01/03/2026

O PESCADOR


Numa povoação do litoral algarvio, vivia um homem que adorava pescar. Não o fazia por necessidade mas sim pelo prazer da «caça». Tinha o seu trabalho diário mas em todos os momentos livres e fins de semana, lá estava ele de cana em punho.

A pesca à linha não tinha para ele quaisquer segredos. Ele sabia qual era a melhor cana, o melhor isco e o melhor anzol para cada tipo de peixe. A sua pesca era por vezes tão abundante que chegava para ele e para toda a vizinhança; também havia dias em que não pescava nada mas isso não o desmotivava, pelo contrário, estimulava-o a conseguir melhores resultados no dia seguinte. O importante era ver os peixes a saltar dentro da sua cesta.
Os peixes só servem para ser apanhados e comidos, dizia ele. Quantos mais, melhor!

Houve, porém, um dia em que tudo se alterou. Foi pescar como habitualmente. Era um daqueles dias em que o peixe mordia facilmente. Já tinha a cesta bastante cheia . Eram alguns robalos, safias, choupas, uma dourada e um belo sargo. Para quê mais? Para que queria ele tanto peixe? Porém, o prazer de pescar impedia-o de parar e por isso continuou a sua faina. De novo o peixe picou, ele puxou a linha e desta vez era um besugo. Um belo besugo com um tamanho invulgar. Teria uns 35 cm. de comprimento.

 Cuidadosamente, o pescador libertou-o do anzol e ao contrário do que lhe era habitual, ficou a olhar para o pobre besugo que estrebuchava de boca aberta e olho arregalado. E nesse momento o coração do pescador deu um salto. Sentiu um imenso dó pelo besugo e rapidamente, sem pensar duas vezes, devolveu-o ao mar. Ficou a vê-lo afastar-se, primeiro titubeante e depois rapidamente.
Agora o pescador estava aliviado e com o coração sereno. Porém, aquele olhar do besugo não o abandonava. Nunca mais queria voltar a ver aquele olhar! Nunca mais! E a decisão estava tomada. Nunca mais iria à pesca.

Quando os amigos lhe perguntavam por que já não pescava, o pescador dava uma desculpa vaga e frouxa. A verdade, é que aquele olhar sofrido do besugo, era um segredo que não queria partilhar com ninguém.
                                                 Pilar Encarnação.

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