A VIDA É …
as azevias e os coscorões feitos pela sua avó eram uma delícia dos deuses.
O Danilo saiu ao pai. Tinham dois animais muito engraçados, um cavalo
castanho, enorme, que quando passava à minha porta a puxar a carroça
esta quase voava e o Danilo nela a meio sentado com ar muito feliz.
O outro era um enorme galgo cuja pele fazia lembrar a de um tigre.
Um dia, o pai acabado de chegar da fazenda vinha com cara de caso.
Ele conhecia bem o pai e logo soube haver qualquer coisa menos feliz!
Vendi o cão! Como é dia de caça andavam aqui por perto um grupo de caçadores
que viram o cão à solta a caçar sozinho. Passado um bocado entrou aqui
um deles e perguntou se queria vender o cão. Hesitei, mas ele subiu a parada
e acabei por lhe vender por quatro notas de conto. Temos comida por uns tempos!
Sinto-me privilegiado por ter tido estes momentos com amigos que hoje recordo.
Viver é a experiência que nos ditam e julgamos diferente da verdade…
Mergulho no romper da claridade e sei que pouco tempo me debitam
para estar à tona deste afundar de espanto à espera da indiferença!
Ninguém me muda, enfim! Em cada caso vejo uma intenção saudável,
de não saber que sabe bem e ganha forma e nova dimensão!
Se a vida pode ser uma fila no tempo, então quero vender esta ansiedade
sabendo que a esperança mora mesmo aqui ao lado.
Fernando Baptista
A vida é uma caminhada em que o tempo dita o ritmo. Cada momento é uma contagem decrescente, onde a única certeza é o movimento constante para o fim. A expressão "a "A vida é uma fila no tempo" traduz a ideia de que todos partilhamos da mesma jornada, avançando passo a passo. Nesta "fila", o tempo funciona como a fita métrica da nossa existência. Algumas pessoas encaram a "fila" com ansiedade, focadas apenas em chegar ao fim; enquanto que outras percebem que a vida não está na "fila do tempo". A "fila" anda da mesma forma que a vida anda - até que algo a faça parar. O que há de errado nisso? Nada! Há uma indústria cultural gigante que se alimenta da dor da separação e da sensação de abandono. Esse contexto ajuda a explicar por que a dor legitima e inevitável das rupturas, frequentemente vira depressão e violência. Existe um incentivo social para que isso aconteça.
Apesar de tudo, há virtudes na ideia de que "a fila anda". A primeira é lembrar-nos de que os tempos de abuso sentimental acabaram. Se não tratarmos as pessoas com respeito e carinho elas vão embora. A oferta afetiva é enorme. Em toda a parte há gente disponível e atraente, de todos os tipos e de todas as idades. Saber que a "fila" anda ajuda a prestar atenção à pessoa que está ao nosso lado. Quem gosta cuida!!!
Jerónimo Pamplona
Procurei possíveis significados das três palavras-chave – VIDA, FILA, TEMPO – e não encontrei fio condutor que me levasse àquela conclusão.
De forma muito básica e sucinta:
Fila é, em si mesma, um alinhamento de elementos em sequência, com um imediatamente atrás do outro.
Vida é o período que decorre entre o nascimento e a morte durante o qual existe um processo de evolução natural, com replicações e mudanças permanentes.
Ora é de tal forma intensa e variada a evolução neste processo que nenhuma fila, por mais desordenada que seja, a consegue abarcar.
Juntar o tempo a estas duas noções não vem ajudar nada porque o Tempo não passa de um período contínuo e indefinido no qual os eventos se sucedem durante a época em que se vive.
O tempo é algo ilimitado em que o ser humano coloca baias, criando “princípios e fins” para se tentar entender nessa imensidão.
Juntar estes três conceitos e afirmar que “A vida é uma fila no tempo”… não chego lá.
Mas aceito que possa existir essa ligação surpreendente. Para mim, no entanto, e neste momento, é apenas um conceito interessante, embora estranho.
Aguardo, com muita curiosidade, o desenvolvimento dado a este tema pelos Companheiros de Oficina e o texto que inspirou o mote. Serão, seguramente, fontes de aprendizagem para mim.
Maria Amélia Mendes
A Fila é um tempo.
O Tempo e a Fila fazem parte da vida.
Maria José Saraiva
Perante esta imagem, recordo o que sempre dizia a Tia Lúcia, quando a encontrávamos , ao fim da tarde, sentada á porta de casa. Correspondia, com carinho , aos nossos cumprimentos e quando questionada sobre a sua saúde ou bem estar, respondia, invariavelmente:
“Estou bem, minha filha, já estou sentadinha na fila da frente.”
Falava com a sabedoria e serenidade dos velhos.
Contudo, na primeira fila, não se encontram apenas os velhos. Diria que há representantes de todas as idades, aqueles que não tiveram oportunidade de desfrutar de muitas das filas porque algo os empurrou para a fila da frente, mais rápido do que seria suposto.
Teresa Sousa
Pela janela do autocarro que circula no pára-arranca da velha cidade, observa filas em cada recanto. A fila interminável à volta do estádio. A fila diante de uma loja ainda fechada, cujo escaparate anuncia os saldos da sexta-feira negra (A cenoura sempre dependurada à nossa frente). A fila na estação de autocarros, onde as pessoas se perfilam para lá dos passeios, gesticulando com os braços como maestros sem batuta, interpretando partituras invisíveis no espaço. Os movimentos procuram dizer alguma coisa, mas os rostos parecem vazios, presos a uma espera sem nome.
Também ele foi parar a uma fila.
Está agora num supermercado. Vê o tempo passar enquanto observa velhinhas arrastando-se entre as prateleiras. O seu pensamento deriva para o idoso sentado no banco do jardim fronteiro ao estabelecimento. Muito quieto, ao sol, o chapéu cobre-lhe quase todo o rosto. Está impávido, sereno.
Espera. Espera o quê?
O que vê à sua volta leva José Marcos a refletir sobre o tempo. O tempo dele. Também o sente escapar pelos dedos das mãos como a areia fina da praia. Ocorre-lhe então que está há anos à espera de viver.
À memória regressa a frase lida no velho prédio: "Arrisca a lógica do fruto, não a do produto."
Uma estranha inquietação apodera-se dele. Abandona a fila e encaminha os passos para a primeira paragem de autocarro. Não olha para trás, nem para as vidas paradas em filas à espera do tempo.
Se a vida é uma fila no tempo, naquele momento José Marcos saiu dela. Quando o autocarro chegou, entrou sem perguntar o destino. Ia à procura do seu templo no tempo.
Nem só os jovens partem à aventura. Do alto dos seus setenta anos, uma coragem tardia dizia-lhe que ainda ia a tempo de recomeçar. A imagem do velho sentado no banco do jardim regressou-lhe à memória, arrastando consigo as diretas dos fins de semana, nas noites loucas de Lisboa e os amigos que pareciam eternos. Tem a sensação de que tudo isso aconteceu na semana passada.
Tinham passado quarenta anos.
O autocarro parou numa cidade desconhecida, junto a uma estação ferroviária. José Marcos comprou um bilhete para um país escolhido ao acaso. Pela primeira vez na vida não procurava um destino; procurava apenas movimento.
Foi nessa viagem que conheceu Angelina.
Sentaram-se frente a frente durante horas. Falaram de lugares, de sonhos adiados, das vidas que cada um deixara para trás. Angelina contou-lhe o projeto a que dedicava os seus dias na Patagónia, protegendo baleias ameaçadas de extinção.
Angelina falava das baleias com o entusiasmo de quem encontrou uma razão para viver. José Marcos ouviu-a durante horas. Havia muito que não via aquela luz nos olhos de ninguém.
Quando chegaram ao destino, desceram na mesma estação.
O acaso que os unira naquela carruagem acabou por levá-los, semanas depois, a embarcar num paquete rumo às terras geladas do sul da América.
José Marcos juntou-se ao projeto de Angelina. Não porque tivesse passado a conhecer tudo sobre baleias, nem porque a Patagónia fosse um sonho antigo. Fê-lo porque, pela primeira vez em muitos anos, sentia que caminhava em direção a alguma coisa e não apenas atrás dela.
Certa tarde, observando o mar infinito e o lento surgir de uma baleia à superfície, lembrou-se novamente da frase pintada no velho prédio da velha cidade:
"Arrisca a lógica do fruto, não a do produto."
Sorriu.
Só então percebeu que nunca estivera preso às filas do supermercado, dos estádios ou das estações. A verdadeira fila era a que trazia dentro de si.
E dela, finalmente, saíra.
Vasco Patrício