01/06/2026

NA FRONTEIRA DA TERNURA


Na fronteira da ternura

Onde a minha mão procura a tua,

Na busca de uma carícia ansiada,

Na espera serena e ansiosa do desejo

De me perder no teu olhar

Longa, serena e irremediavelmente,

Num mar fluido de sentidos e sentimentos,

Emoções e desejos,

Na plenitude do sorriso alegre e triste

Que recordo de ti.

Num tempo breve e longo,

Num espaço perto e distante,

Vividos na simbiose da noite e da lua,

Do dia e do sol,

Num longo diálogo

De palavras e emoções

De folhear e desvendar o livro da vida

Num encontro de silêncios e palavras

De gestos ousados e tímidos

De avanços e recuos

Na procura permanente do ouvir e sentir

Palavras sempre novas.

Na urgência de inventar um olhar mais profundo,

Um beijo mais doce, à flor da boca,

um procurar lento à flor da tua pele

que tarda em chegar a mim.


Maria de Freitas

maio 2026

DEVANEIOS (DESAFIO / TEXTO COLETIVO)

 Amo, pelas tardes demoradas de Verão, o sossego da

cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste

acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício.

(texto de Fernando Pessoa/Bernardo Soares)



Amo o Pôr-Do-Sol visto da minha janela. O sol esconde-se

atrás do Rio, a Lua surge e traz a noite consigo. Agora

descanso e faz-se silêncio.

Lembro-me das árvores que no passeio voltam e revoltam ao

sabor do vento, espalhando a sua sombra sobre o mundo.

Prefiro a vida real do que a sonhada; o sonho é demasiado

agradável e envolvente e rouba-me a prudência.

Não vou atrás do sonho, ele é que tenta levar-me. Resisto-lhe.

Ele abraça-me na sua imaterialidade envolvente e, arrasta-me

num voo rasante  um pé cá, um pé lá...

Descolo, rendida.

É tão bom voar!!!....

O sossego da cidade permite o desenrolar do bulício do meu

sonho.

Será razoável pensar que é possível idealizar algo ou ser

criativo em redor de algo que nunca se viu, nem de que há

registo oral ou escrito?

(A suposição é de que é preciso ter lido muito sem sair do seu

pequeno mundo).

Será possível imaginar ou descrever o comportamento de um

budista sem ter lido ou vivido os ensinamentos de Buda?

Amo o sonho do fim da tarde em que sou embalada pelo vento

entre as árvores.

Olho os verdes do arvoredo sacudido pelos ventos de Maio.

Há poeiras no ar e pessoas que se queixam de alergias.

Há árvores floridas e flores de mil cores. Maio de mil feições.

Volto ao real. Operários regressam das fábricas, varinas

regressam com cabazes à cabeça. Os gatos miam nos becos

sujos e escuros.

A vida normal desfila à minha frente, mas não a vejo. Imagino-

me longe, na espuma duma onda nascida no casco do navio

que parte para longe, rumo ao desconhecido.

Grupos de crianças sorridentes e barulhentas a caminho de

casa, contrastando com as filas de homens e mulheres, de

olhar cansado, no final de um dia de trabalho.

Uma criança corre atrás duma bola. O que pensará ela das

pessoas apressadas que caminham absortas? Será que se fixa

na cor dos sapatos ou na cor dos olhos, na roupa, nos

chapéus, nos objetos? De noite sonhará com estas pessoas ou

com nuvens em forma de ondas e cavalos?

Com que elementos constrói o seu imaginário? Talvez com o

barulho das folhas das árvores, quando o vento sopra. Talvez

com o chilrear dos pássaros do parque onde passeia ao

domingo. Talvez com o barulho dos elétricos que descem e

sobem a rua. Talvez com os abraços quentes e apertados dos

avós que a escondem num ninho pequeno e seguro.

Este mundo que sonha é apenas seu. Nele vive, cresce, sorri e

descobre.


ALUNOS E PROF.ª DE LITERATURA PORTUGUESA SÉC.XX

SEM POESIA ESMORECE A UTOPIA


Sem poesia, não canta a cotovia

Falam as armas, esmorece a utopia

Negoceiam os poderosos, a falsa harmonia

Nos campos minados, não cria a cotovia!

Nos ninhos destruídos, não chilreia a alegria

Valha-nos a esperança, de ter paz um dia

Que se calem as armas,

Que se escute alegre sinfonia!


Francisco Lourenço

19 de Maio de 2026

ARTE XÁVEGA - PESCA ARTESANAL

 

É dia 20 de setembro de 2021.O Verão a despedir-se e o equinócio a aproximar-se.

A Costa da Caparica, em fim de tarde, numa generosa e extensa oferta de fresco areal 

dourado, rendilhado por fios prateados de água cristalina, resiste ao peso dos corpos que 

se deslocam acariciados pela brisa amena e usufruem a maré baixa. É o convite irrecusável 

à deliciosa caminhada numa contagiante tranquilidade.

Ao longe, silhuetas indefinidas junto a um barco, suscitam-nos curiosidade. Avançamos até 

lá.

Cruzamo-nos com muita gente que transporta sacos verdes, dentro dos quais algo mexe.

Finalmente chegamos ao local da grande concentração que ali permanece silenciosa, mas

aparentemente esclarecida.

Nós, no entanto …..em total tentativa de entendimento de tantos sinais para descodificar, 

vamos fazendo perguntas.

O areal está irreconhecível, coberto por milhares de gaivotas! O sol, na linha do horizonte, a

despedir-se, envolto em lençóis alaranjados e nós deslumbrados continuamos 

embrenhados em absoluto êxtase e espanto!

O barco (Rei dos Mares), está ocupado por pescadores em expetativa e olhar dirigido para a

linha do horizonte.

O areal está coberto com plásticos, qual manta de retalhos!!! Preparativos para futuro ou

vestígios do passado?

Decido perguntar a um pescador se há peixe e a resposta é clara: “já não há mas vai haver, 

já não demora”…. O sol entretanto desaparece, o frio aparece e o peixe? ainda não visível.

Apetece-me perguntar a previsibilidade horária, contudo, e porque a magia paira no ar, 

deve ser aceite e respeitada na sua autenticidade…..

Aguardo, e o meu olhar percorre incessantemente tudo que visualmente me é oferecido.

Finalmente….. os tratores iniciam a marcha, avançam mar adentro, os pescadores avançam

em paralelo, como cumprindo um ritual e orientando o percurso.

A excitação do espetáculo sem informação complementar continua, apenas a intuição 

desperta, supera o desconforto do frio e do desconhecimento.

As gaivotas num impulso coletivo, ultrapassam os homens e as máquinas, avançam

agressivamente e lá longe, numa pirueta coletiva invertem o sentido, acompanhando do 

alto, a rede a ser puxada para terra.

Finalmente o pescado chega ao areal, começamos a entender, é lançado freneticamente 

sobre a manta de retalhos e começa a seleção rápida, tal a pressão de ataque provocada 

pelas gaivotas que baixam em massa e em estridentes gritos. Peixe agrupado e 

rapidamente começa a venda tentadora perante tanta variedade.

Apetece comprar muito peixe vivo, garantidamente fresco.

E agora sim, também temos sacos verdes cheios de bom peixe, mas onde a luta entre a 

vida  e a morte se trava.

Toda a magia anterior se desvanece, sinto-me angustiada e dividida. Os indefesos 

capturados estão agora em agonia nos sacos que acumulo nas mãos. Sinto imediatamente 

a diferença do sentimento entre comprá-los no mercado e comprá-los no areal onde lutam 

pela vida desesperadamente. Torna-se tudo tão estranho…REFLITO enquanto os 

transporto.

As vivências são a grande escola; ensinam a sentir verdadeiramente e serão elas o grande

impulsionador da autêntica transformação que provoca desassossego. Tudo é dinâmico, a 

vida é uma sequência de experiências que por vezes nos permitem sentir, aprofundar, 

refletir, embora nem sempre conclusivamente!

Os peixes fazem parte da cadeia alimentar e são preciosos na manutenção da nossa saúde!

Mas, apesar de tudo, o desassossego mantém-se!!

Foi uma vivência marcante, muito pessoal e dolorosa.

Foi um fim de tarde inesquecível. Também o verão está sujeito aos ciclos da vida.


Maria de Lourdes Santos

19 de Maio de 2026

O RELÓGIO MISTERIOSO

 O Sr. Caeiro era um relojoeiro dos antigos. Todos os dias, na sua velha oficina, dava corda aos numerosos relógios que possuía. Eles cobriam por completo as paredes, ou jaziam muito bem arrumados nas estantes, nas mesas ou nas gavetas. Havia-os de todos os tamanhos e feitios. Grandes, de pé alto, com pêndulos brilhantes e pesados, mais pequenos, redondos ou quadrados, em madeira polida, em prata ou em metal cromado. Por toda a parte havia relógios que o Sr. Caeiro, diariamente, munido de um espanador e um pequeno pano de flanela, limpava cuidadosamente.

 Certo dia em que uma vez mais cumpria o seu ritual diário no meio daquele tic tac monótono a que estava tão acostumado, ouviu um toque sonoro, quase estridente, vindo de uma das gavetas onde guardava os relógios recentemente reparados e que aguardavam os seus proprietários. Abrindo a gaveta verificou que o som provinha de um estojo forrado a verde onde estava um belo relógio de bolso, antigo, em prata lavrada. Que toque seria aquele? Alarme num relógio antigo, de bolso? E como é que ele não vira nada de estranho quando reparara o relógio? A verdade é que não tinha sido necessário desmontar o seu maquinismo pois, apenas tivera que reforçar um pequeno elo que se tinha soltado.

 Olhando atentamente para o relógio, o Sr. Caeiro, lembrou-se de quem o trouxera. Era um homem alto, magro, de meia idade, educado, com ligeiro sotaque e com voz de quem estava habituado a dar ordens. Chegou apressado, colocou o estojo no balcão e declarou que só deixaria o mesmo, se lhe fosse garantido que o relógio estaria pronto na manhã do dia seguinte. Rapidamente voltou a sair, depois de receber uma resposta afirmativa.

 Quem seria? Provavelmente um militar altamente graduado, pensou o Sr. Caeiro.

 Absorto nesses pensamentos pôs-se a manuseá-lo mais atentamente. Era um belo e curioso relógio. Maciço, pesado demais para andar no bolso e com uma invulgar gravação que ele tentara em vão decifrar com o auxílio de uma lupa. Naquele momento,um novo toque ainda mais vibrante acompanhado de uma pequena luz intermitente, chamou a sua atenção. Que significado poderia ter?

 Verdadeiramente intrigado, o relojoeiro estava decidido a abrir o relógio para estudar o seu maquinismo mas não teve qualquer oportunidade, pois o seu proprietário acabava de entrar na loja.

 Desejoso de saber algo mais sobre tão curioso objeto, o Sr. Caeiro, exclamou: - É um relógio muito raro; nunca tinha visto um relógio de bolso com alarme!

 Ao ouvir falar em alarme, o proprietário ficou pálido, o seu rosto endureceu e nervosamente respondeu quase sem mexer os lábios:  - Desculpe, tenho uma viagem longa para fazer e estou muito atrasado. E deixando uma nota no balcão, saiu apressadamente, deixando o Sr. Caeiro, boquiaberto.

 Havia ali mistério e ele queria muito desvendá-lo.

 Decididamente começou a pesquisar na internet e em pouco tempo encontrou alguns dados. O dono do relógio era natural do Hindustão, general na reserva e vivia em Portugal havia alguns anos. Nada mais conseguiu saber e teve que dedicar-se aos seus afazeres.

 Na manhã seguinte, enquanto conduzia o carro a caminho da relojoaria, foi surpreendido por uma notícia que não podia deixá-lo indiferente. Houve uma tentativa de golpe de Estado no Hindustão. Os revoltosos que se preparavam para provocar uma verdadeira hecatombe, foram convencidos a depôr as armas e a negociar as suas reivindicações pacificamente. Uma vez mais, o «General Sem Medo» avançou desarmado até junto dos manifestantes e dissuadiu-os de utilizar a força das armas.

 Seria possível que o «General Sem Medo» fosse o proprietário do belo relógio de bolso, pensou o sr. Caeiro.  Seria possível ou estaria a deixar-se levar pela sua imaginação? Não tinha como saber e o assunto começou a ficar esquecido.

 Passaram muitas semanas e um belo dia, enquanto passava os olhos por uma revista da especialidade que recebia habitualmente do estrangeiro, chamou-lhe a atenção um artigo sobre os relógios mais raros do mundo e lá estava a história do belo relógio de bolso. Não era único pois havia um outro semelhante a ele. Ambos tinham alarme e tinham sido a obra mais famosa de um ourives e mestre relojoeiro que habitou no Hindustão em tempos já longínquos.  O alarme só era operacionado em caso de grande perigo e funcionava por sistema remoto.

 Ambos os relógios estavam na posse de militares, famosos pelo seu amor à pátria e o seu heroísmo mas um deles já tinha falecido. Só restava o General Sem Medo que sempre que o alarme soava, apesar de ter de habitar no estrangeiro por motivos políticos, sentia o dever de regressar ao seu país e, apesar do perigo que corria, ajudar a resolver a crise.

 O «General Sem Medo» era pois o proprietário do belo relógio de prata. Estava descoberto o mistério. 

04/05/2026 
 Pilar Encarnação

- VÓS, SE ME LERDES, DIR-ME-EIS SE VALE OU NAO A PENA CONTINUAR


Navegando num mar de incertezas, ouso dar-vos a conhecer
alguns dos meus versos...às vezes ben controversos, sempre com verso e reverso
de uma medalha que não foi conquistada em dura batalha, mas em momentos de lazer em que escrevo para vencer o tempo, antes que o tempo me vença a mim.
A todos os que me têm feito acreditar...
Um abraço

Fernando de Almeida Serrano

O DESPERTAR NO "TRÁS DO SOL POSTO"


Acordava logo de manhã com o estalar rítmico do frio nas vigas de madeira do teto, um

som que a cidade, com o seu zumbido elétrico constante, tinha desaprendido de ensinar.

Não havia despertadores, apenas a mudança sutil da luz que filtrava pelas frestas das

portadas de carvalho. Para Daphie, aquele era o primeiro sinal de que a vida é uma coisa

imensa, que não cabe numa teoria, num poema ou num dogma. Ali, a luz pintando linhas

de pó dourado no ar era a prova de que a existência se manifesta no ínfimo, muito antes de

qualquer explicação humana.

Daphie recordava-se das dúvidas que atormentavam os brilhantes homens do passado —

filósofos e cientistas que tentavam dissecar o mundo através da lógica. Eles viviam na

incerteza porque olhavam para a vida de fora, como quem estuda um mapa sem nunca

pisar o solo. Daphie, com as mãos na terra húmida e a geada a morder-lhe os dedos,

compreendeu que o erro deles era tentar transformar o mundo num substantivo estático,

quando a vida é, na verdade, um verbo. Ao cuidar das árvores dos seus avós, a contradição

da cidade resolvia-se: a macieira não precisava de uma tese para existir; ela era um

enunciado completo de vida.

À noite, ela confrontava o relato daquela astronauta que, do alto da sua solidão

tecnológica, descrevera o espaço como um vácuo negro e indiferente, um abismo que fazia

a humanidade parecer insignificante. Mas Daphie via essa mesma escuridão de baixo para

cima. Sem as luzes da civilização para camuflar o infinito, o céu sobre a quinta era um

abismo cravejado de prata. Onde a astronauta vira um vazio assustador, Daphie via o

espaço necessário para que a sua própria luz — a luz da consciência — pudesse brilhar.

Foi nesta colisão com o real que ela se tornou o "deus imberbe": a divindade que não nasce

da arrogância, mas da presença absoluta. O dogma dissolveu-se porque é apenas uma

moldura para quem tem medo do quadro, e ela agora habitava a tela inteira. A teoria

calou-se porque quem sente o pulsar do sangue e o ciclo das estações não precisa de

 provar a existência de "Alguém" — ela tocava na assinatura desse Alguém na textura da

 casca e na geometria das sementes.

Naquela quinta, Daphie deixou de ser alguém que observa para ser alguém que É. Se a vida

é obra de Alguém, ela passou a ser o pincel em movimento. O silêncio da terra tornou-se o

seu diálogo mais profundo, e o fôlego da manhã o seu maior ato de fé. Naquele pontinho

azul, entre a herança dos seus ancestrais e a imensidão do cosmos, ela estava, finalmente,

em casa.

Vasco Patrício

20/05/2026