20/07/2026

QUANDO ERA PEQUENINA

Quando eu era pequenina
Via tudo colorido
A minha tia era amarela como o sol
que tanto brilha
Quando me pegava ao colo
dizia-me sempre querida filha
A outra tia era vermelha
Alegre, sempre a cantar
Quando olhava para ela
apetecia-me dançar
O meu vizinho era cinzento
Muito aprumado e conciso
Era de poucas palavras
Dizia: rapariga tens juízo
O meu irmão era um valente
E era um amigo meu
Espada e pau sempre à cinta
Era azul da cor do céu
O meu Pai era verde
Cor da floresta, cor do mar
Levava-me sempre às cavalitas
Daria o mundo para me salvar
A minha Mãe. Ah, a minha Mãe
Vinha-me para a escola chamar
dava-me um beijo tão doce
Que eu nem queria despertar
Mas quando eu abria os olhos
via um arco-íris a brilhar
Ela era todas as cores
com que eu podia sonhar

Mitú Branco
16/07/2026

14/07/2026

Escrita Criativa - A VIDA É UMA FILA NO TEMPO

 A VIDA É …

Danilo vê lá se não andas a correr à parva! Está bem?
Nós nunca corríamos à parva, eram brincadeiras vulgares
de miúdos da nossa idade a gastar excessos da bateria!
Quando jogávamos à bola ele era quase sempre o guarda-redes,
mas ele contrariamente tinha mais vocação para avançado.
Lanchávamos muitas vezes em minha casa, porque me apercebi
que na casa dele não havia alternativa a um pão com marmelada,
e uma caneca de café.
Mas na quadra natalícia e Páscoa ia lanchar com ele em sua casa pois
as azevias e os coscorões feitos pela sua avó eram uma delícia dos deuses.
O Danilo saiu ao pai. Tinham dois animais muito engraçados, um cavalo
castanho, enorme, que quando passava à minha porta a puxar a carroça
esta quase voava e o Danilo nela a meio sentado com ar muito feliz.
O outro era um enorme galgo cuja pele fazia lembrar a de um tigre.
Um dia, o pai acabado de chegar da fazenda vinha com cara de caso.
Ele conhecia bem o pai e logo soube haver qualquer coisa menos feliz! 
Vendi o cão! Como é dia de caça andavam aqui por perto um grupo de caçadores
que viram o cão à solta a caçar sozinho. Passado um bocado entrou aqui
um deles e perguntou se queria vender o cão. Hesitei, mas ele subiu a parada
e acabei por lhe vender por quatro notas de conto. Temos comida por uns tempos!
Sinto-me privilegiado por ter tido estes momentos com amigos que hoje recordo.
Viver é a experiência que nos ditam e julgamos diferente da verdade…
Mergulho no romper da claridade e sei que pouco tempo me debitam
para estar à tona deste afundar de espanto à espera da indiferença!
Ninguém me muda, enfim! Em cada caso vejo uma intenção saudável,
de não saber que sabe bem e ganha forma e nova dimensão!
Se a vida pode ser uma fila no tempo, então quero vender esta ansiedade
sabendo que a esperança mora mesmo aqui ao lado.

Fernando Baptista


          

Epígrafe: Aos 80 o tempo futuro acaba. Restam o passado e o presente! Até quando?
A vida é uma caminhada em que o tempo dita o ritmo. Cada momento é uma contagem decrescente, onde a única certeza é o movimento constante para o fim. A expressão "a "A vida é uma fila no tempo" traduz a ideia de que todos partilhamos da mesma jornada, avançando passo a passo. Nesta "fila", o tempo funciona como a fita métrica da nossa existência. Algumas pessoas encaram a "fila" com ansiedade, focadas apenas em chegar ao fim; enquanto que outras percebem que a vida não está na "fila do tempo". A "fila" anda da mesma forma que a vida anda - até que algo a faça parar. O que há de errado nisso? Nada! Há uma indústria cultural gigante que se alimenta da dor da separação e da sensação de abandono. Esse contexto ajuda a explicar por que a dor legitima e inevitável das rupturas, frequentemente vira depressão e violência. Existe um incentivo social para que isso aconteça.
Apesar de tudo, há virtudes na ideia de que "a fila anda". A primeira é lembrar-nos de que os tempos de abuso sentimental acabaram. Se não tratarmos as pessoas com respeito e carinho elas vão embora. A oferta afetiva é enorme. Em toda a parte há gente disponível e atraente, de todos os tipos e de todas as idades. Saber que a "fila" anda ajuda a prestar atenção à pessoa que está ao nosso lado. Quem gosta cuida!!!

Jerónimo Pamplona



O mote desta semana surpreendeu-me. Li a frase várias vezes e, em todas elas, nunca me identifiquei com a afirmação nela contida.
Procurei possíveis significados das três palavras-chave – VIDA, FILA, TEMPO – e não encontrei fio condutor que me levasse àquela conclusão.
De forma muito básica e sucinta:
Fila é, em si mesma, um alinhamento de elementos em sequência, com um imediatamente atrás do outro. 
Vida é o período que decorre entre o nascimento e a morte durante o qual existe um processo de evolução natural, com replicações e mudanças permanentes. 
Ora é de tal forma intensa e variada a evolução neste processo que nenhuma fila, por mais desordenada que seja, a consegue abarcar.
Juntar o tempo a estas duas noções não vem ajudar nada porque o Tempo não passa de um período contínuo e indefinido no qual os eventos se sucedem durante a época em que se vive. 
O tempo é algo ilimitado em que o ser humano coloca baias, criando “princípios e fins” para se tentar entender nessa imensidão.
Juntar estes três conceitos e afirmar que “A vida é uma fila no tempo”… não chego lá. 
Mas aceito que possa existir essa ligação surpreendente.  Para mim, no entanto, e  neste momento, é apenas um conceito interessante, embora estranho.
Aguardo, com muita curiosidade, o desenvolvimento dado a este tema pelos Companheiros de Oficina e o texto que inspirou o mote. Serão, seguramente, fontes de aprendizagem para mim.

Maria Amélia Mendes



O Tempo é uma fila.

A Fila é um tempo.

O Tempo e a Fila fazem parte da vida.

Maria José Saraiva



O percurso de uma vida pode assemelhar-se à descida das várias filas de um anfiteatro. Começa-se por cima, desconhecendo o ritmo, a velocidade na descida, o tempo que demora a alcançar a primeira fila, a que representa a nossa finitude, a que permite a passagem para o infinito.
Perante esta imagem, recordo o que sempre dizia a Tia Lúcia, quando a encontrávamos , ao fim da tarde, sentada á porta de casa. Correspondia, com carinho , aos nossos cumprimentos e quando questionada sobre a sua saúde ou bem estar, respondia, invariavelmente:
“Estou bem, minha filha, já estou sentadinha na fila da frente.”
Falava com a sabedoria e serenidade dos velhos.
Contudo, na primeira fila, não se encontram  apenas os velhos. Diria que há representantes de todas as idades, aqueles que não tiveram oportunidade de desfrutar de muitas  das filas porque algo os empurrou para a fila da frente, mais rápido do que seria suposto. 

Teresa Sousa



"Arrisca a lógica do fruto, não a do produto." Lê José Marcos na fachada de um prédio abandonado.
Pela janela do autocarro que circula no pára-arranca da velha cidade, observa filas em cada recanto. A fila interminável à volta do estádio. A fila diante de uma loja ainda fechada, cujo escaparate anuncia os saldos da sexta-feira negra (A cenoura sempre dependurada à nossa frente). A fila na estação de autocarros, onde as pessoas se perfilam para lá dos passeios, gesticulando com os braços como maestros sem batuta, interpretando partituras invisíveis no espaço. Os movimentos procuram dizer alguma coisa, mas os rostos parecem vazios, presos a uma espera sem nome.
Também ele foi parar a uma fila.
Está agora num supermercado. Vê o tempo passar enquanto observa velhinhas arrastando-se entre as prateleiras. O seu pensamento deriva para o idoso sentado no banco do jardim fronteiro ao estabelecimento. Muito quieto, ao sol, o chapéu cobre-lhe quase todo o rosto. Está impávido, sereno.
Espera. Espera o quê?
O que vê à sua volta leva José Marcos a refletir sobre o tempo. O tempo dele. Também o sente escapar pelos dedos das mãos como a areia fina da praia. Ocorre-lhe então que está há anos à espera de viver.
À memória regressa a frase lida no velho prédio: "Arrisca a lógica do fruto, não a do produto."
Uma estranha inquietação apodera-se dele. Abandona a fila e encaminha os passos para a primeira paragem de autocarro. Não olha para trás, nem para as vidas paradas em filas à espera do tempo.
Se a vida é uma fila no tempo, naquele momento José Marcos saiu dela. Quando o autocarro chegou, entrou sem perguntar o destino. Ia à procura do seu templo no tempo.
Nem só os jovens partem à aventura. Do alto dos seus setenta anos, uma coragem tardia dizia-lhe que ainda ia a tempo de recomeçar. A imagem do velho sentado no banco do jardim regressou-lhe à memória, arrastando consigo as diretas dos fins de semana, nas noites loucas de Lisboa e os amigos que pareciam eternos. Tem a sensação de que tudo isso aconteceu na semana passada.
Tinham passado quarenta anos.
O autocarro parou numa cidade desconhecida, junto a uma estação ferroviária. José Marcos comprou um bilhete para um país escolhido ao acaso. Pela primeira vez na vida não procurava um destino; procurava apenas movimento.
Foi nessa viagem que conheceu Angelina.
Sentaram-se frente a frente durante horas. Falaram de lugares, de sonhos adiados, das vidas que cada um deixara para trás. Angelina contou-lhe o projeto a que dedicava os seus dias na Patagónia, protegendo baleias ameaçadas de extinção.
Angelina falava das baleias com o entusiasmo de quem encontrou uma razão para viver. José Marcos ouviu-a durante horas. Havia muito que não via aquela luz nos olhos de ninguém.
Quando chegaram ao destino, desceram na mesma estação.
O acaso que os unira naquela carruagem acabou por levá-los, semanas depois, a embarcar num paquete rumo às terras geladas do sul da América.
José Marcos juntou-se ao projeto de Angelina. Não porque tivesse passado a conhecer tudo sobre baleias, nem porque a Patagónia fosse um sonho antigo. Fê-lo porque, pela primeira vez em muitos anos, sentia que caminhava em direção a alguma coisa e não apenas atrás dela.
Certa tarde, observando o mar infinito e o lento surgir de uma baleia à superfície, lembrou-se novamente da frase pintada no velho prédio da velha cidade:
"Arrisca a lógica do fruto, não a do produto."
Sorriu.
Só então percebeu que nunca estivera preso às filas do supermercado, dos estádios ou das estações. A verdadeira fila era a que trazia dentro de si.
E dela, finalmente, saíra.

Vasco Patrício  









  

01/07/2026

EURÍDICE: O ELIXIR E O TEMPO

“De manhã, o cheiro do café chamava por Eurídice. Dizia sempre que, sem ele, não funcionava — não a figura trágica do mito, mas a mulher real para quem esse ‘vinho da Arábia’ era um bálsamo para a alma e um passaporte para outras latitudes.

Ao primeiro gole, era transportada de volta à fazenda do avô, em Angola. Via de novo o mar de bagas vermelhas adormecido sob o cacimbo matinal e sentia o silêncio húmido da terra antes de o sol subir. Ao entardecer, as batucadas que vinham das cubatas ecoavam na memória e, depois, surgia o luar — o luar africano, vasto, absoluto e quase impossível.

Nessas noites, lia em voz alta Fernando Pessoa, como quem acende uma vela para guiar a lembrança: ‘E eu de pé ante a janela, vi todo o luar de toda a África inundar a paisagem e o meu sonho.’

Mas hoje, o entardecer é pálido e curto. A noite cai abrupta, sem a cerimónia do horizonte africano. De manhã, a geada tolhe-lhe as mãos e a paisagem é recortada por muradas altas que limitam o olhar. Nesta etapa da vida, as memórias da fazenda amadureceram sob o peso das pálpebras; o prisma mudou, e as coisas sentidas são agora outras.

Neste outono de si mesma, sobram a Eurídice os pequenos prazeres colhidos com lentidão.

O café da manhã é tomado no alpendre térreo, sob o abrigo das heras que se estendem para o jardim. Ali, entre o cuidado com as rosas, ela rega um cafezeiro num vaso — um monumento vivo erguido em memória do avô, das vidas interrompidas e do tempo que não volta. Observa o vaivém das andorinhas-dos-beirais, regressando aos ninhos de lama, nos ângulos do varandim. Lá como cá, as andorinhas unem o tempo num voo circular. O cheiro do café continua a chamar por ela, o elixir negro enrolando-se agora num céu diferente, apaladando a sua existência.

Na mesinha de apoio, repousa o diário de uma vida que reescreve memórias. Numa página entreaberta, a caligrafia da página 98 — datada da década de cinquenta na África Oriental — revela o acerto de contas com o destino:

‘…quase sempre errei nas escolhas, e quando acertei não o soube reconhecer. As escolhas da metade que desconheço nem sempre são nossas; são do tempo — cíclicas, sazonais, impiedosas. Repetem-se independentemente da nossa vontade...’.

E, a fechar o pensamento, a frase do filósofo ecoa como um remate à voracidade dos dias:

‘Nada de revolta: honremos as idades nas suas quedas sucessivas e o tempo na sua voracidade.’ Eurídice pousa a chávena. O café está terminado, mas o bálsamo permanece.”

Vasco Patrício
06/05/2026

O FORTE

Ao correr do fio do tempo

Vamos e vimos

Por onde passámos

Tornamos a passar

Ora quase indiferentes

Ora com um novo olhar

Aquele que perscruta

Aquele que nos ensina

O da consciência de que

Sempre estamos a aprender…

Foi o que perante o Forte

Me aconteceu e comoveu.

Conhecidíssimo o de Peniche

Sabida de trás para diante

E vivenciada a história

Da Resistência e da Liberdade

Reposta e celebrada

Em museu ali criado,

Pela forte emoção sentida

Pelo saber que tinha como sabido

Ou pelo que custava a acreditar

Me penitencio, pela diferença

Entre proximidade e memória

Do que a minha geração sofria

E o vivido de quem abnegado e sacrificado

Por dentro lutou, se deu, se martirizou

Novos tempos em liberdade nos ofertou!

Maria Silveira
29.05.2026

REVISITAR PENICHE

Maio despedia-se. Com ele e graças às alterações climáticas as nossas almas,

revitalizadas por dias e dias estivais fora de época após um castigador inverno,

ansiavam por saídas por mais agradável que tivesse sido o aconchego do lar nos dias

frios.

Voltar ao prazer de ver o azul do céu e saborear o calor do sol impôs-se e não

faltaram programas sucessivos de estilos variados entre os quais escolhi revisitar

Peniche.

Pesou a atração pela cidade em si que não visitava já havia bastantes anos e a

atração pela sua localização numa península abraçada pelo Atlântico, o oceano que a

ocidente do nosso país não cansa de apelar aos nossos olhos, de mexer com os nossos

sentidos e de nos encantar com a sua beleza, do amanhecer ao ocaso, à medida que o

mar vai do intenso azul matinal ao alaranjar com o pôr do sol no horizonte, de nos

encantar com a sua beleza, das trindades ao anoitecer, com o roncar das suas águas

especialmente na maré cheia e com a sua transformação em espelho prateado

particularmente em noites de luar.

A visita foi diurna, o mar estava lindo, com um toque de vento oeste que o fazia

resfolgar na costa de imponentes falésias calcárias ricas em lapiás, as inúmeras fendas

que provocam um relevo muito próprio e que dá um embelezamento característico de

toda aquela zona, cuja paisagem foi enriquecida com o avistamento do arquipélago

das Berlengas não muito longe, no horizonte, num dia de céu bastante limpo. Como

não podia deixar de ser, não faltou a ida muito perto da Nau dos Corvos, o belo

rochedo que lembra uma caravela, erguendo-se no mar imediatamente fora do topo da

península.

Duas curiosidades bem conhecidas e que não resisto em referir foi ter

relembrado que o termo Peniche terá origem na palavra península e que a expressão

amigos de Peniche, que significa pessoas com quem não se deve contar, vem de um

episódio histórico, a fuga ali havida dos militares britânicos que viriam ajudar na luta

pela independência do nosso país no século XVI, uma atitude de recuo que, por

dificuldade de haver herdeiro, resultou no fim da segunda dinastia, dando lugar ao

início da terceira, a Filipina, colocando em causa a soberania de Portugal durante o

respetivo reinado.

Um outro aspeto relevante de Peniche é a atividade piscatória, mas desta vez

não houve oportunidade de ser incluída na visita. Porém, uma outra associada a ela e

muito interessante é a da renda de bilros, tema que nos despertou passar junto ao

monumento às rendeiras de Peniche justamente homenageadas por tão belo trabalho

artesanal e velha tradição artística influenciada pelas redes utilizadas na pesca.

Outro peso importante nesta saída foi a visita ao Forte de Peniche de má

memória no período da ditadura que antecedeu a democracia instaurada com o 25 de

abril de 1974. Este alberga um museu* sobre a resistência havida e a repressão sobre

os que nela militaram durante décadas. Uma dor de alma. Impossível não se ficar

chocado com uma tal realidade independentemente dos credos então envolvidos e

diferença de conceitos de liberdade que dificultaram o modelo de sociedade

sucedâneo a essa época e que nos rege apesar das suas muitas contradições: o

democrático.

Um périplo pleno de momentos enriquecedores e tocantes. Mais uma

experiência que fica. Mais um estímulo que muito acrescentou ao que poderia julgar

sabido, mas que afinal está sempre aquém por mais que se vá e volte a qualquer que

seja o lugar.


Luísa Machado Rodrigues
2026.06.20

____

* Museu Nacional Resistência e Liberdade

MUNDIAL DE FUTEBOL DE 2026, UNS SERÃO PAGENS, OUTROS SERÃO REIS

Mundial de futebol, com milhões a espreitar

Mundial de Futebol

Muitos milhões para se ganhar!

Portugal, Portugal, Portugal

Vamos pela Vitória lutar

Só assim se poderá ganhar

Só assim se poderá ganhar!

Jogar para trás e para os lados

Os golos nunca irão chegar!

Jogadores muito concentrados

Jogadores muito ansiosos

Perder, empatar, ganhar

Só alguns sairão Vitoriosos!

E com a bola a Rolar

Olhos postos na televisão

Cada país tem esperança

Numa Honrosa Prestação!

Viva Portugal, viva a nossa Seleção!

Francisco Lourenço

20 de Junho de 2026

VER NA ESCURIDÃO


Conheceram-se numa festa onde havia muitos amigos seus. Adolfo foi

apresentado a Dionísia nessa festa. Dançaram até altas horas da noite. A

atração foi notória e trocaram números de telefone.

Três dias depois, Dionísia recebeu um telefonema de Adolfo, convidando-

a para tomar café e passear à beira mar. Ela quis conhecê-lo melhor,

depois de algumas observações que as amigas lhe fizeram sobre a

personalidade do seu novo pretendente. Diziam-lhe que ele era conhecido

por ser muito cerebral, nada emotivo, com comportamentos um pouco

fora do normal, muito autocentrado, narcísico até, nunca tendo

evidenciado alterações de humor quando os amigos contavam histórias.

Estas observações das amigas aguçaram a curiosidade em conhecê-lo

melhor. Dionísia sempre tinha sido muito curiosa e amante de desafios.

Era uma elegante e bonita mulher, nos seus vinte e um anos. Tinha já tido

vários namorados, mas de pouca duração, nenhum lhe alterou a sua

natureza, gostava de divertir-se, esperando alguém por quem

verdadeiramente se apaixonasse. Trabalhavam os dois no sistema

bancário, mas em bancos diferentes. Nenhum deles quis tentar a

universidade, quiseram arranjar emprego e deixar de depender dos pais.

Não passearam à beira mar como ele tinha proposto, antes ficaram a

conversar numa esplanada. Um mês depois de se conhecerem,

combinaram ir de novo à discoteca. Algumas amigas dela foram também,

dançaram alegremente, mas Adolfo tomou todo o tempo de Dionísia,

inclusive saíram várias vezes para o parque onde se situava a discoteca. As

bebidas e o calor da noite lisboeta fizeram esquecer as amigas. Um carro

na escuridão serviu de encosto para ele lhe “pôr o selo”.

Casaram seis meses depois, quando a barriga de Dionísia começava a ficar

gordinha.

O bebé nasceu saudável e era o encanto da avó materna. Quando o casal

aceitava convites para passeios com amigos, a avó disponibilizava-se com

agrado em ficar com a neta.

O prédio onde moravam, na periferia da capital, tinha apenas quatro

andares, um rés-do-chão e três andares sem elevador. Viviam ao todo

naquele bloco oito famílias, que se conheciam bem, pois todos eram

moradores desde o início da utilização do prédio, com exceção do jovem

casal. Outros blocos semelhantes formavam o essencial daquela rua

pacata da freguesia de Odivelas. Os moradores cruzavam-se no café do

meio da rua. No café e nas saídas diárias para passear os cães, os vizinhos

criaram uma ligação forte de proximidade, um “espírito de bairro”.

A rua era pacata, mas naquele prédio os novos inquilinos quebravam

frequentemente o silêncio das paredes. Discutiam altas horas da noite e

gritos de criança eram frequentes naquele contexto. Os vizinhos estavam

preocupados, sobretudo com o efeito que as discussões teriam na criança

de menos de dois anos.

Os pais de Adolfo viviam em Trás-os-Montes, eram agricultores

remediados. O pai teve um princípio de acidente vascular cerebral e o

filho quis ir vê-lo ao hospital, em Vila Real.

Saíram de Odivelas pela manhã, depois de entregarem a filha à avó

materna. Decidiram parar no meio do caminho para almoçar na Bairrada,

num restaurante especializado em leitão.

Adolfo comeu e bebeu abundantemente. Mas no fim, quando veio a

conta, protestou com o empregado dizendo que o leitão não era de boa

qualidade e tinha muitos ossos. Esta discussão chamou a atenção de

outros comensais, admirados com aquela reação intempestiva daquele

cliente. Logo que entraram no carro para prosseguir viagem, começaram

em discussão violenta sobre os comportamentos que Adolfo andava a

evidenciar nos últimos meses. Ela insinuou pela primeira vez a eventual

separação do casal. Ele parou o carro na berma da autoestrada e bateu-

lhe, duas violentas bofetadas deixaram-lhe a cara muito vermelha. O resto

da viagem foi um choro permanente. Dionísia ameaçou sair do carro

quando passassem por Lamego e pedir boleia para Lisboa. Com violência

verbal e física, conduzindo a alta velocidade, ele ameaçou-a de morte se

fizesse isso. Dionísia esperou no carro até que ele regressasse de visitar o

pai. O regresso a Odivelas decorreu em silêncio.

A partir daquela viagem, a vida do casal mudou drasticamente. Acusações

de adultério eram frequentes nas discussões a altas horas da noite, com

crescente inquietação dos vizinhos, que temiam um dramático desfecho

daquelas discussões.

Certo dia, um dos vizinhos fez queixa na esquadra da PSP que serve

Odivelas. Pensou que a polícia devia estar atenta a uma eventual

desavença séria daquele casal. Algumas rondas da polícia confirmaram as

perturbações para a vizinhança. O casal passou a estar referenciado.

Num fim de tarde de outubro, o que era temido aconteceu. Com uma

agressividade nunca vista, Adolfo abriu a porta de casa e empurrou

Dionísia para o patamar da escadaria. Da luta corpo a corpo aconteceu

que Adolfo foi parar ao fundo da escadaria daquele andar, de cabeça para

baixo. Morreu com a cabeça enfiada no contador da água cuja porta

estava aberta. A PSP e depois a Polícia Judiciária tomaram conta da

ocorrência. Formularam acusação de homicídio por parte da esposa,

Dionísia. Seis meses depois, começou o julgamento em Loures, no Juízo

Central Criminal. A maior parte dos vizinhos disponibilizou-se para

testemunhar. Interrogados, nenhum assumiu explicitamente quem tinha

cometido o crime. Numa das sessões do julgamento, Dionísia descreveu

pormenorizadamente as cenas do restaurante do leitão e na subsequente

viagem a Vila Real. Os vizinhos estavam incrédulos, porque Dionísia nada

disso tinha contado antes. As dúvidas sobre os factos apurados

avolumavam- se. Seriam os dois mentalmente saudáveis? A certa altura

do julgamento, quando tudo parecia estar orientado para a condenação

de Dionísia, o vizinho que morava no andar de cima esclareceu o coletivo

de juízes do seguinte:

“Senhores juízes, eu e a minha mulher naquele dia chegámos a casa com

alguns minutos de diferença. Fomos às compras, saímos da paragem do

autocarro, que fica longe de casa, e eu fiquei no café a jogar na

raspadinha. A minha mulher seguiu para casa, mas ela encontrou uma

amiga e demoraram na conversa. Acabei por entrar primeiro no prédio.

Mas eu não tinha chave de casa, tinha-me esquecido dela naquele dia.

Esperei pela minha mulher nas escadas do meu andar, por cima do andar

do casal desavindo. E, sentado num degrau, no escuro, porque a luz das

escadas tem sensor que se apaga sem movimento, eu ouvi a discussão

que o casal estava a ter. E vi a porta da casa do casal a abrir-se e o Sr.

Adolfo a empurrar a mulher; a luz do patamar acendeu-se e eu vi a luta

dos dois a ver quem ia ao chão, num jogo de empurra. A Sr.ª Dionísia

defendeu-se muito bem dos empurrões do marido. E nas voltas do

empurra ele escorregou escada abaixo. Eu acho que ela agiu em legítima

defesa, não penso que houvesse intenção de matar”.

Fez-se silêncio na sala de audiências.

O coletivo de juízes marcou nova sessão para uma semana depois.

A sentença ilibou de crime a vítima de muitas ações de violência

doméstica. A paz regressou àquele bairro.


VITOR CARVALHO

20 DE JUNHO 2026

AGUA BEM PRECIOSO


A qualidade e quantidade de água que ingerimos é determinante na

nossa saúde.

Inquestionável! E se a esta informação acrescentarmos novos

elementos, conhecimento de que poderemos beneficiar? Sem o fluxo de

água pura, limpa, não há abundância nem vida! Há rituais de indígenas

cujo propósito é assegurar a sua qualidade; eles têm o conhecimento e a

sabedoria, compreendem a natureza sagrada da água e honram-na

através de cerimónias.

O mundo dito civilizado perdeu a conexão sagrada com a água; esta

tornou-se um recurso usado na atividade humana, sem a preocupação

com a sua natureza mais profunda. As águas ficaram poluídas, tóxicas,

disseminadoras de morte. O ecossistema ficou desequilibrado e a vida

insustentável nalgumas zonas do planeta. A poluição instalou-se. Não só a

água, a Terra em geral, está contaminada, fora do equilíbrio natural e nós,

seus habitantes, cuja natureza é maioritariamente água (70%), sofremos

as consequências inerentes; e o que fazemos?

Compete-nos então alterar o que nos destrói e intervir

conscientemente no processo de recuperação.

O contributo do investigador Japonês Masaru Emoto é notável e

revolucionário na sua simplicidade.

Estabelece uma relação entre a estrutura molecular da água e o poder

do pensamento que lhe é dirigido.

No seu estudo, investigou os padrões de cristalização da água

submetida a vibrações positivas, negativas ou neutras. O impacto das

palavras, intenções, música,.., direcionadas com elevada vibração, poderá

restaurar a sua pureza, os seus códigos de luz. Significa que nós humanos,

poderemos agir e assim, contribuir para a cura e regeneração das nossas

águas internas e externas.

A cura pela água é ancestral, os métodos evoluem de acordo com as

necessidades e esse caminho requer informação e adaptabilidade à nova

linguagem, própria de qualquer processo evolutivo.

Continuamos presos ao que vai colapsando ou temos abertura para

integrar novos conceitos? Temos caminhos de expansão disponíveis

mesmo que ainda não sejam reconhecidos cientificamente. Explorá-los,

usá-los para intervir em nós, na humanidade, no planeta, será desejável.

A sua aceitação é sempre opção pessoal, contudo, torna-se urgente

decidir!! A vida mostra-o diariamente.

Termino a minha participação neste projeto referente ao Ano letivo 2025-

2026 com o meu contributo para um tema que considero sensível, que

nunca é demais abordá-lo e sobretudo numa perspetiva cuja dimensão vai

para lá do bom uso e utilização consciente da água, enquanto elemento

ameaçado por inúmeros fatores, de má utilização.

Agora tempo de férias, tempo quente, aumento do consumo de água…!

Necessidade de parar, refletir, descansar, repor energias, alterar rotinas.

Encontrar espaço para ouvir o silêncio, suspender a interação permanente

que, sem a condenar, poderá em excesso, tornar-se destrutiva e perigosa.

Somos absorvidos pela máquina e este processo ameaça a serenidade tão

necessária ao equilíbrio emocional.

O ruído desestabiliza e o silêncio não significa ausência de comunicação!

Podemos sentir-nos sós no meio da multidão e podemos sentir-nos bem

acompanhados apenas pela nossa própria companhia!

Ter tempo para os afetos, para a contemplação de um por do sol, não

pressionados pelos horários do fim de dia….,o jantar a horas, o deitar a

horas!

Ter tempo para alterar rotinas que nos reposicionem quanto à

considerável “inerência” do consumo exagerado deste precioso Bem…e

ainda para a recuperação da sua qualidade.

Desejo excelentes férias a todos, que elas nos tragam a oportunidade de

parar, descansar e sobretudo de nos centrarmos, com tempo suficiente de

qualidade em nós próprios, sem as pressões quotidianas a interferirem no

tempo que nos é necessário e nem sempre suficiente, para agendas tão

excessivas! Sendo nós grande percentagem de água, contribuir para a cura

e regeneração das nossas águas internas poderá ser um TPC para férias!


Maria de Lourdes Santos 

18 de Junho de 2026

20/06/2026

MOTE: "Como Dois e Dois são Quatro, Sei que a Vida Vale a Pena"

 UMA LÓGICA DA VIDA

Na praia ela era a Mila das latinhas.
Trazia a noite despenteada, pela mão o cheiro de resina.
Conhecia bem o silêncio dos valados e o sabor das amoras.
Surgia em qualquer lugar da praia sem hora certa, nem anuncio.
Deambulava por ruelas e escadinhas na procura de latas e papeis.
A garotada gritava alvoroçada: É malta! Lá vem a Mila das latinhas!


Talvez fosse feliz, talvez, não sei. Talvez se julgasse rainha!
Para ela ser rainha ou princesa seria igual, é o que penso.
Quando pisava as estevas do pinhal enchia de rosmaninho
os bolsos dos calções, pois o rosmaninho seria incenso ou ouro
já que era dona das dunas, dos chorões e das searas de piteiras.

Todo o horizonte era só seu. Dava ordens à terra e até aos céus,
trauteando confusas ladainhas enquanto arrastava latas pela estrada.
Inventava carreiros de acaso na escuridão, vedados a todos os demais.
Pedia à bruma para ser farol das brisas de espuma e sargaço.

Naveguei até ao mar de ondas enroladas, azuis sem haver tela.
Chão de choros por calar, pintura de aguarela no oiro velho das estrelas.
Quando o mar subiu a vaga, fiz-me nuvem rendilhada em recortes
de algodão, mancha de chumbo, agoiro de chuvada sem esperança.

Ela continuava dia a dia a percorrer a praia da sua vida (que vale a pena)
arrastando as latas, talvez se imaginando na viagem de núpcias.
Oh! porque não ouviste o meu recado! Onde me levas na inspiração?
Roubaram-me as palavras por dizer e as fontes secaram no jardim,
onde o lilaseiro de perfume qu  ente, tinha as flores desbotadas pelo espanto.
Quase poesia, só rimas estranhas. Será que dois e dois são quatro?


                                                                                                Fernando Baptista



Ao ler o tema desta semana, duas frases vieram, de imediato, à minha
memória:

- Prognósticos só no fim do jogo, do pequeno grande capitão João Pinto (defesa direito) do F.C.P.

- Tudo vale a pena se a alma não é pequena do grande poeta Fernando
Pessoa

 que caracteriza muito bem no poema Mar Português publicado,
originalmente, na revista Contemporânea em 1922 e mais tarde (1934) no
livro Mensagem:

Ó mar salgado, quanto do teu sal.
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu!

                                                                                           Jerónimo Pamplona



A certeza matemática…

Não sei aplicá-la à vida
Porque a valia que tem
É concreta e definida
Mas também é problemática.

Na vida não funciona
O dois mais dois serem quatro
Porque as equações são tantas
Neste espaço de teatro
Que a lógica te abandona.

É que a vida é tão bela
Que mesmo correndo mal
Eleva-nos, faz de nós gente
Mostrando-nos, no final
Que vale a pena vivê-la.


                                                                                                            Maria Amélia Mendes



Isto cada vez está mais difícil! Como é que vou trabalhar este tema? Provavelmente o mais fácil seria arranjar uma história dum casal com dois filhos.

A mulher teria tido muita dificuldade em engravidar, e teve de se sujeitar a tratamentos de fertilização que felizmente resultaram num par de gémeos, ainda por cima de sexo diferente. 

Afinal, hoje em dia muitas mulheres lutam para conseguir engravidar. Uma das causas é o facto de cada vez mais, quererem ter uma carreira profissional, e quando dão por isso, a idade mais fértil já foi. Não é uma censura, mas apenas a constatação dos factos.

E depois como vou acabar a história?

Acabar por cair no melodrama de que o casal só se sentiu realizado quando passaram a ser quatro?

Definitivamente, não estou inspirada e como não quero ir consultar a IA,fica assim mesmo.


                                                                                                                  Maria José Saraiva




Viver é uma acto de sabedoria.
Sabedoria para descobrir um pequeno brilho na noite escura que me
esmaga.
Sabedoria para me sentir encorajada pela mão que se estende, pela
meiguice de um olhar ou pela ternura de um sorriso.
Sabedoria para me dar sem esperar o retorno, saboreando a felicidade de
fazer o outro feliz.
Sabedoria para sentir o coração a saltar no peito com a gargalhada de uma
criança ou permitir que uma simples flor possa trazer alegria num dia mais
triste.
Sabedoria para respeitar a natureza sentindo a minha pequenez perante a
obra do Criador.
Sabedoria para sonhar, transformando o desalento em esperança e
conseguir viver neste mundo de violência e desamor, acreditando sempre
que a justiça e a paz sejam mais fortes e possam vencer.
Se nunca me cansar de procurar esta sabedoria, poderei afirmar em cada
dia: “Como dois e dois são quatro, sei que a vida vale a pena!”


                                                                                                                Teresa de Sousa



O Teorema de Etelvino (Ou: Como a Vida Estraga a Matemática)


Etelvino tem uma folha em branco à sua frente. Olha para ela como quem olha para um
problema de matemática de geometria analítica e faz a pergunta habitual: — E agora?

O raio do desafio exige números, e as aritméticas e ele nunca jogaram no mesmo campeonato. Etelvino é homem de Letras. Dizem que o seu nome tem origem germânica e significa “amigo nobre”. Portanto, como bom nobre que é, recusa-se a baixar ao nível da tabuada e espera que essa nobreza o ajude a escrever, porque sozinho não está a ver o caminho. As ideias lá terão de aparecer, nem que venham aos tropeções.


O poeta que me perdoe, mas para mim a alma vale sempre a pena — seja ela tamanho XL ou júnior. E se a alma vale a pena, então a vida também vale. Pequena ou grande, tranquila ou atribulada, vale. Já perceberam por onde vou? Eu também não.

O busílis da questão: a crise existencial do E e do MAIS deixa-o atarantado. Mas vamos ao
tema. Dois e dois são quatro. Toda a gente sabe isso. É uma certeza que parece resistir ao
tempo, às modas e às opiniões. Mas a vida não tem a mesma disciplina dos números. Quando chateiam Etelvino com cálculos, contas e medições, ele encolhe os ombros: — Sei pouco de números. Sei alguma coisa da vida. E a vida não é uma ciência baseada em zeros, uns e algoritmos de vão de escada. Isso é para as máquinas, que a gente reprograma quando dão erro. A vida vale a pena porque sim, e não porque bate certo no Excel.

Além disso, há aquela expressão que sempre lhe deu nós no cérebro: diz-se “dois e dois são
quatro” ou “dois mais dois são quatro”? Disseram-lhe que ambas as formas estão corretas. Umaova ! Se a matemática é uma ciência exata, metam lá o sinal de "+".

Se dão a liberdade de usar o “e”, o Etelvino junta o 2 ao 2 e vê o 22. E quando vê o 22, não vê algarismos. No linguajar popular, são dois patinhos. Dois patinhos a nadar serenamente num lago, a viver a vida sem pensar em faturas ou no IRS.

Na matemática, dois e dois são sempre quatro. Na vida, duas pessoas podem juntar-se e tornar-se uma família. Duas palavras podem iniciar uma amizade. Dois olhares mudam um destino. E duas lágrimas podem valer mais do que mil discursos. Lá está a vida outra vez a estragar a matemática. Ou talvez a melhorá-la.

Na dúvida, Etelvino vai ao bate-papo com o Tio Einstein. Se a soma já o baralha, ir para a
gramática é o estiranço completo. Basta uma vírgula fora do lugar para a conversa ganhar um rumo completamente diferente. Vivemos rodeados de certezas que afinal não são assim tão certas.

Mas não o lixem, porque até os génios lhe dão razão. O Etelvino mandou um WhatsApp ao Tio Einstein, que lhe explicou a coisa de forma simples: a matemática pura é uma ilusão, porque na tua cabeça é uma certeza absoluta, mas quando a matemática se refere à realidade, deixa de ser certa. E a realidade é um caos: se juntares duas gotas de água com outras duas gotas de água, ficas com... uma gota grande. Onde é que estão os quatro agora, ó Pitágoras?

Obrigado, Tio Einstein. A física teórica é o melhor amigo de quem não sabe contar. Na nossa cabeça, as equações funcionam. Mas a vida acontece cá fora, no meio dos encontros, dos desencontros e dos imprevistos. Sempre que julgamos ter tudo resolvido, surge uma ventania qualquer que nos desmorona o castelo de cartas e muda as contas.

E talvez ainda bem. Porque se a vida fosse apenas uma soma perfeita, não haveria descoberta, nem espanto, nem esperança.

Como dizia o outro génio, o Shakespeare: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia". E, certamente, há mais coisas do que as que cabem numa calculadora de bolso.

Por isso, o nosso nobre Etelvino fecha a página e decreta: a vida vale a pena. Não porque tudo bate certo. Não porque dois e dois são quatro. Mas porque, apesar de sabermos que dois e dois são quatro, continuamos a preferir sonhar com os patinhos a nadar no lago. E, claro, porque de vez em quando a conta do restaurante ainda vem errada a nosso favor.

                                                                                                                            Vasco Patrício






07/06/2026

Tema: A minha casa sou eu


Lá fora o vento tange o violino de cordas retesadas.

Tudo são guedelhas desgrenhadas, corpos erectos que baloiçam.

Oiço o escuro e não o posso ver, vejo o vento e não sei escutar.

Não sei do meu sorriso de romã a abrir. Só tenho vertigens de linho!

Sou o barro que se amassa e molda. Em cada volta sou diferente.

A minha casa sou eu! A criança que mora em mim espanta-se de repente!

Adeus sobreiros das bolotas assadas no forno que enferrujou.

Quero picar os dedos nas ortigas, colher espargos nas balsas dos carreiros,

sonhar de novo com Júlio Verne, e pasmar com a história dos três porquinhos.

Rasgar a noite, doente de paixão, segredar ao papel o primeiro verso, solfejar

a dor de uma canção e dar contas de tudo aquilo que não fiz para matar a

sede.              

Já não sou a minha casa! Que vou dizer ao menino que em mim ainda mora?

Que hoje a casa é nossa, e nela vivem milhares de crianças com cheiro a lua e

mel.

Cavalguei o meu corcel, na noite opaca, sem arreios, sem manta, sem selim.

Sem trajo de cavalgar. Em seu lugar uma casaca, e na botoeira um ramo de

alecrim.

Bati à porta da nossa casa na esquiva madrugada perfumada de aloendros e

poejos.

Fomos amantes na cama desejada e adormeci sobre lençóis de beijos...

Afundei as raízes do meu crer e floresci em versos no madrugar de um poema.

Espalhei o aroma de rimas que escrevi em textos dispersos.

Enquanto a minha carne for poesia, o amor me mate de sede e a fé de

sustento.

Vejo-me no entardecer da paixão, nas derrocadas do futuro, no tédio indefinido,

que só tem sentido quando a seara dá pão no cansaço do obscuro.

No fogo que ateei restam brasas no lume agora calor em mãos rasas.

O batente daquela porta fechada sofreu o silêncio da noite amuada

sem ter no bronze um gemido de dor, com garras aduncas do parece-mal.

Abriremos a porta na manhã clara do novo dia que desponta solarengo.

Escorrem mistérios futuros em cada madeixa que o sol pendura nos rochedos!

Tudo é luz azul e os medos de sombras que escondem escuros

abrem-se em gestos transparentes e vales preguiçosos junto ao mar.


                                                                                                    Fernando Baptista


NÃO! A MINHA CASA NÃO SOU EU! A MINHA CASA SOMOS NÓS!!! EU E A GABI:

COPROPRIETÁRIOS!

A familia que se constituiu em 20 de agosto de 1966 pela junção, no casamento católico, de Maria Gabriela Coutinho Lourenço e Jerónimo Augusto Esteves Pamplona. Este casamento deu origem a quatro netos equatro filhos: três rapazes e uma rapariga que coabitram connosco até constituirem as suas próprias familias e fundarem as suas casas em Munique, Alemanha, Linda- a – Velha, Carnaxide, Atouguia da Baleia, Peniche. Quem visitar a nossa casa em Algés, verificará que nas paredes da sala comum existem 14 quadros: 11 pintados pela Gabi e 3 comprados por mutuo acordo, sinal claro de que a minha casa é nossa desde o momento da compra em 1972.

Os ditados populares* sobre a casa ensinam-nos que a habitação é mais do que um espaço fisico – é o reflexo da nossa personalidade, um refugio de paz e a base da nossa vida:

-Boa romaria faz quem em sua casa fica em paz. 

- A roupa suja lava-se em casa.

- O lar é o reflexo do coração.

- Uma casa você vê, um lar você sente.

-A casa deve ser o estojo da vida, a máquina da felicidade.

- Lar é familia, amor e aconchego.

- Cada espaço tem a sua cara e um pouquinho da sua personalidade


Frases de personalidades célebres*:

«A verdadeira felicidade está na própria casa, entre as alegrias da familia» (Leon Tolstoi)

«Onde quer que viva, esse é o seu templo, se o tratar como tal» (Buda)

«Uma atmosfera de amor em sua casa é muito importante. Faça tudo o que puder para criar um lar tranquilo e com harmonia» (Dalai Lama)

* Fonte - Google

                                                                                            Jerónimo Pamplona



A minha casa é o meu corpo, uma casa construída por pedras vivas.

Uma casa cujo modelo não escolhi porquanto o projecto aconteceu no momento da

concepção. Uma casa irrepetível e insubstituível.

Uma realidade que me permite concluir:

“A minha casa é o meu corpo, sou eu!”


Mas… também existe a casa onde vivo, uma casa de pedra e cal que me acolhe e

abriga, que é substituível, que posso modelar de acordo com o meu gosto e as minhas

necessidades.

Curiosamente, a casa onde também me consigo rever, onde cada objecto tem uma

história para contar. Diria que é o museu que reúne o espólio de toda uma vida.

Analisando tudo em pormenor, também consigo afirmar:

“Esta casa, a minha casa, sou eu!”


                                                                q                                            Teresa Sousa


A Minha Casa Sou Eu

Ambrósia era uma “arrumadinha da silva”, sempre “cheia de nove  horas".Graduada,doutorada, bem-sucedida, organizara a vida com a precisão de quem acredita que o sucesso se constrói a régua e esquadro. Tinha uma carreira de prestígio, um palacete opulento na zona nobre da capital, viagens constantes, reconhecimento. Ainda assim, a casa quetransportava dentro de si permanecia estranhamente despida. Faltava-lhe sempre qualquer coisa.

Desconhecia a velha sabedoria de que há mais felicidade em dar do que em receber. Recusava-se a olhar para as próprias cegueiras interiores. Para ela, a máxima era absoluta:“A minha casa sou eu.”

E era verdade. Mas ignorava a regra essencial: para arrumar uma casa, é preciso primeiro ter a coragem de a desarrumar. E Ambrósia jamais desarrumara a sua. Na sua vida — tal como nas divisões do palacete — tudo permanecia excessivamente alinhado, previsível,intacto.

Nunca permitira verdadeiramente que gostassem dela. Sempre que a vida insinuava afetos, via neles uma ameaça. O amor parecia-lhe um fogo descontrolado: bastava uma fagulha para incendiar tudo o que levara anos a construir. Não, a paixão não fazia parte da sua arquitetura. Gostar de alguém era perigoso. Os inquilinos podiam ser inconvenientes,ingratos, passageiros. Convencera-se de que as casas sólidas não precisam de obras nem remodelações. Venham temporais, os seus alicerces de betão resistiriam sempre.

Mas os alicerces do coração obedecem a outras leis. O coração não se governa: ou ama e se desarruma, ou torna-se apenas uma casa vazia.

Invejava secretamente Hirondina, a empregada, que vivia numa casa humilde, apertada de espaço e cheia de vida. Havia nela a serenidade de quem aprende diariamente a dar e receber amor. Os netos enchiam-lhe os dias, as memórias, a mesa, a alma.

Ao contrário de Hirondina, que tinha a casa cheia de vida, Ambrósia tinha o palacete cheio de espaço. Pelos corredores de mármore, restava-lhe apenas a companhia de um olhar fiel e sem voz, uma presença que adornava a solidão do palacete como uma escultura viva. Ali guardava, no segredo daquela criatura que não julgava, o resto de calor humano que não seatrevia  a dar ao mundo.

“A minha casa sou eu”, repetia.

Mas ao construir uma fortaleza imune à dor, construíra também uma prisão imune à vida. Apregoava frequentemente: “Cá em casa só entra quem eu quero”. A verdade é que nunca deixara entrar ninguém.

E assim passou os anos: vigilante à porta da própria existência, sem perceber que, enquanto se protegia da perda, também se afastava da possibilidade de ser amada. Nunca saberia o que é permanecer no coração de alguém da forma como Marguerite Yourcenar um dia escreveu:

“Você nunca saberá que sua alma viaja, como um doce coração abrigado no fundo do meu coração. E que nada: nem o tempo, nem outros amores, nem a idade, jamais fará com que você deixe de existir em mim. Que toda a beleza do mundo carrega seu rosto, e que um pouco de sua voz ecoa no meu canto.”

Agora, olha em redor e tudo na casa lhe pesa. Não são apenas os anos. Numa parede, uma pintura retratava-a numa postura que não reconhecia.

O palacete continua opulento, mas despido de fotos, desabitado de memórias. As divisões permanecem intactas, silenciosas, vazias de história. Nada ali será demolido — mas também nada será lembrado.

O silêncio esmagava. Ambrósia ligou o rádio, a sua habitual companhia nas noites de tédio. A voz da fadista arrastava-se pela sala, ecoando nas paredes gélidas:

“Eu tinha as chaves da vida e fui roubada Mataram dentro de mim toda a poesia Deixaram só tristezas sem mais nada E a fonte dos meus olhos que eu não queria”

Ficou apenas o eco de uma vida demasiado arrumada para ter sido verdadeiramente vivida. No fim, diante daquele rádio, o seu lamento absoluto:

— “Eu tinha as chaves da vida... e não a abri”. 

(Nota do autor: Excerto do fado Eu tinha as chaves da vida, com letra de Júlio de Sousa e

música de Mário Moniz Pereira, imortalizado por Lucília do Carmo).

                                                                                                    Vasco Patrício

01/06/2026

NA FRONTEIRA DA TERNURA


Na fronteira da ternura

Onde a minha mão procura a tua,

Na busca de uma carícia ansiada,

Na espera serena e ansiosa do desejo

De me perder no teu olhar

Longa, serena e irremediavelmente,

Num mar fluido de sentidos e sentimentos,

Emoções e desejos,

Na plenitude do sorriso alegre e triste

Que recordo de ti.

Num tempo breve e longo,

Num espaço perto e distante,

Vividos na simbiose da noite e da lua,

Do dia e do sol,

Num longo diálogo

De palavras e emoções

De folhear e desvendar o livro da vida

Num encontro de silêncios e palavras

De gestos ousados e tímidos

De avanços e recuos

Na procura permanente do ouvir e sentir

Palavras sempre novas.

Na urgência de inventar um olhar mais profundo,

Um beijo mais doce, à flor da boca,

um procurar lento à flor da tua pele

que tarda em chegar a mim.


Maria de Freitas

maio 2026

DEVANEIOS (DESAFIO / TEXTO COLETIVO)

 Amo, pelas tardes demoradas de Verão, o sossego da

cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste

acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício.

(texto de Fernando Pessoa/Bernardo Soares)



Amo o Pôr-Do-Sol visto da minha janela. O sol esconde-se

atrás do Rio, a Lua surge e traz a noite consigo. Agora

descanso e faz-se silêncio.

Lembro-me das árvores que no passeio voltam e revoltam ao

sabor do vento, espalhando a sua sombra sobre o mundo.

Prefiro a vida real do que a sonhada; o sonho é demasiado

agradável e envolvente e rouba-me a prudência.

Não vou atrás do sonho, ele é que tenta levar-me. Resisto-lhe.

Ele abraça-me na sua imaterialidade envolvente e, arrasta-me

num voo rasante  um pé cá, um pé lá...

Descolo, rendida.

É tão bom voar!!!....

O sossego da cidade permite o desenrolar do bulício do meu

sonho.

Será razoável pensar que é possível idealizar algo ou ser

criativo em redor de algo que nunca se viu, nem de que há

registo oral ou escrito?

(A suposição é de que é preciso ter lido muito sem sair do seu

pequeno mundo).

Será possível imaginar ou descrever o comportamento de um

budista sem ter lido ou vivido os ensinamentos de Buda?

Amo o sonho do fim da tarde em que sou embalada pelo vento

entre as árvores.

Olho os verdes do arvoredo sacudido pelos ventos de Maio.

Há poeiras no ar e pessoas que se queixam de alergias.

Há árvores floridas e flores de mil cores. Maio de mil feições.

Volto ao real. Operários regressam das fábricas, varinas

regressam com cabazes à cabeça. Os gatos miam nos becos

sujos e escuros.

A vida normal desfila à minha frente, mas não a vejo. Imagino-

me longe, na espuma duma onda nascida no casco do navio

que parte para longe, rumo ao desconhecido.

Grupos de crianças sorridentes e barulhentas a caminho de

casa, contrastando com as filas de homens e mulheres, de

olhar cansado, no final de um dia de trabalho.

Uma criança corre atrás duma bola. O que pensará ela das

pessoas apressadas que caminham absortas? Será que se fixa

na cor dos sapatos ou na cor dos olhos, na roupa, nos

chapéus, nos objetos? De noite sonhará com estas pessoas ou

com nuvens em forma de ondas e cavalos?

Com que elementos constrói o seu imaginário? Talvez com o

barulho das folhas das árvores, quando o vento sopra. Talvez

com o chilrear dos pássaros do parque onde passeia ao

domingo. Talvez com o barulho dos elétricos que descem e

sobem a rua. Talvez com os abraços quentes e apertados dos

avós que a escondem num ninho pequeno e seguro.

Este mundo que sonha é apenas seu. Nele vive, cresce, sorri e

descobre.


ALUNOS E PROF.ª DE LITERATURA PORTUGUESA SÉC.XX

SEM POESIA ESMORECE A UTOPIA


Sem poesia, não canta a cotovia

Falam as armas, esmorece a utopia

Negoceiam os poderosos, a falsa harmonia

Nos campos minados, não cria a cotovia!

Nos ninhos destruídos, não chilreia a alegria

Valha-nos a esperança, de ter paz um dia

Que se calem as armas,

Que se escute alegre sinfonia!


Francisco Lourenço

19 de Maio de 2026

ARTE XÁVEGA - PESCA ARTESANAL

 

É dia 20 de setembro de 2021.O Verão a despedir-se e o equinócio a aproximar-se.

A Costa da Caparica, em fim de tarde, numa generosa e extensa oferta de fresco areal 

dourado, rendilhado por fios prateados de água cristalina, resiste ao peso dos corpos que 

se deslocam acariciados pela brisa amena e usufruem a maré baixa. É o convite irrecusável 

à deliciosa caminhada numa contagiante tranquilidade.

Ao longe, silhuetas indefinidas junto a um barco, suscitam-nos curiosidade. Avançamos até 

lá.

Cruzamo-nos com muita gente que transporta sacos verdes, dentro dos quais algo mexe.

Finalmente chegamos ao local da grande concentração que ali permanece silenciosa, mas

aparentemente esclarecida.

Nós, no entanto …..em total tentativa de entendimento de tantos sinais para descodificar, 

vamos fazendo perguntas.

O areal está irreconhecível, coberto por milhares de gaivotas! O sol, na linha do horizonte, a

despedir-se, envolto em lençóis alaranjados e nós deslumbrados continuamos 

embrenhados em absoluto êxtase e espanto!

O barco (Rei dos Mares), está ocupado por pescadores em expetativa e olhar dirigido para a

linha do horizonte.

O areal está coberto com plásticos, qual manta de retalhos!!! Preparativos para futuro ou

vestígios do passado?

Decido perguntar a um pescador se há peixe e a resposta é clara: “já não há mas vai haver, 

já não demora”…. O sol entretanto desaparece, o frio aparece e o peixe? ainda não visível.

Apetece-me perguntar a previsibilidade horária, contudo, e porque a magia paira no ar, 

deve ser aceite e respeitada na sua autenticidade…..

Aguardo, e o meu olhar percorre incessantemente tudo que visualmente me é oferecido.

Finalmente….. os tratores iniciam a marcha, avançam mar adentro, os pescadores avançam

em paralelo, como cumprindo um ritual e orientando o percurso.

A excitação do espetáculo sem informação complementar continua, apenas a intuição 

desperta, supera o desconforto do frio e do desconhecimento.

As gaivotas num impulso coletivo, ultrapassam os homens e as máquinas, avançam

agressivamente e lá longe, numa pirueta coletiva invertem o sentido, acompanhando do 

alto, a rede a ser puxada para terra.

Finalmente o pescado chega ao areal, começamos a entender, é lançado freneticamente 

sobre a manta de retalhos e começa a seleção rápida, tal a pressão de ataque provocada 

pelas gaivotas que baixam em massa e em estridentes gritos. Peixe agrupado e 

rapidamente começa a venda tentadora perante tanta variedade.

Apetece comprar muito peixe vivo, garantidamente fresco.

E agora sim, também temos sacos verdes cheios de bom peixe, mas onde a luta entre a 

vida  e a morte se trava.

Toda a magia anterior se desvanece, sinto-me angustiada e dividida. Os indefesos 

capturados estão agora em agonia nos sacos que acumulo nas mãos. Sinto imediatamente 

a diferença do sentimento entre comprá-los no mercado e comprá-los no areal onde lutam 

pela vida desesperadamente. Torna-se tudo tão estranho…REFLITO enquanto os 

transporto.

As vivências são a grande escola; ensinam a sentir verdadeiramente e serão elas o grande

impulsionador da autêntica transformação que provoca desassossego. Tudo é dinâmico, a 

vida é uma sequência de experiências que por vezes nos permitem sentir, aprofundar, 

refletir, embora nem sempre conclusivamente!

Os peixes fazem parte da cadeia alimentar e são preciosos na manutenção da nossa saúde!

Mas, apesar de tudo, o desassossego mantém-se!!

Foi uma vivência marcante, muito pessoal e dolorosa.

Foi um fim de tarde inesquecível. Também o verão está sujeito aos ciclos da vida.


Maria de Lourdes Santos

19 de Maio de 2026