01/05/2026

ESCRITA CRIATIVA - MOTE :“A vida é uma coisa imensa, não cabe numa teoria, num poema, num dogma”.

 


Quantas vidas cabem numa vida? Imensas!!!

Para além das vidas de género: feminino, masculino e trans, temos as vidas funcionais:

biológicas, espirituais, profissionais, amorosas, clandestinas; as vidas etárias: crianças,

adolescentes, jovens, adultos e velhos. Caraterizando as vidas etárias:

Criança: Não conhece os limites próprios da idade.

Adolescente: É um vulcão em ebulição.

Jovem: É uma casa em construção.

Adulto: Atingiu o pleno desenvolvimento biológico, físico e intelectual. Conduz o carro

do país.

Sénior: “Os mais experientes”! Na cultura Ocidental são empurrados para uma

prateleira.

Velho: Última fase da vida humana. Decadência física e intelectual

                    Jerónimo Pamplona

 

 

A vida é… o universo, abarca tudo, não conhece limites.

Assim sendo, como podemos falar dela? Talvez, se pegarmos numa das milhares de definições que

ela pode ter, consigamos encontrar um ponto de partida.

Vou por “o que vai do nascimento à morte”…

E constato que a vida não se pode medir, não tem limites, é muito forte e intensa – a vida é

imensa.

Com uma dimensão tão vasta, extravasa o conhecimento especulativo e hipotético, a imaginação,

o sonho, a fantasia, nenhuma teoria a amarra.

Os estados de alma, a inspiração, a composição com enredo e acção que formam o poema

também não conseguem contê-la dentro dos seus limites.

E escapa-nos se a quisermos prender a verdades aceites por todos, preceitos, máximas, ao que é

tido por certo e indiscutível, ao não questionável que qualquer dogma quer impor.

A vida…


I nspira

M orde

E nvolve

N ega

S alva

A braça. 

            Maria Amélia Mendes

 


É como o mote que deu origem a este tema. Porquê tão longo?

Para quê escrever, escrever, escrever, se afinal não há nada interessante

para transmitir?

Por isso gosto de poesia. Os poetas em poucas palavras, dizem muito

(fiquei maravilhada quando descobri os haikus)

Talvez seja uma característica dos portugueses. Falamos, falamos, mas

não dizemos nada.

Provavelmente os outros povos também são assim, mas com a mania que

temos de que os outros é que são bons, estou a cair no mesmo.

Voltando ao título, com o qual não concordo. A vida é tão simples.

Nascemos, crescemos (aqueles que não morrem à nascença) e morremos.

Para quê complicar?

Foi o que acabei de fazer ao oferecer-me para publicar no blogue Entre

Palavras. Eu já devia ter juízo, porque os meus textos são apenas

reflexões, a maioria das vezes sem terem qualquer sentido, a não ser para

mim. Eu nem gosto de me expor! Só no teatro. Mas aí não sou eu, sou a

personagem que interpreto ou melhor tento interpretar.

E com este comentário final me despeço.

Parodiando o Raul Solnado, façam o favor de ser felizes e não

compliquem.

 

            Maria José Saraiva

 

O parto não tinha sido fácil e a mãe precisava descansar.

Encaminharam-me para o berçário para poder ver a bebé.

Foi através do vidro que a conheci: um rostinho inchado e congestionado pela luta

que travara para entrar neste mundo, depois de nove meses do mais perfeito

aconchego num ninho gerador de vida.

Queria tanto pegar-lhe, encostá-la ao meu peito e comunicar através da única

linguagem que ela talvez já entendesse, a linguagem transmitida pelo bater

desenfreado de um coração dizendo: “amo-te!”

Mas… o vidro não deixava!

Era preciso esperar que fosse levada para o quarto e, entretanto, permanecer colada

àquele vidro, com um turbilhão de emoções e pensamentos a assaltarem-me, não

conseguindo que os meus olhos se desviassem da criança que tinha diante de mim.

Um ser tão pequenino, envolvido numa mantinha que pretende simular o conforto

que acaba de deixar. Um pequeno embrulhinho contendo a imensidão de uma vida,

uma vida que não cabe numa teoria, num poema, num dogma.

Só despertei dos meus pensamentos quando alguém, com um ar cansado e uma bata

vestida, se aproximou de mim e, apercebendo-se do meu êxtase, me disse:

”Parabéns”, minha senhora, tem uma neta linda”.

A palavra “avó” devia estar estampada no meu rosto, enquanto me rendia ao milagre

da vida.

        Teresa Sousa

 

O Despertar no “Trás do Sol Posto”

Acordava logo de manhã com o estalar rítmico do frio nas vigas de madeira do teto, um som que a cidade, com o seu zumbido elétrico constante, tinha desaprendido de ensinar.

Não havia despertadores, apenas a mudança sutil da luz que filtrava pelas frestas das portadas de carvalho. Para Daphie, aquele era o primeiro sinal de que a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria, num poema ou num dogma. Ali, a luz pintando linhas de pó dourado no ar era a prova de que a existência se manifesta no ínfimo, muito antes de

qualquer explicação humana.

Daphie recordava-se das dúvidas que atormentavam os brilhantes homens do passado —filósofos e cientistas que tentavam dissecar o mundo através da lógica. Eles viviam na incerteza porque olhavam para a vida de fora, como quem estuda um mapa sem nunca pisar o solo. Daphie, com as mãos na terra húmida e a geada a morder-lhe os dedos, compreendeu que o erro deles era tentar transformar o mundo num substantivo estático, quando a vida é, na verdade, um verbo. Ao cuidar das árvores dos seus avós, a contradição da cidade resolvia-se: a macieira não precisava de uma tese para existir; ela era um enunciado completo de vida.

À noite, ela confrontava o relato daquela astronauta que, do alto da sua solidão tecnológica, descrevera o espaço como um vácuo negro e indiferente, um abismo que fazia a humanidade parecer insignificante. Mas Daphie via essa mesma escuridão de baixo para cima. Sem as luzes da civilização para camuflar o infinito, o céu sobre a quinta era um abismo cravejado de prata. Onde a astronauta vira um vazio assustador, Daphie via o espaço necessário para que a sua própria luz — a luz da consciência — pudesse brilhar. Foi nesta colisão com o real que ela se tornou o “deus imberbe”: a divindade que não nasce da arrogância, mas da presença absoluta. O dogma dissolveu-se porque é apenas uma moldura para quem tem medo do quadro, e ela agora habitava a tela inteira. A teoria calou-se porque quem sente o pulsar do sangue e o ciclo das estações não precisa de provar a existência de Alguém — ela tocava na assinatura desse Alguém na textura da casca e na geometria das sementes.

Naquela quinta, Daphie deixou de ser alguém que observa para ser alguém que É. Se a vida é obra de Alguém, ela passou a ser o pincel em movimento. O silêncio da terra tornou-se o seu diálogo mais profundo, e o fôlego da manhã o seu maior ato de fé. Naquele pontinho azul, entre a herança dos seus ancestrais e a imensidão do cosmos, ela estava, finalmente, em casa.

 

Vasco Patrício

DEZOITO ANOS


De menina a mulherzinha,

Aniversariante,

Tal a fulgurante natureza toda ela rejubila!

Como a beleza primaveril

Nela florescem

As artes,

Tal a sonoridade dos regatos

Nela ecoa

A poesia,

Como o chilreio das avezinhas

Nela repica

A música,

Tal reluzem os céus

Nela brilha

A arte cénica,

Como o denso arvoredo

Nela múltiplas são

Suas zelosas disciplinas…

Mundo de saberes

Oceânica dimensão a tua,

Nova Atena,

Mar de afetos e conhecimento,

Roubar ao poeta me atrevo

Seu brilhante pensamento

Como ele de ti digo também

Tua alma não é pequena

Tudo valeu a pena!

Maria Silveira

12.04.2026

GRANDE FOI A EMOÇÃO


Bem conhecido é aquele sentir espontâneo que de repente perante um

qualquer estímulo significativo nos provoca uma reação muito particular, a emoção.

Da alegria à tristeza, da coragem ao medo, do orgulho à modéstia longo é o

desfile de emoções que, das prazerosas às dolorosas, nos assaltam

desprevenidamente a cada fração de tempo do nosso dia a dia.

Anunciada formalmente a primavera, pois as datas do calendário não

perdoam, seriam os belos dias de sol, o azul de um céu deslumbrante e as andorinhas

a esvoaçar algumas das agradáveis emoções de hoje. Quiçá um passeio pelo campo,

o deleite face ao colorido da natureza com o florescer das plantas, o inalar dos seus

perfumes…

Seria, mas não foi. Temperaturas baixas, céu encoberto, vento matreiro, um

convite a um sábado caseiro e, entre muitos outros, um convite à leitura. Dia de

aproveitar a pôr o jornal em dia.

Estava ainda a finalizar algumas outras tarefas e já o marido lia o “Expresso”

quando de repente oiço um “anda cá, lê isto”.

Uma emoção! Na respetiva “Revista”, letras bem gordas, o título “Os últimos

baleeiros dos Açores” (1).

Falou a voz do sangue. Açores e, mais especificamente, a ilha do Pico, o

concelho das Lajes do Pico, matriz da baleação açoriana, raiz da minha ascendência,

pilar do meu ser.

Um texto que recomendo a quem tenha curiosidade no tema independentemente de eu

 ser suspeita na matéria. Um artigo bem feito que dá uma ideia razoável do quê e do

 contexto da baleação, salvaguardado o enfoque humano ser centrado em testemunhos

 apenas do que resta dos baleeiros, como seja o importante Trancador entrevistado, pois já

 não subsistem os vários tipos de elementos da companha de um bote. Esta, como é

 referido no texto, era constituída por sete homens, a que acrescento a distribuição das

 suas funções. O Mestre à ré e seis Remadores, sendo o da proa o Trancador.

Segunda emoção! Ao rodar as páginas do artigo, as imagens.

Por um lado, a foto do bote, do elegante e vivaz barco ergonomicamente

talhado para sulcar águas exigentes e tarefa dura, um companheiro que, só de vê-lo,

a alma se me enche desde a infância até hoje, varado ou mar fora, esteja eu em terra

ou a banhar-me nele, um dos mais deliciosos que conheço.

Por outro lado, a foto de uma parede do Museu dos Baleeiros, pano de fundo

do grande profissional que é Manuel Costa, o seu diretor (dedicado não só à causa da

baleação, mas também homem da música e de elevada cultura), foto essa de um

mural do qual constam as fotografias de uma panóplia de idos baleeiros, tantos!!!

Saudosos conhecidos, amigos, parentes e, adivinhem, o meu próprio avô paterno,

Mestre de nomeada como salienta o escritor Dias de Melo no seu livro “A montanha

cobria-se de negro”, no qual desnuda o respeito, os anseios e temores dos

marinheiros em relação ao homem do leme, o timoneiro, o Mestre de quem depende

o cálculo do tempo para o cetáceo emergir, determinar o local de saída e que direção

tomará, o Mestre, que dirige o bote e a companha, o garante da segurança de todos

e do sucesso no trancar do animal.

Impossível melhor surpresa numa tarde meia invernosa a reter-me em casa.

Um artigo que não deu para escapar ao que me corre nas veias. Grande foi a emoção,

o sentimento de pertença, o peso de memórias, a carga de uma cultura, o vigor dos

laços estruturantes da identidade de uma comunidade da região mais periférica do

país, outrora “As Ilhas Desconhecidas” na obra de Raul Brandão, hoje um destino

conhecido e de encantar.

Um destino, cuja particularidade nos fins do séc. XIX impôs um estilo de vida

quase sem alternativas para a sobrevivência das suas populações. Uma região com

passado de erupções onde a lava tudo queimou, pobre e rico empobreceu, a terra

quase nua lhes ofereceu, valendo que lhes deixou intacta a riqueza do mar. À

recoleção nele tiveram de deitar a mão, a caça à baleia, o animal de que

praticamente tudo se vendia desde o âmbar ao óleo, matéria-prima esta versátil,

inclusive, importante para iluminação.

Mudaram-se os tempos e é emocionante ver a evolução havida a partir de

meados do século XX com a terra progressivamente regenerada e o impulso das

atividades a ela ligadas, bem como com o fim da caça à baleia para proteção da

espécie. O estilo de vida evoluiu e a economia progrediu ao contar com outras fontes

de riqueza, nomeadamente, com o turismo. Foi chave ter-se passado à observação

de cetáceos, o bote ter sido recuperado e reconvertido para desportos náuticos, com

ênfase para regatas de nível regional, nacional e internacional.

Uma reconversão que emociona. Não há mais baleeiros nem caça à baleia, mas

o bote continua a ser lançado à água, porém, agora é por desportistas. É lindo ver as

novas gerações já não apenas de rapazes, também de raparigas, a repetir o ritual de

navegação dos velhos marinheiros, a remar ou a velejar em treinos e em saudável

competição. É lindo observar baleias e golfinhos já não ameaçados, antes a

usufruírem livremente da sua sazonal visita em crescentes cardumes à catedral dos

cetáceos, a baía das Lajes do Pico.



(1) Texto de Sara Sousa Oliveira e fotografias de Rui Soares, A Revista do Expresso, 2789, pág. 27, 10.04.2026


Luísa Machado Rodrigues

10.04.2026

A COR DA MINHA BICICLETA: A ARTE DE COLECIONAR MEMÓRIAS


O sol raiava morno, em sintonia com a aragem que embalava a folhagem das

árvores rasteiras. Na véspera tinha chovido, o que dava à atmosfera um aspeto

limpo; os insetos pululavam entre os malmequeres e a passarada orquestrava

aquela manhã perfeita para caminhar.

Rosana seguia a meio da fila indiana que avançava por trilhos enviesados. Era o dia

da semana desta atividade e os caminheiros conversavam entre si sobre um pouco

de tudo. A páginas tantas, uma das amigas deixou pairar uma interrogação que a

deixou perturbada:

— Como se colecionam boas memórias? — Os que o conseguem são felizes —

responderam-lhe. — Mas a vida não é uma linha reta — ripostaram.

As interações entre as amigas continuavam: — O segredo, dizem, é esquecer

rapidamente as más memórias e guardar apenas as que nos fazem bem.

Rosana, desta vez, interveio: — Mas como reagir ao rancor de alguém a quem se

votou um amor incondicional e que, no entanto, mais nos ofendeu?

Uma profusão de sentimentos ficou a pairar no ar, verbalizada por alguém: —

Ansiedade, medo, indignação, paixão, esperança, confusão, êxtase… Se conseguires

passar incólume por estes sentimentos, talvez consigas passar uma esponja sobre

essa memória.

Rosana gostaria que lhe ensinassem a fazer essa coleção de boas recordações. Por

vezes, ainda recorria aos álbuns de família quando os pensamentos a assombravam,

dizendo a si mesma: “Lembras-te, Rosana, como eras feliz quando eras menina?”.

Desfolhava as páginas com fotos durante horas. Mas não era fácil. Concluiu que não

se guardam memórias como se guardam selos num álbum: as memórias são vivas e,

às vezes, mordem.

Estes pensamentos abateram-na. O dia lindo ficou ensombrado pelos diálogos sobre

o passado. A claridade da manhã contrastava com a sombra que transparecia nela.

Naquela noite, o cansaço da caminhada e o teor das conversas venceram,

finalmente, a sua resistência.

No sonho, Rosana encontrou a sua versão mais velha: uma mulher de olhar calmo

que lhe pediu para escolher um objeto que representasse uma alegria antiga.

— Quem és tu? — perguntou a Rosana jovem.

A mulher sorriu; as rugas ao redor dos olhos pareciam contar mil histórias. — Sou a

Rosana que aprendeu a filtrar o vento. Sou tu, depois de decidires que o teu peito

não é um depósito de lixo para as ofensas dos outros. Mas escolhe um objeto,

Rosana, que te traga uma alegria antiga.

Desta vez, ela não hesitou. Escolheu uma bicicleta — algo que nunca teve, a não ser

em sonho. A sua bicicleta tinha cores, claro. Tinha as cores dos seus primeiros lápis

da primeira classe — aquela caixa onde uma menina de tranças loiras pulava com o

seu cão felpudo. No sonho, Rosana não sabia se pedalava, mas, para que não lha

roubassem, prendia-a com uma corda ao seu próprio tornozelo.

Imaginem a deceção quando, ao acordar, vasculhou o quarto todo e não encontrou

nem sombras da bicicleta colorida. Na sombra ficou ela. Mas a Rosana mais velha,

segurando-lhe a mão no silêncio do pensamento, explicou-lhe o mistério:

— Rosana, a bicicleta não era de ferro, era de cor. Não a podias prender ao

tornozelo porque ela não era para o teu corpo, era para a tua alma. — E as más

memórias? — insistiu a Rosana nova. — Essas… — A versão mais velha soprou para

longe. — Essas deixamos que a maré as leve. Não as apagas com força: deixas

apenas de lhes dar oxigénio. O segredo é este: só floresce aquilo que regas.

Afinal, colecionar boas memórias é isto: encontrar a luz daquela bicicleta no meio de

todas as sombras que a vida nos deixou.


Vasco Patrício

19- Abril -2026

NOVA ATENA VALE A PENA


No ano de 2008

Nasceu no mês de Abril

Agora já é maior

Atingiu outro perfil !

Nasceu, cresceu, brilhou

Ficou bonita e viçosa

Por muitos admirada

No seu Dia fica vaidosa

Parabéns e Parabéns

Por seres culta e arejada

Agradece aos teus amigos

Que te têm bem tratada!

Tua graça é Nova Atena

És valiosa para todos nós

O teu aroma vale a pena

Despertou o amor em nós

Chamas para o teu seio

Tantos e tantos avós!


Francisco Lourenço

17 de abril de 2026

PARABÉNS NOVA ATENA, QUERIDA MENINA


Foste projetada pelo sonho, fundada com amor, coragem e determinação.

Quando cheguei junto de ti e te senti, já tinhas 2 aninhos.

Recebeste-me afetivamente e superaste todas as minhas expetativas!

Começava uma nova fase da minha vida e tu, a maravilhosa oportunidade a dar berço de

qualidade ao meu novo ciclo. Iniciavam-se tempos de novos laços e muitaFelicidade.

 Que bênçãos trouxeste à minha vida e continuas a trazer às nossas vidas!

Hoje celebramos os teus 18 anos com muita amizade, carinho, admiração e o profundo

 reconhecimento da tua maturidade e valor.

Conheci-te bebé, cresceste e hoje estás a iniciar um novo ciclo.

ATINGISTE A MAIORIDADE.

Neste momento de etapa tão significativa, uma sincronia acontece.

Nova Direção assume generosa e corajosamente o desafio do contributo voluntário

ao teu contínuo crescimento.

A partilha do teu percurso continua assegurada com a determinação que tal

responsabilidade requer, em amor, dedicação e empenho.

O novo mundo também te visitou. Sabiamente o acolheste e te adaptaste com a

introdução de novas metodologias necessárias aos tempos de então, que impunham

afastamento físico entre todos, mas que pouco perturbaram o caminho que já

percorríamos! Obrigada à capacidade e dedicação de quem , com o seu

conhecimento e notável disponibilidade , foi determinante nessa façanha e permitiu

assim que a estrutura se mantivesse.

Foste ajudada nessa mudança que se impunha e GRATIDÃO continua a ser

sentimento dominante.

Nasceste, cresces todos os dias, revejo-me em ti, e é neste contributo genuíno de

partilha, que nos estimulas a unir esforços de reciprocidade e generosidade .

Com o contributo de todos, com o melhor da nossa essência, com a disponibilidade

para dar e receber, com o respeito pela individualidade no coletivo, o caminho é

promissor.

A partilha une, engrandece, expande o coração!

Ninguém está isolado de ninguém, irradiamos de uma Fonte comum e influenciamos

o Todo.

Todos nos enriquecemos na partilha de amor e respeito dessa natural corrente

energética.

Sou grata porque existes, sou grata porque o meu coração vibra na frequência da

razão que move a tua ação nas nossas vidas.

Obrigada pelo espírito de partilha e Bem-Estar que promoves.

Obrigada pelo que me dás e me permites dar.

Crescer na experiência cuidada e responsável, dá sentido à vida.

Desejo-te, querida menina, muitos anos de caminho e vitalidade.

Desejo que continues a engrandecer e a dignificar a vida de todos que fazemos

parte da tua.

Obrigada.

Maria de Lourdes Santos

17 de Abril de 2026

É TEMPO DE


O mercado ganhava vida e fervia de gente;

era um entra e sai constante, gritos pregões e risos

todos faziam negócio e o que vendia mal dava tempo

para pousar na banca, pois logo outra mão levava.

Um dia, já sem a azáfama da algazarra, quando o mercado

cansado se preparava para o seu banho de fim de manhã,

entraram dois homens pelo portão principal.

Um era alto e elegante; o outro, mais bonacheirão,

de casaco escuro e comprido.

Pela maneira introvertida como moviam os braços

tinham possivelmente os dedos encaracolados e feios.

Rasgaram o mercado como sombras e varreram a luz da manhã

até à banca da tia Rosa, que sempre usava uma flor em cada dia

por sobre a roupa, e perto do coração. Era o filho morto na guerra.

Recordo ainda o olhar feroz do mais baixo, e o sorriso sarcástico do outro.

A tia Rosa encarou-os de soslaio, preparada para o que desse e viesse;

há muito o sangue lhe “fervia” na ansia de um dia como este.

O mais pequeno todo se esticou por sobre a banca para tirar a rosa

que a tia Rosa orgulhosamente exibia junto ao peito em cada dia

mas antes que o conseguisse um som quase trovão ecoou

por todo o mercado, tal a força do murro que a tia Rosa lhe deu.

Furiosa discussão nem começou, pois todo o mercado se interpôs

entre a tia Rosa e o “marmanjo” que lançava fogo dos olhos e das mãos.

Durante muito tempo a tia Rosa não apareceu no mercado, mas

sempre o seu negócio continuou com uma ou outra companheira, e

o valor das vendas lhe era entregue em local diferente dia a dia.

A tia Rosa reapareceu no mercado com a sua rosa de sempre

mas também nesse dia com um cravo vermelho e cantou junto

com todos os do mercado a canção de então: “Grândola vila morena”

Hoje recordo esses dias vividos junto da minha avó e penso para comigo:

Vale mais julgar, assistir ou ser julgado por coerente com os princípios

aprendidos desde o berço, ou apenas agradecer os dias da liberdade?


Fernando Baptista

Cela Velha, 30.11.2025