EU NÃO TINHA
Viver é um mergulho diferente da verdade.
Mergulhar no romper da claridade é afundar no espanto,
baloiçar o medo que persiste num adeus de física presença,
este não saber que sabe bem, andar sempre em passo incerto.
Sentir no telhado rubro e musgoso o sol espreguiçar-se molemente
na ânsia viva de desbotar as cores com volúpia de estrela candente
a desfazer em gozo, qual abóbora amarela a secar naquele beiral,
matando a fome à luz insatisfeita que esmorece no parapeito da vida.
Na nau de rosa vela, desfaço este bocejo como sal a desfazer-se no mar!
O teu sono, ainda mudo, é vitral sem querer rezar do pecado e do pejo.
Ternura de cetim e veludo, com chuva lamentosa na janela, e mar de lago,
que eu próprio inventei no momento exacto do abraço da minha fadiga.
É entrar é entrar! O espectáculo está aqui! Está a começar no circo enfeitado!
Luzes, galas e festões, tanta coisa de pasmar: O faquir passeia ali sem facas!
Um domador está fardado junto à jaula dos leões. Passa um grupo de anões;
fazendo gestos pedantes ao som estridente de altifalantes. É entrar é entrar!
O velho palhaço ri (chora por dentro, coitado) dá cambalhotas no ar e ri mais!
Sinto-me atormentado! De certeza não tinha este rosto de hoje, mas hoje…
Mas hoje depois de um pino mortal caí de borco sozinho na casa do zé
povinho!
Donzelas, de trança, e cavalos de crinas de espuma levantaram a minha
esperança.
Pendurei a madrugada no peitoril da janela, e o vento levou pétalas de estrelas.
Tempo raro, quase eterno, quatro estações num só dia. Tempo avaro, dor de
inverno
sem ter razões, era noite, hora exacta, paz-criança sem ter era. Luz açoite sem
data,
raio de sol tecido em esperança no bronze da noite escura. Já não era
madrugada.
Fernando Baptista
“EU NÃO TINHA ESTE ROSTO DE HOJE”
É claro como água! O rosto humano vai sofrendo alterações suaves desde a nascença até à morte. É uma das partes mais complexa e distinta do corpo, servindo como principal meio de identificação visual e expressão emocional.
O esqueleto facial é composto por 14 ossos, incluindo maxilares, bochechas, ossos nasais e mandíbula. Uma rede complexa de músculos e nervos permite uma vasta gama de expressões faciais, transmitindo emoções como alegria, tristeza e medo. A face é estruturada em torno do nariz, olhos e boca. Existem 7 formatos de rosto: oval, redondo, quadrado, coração, triangulo, rectângulo, losango. Desde a nascença até ao fim da fase jovem -adulto vai sofrendo mudanças dos traços fisionómicos. A partir desta fase até ao fim
da vida vão surgindo rugas e sulcos no que antes eram bochechas gordinhas e bem rosadas. O cabelo, que é a moldura do rosto vai branqueando e caindo pode deixar o “caco” à mostra, ou ficando tão ralo que poderá ver-se, através dele qualquer ponte de qualquer rio. Os seres humanos têm uma capacidade notável de memorizar e reconhecer faces. É através do rosto que nos identificamos uns aos outros. *
*Fonte Google
Algés, 16 deMaio de 2026
Jerónimo Pamplona
Espelho meu, espelho meu!
Amigo? Inimigo?
Simplesmente verdadeiro!
Enfrentamo-nos, diariamente, recolhendo imagens cúmplices do desenrolar da vida.
Há dias em que as imagens me animam, me encorajam e aumentam a auto-estima,
mas… o reverso da medalha também acontece. Não por culpa do espelho, ele limita-se
a reproduzir a minha verdade em cada dia. Uma verdade capaz de expor o que vai na
alma.
Nem sempre me detenho muito tempo neste encontro, não sei se por cobardia ou por
saudade.
Contudo, quando a coragem se afirma, o encontro pode ser mais longo, a observação
mais pormenorizada, permitindo a descoberta de novas marcas: rugas mais profundas,
menos brilho no olhar e os lábios murmuram o desabafo: “Eu não tinha este rosto de
hoje!”
Afasto-me do espelho, sem ressentimentos e o bom senso permite-me dar graças pela
caminhada.
Teresa Sousa
Algés, 17 de Maio de 2026
O Rosto de Inverno
«Eu não tinha este rosto de hoje.»
Herivelto repetia a frase como quem testa a verdade de uma ferida. Não era apenas o espelho que o surpreendia nas vitrines da rua, nem os sulcos discretos que o tempo desenhara na pele. O que verdadeiramente o inquietava era a mutação invisível da alma — a sensação de já não reconhecer o homem que, noutra estação da vida, acreditava na eternidade dos afetos com a mesma certeza com que aguardava o nascer do dia.
Caminhava sem destino. Caminhar era o seu método de sobrevivência: um movimento simples, quase mecânico, para silenciar o ruído interior. Elevava o corpo, alinhava o olhar com o horizonte e seguia, convencido de que avançar era a única forma de não ser engolido pelo que ficara para trás.
Talvez fosse cansaço. Ou a lenta erosão da esperança. A certa altura da vida, começa-se a
duvidar sem se perceber quando a dúvida começou. Não é que se deixe de acreditar por
completo — é pior do que isso: acredita-se menos. E Herivelto sentia-o nas relações. Foram
tantas desilusões, tantos desencontros, que a palavra esperança começava a soar-lhe como
uma promessa vazia.
No passeio a que se obrigava, olhava em redor e via a vida acontecer a pares. Mãos dadas,
conversas encostadas, risos partilhados. Era como assistir a uma peça de teatro em que todos sabiam as falas, menos ele.
Mas o golpe mais fundo vinha quando olhava para os velhos. Dois corpos curvados, passos
lentos, dedos entrelaçados como raízes antigas. Neles não havia espetáculo — havia
permanência. E essa permanência doía.
Que fantasmas terão vencido? Que tempestades terão atravessado sem largar o leme?
Com o vento a empurrar os pensamentos, admitia em silêncio: — Quase sempre errei nas
escolhas. E quando acertei, não soube reconhecer.
As decisões da metade que nos falta nem sempre são nossas; pertencem ao tempo, ao
passado, às metades vivenciadas — esse ciclo sazonal e impiedoso que segue indiferente à
nossa vontade.
Herivelto tropeçava na própria melancolia. Caía.
Mas havia nele uma teimosia antiga, quase ancestral. Levantava-se sempre. Limpava o pó da descrença e recusava-se a desistir, porque sabia, com a fé discreta dos sobreviventes, que este rosto de agora era apenas um rosto de inverno.
E o inverno não é o fim da árvore; é apenas a estação em que ela parece desistir.
Herivelto não aceitava que o destino fosse um mero inventário de perdas. Sabia que o sol
voltaria a nascer dentro dele. E, enquanto esse calor não regressava para lhe alisar as rugas da alma, continuava a caminhar. Caminhava, escrevia e acreditava — fazendo da sua escrita a ponte entre o que nos magoa e o que nos salva.
Porque o rosto pode mudar. Pode envelhecer, endurecer, até disfarçar-se. Mas o coração —
esse permanece fiel à sua primeira forma. E ele sabia que, um dia, a luz haveria de lhe devolver o rosto que o tempo apenas escondera.
Vasco Patrício
Nova Atena- Linda-a-Velha