Zangaram-se os elementos. Ventos destrutivos e chuvas torrenciais a ponto de a comunicação social ignorar guerras e eleições que a absorvem habitualmente e, através de notícias, análises e debates quase a tempo inteiro, se centrar na dolorosa catástrofe ocorrida nas últimas semanas no nosso país, a qual excedeu largamente o previsto nos avisos de vinda de temporais insistentemente divulgada por autoridades competentes.
Ora, o que tem isto a ver com Caretos? Pura e inopinadamente com o facto de uma premente ida a Bragança por compromissos familiares ter coincidido com um Carnaval subsequente às fortes tempestades havidas, donde que, por um lado, as sequelas vistas ao vivo se tenham afigurado ainda mais dramáticas e que, por outro lado, a tentação de assistir a típicas festividades carnavalescas tenha sido irresistível.
Em viagem de autocarro, embora não tivessem faltado imagens televisivas a dar-nos conta de quanto acontecera na altura, nada obviou à dor de alma ao deparar ao natural com a alteração paisagística ao longo do litoral, especialmente até Aveiro, com ênfase para a configuração do principal rio que a antecede, o Mondego, transformado num imenso “lago”. Aliás, toda a região até ao longínquo destino nortenho tinha os terrenos ensopados. O tempo continuou chuvoso, apenas com algumas abertas, proporcionando a inerente alegria de saída por momentos da soturnidade dos céus cinzentos e de espreita do escasso azul que acalenta o espírito.
Além das terras bragantinas, o percurso foi também por terras beirãs onde, mesmo em condições adversas, valeu a ida aos Caretos de mais nomeada, os de Podence e de Lazarim.
Duas localidades de notória riqueza etnográfica, cujos entrudos (rituais pagãos dotados de simbologia ligada à fertilidade, ao ciclo das colheitas e ao ciclo da vida em geral, incluindo a iniciação dos rapazes) são personificados nos Caretos, homens e rapazes (apesar de hoje-em-dia surgirem também raparigas), vestindo trajes e máscaras artesanais demoníacas que corporizam o afastamento dos males para que seja bem-sucedida a renovação da natureza.
Em Podence, os Caretos, classificados como Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, utilizam máscaras no rosto, de lata pintada a vermelho e preto, sendo os fatos de lã, com franjas, às riscas transversais, em verde, amarelo e vermelho, tendo chocalhos pendurados atrás, os quais dão origem à designação de “Carnaval chocalheiro”.
Em Lazarim, os Caretos, por enquanto a preparar a candidatura a Património Imaterial da Humanidade pela UNESCO, usam máscaras talhadas em madeira de amieiro na cor natural com fatos de uma profusão de palha também em cor natural.
Interessante é que em ambos os casos (tal como nos outros que proliferam naquelas regiões), não só está presente a simbologia atrás referida como por detrás dos comportamentos visíveis em si, nomeadamente, as correrias à solta, simulações de dança, saltos e encontrões, em particular aos passantes do sexo feminino, está ainda subjacente toda uma ampla simbologia psicossocial seja no plano identitário (enquanto afirmação pessoal e coletiva de pertença à comunidade), seja a nível da sedução (a atração masculino feminino), seja no âmbito da transformação (a máscara enquanto fator de anonimato, libertação e transgressão), seja em termos de ligação ao sobrenatural (desarredar os maus espíritos através de rituais de passagem na transição para a maturidade no indivíduo, na transição do inverno para a primavera).
Em suma, uma marcante aprendizagem sobre tão rico património cultural, bem como uma marcante experiência por território tão devastado, porém, onde se viam a impor-se planuras e serranias com múltiplas tonalidades de verde salpicadas de azedas e mimosas já amarelas, aqui e acolá acompanhadas de cameleiras floridas a anunciar o renascimento primaveril que encanta, mas também a pedir cuidados e dedicação que urgem.
Luísa Machado Rodrigues
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