agora um segredo…..Ser Fada aqui nem sempre é fácil!!
As Estações do Ano estão alteradas, já não há ciclos bem definidos e até os passarinhos e os peixes se sentem por vezes perdidos. O seu GPS interior confunde-os e antecipam ou retardam as suas deslocações porque as suas rotas tornam-se irreconhecíveis. A poluição descaracteriza as suas referências…
Então, e porque tudo começa a ficar desajustado daquilo para que foi criado, chega o momento da mobilização dos Corpos Especiais: Os Elementais. 
As Ondinas reúnem e decidem intervir na zona aquática; as Salamandras reúnem e ajudam a restaurar a floresta ardida; os Silfos reúnem e controlam os ventos, por vezes até necessários e úteis, para afastar os vírus e bactérias que pairam no ar; os gnomos reúnem para reforçar a minha ação de ajuda ao elemento Terra.
A mobilização dos Elementais colabora de forma anónima e discreta no equilíbrio do Planeta, na tentativa de repor os ciclos naturais, porém, sofrem com toda a ação humana e manifestam-se provocando severas alterações climáticas, sendo a mais recente ocorrida em Portugal em fevereiro de 2026, tendo causado muito sofrimento. A natureza não se zangou, apenas manifestou o seu descontentamento e tristeza.
Quem provocou os desequilíbrios e os danos inerentes aos mesmos, nem se apercebe do nosso esforço!!
Ao desconhecer, não está capacitado para apreciar e assim, continua sem consciência da necessidade de alterar comportamentos em profundidade.
Os nossos poderes mágicos não devem sobrepor-se nem resolver o que compete aos humanos….
Eu adoro as minhas viagens, permitem-me apreciar o lindo Planeta Azul e a perfeição da natureza. Conhecer as suas leis, amá-las e respeitá-las é urgente.
A colaboração entre todas as forças é necessária e desejável.
Os humanos precisam aprender a bem usar o espaço que lhes foi
oferecido para viverem em equilíbrio. Aprender a interpretar os sinais e só assim, promovendo o equilíbrio e o respeito, serão Felizes e Saudáveis.
Eu, enquanto vossa Fada Madrinha e Amiguinha, faço a minha parte e convido-os a que façam a vossa, por favor!
Construam o EQUILÍBRIO E CALOR interior, onde o frio exterior não tem lugar e tudo é agradável.


Maria de Lourdes Santos

NOTA: Escrevi este texto em Janeiro de 2022, cujo título foi sugerido pela

nossa Professora da Disciplina de Escrita Criativa.

Hoje em Março de 2026, apenas adapto alguns detalhes atuais referentes

às intempéries recentes, ainda tão presentes na nossa memória.

CARTA A FERNANDO PESSOA

Caro Fernando Pessoa,

 Antes de mais, permite que te trate com familiaridade. Na realidade, eu estou cá e tu ainda andas por aí – e andarás, disso não tenho dúvidas – pelo que assim é mais fácil o nosso convívio.

No tempo em que fiz o ensino secundário, não se falava muito em ti, e o que se falava já foi há muitos anos, já me tinha esquecido. Só há bem pouco tempo, menos de dois anos, é que comecei a ter um contacto mais estreito com aquilo que nos deixaste – coisas tão fascinantes que nos acompanham como algo que não se pode dispensar. O que evidencia de forma certeira, e mais uma vez, que só morre quem é esquecido – “a morte é o esquecimento”, terá dito alguém. Ora, tu estás vivo e bem vivo e embora eu não espere resposta da tua parte isso não me impede de te contar como surgiste no meu caminho.

No início da minha vida profissional, recebi um postal de boas festas que incluía um poema que me deixou encantado e que aqui reproduzo:




Pouco tempo depois, numa visita ao Mosteiro dos Jerónimos, dei conta que o mesmo poema estava numa lápide em tua homenagem. Fiquei encantado, mas as exigências profissionais de então não me permitiram dedicar-me a aprofundar o assunto.

Um dia, em Bruxelas, eu estava a frequentar um curso no âmbito da minha vida profissional. O programa incluía entrevistas com especialistas em gestão de recursos humanos. Numa dessas entrevistas, reparei que o dito especialista ouvia música enquanto entrevistava, e em certo momento estava a passar uma música que eu conhecia, mas cuja letra era para mim estranha. Perguntei ao entrevistador que música era aquela e ele disse que era uma fadista portuguesa a cantar Fernando Pessoa.

Quem? perguntei. Mísia, respondeu ele. Pedi para ver a capa do disco. E láestava: “Mísia, canta Fernando Pessoa, Fado das Violetas, com música do Fado Hilário”. Ah! agora percebo, disse eu. Eu bem conhecia aquela música, mas não a letra, nem a fadista. Até há bem pouco tempo, tinha sido através da música que mais contactos eu tinha tido com a tua poesia.

Por exemplo, “Mar Português”, cantada por Frei Hermano da Câmara, é uma música de que sempre gostei.

Até que, recentemente, me inscrevi num curso de literatura portuguesa, focado em Fernando Pessoa. Então percebi que havia dentro de ti uma panóplia de personalidades que mais parecia um repositório das gentes portuguesas. Fiquei fascinado!

O que mais admiro em ti é a tua imaginação, a tua versatilidade, a tua capacidade de nos surpreender, com tão ricos heterónimos, os mais conhecidos, e tantos outros que não pudeste desenvolver porque decidiste meter-te num baú misterioso. E obviamente pelos textos que assinaste em teu nome próprio, os ortónimos, em particular o livro MENSAGEM, o único que publicaste em vida, não contando com os textos publicados em inglês.

Soubeste muito bem interpretar as gentes do campo, na sua relação com a terra, os animais e as plantas, aquelas pessoas que nascem, vivem e morrem sem se preocupar com as coisas do mundo, limitam-se a sentir, e talvez por isso sejam felizes.

Em contraste, mostras-nos um homem fascinado pelo resultado da capacidade humana de inventar, criar e desenvolver as máquinas que mudaram o mundo e que continuamente estão a ser mudadas pelo mesmo processo que levou à sua criação, ou seja, o engenho humano.

Neste sentido, um homem de todos os tempos. A reconhecida capacidade do homem português de resolver problemas, ultrapassar obstáculos não previstos, deitando mão daquilo que popularmente se chama o “desenrascanço” acompanha este personagem, sendo por isso mais um retrato das facetas do povo português. Um personagem muito atual, nas mutações tecnológicas que nos rodeiam e nos formatam.

De permeio, mostras-nos um ser que absorve todas as culturas desde que há registos escritos, e viaja pelo mundo à procura da sua liberdade, desgostoso com as mudanças, sendo ele um adepto das tradições e da estabilidade hereditária. Alguém que, contraditoriamente, nos diz para sermos inteiros, sem medo de mostrarmos o que somos, para sermos genuínos- o que implica não aceitar a submissão tão conservadoramente defendida por aqueles que ele aprecia.

Tivesses tu continuado nas tuas andanças pelos cafés de Lisboa por muito mais tempo e terias a possibilidade de desenvolver as dezenas de esboços que deixaste, sobre outras tipologias que enriqueceriam a vitrine das personalidades típicas da vida portuguesa e universal. Mesmo assim, fizeste bem em arrumar todas as ideias em envelopes, sem te preocupares com organização, pois isso é tarefa de académicos, e tu és por natureza um criador, sem tempo para arrumações- a tua imaginação tem um ritmo maior que a capacidade humana de a organizar, pois nada te é estranho e, de facto, pões quanto és naquilo que fazes. Assim, deixaste tudo em aberto, dando a cada investigador da tua obra a oportunidade de ir sempre descobrindo novas associações de temas e ideias, na senda dos maiores vultos da literatura.

Dou por muito boa a decisão que tomei de frequentar as aulas da Profª Maria Freitas, numa universidade sénior da zona onde vivo. Através dessas aulas, fiquei fascinado com a tua versatilidade, a tua capacidade de abordar temas muito diversos, a tua cultura transversal a todos os temas que o ser humano já abordou, mas sobretudo com a tua imaginação à solta, que é o que mais me encanta na literatura. E com a capacidade de nos surpreenderes pelas contradições e pelas discussões entre os teus amigos heterónimos. Ah, e uma última coisa: através da explicação sobre os teus poemas, dei-me conta que o mais importante na poesia não é apenas o que se diz, mas o que fica em aberto para o leitor completar a ideia – ou ideias, conforme o leitor. Assim o entendi, para meu espanto, pois não tinha bem a noção do que é fazer poesia.

Despeço-me com o sentimento de que quando voltar a ler os teus escritos, certamente que te escreverei uma carta diferente.

Um saudoso abraço do


Vitor Carvalho

DÁ-ME UM BEIJO



Dá-me um beijo

como aqueles que me davas ao portão

sob a azálea cheia de flores

e onde eu jovem enamorada

me entregava com paixão

Dá-me um beijo

fecha os olhos

não vejas o branco dos meus cabelos

e as linhas que o tempo

desenhou no meu rosto

Pensa apenas que a Primavera voltou

a azálea floriu

e o nosso abraço continua como outrora

forte, terno

como uma flor que não murchou

Mitú Branco

LOTARIA DA FELICIDADE


Os valores do Maio 68 tardaram a chegar àquela região, conhecida pelo formalismo nas relações entre as pessoas, ao nível de todos os estratos sociais e mais ainda nos contactos entre gentes de classes sociais diferentes. A influência massiva da igreja católica também contribuía para que nada se alterasse na submissão de uns em relação aos outros. Um sinal de todo este modo de pensar e atuar era o gesto físico de inclinação da cabeça perante alguém de estatuto social superior que passava, seja para dizer um simples “bom dia”, seja para iniciar algum tipo de conversa.


Eram assim os comportamentos daquela cidade de província no Norte de Portugal, mais pronunciados ainda quando se tratava de aldeias ou concelhos rurais.


Os encontros entre rapazes e raparigas eram também muito formais, se excluirmos aqueles casos em que uns e outros frequentavam a mesma escola secundária oficial ou colégio particular. Nesses ambientes criavam-se relações fortes de amizade, que duravam a vida inteira. Em algumas circunstâncias, outros tipos de encontros aconteciam nas festas populares ou nos bailes organizados pelas associações de bombeiros ou similares.


Era a normalidade, mas havia exceções, em particular raparigas que, por razões diversas, não frequentavam esses ambientes populares.


Alexandre e Rosalinda pertenciam ao mesmo concelho, mas de povoações diferentes e distantes. Nunca se cruzaram de perto nem se falaram até à idade adulta, ele mais velho que ela. Mas sabiam quem eram, de onde eram e a que famílias pertenciam – famílias que não tinham relações entre si. Alexandre foi para a cidade grande quando Rosalinda era ainda muito jovem, estava a meio do ensino secundário.


Alexandre cumpriu o serviço militar no Porto e por lá ficou a trabalhar depois dessa missão compulsiva. Só raramente ia à sua terra natal ver a família. Depois de feito o Magistério Primário, Rosalinda começou a trabalhar em aldeias da região Norte, todos os anos letivos saltitando de terra em terra, por não ser professora com lugar efetivo.


Vidas distantes, sabiam que existiam, mas não se conheciam, as hipóteses de se encontrarem eram deixadas à roda da sorte. A sorte, sempre a sorte a marcar destinos naqueles ambientes. Mas a sorte também se procura, e foi o que levou Alexandre à iniciativa de enviar uma carta para a morada dos pais de Rosalinda. No seu interior dizia poucas palavras, resumidas a isto: “Cruzámo-nos uma vez, agora sei de onde a Rosalinda é e penso que não vai ser fácil cruzarmo-nos outra vez, dado termos ocupações tão distantes. Venho simplesmente convidá-la a ir tomar café à cidade mais próxima, podemos encontrar-nos no café junto à central de camionagem.
Se estiver interessada, diga-me o dia e hora, num fim de semana qualquer.
Entretanto, poderá recolher as informações que entender, eu já o fiz, num certo sentido”.

Na volta do correio, a resposta de Rosalinda era também breve, mas
simpática. Dizia, resumidamente: “Porque não? acho boa ideia, é sempre interessante conhecer pessoas da mesma região. Dou aulas em ambientes muito fechados, sem ninguém interessante para conversar. Pode ser dia tal às tantas horas no café junto à Central de Camionagem”.

Assim aconteceu: passaram a tarde a conversar, frente a frente, um livro e um jornal a separá-los. Falaram de tudo um pouco, do ensino no colégio interno onde ela esteve sete anos, da vida militar e dos estudos que ele fez nesse tempo, das pessoas que os rodeavam, etc. Riram-se muito quando ela contou que estava a dar aulas numa aldeia onde não havia estrada de acesso, eram caminhos enlameados no inverno, por entre grandes blocos de pedra, não havia eletricidade, os mortos eram transportados numa paviola que mais parecia um andor, carregado por quatro homens pelas matas em direção ao cemitério da freguesia, bem distante. Havia bastantes alunos na povoação, famílias numerosas, do primeiro ao quarto ano da escola primária, sendo ela a única professora para os diversos anos. Faziam muitas brincadeiras, alunos interessados, eram aparentemente felizes. Rosalinda estava instalada na aldeia em um
quarto pertencente ao casal que tinha a única loja comercial da povoação, “a venda da tia Joaquina”, como era conhecida. Só ali havia telefone, único meio de comunicação para o exterior, para além das cartas dos CTT que o carteiro levava de bicicleta duas vezes por semana. Era o Portugal profundo, espelho do regime do dito Estado Novo.


Passou depressa o tempo para regressarem à camioneta de carreira que os levaria de regresso às suas aldeias, distantes vários quilómetros, por onde a camioneta passava.


Por muitos momentos, a conversa limitou-se a uma troca de olhares e de sorrisos. Não falaram de namoro nem de namorados, mas o aperto de mãos no final da conversa foi quente e significante.


Tomaram apenas café, não compraram jornais nem bilhetes de lotaria.


Muitos anos mais tarde, no tempo em que os netos começam a não precisar da ajuda das avós, Rosalinda chamou Alexandre para lhe ler uma passagem de um livro que andava a ler, “DOM CASMURRO”, de Machado de Assis. Dizia o texto: “Se a felicidade conjugal pode ser comparada à sorte grande, eles a tiraram no bilhete comprado de sociedade”.


Vítor Carvalho


AMOR SÉNIOR

 

Eu sei que daqui a poucas horas te vou encontrar

naquele nosso banco de jardim pintado de verde com

miradouro para o Tejo, e poder-te-ia dizer de viva voz o

que agora te escrevo.

Mas quero que guardes esta carta ciosamente, como

coisa preciosa, como sempre foi o nosso grande amor.

Mas, o silêncio a teu lado é muito mais eloquente,

suave e belo do que tudo o que te quisesse transmitir

por palavras.

Como sabes tenho dificuldade em andar, o levantar de

manhã já é um tormento, o vestir uma complicação,

mas não receies, vou mais cedo amparado na minha

bengala para não chegar atrasado e mais uma vez

olhar a tua bela figura sossegada, seguindo os barcos

que deslizam pelo rio. Chegarei a tempo de afagar e

aquecer entre as minhas as tuas mãos magras, com

veias salientes e manchas castanhas próprias da

idade, brincar com os teus dedos como fiz ao longo

dos anos, ajeitar a gola do teu casaco e pedir que

dividas comigo os raios de sol de Outono que nos

aquecem neste Inverno das nossas vidas. Vamos

trocar os nossos silêncios, e são muitos, porque ao

longo do tempo já dissemos tudo o que havia para

dizer e, mesmo sem falar sabemos tudo sobre o outro.

Escrevo, porque um dia posso não chegar, nem a

horas nem atrasado, e aí saberás que o meu lugar no

banco ficará vazio. Não precisas chorar pois então

sentirás que estou ainda mais perto de ti. Olha para o

sol dourado, imagina, e eu estarei lá. Vou ficar à tua

espera.

De qualquer modo, quando tal acontecer, perdoa a

minha ausência.

Eu queria estar, mas não consegui. Não vim, mas o

meu amor incondicional e de sempre estará contigo.

Perdoa.


F. Vital