01/07/2026

EURÍDICE: O ELIXIR E O TEMPO

 

“De manhã, o cheiro do café chamava por Eurídice. Dizia sempre que, sem ele, não

funcionava — não a figura trágica do mito, mas a mulher real para quem esse ‘vinho da

Arábia’ era um bálsamo para a alma e um passaporte para outras latitudes.

Ao primeiro gole, era transportada de volta à fazenda do avô, em Angola. Via de novo o

mar de bagas vermelhas adormecido sob o cacimbo matinal e sentia o silêncio húmido da

terra antes de o sol subir. Ao entardecer, as batucadas que vinham das cubatas ecoavam na

memória e, depois, surgia o luar — o luar africano, vasto, absoluto e quase impossível.

Nessas noites, lia em voz alta Fernando Pessoa, como quem acende uma vela para guiar a

lembrança: ‘E eu de pé ante a janela, vi todo o luar de toda a África inundar a paisagem e

o meu sonho.’

Mas hoje, o entardecer é pálido e curto. A noite cai abrupta, sem a cerimónia do horizonte

africano. De manhã, a geada tolhe-lhe as mãos e a paisagem é recortada por muradas altas

que limitam o olhar. Nesta etapa da vida, as memórias da fazenda amadureceram sob o

peso das pálpebras; o prisma mudou, e as coisas sentidas são agora outras.

Neste outono de si mesma, sobram a Eurídice os pequenos prazeres colhidos com lentidão.

O café da manhã é tomado no alpendre térreo, sob o abrigo das heras que se estendem

para o jardim. Ali, entre o cuidado com as rosas, ela rega um cafezeiro num vaso — um

monumento vivo erguido em memória do avô, das vidas interrompidas e do tempo que

 não volta. Observa o vaivém das andorinhas-dos-beirais, regressando aos ninhos de lama,

 nos ângulos do varandim. Lá como cá, as andorinhas unem o tempo num voo circular. O 

cheiro do café continua a chamar por ela, o elixir negro enrolando-se agora num céu 

diferente, apaladando a sua existência.

Na mesinha de apoio, repousa o diário de uma vida que reescreve memórias. Numa página

entreaberta, a caligrafia da página 98 — datada da década de cinquenta na África Oriental

— revela o acerto de contas com o destino:

‘…quase sempre errei nas escolhas, e quando acertei não o soube reconhecer. As escolhas

da metade que desconheço nem sempre são nossas; são do tempo — cíclicas, sazonais,

impiedosas. Repetem-se independentemente da nossa vontade...’

E, a fechar o pensamento, a frase do filósofo ecoa como um remate à voracidade dos dias:

‘Nada de revolta: honremos as idades nas suas quedas sucessivas e o tempo na sua

voracidade.’ Eurídice pousa a chávena. O café está terminado, mas o bálsamo permanece.”


Vasco Patrício

06/05/2026

O FORTE


Ao correr do fio do tempo

Vamos e vimos

Por onde passámos

Tornamos a passar

Ora quase indiferentes

Ora com um novo olhar

Aquele que perscruta

Aquele que nos ensina

O da consciência de que

Sempre estamos a aprender…

Foi o que perante o Forte

Me aconteceu e comoveu.

Conhecidíssimo o de Peniche

Sabida de trás para diante

E vivenciada a história

Da Resistência e da Liberdade

Reposta e celebrada

Em museu ali criado,

Pela forte emoção sentida

Pelo saber que tinha como sabido

Ou pelo que custava a acreditar

Me penitencio, pela diferença

Entre proximidade e memória

Do que a minha geração sofria

E o vivido de quem abnegado e sacrificado

Por dentro lutou, se deu, se martirizou

Novos tempos em liberdade nos ofertou!

Maria Silveira

29.05.2026

REVISITAR PENICHE

 

Maio despedia-se. Com ele e graças às alterações climáticas as nossas almas,

revitalizadas por dias e dias estivais fora de época após um castigador inverno,

ansiavam por saídas por mais agradável que tivesse sido o aconchego do lar nos dias

frios.

Voltar ao prazer de ver o azul do céu e saborear o calor do sol impôs-se e não

faltaram programas sucessivos de estilos variados entre os quais escolhi revisitar

Peniche.

Pesou a atração pela cidade em si que não visitava já havia bastantes anos e a

atração pela sua localização numa península abraçada pelo Atlântico, o oceano que a

ocidente do nosso país não cansa de apelar aos nossos olhos, de mexer com os nossos

sentidos e de nos encantar com a sua beleza, do amanhecer ao ocaso, à medida que o

mar vai do intenso azul matinal ao alaranjar com o pôr do sol no horizonte, de nos

encantar com a sua beleza, das trindades ao anoitecer, com o roncar das suas águas

especialmente na maré cheia e com a sua transformação em espelho prateado

particularmente em noites de luar.

A visita foi diurna, o mar estava lindo, com um toque de vento oeste que o fazia

resfolgar na costa de imponentes falésias calcárias ricas em lapiás, as inúmeras fendas

que provocam um relevo muito próprio e que dá um embelezamento característico de

toda aquela zona, cuja paisagem foi enriquecida com o avistamento do arquipélago

das Berlengas não muito longe, no horizonte, num dia de céu bastante limpo. Como

não podia deixar de ser, não faltou a ida muito perto da Nau dos Corvos, o belo

rochedo que lembra uma caravela, erguendo-se no mar imediatamente fora do topo da

península.

Duas curiosidades bem conhecidas e que não resisto em referir foi ter

relembrado que o termo Peniche terá origem na palavra península e que a expressão

amigos de Peniche, que significa pessoas com quem não se deve contar, vem de um

episódio histórico, a fuga ali havida dos militares britânicos que viriam ajudar na luta

pela independência do nosso país no século XVI, uma atitude de recuo que, por

dificuldade de haver herdeiro, resultou no fim da segunda dinastia, dando lugar ao

início da terceira, a Filipina, colocando em causa a soberania de Portugal durante o

respetivo reinado.

Um outro aspeto relevante de Peniche é a atividade piscatória, mas desta vez

não houve oportunidade de ser incluída na visita. Porém, uma outra associada a ela e

muito interessante é a da renda de bilros, tema que nos despertou passar junto ao

monumento às rendeiras de Peniche justamente homenageadas por tão belo trabalho

artesanal e velha tradição artística influenciada pelas redes utilizadas na pesca.

Outro peso importante nesta saída foi a visita ao Forte de Peniche de má

memória no período da ditadura que antecedeu a democracia instaurada com o 25 de

abril de 1974. Este alberga um museu* sobre a resistência havida e a repressão sobre

os que nela militaram durante décadas. Uma dor de alma. Impossível não se ficar

chocado com uma tal realidade independentemente dos credos então envolvidos e

diferença de conceitos de liberdade que dificultaram o modelo de sociedade

sucedâneo a essa época e que nos rege apesar das suas muitas contradições: o

democrático.

Um périplo pleno de momentos enriquecedores e tocantes. Mais uma

experiência que fica. Mais um estímulo que muito acrescentou ao que poderia julgar

sabido, mas que afinal está sempre aquém por mais que se vá e volte a qualquer que

seja o lugar.


Luísa Machado Rodrigues

2026.06.20

____

* Museu Nacional Resistência e Liberdade

MUNDIAL DE FUTEBOL DE 2026, UNS SERÃO PAGENS, OUTROS SERÃO REIS

 

Mundial de futebol, com milhões a espreitar

Mundial de Futebol

Muitos milhões para se ganhar!

Portugal, Portugal, Portugal

Vamos pela Vitória lutar

Só assim se poderá ganhar

Só assim se poderá ganhar!

Jogar para trás e para os lados

Os golos nunca irão chegar!

Jogadores muito concentrados

Jogadores muito ansiosos

Perder, empatar, ganhar

Só alguns sairão Vitoriosos!

E com a bola a Rolar

Olhos postos na televisão

Cada país tem esperança

Numa Honrosa Prestação!

Viva Portugal, viva a nossa Seleção!

Francisco Lourenço

20 de Junho de 2026

VER NA ESCURIDÃO


Conheceram-se numa festa onde havia muitos amigos seus. Adolfo foi

apresentado a Dionísia nessa festa. Dançaram até altas horas da noite. A

atração foi notória e trocaram números de telefone.

Três dias depois, Dionísia recebeu um telefonema de Adolfo, convidando-

a para tomar café e passear à beira mar. Ela quis conhecê-lo melhor,

depois de algumas observações que as amigas lhe fizeram sobre a

personalidade do seu novo pretendente. Diziam-lhe que ele era conhecido

por ser muito cerebral, nada emotivo, com comportamentos um pouco

fora do normal, muito autocentrado, narcísico até, nunca tendo

evidenciado alterações de humor quando os amigos contavam histórias.

Estas observações das amigas aguçaram a curiosidade em conhecê-lo

melhor. Dionísia sempre tinha sido muito curiosa e amante de desafios.

Era uma elegante e bonita mulher, nos seus vinte e um anos. Tinha já tido

vários namorados, mas de pouca duração, nenhum lhe alterou a sua

natureza, gostava de divertir-se, esperando alguém por quem

verdadeiramente se apaixonasse. Trabalhavam os dois no sistema

bancário, mas em bancos diferentes. Nenhum deles quis tentar a

universidade, quiseram arranjar emprego e deixar de depender dos pais.

Não passearam à beira mar como ele tinha proposto, antes ficaram a

conversar numa esplanada. Um mês depois de se conhecerem,

combinaram ir de novo à discoteca. Algumas amigas dela foram também,

dançaram alegremente, mas Adolfo tomou todo o tempo de Dionísia,

inclusive saíram várias vezes para o parque onde se situava a discoteca. As

bebidas e o calor da noite lisboeta fizeram esquecer as amigas. Um carro

na escuridão serviu de encosto para ele lhe “pôr o selo”.

Casaram seis meses depois, quando a barriga de Dionísia começava a ficar

gordinha.

O bebé nasceu saudável e era o encanto da avó materna. Quando o casal

aceitava convites para passeios com amigos, a avó disponibilizava-se com

agrado em ficar com a neta.

O prédio onde moravam, na periferia da capital, tinha apenas quatro

andares, um rés-do-chão e três andares sem elevador. Viviam ao todo

naquele bloco oito famílias, que se conheciam bem, pois todos eram

moradores desde o início da utilização do prédio, com exceção do jovem

casal. Outros blocos semelhantes formavam o essencial daquela rua

pacata da freguesia de Odivelas. Os moradores cruzavam-se no café do

meio da rua. No café e nas saídas diárias para passear os cães, os vizinhos

criaram uma ligação forte de proximidade, um “espírito de bairro”.

A rua era pacata, mas naquele prédio os novos inquilinos quebravam

frequentemente o silêncio das paredes. Discutiam altas horas da noite e

gritos de criança eram frequentes naquele contexto. Os vizinhos estavam

preocupados, sobretudo com o efeito que as discussões teriam na criança

de menos de dois anos.

Os pais de Adolfo viviam em Trás-os-Montes, eram agricultores

remediados. O pai teve um princípio de acidente vascular cerebral e o

filho quis ir vê-lo ao hospital, em Vila Real.

Saíram de Odivelas pela manhã, depois de entregarem a filha à avó

materna. Decidiram parar no meio do caminho para almoçar na Bairrada,

num restaurante especializado em leitão.

Adolfo comeu e bebeu abundantemente. Mas no fim, quando veio a

conta, protestou com o empregado dizendo que o leitão não era de boa

qualidade e tinha muitos ossos. Esta discussão chamou a atenção de

outros comensais, admirados com aquela reação intempestiva daquele

cliente. Logo que entraram no carro para prosseguir viagem, começaram

em discussão violenta sobre os comportamentos que Adolfo andava a

evidenciar nos últimos meses. Ela insinuou pela primeira vez a eventual

separação do casal. Ele parou o carro na berma da autoestrada e bateu-

lhe, duas violentas bofetadas deixaram-lhe a cara muito vermelha. O resto

da viagem foi um choro permanente. Dionísia ameaçou sair do carro

quando passassem por Lamego e pedir boleia para Lisboa. Com violência

verbal e física, conduzindo a alta velocidade, ele ameaçou-a de morte se

fizesse isso. Dionísia esperou no carro até que ele regressasse de visitar o

pai. O regresso a Odivelas decorreu em silêncio.

A partir daquela viagem, a vida do casal mudou drasticamente. Acusações

de adultério eram frequentes nas discussões a altas horas da noite, com

crescente inquietação dos vizinhos, que temiam um dramático desfecho

daquelas discussões.

Certo dia, um dos vizinhos fez queixa na esquadra da PSP que serve

Odivelas. Pensou que a polícia devia estar atenta a uma eventual

desavença séria daquele casal. Algumas rondas da polícia confirmaram as

perturbações para a vizinhança. O casal passou a estar referenciado.

Num fim de tarde de outubro, o que era temido aconteceu. Com uma

agressividade nunca vista, Adolfo abriu a porta de casa e empurrou

Dionísia para o patamar da escadaria. Da luta corpo a corpo aconteceu

que Adolfo foi parar ao fundo da escadaria daquele andar, de cabeça para

baixo. Morreu com a cabeça enfiada no contador da água cuja porta

estava aberta. A PSP e depois a Polícia Judiciária tomaram conta da

ocorrência. Formularam acusação de homicídio por parte da esposa,

Dionísia. Seis meses depois, começou o julgamento em Loures, no Juízo

Central Criminal. A maior parte dos vizinhos disponibilizou-se para

testemunhar. Interrogados, nenhum assumiu explicitamente quem tinha

cometido o crime. Numa das sessões do julgamento, Dionísia descreveu

pormenorizadamente as cenas do restaurante do leitão e na subsequente

viagem a Vila Real. Os vizinhos estavam incrédulos, porque Dionísia nada

disso tinha contado antes. As dúvidas sobre os factos apurados

avolumavam- se. Seriam os dois mentalmente saudáveis? A certa altura

do julgamento, quando tudo parecia estar orientado para a condenação

de Dionísia, o vizinho que morava no andar de cima esclareceu o coletivo

de juízes do seguinte:

“Senhores juízes, eu e a minha mulher naquele dia chegámos a casa com

alguns minutos de diferença. Fomos às compras, saímos da paragem do

autocarro, que fica longe de casa, e eu fiquei no café a jogar na

raspadinha. A minha mulher seguiu para casa, mas ela encontrou uma

amiga e demoraram na conversa. Acabei por entrar primeiro no prédio.

Mas eu não tinha chave de casa, tinha-me esquecido dela naquele dia.

Esperei pela minha mulher nas escadas do meu andar, por cima do andar

do casal desavindo. E, sentado num degrau, no escuro, porque a luz das

escadas tem sensor que se apaga sem movimento, eu ouvi a discussão

que o casal estava a ter. E vi a porta da casa do casal a abrir-se e o Sr.

Adolfo a empurrar a mulher; a luz do patamar acendeu-se e eu vi a luta

dos dois a ver quem ia ao chão, num jogo de empurra. A Sr.ª Dionísia

defendeu-se muito bem dos empurrões do marido. E nas voltas do

empurra ele escorregou escada abaixo. Eu acho que ela agiu em legítima

defesa, não penso que houvesse intenção de matar”.

Fez-se silêncio na sala de audiências.

O coletivo de juízes marcou nova sessão para uma semana depois.

A sentença ilibou de crime a vítima de muitas ações de violência

doméstica. A paz regressou àquele bairro.


VITOR CARVALHO

20 DE JUNHO 2026

AGUA BEM PRECIOSO


A qualidade e quantidade de água que ingerimos é determinante na

nossa saúde.

Inquestionável! E se a esta informação acrescentarmos novos

elementos, conhecimento de que poderemos beneficiar? Sem o fluxo de

água pura, limpa, não há abundância nem vida! Há rituais de indígenas

cujo propósito é assegurar a sua qualidade; eles têm o conhecimento e a

sabedoria, compreendem a natureza sagrada da água e honram-na

através de cerimónias.

O mundo dito civilizado perdeu a conexão sagrada com a água; esta

tornou-se um recurso usado na atividade humana, sem a preocupação

com a sua natureza mais profunda. As águas ficaram poluídas, tóxicas,

disseminadoras de morte. O ecossistema ficou desequilibrado e a vida

insustentável nalgumas zonas do planeta. A poluição instalou-se. Não só a

água, a Terra em geral, está contaminada, fora do equilíbrio natural e nós,

seus habitantes, cuja natureza é maioritariamente água (70%), sofremos

as consequências inerentes; e o que fazemos?

Compete-nos então alterar o que nos destrói e intervir

conscientemente no processo de recuperação.

O contributo do investigador Japonês Masaru Emoto é notável e

revolucionário na sua simplicidade.

Estabelece uma relação entre a estrutura molecular da água e o poder

do pensamento que lhe é dirigido.

No seu estudo, investigou os padrões de cristalização da água

submetida a vibrações positivas, negativas ou neutras. O impacto das

palavras, intenções, música,.., direcionadas com elevada vibração, poderá

restaurar a sua pureza, os seus códigos de luz. Significa que nós humanos,

poderemos agir e assim, contribuir para a cura e regeneração das nossas

águas internas e externas.

A cura pela água é ancestral, os métodos evoluem de acordo com as

necessidades e esse caminho requer informação e adaptabilidade à nova

linguagem, própria de qualquer processo evolutivo.

Continuamos presos ao que vai colapsando ou temos abertura para

integrar novos conceitos? Temos caminhos de expansão disponíveis

mesmo que ainda não sejam reconhecidos cientificamente. Explorá-los,

usá-los para intervir em nós, na humanidade, no planeta, será desejável.

A sua aceitação é sempre opção pessoal, contudo, torna-se urgente

decidir!! A vida mostra-o diariamente.

Termino a minha participação neste projeto referente ao Ano letivo 2025-

2026 com o meu contributo para um tema que considero sensível, que

nunca é demais abordá-lo e sobretudo numa perspetiva cuja dimensão vai

para lá do bom uso e utilização consciente da água, enquanto elemento

ameaçado por inúmeros fatores, de má utilização.

Agora tempo de férias, tempo quente, aumento do consumo de água…!

Necessidade de parar, refletir, descansar, repor energias, alterar rotinas.

Encontrar espaço para ouvir o silêncio, suspender a interação permanente

que, sem a condenar, poderá em excesso, tornar-se destrutiva e perigosa.

Somos absorvidos pela máquina e este processo ameaça a serenidade tão

necessária ao equilíbrio emocional.

O ruído desestabiliza e o silêncio não significa ausência de comunicação!

Podemos sentir-nos sós no meio da multidão e podemos sentir-nos bem

acompanhados apenas pela nossa própria companhia!

Ter tempo para os afetos, para a contemplação de um por do sol, não

pressionados pelos horários do fim de dia….,o jantar a horas, o deitar a

horas!

Ter tempo para alterar rotinas que nos reposicionem quanto à

considerável “inerência” do consumo exagerado deste precioso Bem…e

ainda para a recuperação da sua qualidade.

Desejo excelentes férias a todos, que elas nos tragam a oportunidade de

parar, descansar e sobretudo de nos centrarmos, com tempo suficiente de

qualidade em nós próprios, sem as pressões quotidianas a interferirem no

tempo que nos é necessário e nem sempre suficiente, para agendas tão

excessivas! Sendo nós grande percentagem de água, contribuir para a cura

e regeneração das nossas águas internas poderá ser um TPC para férias!


Maria de Lourdes Santos 

18 de Junho de 2026

20/06/2026

MOTE: "Como Dois e Dois são Quatro, Sei que a Vida Vale a Pena"

 UMA LÓGICA DA VIDA

Na praia ela era a Mila das latinhas.
Trazia a noite despenteada, pela mão o cheiro de resina.
Conhecia bem o silêncio dos valados e o sabor das amoras.
Surgia em qualquer lugar da praia sem hora certa, nem anuncio.
Deambulava por ruelas e escadinhas na procura de latas e papeis.
A garotada gritava alvoroçada: É malta! Lá vem a Mila das latinhas!


Talvez fosse feliz, talvez, não sei. Talvez se julgasse rainha!
Para ela ser rainha ou princesa seria igual, é o que penso.
Quando pisava as estevas do pinhal enchia de rosmaninho
os bolsos dos calções, pois o rosmaninho seria incenso ou ouro
já que era dona das dunas, dos chorões e das searas de piteiras.

Todo o horizonte era só seu. Dava ordens à terra e até aos céus,
trauteando confusas ladainhas enquanto arrastava latas pela estrada.
Inventava carreiros de acaso na escuridão, vedados a todos os demais.
Pedia à bruma para ser farol das brisas de espuma e sargaço.

Naveguei até ao mar de ondas enroladas, azuis sem haver tela.
Chão de choros por calar, pintura de aguarela no oiro velho das estrelas.
Quando o mar subiu a vaga, fiz-me nuvem rendilhada em recortes
de algodão, mancha de chumbo, agoiro de chuvada sem esperança.

Ela continuava dia a dia a percorrer a praia da sua vida (que vale a pena)
arrastando as latas, talvez se imaginando na viagem de núpcias.
Oh! porque não ouviste o meu recado! Onde me levas na inspiração?
Roubaram-me as palavras por dizer e as fontes secaram no jardim,
onde o lilaseiro de perfume qu  ente, tinha as flores desbotadas pelo espanto.
Quase poesia, só rimas estranhas. Será que dois e dois são quatro?


                                                                                                Fernando Baptista



Ao ler o tema desta semana, duas frases vieram, de imediato, à minha
memória:

- Prognósticos só no fim do jogo, do pequeno grande capitão João Pinto (defesa direito) do F.C.P.

- Tudo vale a pena se a alma não é pequena do grande poeta Fernando
Pessoa

 que caracteriza muito bem no poema Mar Português publicado,
originalmente, na revista Contemporânea em 1922 e mais tarde (1934) no
livro Mensagem:

Ó mar salgado, quanto do teu sal.
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu!

                                                                                           Jerónimo Pamplona



A certeza matemática…

Não sei aplicá-la à vida
Porque a valia que tem
É concreta e definida
Mas também é problemática.

Na vida não funciona
O dois mais dois serem quatro
Porque as equações são tantas
Neste espaço de teatro
Que a lógica te abandona.

É que a vida é tão bela
Que mesmo correndo mal
Eleva-nos, faz de nós gente
Mostrando-nos, no final
Que vale a pena vivê-la.


                                                                                                            Maria Amélia Mendes



Isto cada vez está mais difícil! Como é que vou trabalhar este tema? Provavelmente o mais fácil seria arranjar uma história dum casal com dois filhos.

A mulher teria tido muita dificuldade em engravidar, e teve de se sujeitar a tratamentos de fertilização que felizmente resultaram num par de gémeos, ainda por cima de sexo diferente. 

Afinal, hoje em dia muitas mulheres lutam para conseguir engravidar. Uma das causas é o facto de cada vez mais, quererem ter uma carreira profissional, e quando dão por isso, a idade mais fértil já foi. Não é uma censura, mas apenas a constatação dos factos.

E depois como vou acabar a história?

Acabar por cair no melodrama de que o casal só se sentiu realizado quando passaram a ser quatro?

Definitivamente, não estou inspirada e como não quero ir consultar a IA,fica assim mesmo.


                                                                                                                  Maria José Saraiva




Viver é uma acto de sabedoria.
Sabedoria para descobrir um pequeno brilho na noite escura que me
esmaga.
Sabedoria para me sentir encorajada pela mão que se estende, pela
meiguice de um olhar ou pela ternura de um sorriso.
Sabedoria para me dar sem esperar o retorno, saboreando a felicidade de
fazer o outro feliz.
Sabedoria para sentir o coração a saltar no peito com a gargalhada de uma
criança ou permitir que uma simples flor possa trazer alegria num dia mais
triste.
Sabedoria para respeitar a natureza sentindo a minha pequenez perante a
obra do Criador.
Sabedoria para sonhar, transformando o desalento em esperança e
conseguir viver neste mundo de violência e desamor, acreditando sempre
que a justiça e a paz sejam mais fortes e possam vencer.
Se nunca me cansar de procurar esta sabedoria, poderei afirmar em cada
dia: “Como dois e dois são quatro, sei que a vida vale a pena!”


                                                                                                                Teresa de Sousa



O Teorema de Etelvino (Ou: Como a Vida Estraga a Matemática)


Etelvino tem uma folha em branco à sua frente. Olha para ela como quem olha para um
problema de matemática de geometria analítica e faz a pergunta habitual: — E agora?

O raio do desafio exige números, e as aritméticas e ele nunca jogaram no mesmo campeonato. Etelvino é homem de Letras. Dizem que o seu nome tem origem germânica e significa “amigo nobre”. Portanto, como bom nobre que é, recusa-se a baixar ao nível da tabuada e espera que essa nobreza o ajude a escrever, porque sozinho não está a ver o caminho. As ideias lá terão de aparecer, nem que venham aos tropeções.


O poeta que me perdoe, mas para mim a alma vale sempre a pena — seja ela tamanho XL ou júnior. E se a alma vale a pena, então a vida também vale. Pequena ou grande, tranquila ou atribulada, vale. Já perceberam por onde vou? Eu também não.

O busílis da questão: a crise existencial do E e do MAIS deixa-o atarantado. Mas vamos ao
tema. Dois e dois são quatro. Toda a gente sabe isso. É uma certeza que parece resistir ao
tempo, às modas e às opiniões. Mas a vida não tem a mesma disciplina dos números. Quando chateiam Etelvino com cálculos, contas e medições, ele encolhe os ombros: — Sei pouco de números. Sei alguma coisa da vida. E a vida não é uma ciência baseada em zeros, uns e algoritmos de vão de escada. Isso é para as máquinas, que a gente reprograma quando dão erro. A vida vale a pena porque sim, e não porque bate certo no Excel.

Além disso, há aquela expressão que sempre lhe deu nós no cérebro: diz-se “dois e dois são
quatro” ou “dois mais dois são quatro”? Disseram-lhe que ambas as formas estão corretas. Umaova ! Se a matemática é uma ciência exata, metam lá o sinal de "+".

Se dão a liberdade de usar o “e”, o Etelvino junta o 2 ao 2 e vê o 22. E quando vê o 22, não vê algarismos. No linguajar popular, são dois patinhos. Dois patinhos a nadar serenamente num lago, a viver a vida sem pensar em faturas ou no IRS.

Na matemática, dois e dois são sempre quatro. Na vida, duas pessoas podem juntar-se e tornar-se uma família. Duas palavras podem iniciar uma amizade. Dois olhares mudam um destino. E duas lágrimas podem valer mais do que mil discursos. Lá está a vida outra vez a estragar a matemática. Ou talvez a melhorá-la.

Na dúvida, Etelvino vai ao bate-papo com o Tio Einstein. Se a soma já o baralha, ir para a
gramática é o estiranço completo. Basta uma vírgula fora do lugar para a conversa ganhar um rumo completamente diferente. Vivemos rodeados de certezas que afinal não são assim tão certas.

Mas não o lixem, porque até os génios lhe dão razão. O Etelvino mandou um WhatsApp ao Tio Einstein, que lhe explicou a coisa de forma simples: a matemática pura é uma ilusão, porque na tua cabeça é uma certeza absoluta, mas quando a matemática se refere à realidade, deixa de ser certa. E a realidade é um caos: se juntares duas gotas de água com outras duas gotas de água, ficas com... uma gota grande. Onde é que estão os quatro agora, ó Pitágoras?

Obrigado, Tio Einstein. A física teórica é o melhor amigo de quem não sabe contar. Na nossa cabeça, as equações funcionam. Mas a vida acontece cá fora, no meio dos encontros, dos desencontros e dos imprevistos. Sempre que julgamos ter tudo resolvido, surge uma ventania qualquer que nos desmorona o castelo de cartas e muda as contas.

E talvez ainda bem. Porque se a vida fosse apenas uma soma perfeita, não haveria descoberta, nem espanto, nem esperança.

Como dizia o outro génio, o Shakespeare: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia". E, certamente, há mais coisas do que as que cabem numa calculadora de bolso.

Por isso, o nosso nobre Etelvino fecha a página e decreta: a vida vale a pena. Não porque tudo bate certo. Não porque dois e dois são quatro. Mas porque, apesar de sabermos que dois e dois são quatro, continuamos a preferir sonhar com os patinhos a nadar no lago. E, claro, porque de vez em quando a conta do restaurante ainda vem errada a nosso favor.

                                                                                                                            Vasco Patrício