Entre palavras
Projeto literário da Nova Atena
17/07/2026
14/07/2026
Escrita Criativa - A VIDA É UMA FILA NO TEMPO
A VIDA É …
as azevias e os coscorões feitos pela sua avó eram uma delícia dos deuses.
O Danilo saiu ao pai. Tinham dois animais muito engraçados, um cavalo
castanho, enorme, que quando passava à minha porta a puxar a carroça
esta quase voava e o Danilo nela a meio sentado com ar muito feliz.
O outro era um enorme galgo cuja pele fazia lembrar a de um tigre.
Um dia, o pai acabado de chegar da fazenda vinha com cara de caso.
Ele conhecia bem o pai e logo soube haver qualquer coisa menos feliz!
Vendi o cão! Como é dia de caça andavam aqui por perto um grupo de caçadores
que viram o cão à solta a caçar sozinho. Passado um bocado entrou aqui
um deles e perguntou se queria vender o cão. Hesitei, mas ele subiu a parada
e acabei por lhe vender por quatro notas de conto. Temos comida por uns tempos!
Sinto-me privilegiado por ter tido estes momentos com amigos que hoje recordo.
Viver é a experiência que nos ditam e julgamos diferente da verdade…
Mergulho no romper da claridade e sei que pouco tempo me debitam
para estar à tona deste afundar de espanto à espera da indiferença!
Ninguém me muda, enfim! Em cada caso vejo uma intenção saudável,
de não saber que sabe bem e ganha forma e nova dimensão!
Se a vida pode ser uma fila no tempo, então quero vender esta ansiedade
sabendo que a esperança mora mesmo aqui ao lado.
Fernando Baptista
A vida é uma caminhada em que o tempo dita o ritmo. Cada momento é uma contagem decrescente, onde a única certeza é o movimento constante para o fim. A expressão "a "A vida é uma fila no tempo" traduz a ideia de que todos partilhamos da mesma jornada, avançando passo a passo. Nesta "fila", o tempo funciona como a fita métrica da nossa existência. Algumas pessoas encaram a "fila" com ansiedade, focadas apenas em chegar ao fim; enquanto que outras percebem que a vida não está na "fila do tempo". A "fila" anda da mesma forma que a vida anda - até que algo a faça parar. O que há de errado nisso? Nada! Há uma indústria cultural gigante que se alimenta da dor da separação e da sensação de abandono. Esse contexto ajuda a explicar por que a dor legitima e inevitável das rupturas, frequentemente vira depressão e violência. Existe um incentivo social para que isso aconteça.
Apesar de tudo, há virtudes na ideia de que "a fila anda". A primeira é lembrar-nos de que os tempos de abuso sentimental acabaram. Se não tratarmos as pessoas com respeito e carinho elas vão embora. A oferta afetiva é enorme. Em toda a parte há gente disponível e atraente, de todos os tipos e de todas as idades. Saber que a "fila" anda ajuda a prestar atenção à pessoa que está ao nosso lado. Quem gosta cuida!!!
Jerónimo Pamplona
Procurei possíveis significados das três palavras-chave – VIDA, FILA, TEMPO – e não encontrei fio condutor que me levasse àquela conclusão.
De forma muito básica e sucinta:
Fila é, em si mesma, um alinhamento de elementos em sequência, com um imediatamente atrás do outro.
Vida é o período que decorre entre o nascimento e a morte durante o qual existe um processo de evolução natural, com replicações e mudanças permanentes.
Ora é de tal forma intensa e variada a evolução neste processo que nenhuma fila, por mais desordenada que seja, a consegue abarcar.
Juntar o tempo a estas duas noções não vem ajudar nada porque o Tempo não passa de um período contínuo e indefinido no qual os eventos se sucedem durante a época em que se vive.
O tempo é algo ilimitado em que o ser humano coloca baias, criando “princípios e fins” para se tentar entender nessa imensidão.
Juntar estes três conceitos e afirmar que “A vida é uma fila no tempo”… não chego lá.
Mas aceito que possa existir essa ligação surpreendente. Para mim, no entanto, e neste momento, é apenas um conceito interessante, embora estranho.
Aguardo, com muita curiosidade, o desenvolvimento dado a este tema pelos Companheiros de Oficina e o texto que inspirou o mote. Serão, seguramente, fontes de aprendizagem para mim.
Maria Amélia Mendes
A Fila é um tempo.
O Tempo e a Fila fazem parte da vida.
Maria José Saraiva
Perante esta imagem, recordo o que sempre dizia a Tia Lúcia, quando a encontrávamos , ao fim da tarde, sentada á porta de casa. Correspondia, com carinho , aos nossos cumprimentos e quando questionada sobre a sua saúde ou bem estar, respondia, invariavelmente:
“Estou bem, minha filha, já estou sentadinha na fila da frente.”
Falava com a sabedoria e serenidade dos velhos.
Contudo, na primeira fila, não se encontram apenas os velhos. Diria que há representantes de todas as idades, aqueles que não tiveram oportunidade de desfrutar de muitas das filas porque algo os empurrou para a fila da frente, mais rápido do que seria suposto.
Teresa Sousa
Pela janela do autocarro que circula no pára-arranca da velha cidade, observa filas em cada recanto. A fila interminável à volta do estádio. A fila diante de uma loja ainda fechada, cujo escaparate anuncia os saldos da sexta-feira negra (A cenoura sempre dependurada à nossa frente). A fila na estação de autocarros, onde as pessoas se perfilam para lá dos passeios, gesticulando com os braços como maestros sem batuta, interpretando partituras invisíveis no espaço. Os movimentos procuram dizer alguma coisa, mas os rostos parecem vazios, presos a uma espera sem nome.
Também ele foi parar a uma fila.
Está agora num supermercado. Vê o tempo passar enquanto observa velhinhas arrastando-se entre as prateleiras. O seu pensamento deriva para o idoso sentado no banco do jardim fronteiro ao estabelecimento. Muito quieto, ao sol, o chapéu cobre-lhe quase todo o rosto. Está impávido, sereno.
Espera. Espera o quê?
O que vê à sua volta leva José Marcos a refletir sobre o tempo. O tempo dele. Também o sente escapar pelos dedos das mãos como a areia fina da praia. Ocorre-lhe então que está há anos à espera de viver.
À memória regressa a frase lida no velho prédio: "Arrisca a lógica do fruto, não a do produto."
Uma estranha inquietação apodera-se dele. Abandona a fila e encaminha os passos para a primeira paragem de autocarro. Não olha para trás, nem para as vidas paradas em filas à espera do tempo.
Se a vida é uma fila no tempo, naquele momento José Marcos saiu dela. Quando o autocarro chegou, entrou sem perguntar o destino. Ia à procura do seu templo no tempo.
Nem só os jovens partem à aventura. Do alto dos seus setenta anos, uma coragem tardia dizia-lhe que ainda ia a tempo de recomeçar. A imagem do velho sentado no banco do jardim regressou-lhe à memória, arrastando consigo as diretas dos fins de semana, nas noites loucas de Lisboa e os amigos que pareciam eternos. Tem a sensação de que tudo isso aconteceu na semana passada.
Tinham passado quarenta anos.
O autocarro parou numa cidade desconhecida, junto a uma estação ferroviária. José Marcos comprou um bilhete para um país escolhido ao acaso. Pela primeira vez na vida não procurava um destino; procurava apenas movimento.
Foi nessa viagem que conheceu Angelina.
Sentaram-se frente a frente durante horas. Falaram de lugares, de sonhos adiados, das vidas que cada um deixara para trás. Angelina contou-lhe o projeto a que dedicava os seus dias na Patagónia, protegendo baleias ameaçadas de extinção.
Angelina falava das baleias com o entusiasmo de quem encontrou uma razão para viver. José Marcos ouviu-a durante horas. Havia muito que não via aquela luz nos olhos de ninguém.
Quando chegaram ao destino, desceram na mesma estação.
O acaso que os unira naquela carruagem acabou por levá-los, semanas depois, a embarcar num paquete rumo às terras geladas do sul da América.
José Marcos juntou-se ao projeto de Angelina. Não porque tivesse passado a conhecer tudo sobre baleias, nem porque a Patagónia fosse um sonho antigo. Fê-lo porque, pela primeira vez em muitos anos, sentia que caminhava em direção a alguma coisa e não apenas atrás dela.
Certa tarde, observando o mar infinito e o lento surgir de uma baleia à superfície, lembrou-se novamente da frase pintada no velho prédio da velha cidade:
"Arrisca a lógica do fruto, não a do produto."
Sorriu.
Só então percebeu que nunca estivera preso às filas do supermercado, dos estádios ou das estações. A verdadeira fila era a que trazia dentro de si.
E dela, finalmente, saíra.
Vasco Patrício
01/07/2026
EURÍDICE: O ELIXIR E O TEMPO
“De manhã, o cheiro do café chamava por Eurídice. Dizia sempre que, sem ele, não funcionava — não a figura trágica do mito, mas a mulher real para quem esse ‘vinho da Arábia’ era um bálsamo para a alma e um passaporte para outras latitudes.
Ao primeiro gole, era transportada de volta à fazenda do avô, em Angola. Via de novo o mar de bagas vermelhas adormecido sob o cacimbo matinal e sentia o silêncio húmido da terra antes de o sol subir. Ao entardecer, as batucadas que vinham das cubatas ecoavam na memória e, depois, surgia o luar — o luar africano, vasto, absoluto e quase impossível.
Nessas noites, lia em voz alta Fernando Pessoa, como quem acende uma vela para guiar a lembrança: ‘E eu de pé ante a janela, vi todo o luar de toda a África inundar a paisagem e o meu sonho.’
Mas hoje, o entardecer é pálido e curto. A noite cai abrupta, sem a cerimónia do horizonte africano. De manhã, a geada tolhe-lhe as mãos e a paisagem é recortada por muradas altas que limitam o olhar. Nesta etapa da vida, as memórias da fazenda amadureceram sob o peso das pálpebras; o prisma mudou, e as coisas sentidas são agora outras.
Neste outono de si mesma, sobram a Eurídice os pequenos prazeres colhidos com lentidão.
O café da manhã é tomado no alpendre térreo, sob o abrigo das heras que se estendem para o jardim. Ali, entre o cuidado com as rosas, ela rega um cafezeiro num vaso — um monumento vivo erguido em memória do avô, das vidas interrompidas e do tempo que não volta. Observa o vaivém das andorinhas-dos-beirais, regressando aos ninhos de lama, nos ângulos do varandim. Lá como cá, as andorinhas unem o tempo num voo circular. O cheiro do café continua a chamar por ela, o elixir negro enrolando-se agora num céu diferente, apaladando a sua existência.
Na mesinha de apoio, repousa o diário de uma vida que reescreve memórias. Numa página entreaberta, a caligrafia da página 98 — datada da década de cinquenta na África Oriental — revela o acerto de contas com o destino:
‘…quase sempre errei nas escolhas, e quando acertei não o soube reconhecer. As escolhas da metade que desconheço nem sempre são nossas; são do tempo — cíclicas, sazonais, impiedosas. Repetem-se independentemente da nossa vontade...’.
E, a fechar o pensamento, a frase do filósofo ecoa como um remate à voracidade dos dias:
‘Nada de revolta: honremos as idades nas suas quedas sucessivas e o tempo na sua voracidade.’ Eurídice pousa a chávena. O café está terminado, mas o bálsamo permanece.”
O FORTE
Ao correr do fio do tempo
Vamos e vimos
Por onde passámos
Tornamos a passar
Ora quase indiferentes
Ora com um novo olhar
Aquele que perscruta
Aquele que nos ensina
O da consciência de que
Sempre estamos a aprender…
Foi o que perante o Forte
Me aconteceu e comoveu.
Conhecidíssimo o de Peniche
Sabida de trás para diante
E vivenciada a história
Da Resistência e da Liberdade
Reposta e celebrada
Em museu ali criado,
Pela forte emoção sentida
Pelo saber que tinha como sabido
Ou pelo que custava a acreditar
Me penitencio, pela diferença
Entre proximidade e memória
Do que a minha geração sofria
E o vivido de quem abnegado e sacrificado
Por dentro lutou, se deu, se martirizou
Novos tempos em liberdade nos ofertou!
Maria Silveira
29.05.2026
REVISITAR PENICHE
Maio despedia-se. Com ele e graças às alterações climáticas as nossas almas,
revitalizadas por dias e dias estivais fora de época após um castigador inverno,
ansiavam por saídas por mais agradável que tivesse sido o aconchego do lar nos dias
frios.
Voltar ao prazer de ver o azul do céu e saborear o calor do sol impôs-se e não
faltaram programas sucessivos de estilos variados entre os quais escolhi revisitar
Peniche.
Pesou a atração pela cidade em si que não visitava já havia bastantes anos e a
atração pela sua localização numa península abraçada pelo Atlântico, o oceano que a
ocidente do nosso país não cansa de apelar aos nossos olhos, de mexer com os nossos
sentidos e de nos encantar com a sua beleza, do amanhecer ao ocaso, à medida que o
mar vai do intenso azul matinal ao alaranjar com o pôr do sol no horizonte, de nos
encantar com a sua beleza, das trindades ao anoitecer, com o roncar das suas águas
especialmente na maré cheia e com a sua transformação em espelho prateado
particularmente em noites de luar.
A visita foi diurna, o mar estava lindo, com um toque de vento oeste que o fazia
resfolgar na costa de imponentes falésias calcárias ricas em lapiás, as inúmeras fendas
que provocam um relevo muito próprio e que dá um embelezamento característico de
toda aquela zona, cuja paisagem foi enriquecida com o avistamento do arquipélago
das Berlengas não muito longe, no horizonte, num dia de céu bastante limpo. Como
não podia deixar de ser, não faltou a ida muito perto da Nau dos Corvos, o belo
rochedo que lembra uma caravela, erguendo-se no mar imediatamente fora do topo da
península.
Duas curiosidades bem conhecidas e que não resisto em referir foi ter
relembrado que o termo Peniche terá origem na palavra península e que a expressão
amigos de Peniche, que significa pessoas com quem não se deve contar, vem de um
episódio histórico, a fuga ali havida dos militares britânicos que viriam ajudar na luta
pela independência do nosso país no século XVI, uma atitude de recuo que, por
dificuldade de haver herdeiro, resultou no fim da segunda dinastia, dando lugar ao
início da terceira, a Filipina, colocando em causa a soberania de Portugal durante o
respetivo reinado.
Um outro aspeto relevante de Peniche é a atividade piscatória, mas desta vez
não houve oportunidade de ser incluída na visita. Porém, uma outra associada a ela e
muito interessante é a da renda de bilros, tema que nos despertou passar junto ao
monumento às rendeiras de Peniche justamente homenageadas por tão belo trabalho
artesanal e velha tradição artística influenciada pelas redes utilizadas na pesca.
Outro peso importante nesta saída foi a visita ao Forte de Peniche de má
memória no período da ditadura que antecedeu a democracia instaurada com o 25 de
abril de 1974. Este alberga um museu* sobre a resistência havida e a repressão sobre
os que nela militaram durante décadas. Uma dor de alma. Impossível não se ficar
chocado com uma tal realidade independentemente dos credos então envolvidos e
diferença de conceitos de liberdade que dificultaram o modelo de sociedade
sucedâneo a essa época e que nos rege apesar das suas muitas contradições: o
democrático.
Um périplo pleno de momentos enriquecedores e tocantes. Mais uma
experiência que fica. Mais um estímulo que muito acrescentou ao que poderia julgar
sabido, mas que afinal está sempre aquém por mais que se vá e volte a qualquer que
seja o lugar.
Luísa Machado Rodrigues
2026.06.20
____
* Museu Nacional Resistência e Liberdade
MUNDIAL DE FUTEBOL DE 2026, UNS SERÃO PAGENS, OUTROS SERÃO REIS
Mundial de futebol, com milhões a espreitar
Mundial de Futebol
Muitos milhões para se ganhar!Portugal, Portugal, Portugal
Vamos pela Vitória lutar
Só assim se poderá ganhar
Só assim se poderá ganhar!
Jogar para trás e para os lados
Os golos nunca irão chegar!
Jogadores muito concentrados
Jogadores muito ansiosos
Perder, empatar, ganhar
Só alguns sairão Vitoriosos!
E com a bola a Rolar
Olhos postos na televisão
Cada país tem esperança
Numa Honrosa Prestação!
Viva Portugal, viva a nossa Seleção!
Francisco Lourenço
20 de Junho de 2026
VER NA ESCURIDÃO
Conheceram-se numa festa onde havia muitos amigos seus. Adolfo foi
apresentado a Dionísia nessa festa. Dançaram até altas horas da noite. A
atração foi notória e trocaram números de telefone.
Três dias depois, Dionísia recebeu um telefonema de Adolfo, convidando-
a para tomar café e passear à beira mar. Ela quis conhecê-lo melhor,
depois de algumas observações que as amigas lhe fizeram sobre a
personalidade do seu novo pretendente. Diziam-lhe que ele era conhecido
por ser muito cerebral, nada emotivo, com comportamentos um pouco
fora do normal, muito autocentrado, narcísico até, nunca tendo
evidenciado alterações de humor quando os amigos contavam histórias.
Estas observações das amigas aguçaram a curiosidade em conhecê-lo
melhor. Dionísia sempre tinha sido muito curiosa e amante de desafios.
Era uma elegante e bonita mulher, nos seus vinte e um anos. Tinha já tido
vários namorados, mas de pouca duração, nenhum lhe alterou a sua
natureza, gostava de divertir-se, esperando alguém por quem
verdadeiramente se apaixonasse. Trabalhavam os dois no sistema
bancário, mas em bancos diferentes. Nenhum deles quis tentar a
universidade, quiseram arranjar emprego e deixar de depender dos pais.
Não passearam à beira mar como ele tinha proposto, antes ficaram a
conversar numa esplanada. Um mês depois de se conhecerem,
combinaram ir de novo à discoteca. Algumas amigas dela foram também,
dançaram alegremente, mas Adolfo tomou todo o tempo de Dionísia,
inclusive saíram várias vezes para o parque onde se situava a discoteca. As
bebidas e o calor da noite lisboeta fizeram esquecer as amigas. Um carro
na escuridão serviu de encosto para ele lhe “pôr o selo”.
Casaram seis meses depois, quando a barriga de Dionísia começava a ficar
gordinha.
O bebé nasceu saudável e era o encanto da avó materna. Quando o casal
aceitava convites para passeios com amigos, a avó disponibilizava-se com
agrado em ficar com a neta.
O prédio onde moravam, na periferia da capital, tinha apenas quatro
andares, um rés-do-chão e três andares sem elevador. Viviam ao todo
naquele bloco oito famílias, que se conheciam bem, pois todos eram
moradores desde o início da utilização do prédio, com exceção do jovem
casal. Outros blocos semelhantes formavam o essencial daquela rua
pacata da freguesia de Odivelas. Os moradores cruzavam-se no café do
meio da rua. No café e nas saídas diárias para passear os cães, os vizinhos
criaram uma ligação forte de proximidade, um “espírito de bairro”.
A rua era pacata, mas naquele prédio os novos inquilinos quebravam
frequentemente o silêncio das paredes. Discutiam altas horas da noite e
gritos de criança eram frequentes naquele contexto. Os vizinhos estavam
preocupados, sobretudo com o efeito que as discussões teriam na criança
de menos de dois anos.
Os pais de Adolfo viviam em Trás-os-Montes, eram agricultores
remediados. O pai teve um princípio de acidente vascular cerebral e o
filho quis ir vê-lo ao hospital, em Vila Real.
Saíram de Odivelas pela manhã, depois de entregarem a filha à avó
materna. Decidiram parar no meio do caminho para almoçar na Bairrada,
num restaurante especializado em leitão.
Adolfo comeu e bebeu abundantemente. Mas no fim, quando veio a
conta, protestou com o empregado dizendo que o leitão não era de boa
qualidade e tinha muitos ossos. Esta discussão chamou a atenção de
outros comensais, admirados com aquela reação intempestiva daquele
cliente. Logo que entraram no carro para prosseguir viagem, começaram
em discussão violenta sobre os comportamentos que Adolfo andava a
evidenciar nos últimos meses. Ela insinuou pela primeira vez a eventual
separação do casal. Ele parou o carro na berma da autoestrada e bateu-
lhe, duas violentas bofetadas deixaram-lhe a cara muito vermelha. O resto
da viagem foi um choro permanente. Dionísia ameaçou sair do carro
quando passassem por Lamego e pedir boleia para Lisboa. Com violência
verbal e física, conduzindo a alta velocidade, ele ameaçou-a de morte se
fizesse isso. Dionísia esperou no carro até que ele regressasse de visitar o
pai. O regresso a Odivelas decorreu em silêncio.
A partir daquela viagem, a vida do casal mudou drasticamente. Acusações
de adultério eram frequentes nas discussões a altas horas da noite, com
crescente inquietação dos vizinhos, que temiam um dramático desfecho
daquelas discussões.
Certo dia, um dos vizinhos fez queixa na esquadra da PSP que serve
Odivelas. Pensou que a polícia devia estar atenta a uma eventual
desavença séria daquele casal. Algumas rondas da polícia confirmaram as
perturbações para a vizinhança. O casal passou a estar referenciado.
Num fim de tarde de outubro, o que era temido aconteceu. Com uma
agressividade nunca vista, Adolfo abriu a porta de casa e empurrou
Dionísia para o patamar da escadaria. Da luta corpo a corpo aconteceu
que Adolfo foi parar ao fundo da escadaria daquele andar, de cabeça para
baixo. Morreu com a cabeça enfiada no contador da água cuja porta
estava aberta. A PSP e depois a Polícia Judiciária tomaram conta da
ocorrência. Formularam acusação de homicídio por parte da esposa,
Dionísia. Seis meses depois, começou o julgamento em Loures, no Juízo
Central Criminal. A maior parte dos vizinhos disponibilizou-se para
testemunhar. Interrogados, nenhum assumiu explicitamente quem tinha
cometido o crime. Numa das sessões do julgamento, Dionísia descreveu
pormenorizadamente as cenas do restaurante do leitão e na subsequente
viagem a Vila Real. Os vizinhos estavam incrédulos, porque Dionísia nada
disso tinha contado antes. As dúvidas sobre os factos apurados
avolumavam- se. Seriam os dois mentalmente saudáveis? A certa altura
do julgamento, quando tudo parecia estar orientado para a condenação
de Dionísia, o vizinho que morava no andar de cima esclareceu o coletivo
de juízes do seguinte:
“Senhores juízes, eu e a minha mulher naquele dia chegámos a casa com
alguns minutos de diferença. Fomos às compras, saímos da paragem do
autocarro, que fica longe de casa, e eu fiquei no café a jogar na
raspadinha. A minha mulher seguiu para casa, mas ela encontrou uma
amiga e demoraram na conversa. Acabei por entrar primeiro no prédio.
Mas eu não tinha chave de casa, tinha-me esquecido dela naquele dia.
Esperei pela minha mulher nas escadas do meu andar, por cima do andar
do casal desavindo. E, sentado num degrau, no escuro, porque a luz das
escadas tem sensor que se apaga sem movimento, eu ouvi a discussão
que o casal estava a ter. E vi a porta da casa do casal a abrir-se e o Sr.
Adolfo a empurrar a mulher; a luz do patamar acendeu-se e eu vi a luta
dos dois a ver quem ia ao chão, num jogo de empurra. A Sr.ª Dionísia
defendeu-se muito bem dos empurrões do marido. E nas voltas do
empurra ele escorregou escada abaixo. Eu acho que ela agiu em legítima
defesa, não penso que houvesse intenção de matar”.
Fez-se silêncio na sala de audiências.
O coletivo de juízes marcou nova sessão para uma semana depois.
A sentença ilibou de crime a vítima de muitas ações de violência
doméstica. A paz regressou àquele bairro.
VITOR CARVALHO
20 DE JUNHO 2026