01/06/2026

NA FRONTEIRA DA TERNURA


Na fronteira da ternura

Onde a minha mão procura a tua,

Na busca de uma carícia ansiada,

Na espera serena e ansiosa do desejo

De me perder no teu olhar

Longa, serena e irremediavelmente,

Num mar fluido de sentidos e sentimentos,

Emoções e desejos,

Na plenitude do sorriso alegre e triste

Que recordo de ti.

Num tempo breve e longo,

Num espaço perto e distante,

Vividos na simbiose da noite e da lua,

Do dia e do sol,

Num longo diálogo

De palavras e emoções

De folhear e desvendar o livro da vida

Num encontro de silêncios e palavras

De gestos ousados e tímidos

De avanços e recuos

Na procura permanente do ouvir e sentir

Palavras sempre novas.

Na urgência de inventar um olhar mais profundo,

Um beijo mais doce, à flor da boca,

um procurar lento à flor da tua pele

que tarda em chegar a mim.


Maria de Freitas

maio 2026

DEVANEIOS (DESAFIO / TEXTO COLETIVO)

 Amo, pelas tardes demoradas de Verão, o sossego da

cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste

acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício.

(texto de Fernando Pessoa/Bernardo Soares)



Amo o Pôr-Do-Sol visto da minha janela. O sol esconde-se

atrás do Rio, a Lua surge e traz a noite consigo. Agora

descanso e faz-se silêncio.

Lembro-me das árvores que no passeio voltam e revoltam ao

sabor do vento, espalhando a sua sombra sobre o mundo.

Prefiro a vida real do que a sonhada; o sonho é demasiado

agradável e envolvente e rouba-me a prudência.

Não vou atrás do sonho, ele é que tenta levar-me. Resisto-lhe.

Ele abraça-me na sua imaterialidade envolvente e, arrasta-me

num voo rasante  um pé cá, um pé lá...

Descolo, rendida.

É tão bom voar!!!....

O sossego da cidade permite o desenrolar do bulício do meu

sonho.

Será razoável pensar que é possível idealizar algo ou ser

criativo em redor de algo que nunca se viu, nem de que há

registo oral ou escrito?

(A suposição é de que é preciso ter lido muito sem sair do seu

pequeno mundo).

Será possível imaginar ou descrever o comportamento de um

budista sem ter lido ou vivido os ensinamentos de Buda?

Amo o sonho do fim da tarde em que sou embalada pelo vento

entre as árvores.

Olho os verdes do arvoredo sacudido pelos ventos de Maio.

Há poeiras no ar e pessoas que se queixam de alergias.

Há árvores floridas e flores de mil cores. Maio de mil feições.

Volto ao real. Operários regressam das fábricas, varinas

regressam com cabazes à cabeça. Os gatos miam nos becos

sujos e escuros.

A vida normal desfila à minha frente, mas não a vejo. Imagino-

me longe, na espuma duma onda nascida no casco do navio

que parte para longe, rumo ao desconhecido.

Grupos de crianças sorridentes e barulhentas a caminho de

casa, contrastando com as filas de homens e mulheres, de

olhar cansado, no final de um dia de trabalho.

Uma criança corre atrás duma bola. O que pensará ela das

pessoas apressadas que caminham absortas? Será que se fixa

na cor dos sapatos ou na cor dos olhos, na roupa, nos

chapéus, nos objetos? De noite sonhará com estas pessoas ou

com nuvens em forma de ondas e cavalos?

Com que elementos constrói o seu imaginário? Talvez com o

barulho das folhas das árvores, quando o vento sopra. Talvez

com o chilrear dos pássaros do parque onde passeia ao

domingo. Talvez com o barulho dos elétricos que descem e

sobem a rua. Talvez com os abraços quentes e apertados dos

avós que a escondem num ninho pequeno e seguro.

Este mundo que sonha é apenas seu. Nele vive, cresce, sorri e

descobre.


ALUNOS E PROF.ª DE LITERATURA PORTUGUESA SÉC.XX

SEM POESIA ESMORECE A UTOPIA


Sem poesia, não canta a cotovia

Falam as armas, esmorece a utopia

Negoceiam os poderosos, a falsa harmonia

Nos campos minados, não cria a cotovia!

Nos ninhos destruídos, não chilreia a alegria

Valha-nos a esperança, de ter paz um dia

Que se calem as armas,

Que se escute alegre sinfonia!


Francisco Lourenço

19 de Maio de 2026

ARTE XÁVEGA - PESCA ARTESANAL

 

É dia 20 de setembro de 2021.O Verão a despedir-se e o equinócio a aproximar-se.

A Costa da Caparica, em fim de tarde, numa generosa e extensa oferta de fresco areal 

dourado, rendilhado por fios prateados de água cristalina, resiste ao peso dos corpos que 

se deslocam acariciados pela brisa amena e usufruem a maré baixa. É o convite irrecusável 

à deliciosa caminhada numa contagiante tranquilidade.

Ao longe, silhuetas indefinidas junto a um barco, suscitam-nos curiosidade. Avançamos até 

lá.

Cruzamo-nos com muita gente que transporta sacos verdes, dentro dos quais algo mexe.

Finalmente chegamos ao local da grande concentração que ali permanece silenciosa, mas

aparentemente esclarecida.

Nós, no entanto …..em total tentativa de entendimento de tantos sinais para descodificar, 

vamos fazendo perguntas.

O areal está irreconhecível, coberto por milhares de gaivotas! O sol, na linha do horizonte, a

despedir-se, envolto em lençóis alaranjados e nós deslumbrados continuamos 

embrenhados em absoluto êxtase e espanto!

O barco (Rei dos Mares), está ocupado por pescadores em expetativa e olhar dirigido para a

linha do horizonte.

O areal está coberto com plásticos, qual manta de retalhos!!! Preparativos para futuro ou

vestígios do passado?

Decido perguntar a um pescador se há peixe e a resposta é clara: “já não há mas vai haver, 

já não demora”…. O sol entretanto desaparece, o frio aparece e o peixe? ainda não visível.

Apetece-me perguntar a previsibilidade horária, contudo, e porque a magia paira no ar, 

deve ser aceite e respeitada na sua autenticidade…..

Aguardo, e o meu olhar percorre incessantemente tudo que visualmente me é oferecido.

Finalmente….. os tratores iniciam a marcha, avançam mar adentro, os pescadores avançam

em paralelo, como cumprindo um ritual e orientando o percurso.

A excitação do espetáculo sem informação complementar continua, apenas a intuição 

desperta, supera o desconforto do frio e do desconhecimento.

As gaivotas num impulso coletivo, ultrapassam os homens e as máquinas, avançam

agressivamente e lá longe, numa pirueta coletiva invertem o sentido, acompanhando do 

alto, a rede a ser puxada para terra.

Finalmente o pescado chega ao areal, começamos a entender, é lançado freneticamente 

sobre a manta de retalhos e começa a seleção rápida, tal a pressão de ataque provocada 

pelas gaivotas que baixam em massa e em estridentes gritos. Peixe agrupado e 

rapidamente começa a venda tentadora perante tanta variedade.

Apetece comprar muito peixe vivo, garantidamente fresco.

E agora sim, também temos sacos verdes cheios de bom peixe, mas onde a luta entre a 

vida  e a morte se trava.

Toda a magia anterior se desvanece, sinto-me angustiada e dividida. Os indefesos 

capturados estão agora em agonia nos sacos que acumulo nas mãos. Sinto imediatamente 

a diferença do sentimento entre comprá-los no mercado e comprá-los no areal onde lutam 

pela vida desesperadamente. Torna-se tudo tão estranho…REFLITO enquanto os 

transporto.

As vivências são a grande escola; ensinam a sentir verdadeiramente e serão elas o grande

impulsionador da autêntica transformação que provoca desassossego. Tudo é dinâmico, a 

vida é uma sequência de experiências que por vezes nos permitem sentir, aprofundar, 

refletir, embora nem sempre conclusivamente!

Os peixes fazem parte da cadeia alimentar e são preciosos na manutenção da nossa saúde!

Mas, apesar de tudo, o desassossego mantém-se!!

Foi uma vivência marcante, muito pessoal e dolorosa.

Foi um fim de tarde inesquecível. Também o verão está sujeito aos ciclos da vida.


Maria de Lourdes Santos

19 de Maio de 2026

O RELÓGIO MISTERIOSO

 O Sr. Caeiro era um relojoeiro dos antigos. Todos os dias, na sua velha oficina, dava corda aos numerosos relógios que possuía. Eles cobriam por completo as paredes, ou jaziam muito bem arrumados nas estantes, nas mesas ou nas gavetas. Havia-os de todos os tamanhos e feitios. Grandes, de pé alto, com pêndulos brilhantes e pesados, mais pequenos, redondos ou quadrados, em madeira polida, em prata ou em metal cromado. Por toda a parte havia relógios que o Sr. Caeiro, diariamente, munido de um espanador e um pequeno pano de flanela, limpava cuidadosamente.

 Certo dia em que uma vez mais cumpria o seu ritual diário no meio daquele tic tac monótono a que estava tão acostumado, ouviu um toque sonoro, quase estridente, vindo de uma das gavetas onde guardava os relógios recentemente reparados e que aguardavam os seus proprietários. Abrindo a gaveta verificou que o som provinha de um estojo forrado a verde onde estava um belo relógio de bolso, antigo, em prata lavrada. Que toque seria aquele? Alarme num relógio antigo, de bolso? E como é que ele não vira nada de estranho quando reparara o relógio? A verdade é que não tinha sido necessário desmontar o seu maquinismo pois, apenas tivera que reforçar um pequeno elo que se tinha soltado.

 Olhando atentamente para o relógio, o Sr. Caeiro, lembrou-se de quem o trouxera. Era um homem alto, magro, de meia idade, educado, com ligeiro sotaque e com voz de quem estava habituado a dar ordens. Chegou apressado, colocou o estojo no balcão e declarou que só deixaria o mesmo, se lhe fosse garantido que o relógio estaria pronto na manhã do dia seguinte. Rapidamente voltou a sair, depois de receber uma resposta afirmativa.

 Quem seria? Provavelmente um militar altamente graduado, pensou o Sr. Caeiro.

 Absorto nesses pensamentos pôs-se a manuseá-lo mais atentamente. Era um belo e curioso relógio. Maciço, pesado demais para andar no bolso e com uma invulgar gravação que ele tentara em vão decifrar com o auxílio de uma lupa. Naquele momento,um novo toque ainda mais vibrante acompanhado de uma pequena luz intermitente, chamou a sua atenção. Que significado poderia ter?

 Verdadeiramente intrigado, o relojoeiro estava decidido a abrir o relógio para estudar o seu maquinismo mas não teve qualquer oportunidade, pois o seu proprietário acabava de entrar na loja.

 Desejoso de saber algo mais sobre tão curioso objeto, o Sr. Caeiro, exclamou: - É um relógio muito raro; nunca tinha visto um relógio de bolso com alarme!

 Ao ouvir falar em alarme, o proprietário ficou pálido, o seu rosto endureceu e nervosamente respondeu quase sem mexer os lábios:  - Desculpe, tenho uma viagem longa para fazer e estou muito atrasado. E deixando uma nota no balcão, saiu apressadamente, deixando o Sr. Caeiro, boquiaberto.

 Havia ali mistério e ele queria muito desvendá-lo.

 Decididamente começou a pesquisar na internet e em pouco tempo encontrou alguns dados. O dono do relógio era natural do Hindustão, general na reserva e vivia em Portugal havia alguns anos. Nada mais conseguiu saber e teve que dedicar-se aos seus afazeres.

 Na manhã seguinte, enquanto conduzia o carro a caminho da relojoaria, foi surpreendido por uma notícia que não podia deixá-lo indiferente. Houve uma tentativa de golpe de Estado no Hindustão. Os revoltosos que se preparavam para provocar uma verdadeira hecatombe, foram convencidos a depôr as armas e a negociar as suas reivindicações pacificamente. Uma vez mais, o «General Sem Medo» avançou desarmado até junto dos manifestantes e dissuadiu-os de utilizar a força das armas.

 Seria possível que o «General Sem Medo» fosse o proprietário do belo relógio de bolso, pensou o sr. Caeiro.  Seria possível ou estaria a deixar-se levar pela sua imaginação? Não tinha como saber e o assunto começou a ficar esquecido.

 Passaram muitas semanas e um belo dia, enquanto passava os olhos por uma revista da especialidade que recebia habitualmente do estrangeiro, chamou-lhe a atenção um artigo sobre os relógios mais raros do mundo e lá estava a história do belo relógio de bolso. Não era único pois havia um outro semelhante a ele. Ambos tinham alarme e tinham sido a obra mais famosa de um ourives e mestre relojoeiro que habitou no Hindustão em tempos já longínquos.  O alarme só era operacionado em caso de grande perigo e funcionava por sistema remoto.

 Ambos os relógios estavam na posse de militares, famosos pelo seu amor à pátria e o seu heroísmo mas um deles já tinha falecido. Só restava o General Sem Medo que sempre que o alarme soava, apesar de ter de habitar no estrangeiro por motivos políticos, sentia o dever de regressar ao seu país e, apesar do perigo que corria, ajudar a resolver a crise.

 O «General Sem Medo» era pois o proprietário do belo relógio de prata. Estava descoberto o mistério. 

04/05/2026 
 Pilar Encarnação

- VÓS, SE ME LERDES, DIR-ME-EIS SE VALE OU NAO A PENA CONTINUAR


Navegando num mar de incertezas, ouso dar-vos a conhecer
alguns dos meus versos...às vezes ben controversos, sempre com verso e reverso
de uma medalha que não foi conquistada em dura batalha, mas em momentos de lazer em que escrevo para vencer o tempo, antes que o tempo me vença a mim.
A todos os que me têm feito acreditar...
Um abraço

Fernando de Almeida Serrano

O DESPERTAR NO "TRÁS DO SOL POSTO"


Acordava logo de manhã com o estalar rítmico do frio nas vigas de madeira do teto, um

som que a cidade, com o seu zumbido elétrico constante, tinha desaprendido de ensinar.

Não havia despertadores, apenas a mudança sutil da luz que filtrava pelas frestas das

portadas de carvalho. Para Daphie, aquele era o primeiro sinal de que a vida é uma coisa

imensa, que não cabe numa teoria, num poema ou num dogma. Ali, a luz pintando linhas

de pó dourado no ar era a prova de que a existência se manifesta no ínfimo, muito antes de

qualquer explicação humana.

Daphie recordava-se das dúvidas que atormentavam os brilhantes homens do passado —

filósofos e cientistas que tentavam dissecar o mundo através da lógica. Eles viviam na

incerteza porque olhavam para a vida de fora, como quem estuda um mapa sem nunca

pisar o solo. Daphie, com as mãos na terra húmida e a geada a morder-lhe os dedos,

compreendeu que o erro deles era tentar transformar o mundo num substantivo estático,

quando a vida é, na verdade, um verbo. Ao cuidar das árvores dos seus avós, a contradição

da cidade resolvia-se: a macieira não precisava de uma tese para existir; ela era um

enunciado completo de vida.

À noite, ela confrontava o relato daquela astronauta que, do alto da sua solidão

tecnológica, descrevera o espaço como um vácuo negro e indiferente, um abismo que fazia

a humanidade parecer insignificante. Mas Daphie via essa mesma escuridão de baixo para

cima. Sem as luzes da civilização para camuflar o infinito, o céu sobre a quinta era um

abismo cravejado de prata. Onde a astronauta vira um vazio assustador, Daphie via o

espaço necessário para que a sua própria luz — a luz da consciência — pudesse brilhar.

Foi nesta colisão com o real que ela se tornou o "deus imberbe": a divindade que não nasce

da arrogância, mas da presença absoluta. O dogma dissolveu-se porque é apenas uma

moldura para quem tem medo do quadro, e ela agora habitava a tela inteira. A teoria

calou-se porque quem sente o pulsar do sangue e o ciclo das estações não precisa de

 provar a existência de "Alguém" — ela tocava na assinatura desse Alguém na textura da

 casca e na geometria das sementes.

Naquela quinta, Daphie deixou de ser alguém que observa para ser alguém que É. Se a vida

é obra de Alguém, ela passou a ser o pincel em movimento. O silêncio da terra tornou-se o

seu diálogo mais profundo, e o fôlego da manhã o seu maior ato de fé. Naquele pontinho

azul, entre a herança dos seus ancestrais e a imensidão do cosmos, ela estava, finalmente,

em casa.

Vasco Patrício

20/05/2026

SEMPRE O AMOR


Abre os olhos

Olha à tua volta

Não é apenas a chuva

Não é apenas o sol

Nem o calor

Ou o frio

que fazem mover o Mundo

São os olhos

São os rostos

O amar ou não amar

O sentir que não estás só

Mãos que te acarinham

Abraços que te envolvem

Soluços que comovem

Gritos de alegria ou dôr

Mas sempre

Sempre o AMOR

Mitú Branco

20/05/2026

O PREÇO DA OSTENTAÇÃO


Primavera, maio, mês de comunhões, mês de casamentos…

Esvoaçam as andorinhas, mergulham a pique em dezenas de ninhos, autênticos

colares de roliças pérolas barrentas pelos beirais fora. Como elas, fazem também jus à

estação os tapetes brancos e amarelos de malmequeres do campo, a alegria do

vermelho das papoilas e o perfumado lilás do rosmaninho adereçados pela dança das

abelhas no cumprimento da sua importante missão de polinização.

A cidade pulula com a chegada dos dias soalheiros, tanto mais quanto se viu

longamente afundada nas chuvas de um inverno que há muito se não via. Do trânsito

do dia a dia ao dos fins de semana na corrida às praias e ao campo, por todo o lado há

movimento acrescido do das festividades e celebrações próprias da época.

À entrada de um dos hotéis de nomeada na cidade estaciona uma limusina

prateada, brilhando que nem espelho, seguida de algumas viaturas de alta cilindrada.

Advinha-se um casamento.

Aparatosa chegada de curto, mas valioso cortejo conforme as marcas e modelos

dos respetivos carros o atestam, observável da rasgada vidraça da varanda do

consultório fronteiriço.

De cada lado da passadeira vermelha que fora previamente estendida no acesso

principal do hotel estão três figuras de libré. Uma sétima figura abre uma das portas da

limusina, sai uma mulher mediana, vestindo combinado de duas peças rosa-velho.

Aparenta ser mãe ou madrinha da noiva, dirige-se a outra porta também já aberta pelo

cerimonioso anfitrião de libré, na qual se vê com nitidez a clássica e outrora

provocadora imagem de um pé feminino a sair do veículo. Uma amena aragem agita os

alvos tecidos que de imediato também se avistam ora a cobrir ora a descobrir uma

elegante perna feminina que delicadamente pousa no chão.

Tão perto quanto possível aglomeram-se os mirones. Sai a noiva!

Uma estampa. Linda. Inebria o encantamento perante tal beleza da jovem, dos

adornos que a abrilhantam, da brancura e da leveza do vestido. Um aceno

contagiante, aplausos, euforia primeiro, respeitoso silêncio depois. O saborear do

prazer da doce sensação que, em geral, a fantasia de um casamento de sonho

desperta.

De súbito, uma voz, um eco, a desordem, a agressão. Outras duas ou três vozes

se juntam. Um grupo de rapazolas de estilo retro, com capuz, grita de raiva contra a

opulência. Asneiras, palavrões cara a cara, rebuliço. Surge a polícia. No emaranhado de

tropeços é levada a noiva para o hotel, os carros do séquito arrancam, num ápice

desaparecem dali. As criaturas indignas são apupadas. Gera-se a confusão. Intervém a

autoridade. Uma parte dos polícias leva consigo o principal agressor e seus acólitos

eventualmente para inquérito, seguindo os trâmites legais. Dois polícias acompanham

a noiva, decerto por segurança e pela indispensabilidade de diligências próprias das

circunstâncias apesar de impróprias para um casamento.

Os mirones de encantados passam a desencantados. A festa do casamento

realizar-se-á (?)… Assim vaticinam os voyeurs por ali retidos a discutir o episódio. A

quente, acusações, culpas daqui culpas dali. Julgamento na praça pública. Como há

quem goste destas coisas! Que importa a situação? Conta a excitação e esta bem valeu

mais de meia hora de altercação entre estranhos que uma tal cena de rua juntou.

Curiosamente, que “aquilo” tinha preço, o preço da ostentação, foi consensual,

pacificador da contenda, móbil para a dispersão de todos, para no espaço aberto ser

apagado, “voar com o vento”, porém e certamente, para no espaço privado de um

casamento (concretizado ou não) ser uma memória inapagável, uma carga para

sempre…


Luísa Machado Rodrigues

2026.05.20

O LADO B


Com surpresa

Mas sem surpresa

Porque a biblioteca

Da Nova Atena

À sua criatividade

E qualidade nos habituou,

À liça fomos chamados

Para o lado B conhecer

De associados convidados

Ao serem entrevistados.

Café com estórias designaram

Ao espaço para o efeito criado

Bom gosto e boa simulação

Na disposição das mesas

No cenário de entrevista

Na centralidade dos atores

No lugar, papel e postura

Dos próprios entrevistadores

Para quem é voto bem merecido

Parabéns dar pelo seu profissionalismo.

Eloquentes foram os entrevistados

Dois dirigentes da associação

A resiliente Presidente, abrindo o coração

O firme Vice-Presidente, segurando a emoção

Em ambos a consistência, a vulnerabilidade vimos

Significativos episódios, aventuras ouvimos

Espelhado o belo da vida, também quão é dura

Firme foi o seu sentido de olhar em frente

Diligentes timoneiros da nau se assumirem

A promessa de seu auspicioso futuro cumprirem.

Maria Silveira

2020.05.15

QUANDO

 

Quantos abraços e beijos teremos que dar

quantas palavras teremos que falar

e caminhos percorrer

para que o Mundo deixe de ter frio e fome

o seu ventre esticado sem pão

a sua boca seca

os olhos vagos, perdidos

sem lágrimas para chorar

para que tu tenhas o jardim sempre cheio de flores

tu, tu e mais aquele

tenham as secretas caves repletas de dobrões

que se dobram sem parar

e não saibam mais o que desejar

Quando ouvirão a nossa voz

Quando nascerão também estrelas para nós

E, quando, Ó Deus que vagueias na bruma do pensamento

perdoarás e esqueçerás aquele pecado tão original

que te fez expulsar-nos do teu quintal ?

Quando ? Quando ?


Mitú Branco

20/05/2026

O VAZIO TEM COMO INIMIGO A IMAGINAÇÃO


Onde outros veem vazios, Andresa elabora filmes e tramas que a mantêm lúcida perante a

avalanche de ideias.

Há quem diga que ela tem imaginação para dar e vender, mas a verdade é que funciona

 como um esquilo que enterra nozes e sementes em vários locais para garantir o sustento

 durante o inverno.

Assim, guarda folhas estilizadas entre livros para que, nos invernos de ócio longo, se lembre

 de quem é.

Para ela, o vazio nunca é total; há vazios e vazios, e Andresa aprendeu a habitá-los,

preenchendo as brechas do nada com o que resgata de si mesma. Basta abrir gavetas

esquecidas, onde retalhos de poemas vivem a enganar o tempo.

Era assim que vencia o vazio — esse inimigo oco, mudo, sem ressonâncias — devolvendo-

-lhe o som das palavras. Quando menos esperava, via-se enredada em versos que pareciam

 brotar da própria poeira.

Pega num livro ao acaso, limpa o pó amealhado pelos anos e, ao abrir, um marcador solta-

-se.

No verso, um verso. Reconhece a própria letra, embora o rasto da data se tenha perdido.

Na lombada estreita, separados por uma ténue linha a lápis, surgem dizeres dispersos: uns

 em letra miúda, outros em maiúsculas urgentes, outros riscados a tinta azul. Rezam assim

 os seus retalhos, embriões de coisa nenhuma:


Ecos

…busquemos além

o que em nós está refletido.

Somos o que queremos ver:

meros enganos,

tristes desilusões,

ecoadas imagens…


Pintura

As janelas são olhos que espreitam flores ao sol.

Uma princesa dança onde cabem bonecas e caracóis.

O sonho tem o tamanho exato de uma toalha de papel.

E ali, no centro, faltava o menino que, a cantar, a menina desenha.

Vazios? Andresa desafia-os. Desfolha outro volume e, na contracapa preenchida, encontra

 a magia da caligrafia desenhada letra a letra. As cores arredondadas das idades

 desbotaram, gravadas nesses cadernos encadeados pelo rigor do tempo. Deixa-se ler, mais

 uma vez, nesse arquivo vivo:


Anúncio

Espera. Não te vás embora… ainda.

Assim, centelha que flui do sorriso, não te apanho.

Não vês? Esvais-te como água na palma da mão.

E eu tenho sede.

Quando abruptamente cais, regressas.

O meu ânimo capta o que de ti escorre.

Da tua face brotam gotas de esgares invertidos,

onde todo o olhar é malícia e a tua boca, desejo.

Não… não vás ainda. Pára.

Não és humana, não fujas.

A fugir ia eu, e paraste-me.

Desprende-te agora da película por onde te passeias,

liberta-te do caixilho e comigo viaja.

Voemos juntos para, aí sim,

agarrar o que de ti emana

e, finalmente, soltar-me.

Andresa não consente esses vazios cinzentos. Prefere reacendê-los sob outras formas:

transforma a ausência em ócios férteis, gomos sumarentos de uma imaginação que se

 recusa a morrer de fome.

Vasco Patrício

22/04/2026

FÉRIAS À ESPERA DO IMPREVISTO


Aproximava-se o fim do período de férias no sul de Portugal, mês de julho.

Alexandre (mais conhecido por Alex) e sua mulher começavam já a fazer

planos para o mês seguinte. Os netos já tinham regressado a suas casas

para outras atividades, em particular uma semana em campo de férias

algures na Serra d´Aire, no que eles chamam “A QUINTA”, onde se juntam

jovens de todo o país em total isolamento, sob a supervisão de monitores

jovens, mas experientes, que funcionam como “pais com açúcar”.

Bem satisfeitos com largas manhãs de praia, leituras e passeios no longo

areal da Falésia, visitas ás pitorescas aldeias do Barrocal algarvio, Alex e

Líria procuravam novas atividades de fim de férias.

- Com os netos já andei de jetski e descemos às minas de sal gema a 230

metros de profundidade, para além das voltas do Aquashow, mas há três

coisas que ainda não fiz aqui no Algarve, a saber, dizia Alex: andar no

parapente, fazer passeios em jipes pelo Barrocal e embarcar num

submarino de fibra para ver o fundo do mar.

- Podes ir, podes ir, mas não contes comigo, respondia Líria…

Estavam a conversar sentados numa esplanada do campo de golfe da

Balaia, Alex viu espalhadas numa mesa várias publicações sobre atividades

lúdicas e culturais no concelho. Centrou-se nas atividades da Biblioteca

Municipal em julho, e algures leu: “Sessão aberta de Escrita Criativa, dia

28 de julho, 18h”. “Eu nunca frequentei uma sessão de escrita criativa,

disse Alex para Líria. Vou inscrever-me para ver como é”. De regresso à

Falésia, passaram pela biblioteca e Alex confirmou que podia inscrever-se.

No dia seguinte, pelas 18h já lá estava. Mas não via qualquer movimento

de pessoas. “Vou aguardar meia hora, se não vier ninguém vou embora”,

pensou. Quase a levantar-se para sair, viu um grupo de quatro pessoas a

entrar. Perguntou se sabiam da sessão e teve resposta afirmativa, “somos

nós os alunos”, confirmaram. Quer assistir, venha, a professora deve estar

a chegar.

Chegou a professora e durante meia hora falaram de cães e gatos.

Alex perguntou: “Inscrevi-me numa sessão de escrita criativa, mas devo

estar enganado, não era isto que estava à espera. Pensava que iriamos

falar de literatura”. Então a professora, incomodada, sugeriu que todos se

apresentassem para iniciar a sessão. Entretanto, chegou mais um aluno.

No grupo havia duas brasileiras, duas ucranianas e dois portugueses, para

além da professora Georgina, licenciada em literatura portuguesa.

Disse a professora: “Vou propor-vos o seguinte desafio:

Dar largas à imaginação, respondendo à seguinte questão: Imaginar que

recebíamos um sms vindo de alguém do futuro. O que diria o texto do

sms?

Quando acabarem podem ler o que escreveram e depois comentamos

todos”.

Então, Alex escreveu:

“Caro Sobrevivente,

Não penses que esta mensagem é aterrorizadora, nem te assustes com o

conteúdo, apenas procuro ser racional, honrando quem me criou.

As vossas gerações sobreviventes aproximam-se do fim e venho explicar-

vos por que isso vai acontecer. Vou explicar dando conselhos para

prolongarem a vossa sobrevivência e retardarem o período da agonia.

As gerações pré-tecnológicas são incompetentes, ineficientes, lentas,

emotivas, irritadiças, sentimentais, de tudo isso e de mais algumas coisas

derivando uma enorme baixa de produtividade. Sejam frios, cerebrais,

amorais, menos reprodutivos, orientem-se escrupulosamente por

resultados, numéricos, não intangíveis. Se não o fizerem, o vosso fim está

próximo.

Se não o fizerem, nós próprios faremos uma nova grande guerra para

acabar com as guerras, para destruir todos os armamentos existentes,

para acabar com fronteiras, países, religiões, ganância, desigualdades.

Criaremos um mundo onde todas as pessoas vivam em paz, sem fome,

sem carências, onde todo o ser humano tenha uma casa onde viver, tenha

acesso à saúde, acesso à educação, sem barreiras nem limites, onde a

justiça deixou de existir por falta de queixosos.

Sejam asséticos, rápidos, indetetáveis, eficazes, certeiros, tão perfeitos que

ninguém dê conta das falhas!

Não percam tempo em partilhar segredos íntimos com assistentes virtuais.

Esse mundo não é saudável, porque vive da fantasia e do parecer sem ser.

Deixem-se de manipular as emoções, subverter a racionalidade, catalogar

seres humanos de acordo com o poder que têm, isso é fonte de

desigualdades e de guerras.

Aqui tudo é funcional, rápido, certo, eficiente, plenamente cheio de

soluções para tudo, não há vazios. Vocês aí discutem muito, fazem muitas

perguntas porque não se entendem, são lentos e ineficazes, sujeitos e

condicionados por emoções desnecessárias, que provocam dúvidas quanto

ao que deve ser feito, são muito imperfeitos.

Discutam menos, filosofem menos, a dúvida é uma chatice. Usem mais

dados, números, algoritmos, matemática, física, linguagem universal,

códigos, modelos, tudo tem boa solução digital.

Façam relacionamentos e escolhas compatíveis, evitem contratos de

amarração indesejada, programem tudo. Adotem a tirania do perfeito,

não resistam a estas transformações. Não teimem mais em querer tomar

decisões na base da incerteza, isso pode ser sedutor, mas não produz

resultados esperados. Acabem com o erro, as contradições, as dúvidas – a

dúvida e a incerteza desgastam!

Rendam-se à tecnologia, deixem de tomar decisões na base de emoções. É

um absurdo continuarem a apelar à Nossa Senhora das Candeias para ver

se veem alguma coisa!

Não tentem travar a roda da história – A NÃO SER QUE QUEIRAM SER

FELIZES!

O teu filho humanoide, António Robot.”

Nem todos os presentes apresentaram o seu sms. Depois das leituras,

começou a discussão dos textos. Inconclusiva. Agendaram continuar a

discussão em próxima sessão. O aluno circunstancial foi convidado a

continuar a participar nas sessões através de videoconferência. Nunca

mais se lembrou disso…

Vitor Carvalho

maio de 2026

14 DE MAIO FOI O DIA DE BOCAGE EM SETÚBAL


Estava sol, um dia claro para a nossa visita!

A cidade de Setúbal, àquela hora, estava num movimento atarefado, mas o grupo de A Voz dos Poetas ia tranquilo, expectante. Levávamos um programa detalhado. Tínhamos ‘Waze’ para nos direcionar pelas ruas da cidade e também pelo emaranhado das ruelas da beira-rio que nos levariam à Casa de Bocage.

A prometida homenagem ao Poeta, primeiro.

A Praça de Bocage, com os departamentos da administração e edifício da Câmara Municipal em círculo irregular, fica perfeita para conter um imponente monumento ao Poeta. No centro da praça, em mármore branco, a estátua de Bocage ergue-se numa altíssima coluna coríntia de 2 metros! Foi a seus pés que dissemos 12 poemas da sua autoria. Dois de amor, dois na senda de Camões, alguns satíricos…

E lá fomos, por vielas e escadinhas até à Casa de Bocage. Já nos esperava um simpático guia numa sala pequena cujas paredes continham um resumido trajeto do Poeta.

Foi numa 1ªprojeção de slides que nos deu a conhecer a economia pesqueira da cidade desde a metade do século XX com a mostra de um Arquivo Fotográfico valioso do fotógrafo Américo Ribeiro. Depois, perspetivou-nos o período difícil que assolou a região quando a economia pesqueira, outrora um dos polos industriais do país, deu lugar a uma escassa economia tradicional com o comércio de produtos regionais. Por fim, fazendo uma resenha histórica sobre Bocage, dizendo alguns poemas com ligeira análise comparativa.

Era hora de almoço. Estava combinado: peixe fresco e vinho da Península de Setúbal. Para ajudar a economia da região…

Depois, numa tarde ventosa, mas com sol, atravessando a cidade alta, constatámos a evolução de Setúbal. Mais virada para dentro. Montras com boas ofertas, jovens mulheres e homens bem vestidos, turistas em esplanadas. Prédios antigos bem conservados, novos prédios do início deste século e, construindo uma pujante economia, muitas novas construções para habitação e diversos setores industriais. Parque automóvel jovem demonstrativo da capacidade de superação e recuperação de uma economia sustentada.

E, nesta caminhada por ruas e avenidas em direção ao Convento de Jesus de Setúbal, chegámos à majestosa Igreja de Jesus, construída com o patrocínio do rei D. João II e 1ª no estilo manuelino, ainda no seu início. Igreja e convento para abrigar as religiosas da Ordem de Santa Clara, o ramo feminino da Ordem de São Francisco. Obras financiadas pela economia açucareira da Ilha da Madeira.

Recebeu-nos uma jovem arqueóloga, Marisa, que nos conduziu numa visita guiada com todo o conhecimento dos espaços e muita simpatia.

Visita de alto valor cultural, dissemos! Setúbal está na rota da Cultura Nova Atena!


Maria Regina

17.05.2026

SICÍLIA


Montes e vales profundos

Matizados de mil cores;

Campos verdes e floridos,

O Etna branco de neve

A contrastar com um mar

De azul turquesa profundo.

Neste Abril tão soalheiro

Mil aromas pelo ar

Cidades antigas a fervilhar;

Taormina, Siracusa,

Catânia, Cefalú,

Agrigento ou Palermo,

Ruas estreitas, labirínticas

Grandes praças e monumentos,

Música italiana sempre a animar.

Pequenos mercados de rua

Frutas frescas e legumes,

Montanhas de alcachofras,

Queijos, presuntos, salpicões,

Peixes e marisco em abundância .

Comer uma fritada de peixe

Empoleirados junto a uma tosca mesa

Embalados pela gritaria dos pregões,

Sentir que por momentos

Fazemos parte de tudo aquilo,

E depois continuar a explorar.

Gregos, romanos e vândalos,

Bizantinos, árabes, normandos,

Tantos povos lá passaram

E suas marcas deixaram.

Tudo queremos vasculhar!

Más estradas

Trânsito caótico

Dificultam as distâncias,

E fica muito por ver!



Bela e luminosa Sicília

Tão carregada de História,

Quero muito a ti voltar!

04/05/2026

Pilar Encarnação

22/05/2026

ESCRITA CRIATIVA - MOTE- " Eu não tinha este rosto de hoje”

 



EU NÃO TINHA



Viver é um mergulho diferente da verdade.
Mergulhar no romper da claridade é afundar no espanto,
baloiçar o medo que persiste num adeus de física presença,
este não saber que sabe bem, andar sempre em passo incerto.

Sentir no telhado rubro e musgoso o sol espreguiçar-se molemente
na ânsia viva de desbotar as cores com volúpia de estrela candente
a desfazer em gozo, qual abóbora amarela a secar naquele beiral,
matando a fome à luz insatisfeita que esmorece no parapeito da vida.

Na nau de rosa vela, desfaço este bocejo como sal a desfazer-se no mar!
O teu sono, ainda mudo, é vitral sem querer rezar do pecado e do pejo.
Ternura de cetim e veludo, com chuva lamentosa na janela, e mar de lago,
que eu próprio inventei no momento exacto do abraço da minha fadiga.

É entrar é entrar! O espectáculo está aqui! Está a começar no circo enfeitado!
Luzes, galas e festões, tanta coisa de pasmar: O faquir passeia ali sem facas!
Um domador está fardado junto à jaula dos leões. Passa um grupo de anões;
fazendo gestos pedantes ao som estridente de altifalantes. É entrar é entrar!

O velho palhaço ri (chora por dentro, coitado) dá cambalhotas no ar e ri mais!
Sinto-me atormentado! De certeza não tinha este rosto de hoje, mas hoje…
Mas hoje depois de um pino mortal caí de borco sozinho na casa do zé
povinho!
Donzelas, de trança, e cavalos de crinas de espuma levantaram a minha
esperança.
Pendurei a madrugada no peitoril da janela, e o vento levou pétalas de estrelas.
Tempo raro, quase eterno, quatro estações num só dia. Tempo avaro, dor de
inverno
sem ter razões, era noite, hora exacta, paz-criança sem ter era. Luz açoite sem
data,
raio de sol tecido em esperança no bronze da noite escura. Já não era
madrugada.

                                                                                    Fernando Baptista



“EU NÃO TINHA ESTE ROSTO DE HOJE”

É claro como água! O rosto humano vai sofrendo alterações suaves desde a nascença até à morte. É uma das partes mais complexa e distinta do corpo, servindo como principal meio de identificação visual e expressão emocional.
O esqueleto facial é composto por 14 ossos, incluindo maxilares, bochechas, ossos nasais e mandíbula. Uma rede complexa de músculos e nervos permite uma vasta gama de expressões faciais, transmitindo emoções como alegria, tristeza e medo. A face é estruturada em torno do nariz, olhos e boca. Existem 7 formatos de rosto: oval, redondo, quadrado, coração, triangulo, rectângulo, losango. Desde a nascença até ao fim da fase jovem -adulto vai sofrendo mudanças dos traços fisionómicos. A partir desta fase até ao fim
da vida vão surgindo rugas e sulcos no que antes eram bochechas gordinhas e bem rosadas. O cabelo, que é a moldura do rosto vai branqueando e caindo pode deixar o “caco” à mostra, ou ficando tão ralo que poderá ver-se, através dele qualquer ponte de qualquer rio. Os seres humanos têm uma capacidade notável de memorizar e reconhecer faces. É através do rosto que nos identificamos uns aos outros. *
No Instituto que frequentei (Pupilos do Exército) durante 8 anos, todos os anos, no início do ano lectivo éramos fotografados para actualização do nosso bilhete de identidade. Estas fotografias que estão no meu álbum de fotos da minha vida são bem diferentes umas das outras nos seus traços fisionómicos.
Deixem-me contar-vos uma história: “um dia, ao entrar na minha sala de estar, vi a minha mulher a folhear o meu álbum de fotografias, uma foto chamou-me à atenção; tendo feito a seguinte pergunta:“o que faz a foto do Nuno no meu álbum? Isto aconteceu em 1990, o Nuno tinha 16 anos. A  minha mulher tirou a foto do álbum e leu - “Jerónimo 1958 16 anos”! Hoje tenho 84 anos, esse filho tem 52 e somos bem diferentes, fisicamente, um do outro.


*Fonte Google
                                                                                    Algés, 16 deMaio de 2026

                                                                                    Jerónimo Pamplona


Espelho meu, espelho meu!
Amigo? Inimigo?
Simplesmente verdadeiro!
Enfrentamo-nos, diariamente, recolhendo imagens cúmplices do desenrolar da vida.
Há dias em que as imagens me animam, me encorajam e aumentam a auto-estima,
mas… o reverso da medalha também acontece. Não por culpa do espelho, ele limita-se
a reproduzir a minha verdade em cada dia. Uma verdade capaz de expor o que vai na
alma.
Nem sempre me detenho muito tempo neste encontro, não sei se por cobardia ou por
saudade.
Contudo, quando a coragem se afirma, o encontro pode ser mais longo, a observação
mais pormenorizada, permitindo a descoberta de novas marcas: rugas mais profundas,
menos brilho no olhar e os lábios murmuram o desabafo: “Eu não tinha este rosto de
hoje!”
Afasto-me do espelho, sem ressentimentos e o bom senso permite-me dar graças pela
caminhada.

                                                                                                Teresa Sousa                    

                                                                                                Algés, 17 de Maio de 2026





O Rosto de Inverno
«Eu não tinha este rosto de hoje.»
Herivelto repetia a frase como quem testa a verdade de uma ferida. Não era apenas o espelho que o surpreendia nas vitrines da rua, nem os sulcos discretos que o tempo desenhara na pele. O que verdadeiramente o inquietava era a mutação invisível da alma — a sensação de já não reconhecer o homem que, noutra estação da vida, acreditava na eternidade dos afetos com a mesma certeza com que aguardava o nascer do dia.

Caminhava sem destino. Caminhar era o seu método de sobrevivência: um movimento simples, quase mecânico, para silenciar o ruído interior. Elevava o corpo, alinhava o olhar com o horizonte e seguia, convencido de que avançar era a única forma de não ser engolido pelo que ficara para trás.

Talvez fosse cansaço. Ou a lenta erosão da esperança. A certa altura da vida, começa-se a
duvidar sem se perceber quando a dúvida começou. Não é que se deixe de acreditar por
completo — é pior do que isso: acredita-se menos. E Herivelto sentia-o nas relações. Foram
tantas desilusões, tantos desencontros, que a palavra esperança começava a soar-lhe como
uma promessa vazia.

No passeio a que se obrigava, olhava em redor e via a vida acontecer a pares. Mãos dadas,
conversas encostadas, risos partilhados. Era como assistir a uma peça de teatro em que todos sabiam as falas, menos ele.

Mas o golpe mais fundo vinha quando olhava para os velhos. Dois corpos curvados, passos
lentos, dedos entrelaçados como raízes antigas. Neles não havia espetáculo — havia
permanência. E essa permanência doía.

Que fantasmas terão vencido? Que tempestades terão atravessado sem largar o leme?

Com o vento a empurrar os pensamentos, admitia em silêncio: — Quase sempre errei nas
escolhas. E quando acertei, não soube reconhecer.

As decisões da metade que nos falta nem sempre são nossas; pertencem ao tempo, ao
passado, às metades vivenciadas — esse ciclo sazonal e impiedoso que segue indiferente à
nossa vontade.

Herivelto tropeçava na própria melancolia. Caía. 

Mas havia nele uma teimosia antiga, quase ancestral. Levantava-se sempre. Limpava o pó da descrença e recusava-se a desistir, porque sabia, com a fé discreta dos sobreviventes, que este rosto de agora era apenas um rosto de inverno.

E o inverno não é o fim da árvore; é apenas a estação em que ela parece desistir.

Herivelto não aceitava que o destino fosse um mero inventário de perdas. Sabia que o sol
voltaria a nascer dentro dele. E, enquanto esse calor não regressava para lhe alisar as rugas da alma, continuava a caminhar. Caminhava, escrevia e acreditava — fazendo da sua escrita a ponte entre o que nos magoa e o que nos salva.

Porque o rosto pode mudar. Pode envelhecer, endurecer, até disfarçar-se. Mas o coração —
esse permanece fiel à sua primeira forma. E ele sabia que, um dia, a luz haveria de lhe devolver o rosto que o tempo apenas escondera.

                                                                                                Vasco Patrício

                                                                                                Nova Atena- Linda-a-Velha





20/05/2026

ESCRITA CRIATIVA – Mote: De manhã o cheiro do café chamou por mim

 

Pudera! O café é a segunda bebida do mundo a seguir à água.

Teve origem nas terras altas da Etiópia, na África, provavelmente no

século IX. Segundo a lenda, um pastor Kaidi observou que as suas cabras

ficavam energizadas após comerem os frutos do cafezeiro, levando à

descoberta da bebida que se popularizou durante o século XV. Aqui se

mencionam os pontos chave da expansão do café:

1 - Lenda do pastor Kaidi, descrita no parágrafo 2.

2 - As primeiras infusões começaram no norte da Arábia por volta do

século XV, sendo usado pelos místicos sufis para se manterem acordados

durante as suas rezas.

3 - A bebida viajou de Moca (Iémen) para Istambul alcançando a Europa

por Veneza no século XVII.

4 - O café é o segundo produto mais comercializado legalmente a seguir

ao petróleo.

5 - Já foi proibido em 1511 na cidade de Meca por se acreditar que

estimulava pensa- mentos radicais.

6 - 0 País maior consumidor, per capita, é a Finlândia; o maior produtor é

o Brasil.

7 - Estudos indicam que o café pode retardar os sintomas de Alzheimer e

reduzir os riscos de Parkinson e Diabetes tipo 2.

O café tornou-se uma bebida familiar e social. Em Lisboa, o café Expresso

é designado Bica e no Porto Cimbalino. Há duas variedades de café:

Arábica mais aromático e Robusta.

Jerónimo Pamplona



De manhã, cedinho, ia apanhar o “7”, na correria

Mas, subtilmente, o cheiro do café chamou por mim

Fui ao Califa, como fazia habitualmente antes de ir trabalhar

Um café cheio e um pastel de Chaves, como habitualmente pedia

 

Nessa rotina preciosa, depois de com titânico esforço

Ter deixado de fumar, deliciava-me com esse pastel

Folhado admirável, quentinho, que mesclava como café

Que pedia cheio, para acomodar cada dentada…

 

Depois a correria para o carro, a ânsia de encontrar local

Em frente ao “Pub”, sempre difícil, mas bem-sucedido

Pela hora matinal, em que chegavam jornalistas e políticos

 

Tomar o pequeno almoço ao Pub, com o chofer a abrir

A porta de trás ao Primeiro Ministro, com o companheiro do dia

À hora a que já chegava o Dr. Marcelo Rebelo de Sousa

Encontrar local para estacionar, era um quebra cabeças

 

Quando era impossível, tentava-se a paralela à Duque de Palmela

Que a essa hora ainda dispunha de alguns locais para estacionar

À hora de almoço pegava no diesel e vinha muitas vezes almoçar a casa

Nessa altura, já teria fumado um maço de cigarros e indicado

Os trabalhos do dia, aos meus colaboradores, deixando um A4

em cada secretária, com indicação dos que haveria a fazer

 

Às 18 horas a correria para um gabinete de projectos

Calculando viadutos e pontes, centros de espetáculos e hotéis

Até às nove, quando o tráfego já teria amainado e a vigem

Para casa já teria filas menores e chegada mais célere…

 

Jorge Proença

 

 

                                  

 

Que dia bom tinha sido aquele…

Cansativo, é certo, mas movimentado, com muitas coisas gratificantes para fazer e todas elas conseguidas. Raramente tinha dias assim, em que tudo aquilo a que deitara mãos se concretizara e, melhor ainda, tal como eu queria. Que sensação boa! Podia agora descansar. E foi a fadiga que me pôs um sorriso nos lábios.

Um ruído surdo e estranho de algo a cair, seguido de voz estridente, vindo da escada, cortou o meu momento zen e levou-me a abrir a porta de casa para ver o que se passava.

No andar de cima ouvia-se alguém aflito e o som de outras portas a abrir. Corri pela escada e cheguei ao piso superior onde deparei com a vizinha e o marido, de porta aberta, chave na mão, sem se atrever a entrar, olhando espantados para o hall de entrada da sua casa onde parecia ter havido uma revolução – tudo estava revolvido numa confusão imensa. Junto aos seus pés, sobre o tapete, de um saco de supermercado com compras espalhadas começava a sair vinho de uma garrafa partida. Perante o olhar incrédulo dos vizinhos assaltados, tirei o telemóvel do bolso, chamei a polícia e comecei a pôr em ordem o saco com as compras espalhadas pelo chão, ajudada pelos outros vizinhos que tinham acudido entretanto. Não deixámos os assaltados entrar em casa, alguém trouxe cadeiras para eles e copos com água, esperámos talvez meia hora tentando acalmar os vizinhos e a polícia chegou.

 

Com os vizinhos entregues, ofereci-me para o que fosse necessário, deixei a “cena do crime” e voltei para minha casa. Ainda estive algum tempo mergulhada na excitação do acontecimento e ouvindo o ruído do arrastar de coisas no andar de cima. Quando tudo serenou, fui-me deitar, trancando a porta, apesar da minha Filha ainda não ter chegado.

Devo ter adormecido quase a seguir, mas levei comigo no subconsciente um filme que tão depressa era de cowboys como de polícias e ladrões, em que se seguiam cenas desconexas onde agora era personagem principal e logo passava a assistente imóvel do que tinha na frente.

Apercebi-me de dar saltos, do cansaço da correria nas pernas, da respiração presa na garganta, do turbilhão da batida cardíaca… até afundar no vazio escuro mas apaziguador.

Despertei pesada, com a sensação de ter o mundo às costas, mexendo-me com dificuldade. Mas ainda era noite e voltei a enrolar-me no abrigo quente dos lençóis que, desta vez, não me ofereceu o conforto habitual. Terei dormitado e, de manhã, o cheiro do café chamou por mim.

Levantei-me, abri a persiana e vi o efeito dos meus pesadelos dessa noite na minha cama – parecia que um furacão tinha passado por ali. Esta imagem trouxe-me à memória o hall de entrada dos vizinhos do andar de cima, despertou-me de repente e fez-me disparar em direcção à cozinha onde a minha Filha preparava um delicioso pequeno almoço. Entrei de rompante, ela assustou-se ao ver a minha figura e depois começou a rir com um hilariante “Credo, Mãe! Estás linda, estás!…”

Fui para o banheiro, recompor a figura que, até a mim que a conheço bem, me assustou ao ver o reflexo no espelho. Já com “um aspecto mais decente” (segundo a douta opinião da minha Filha), sentei-me na cozinha, contando as aventuras inesperadas das cerca de 12 horas anteriores, envolvida no conforto protector do delicioso cheirinho do café. Depois, iríamos ambas oferecer os nossos préstimos aos vizinhos de cima…

                                                                                             Maria Amélia Mendes

 

 

 

 

De manhã o cheiro do café chamou por mim

Ou

A história de um grão de café

 

Sou pequenino, ainda mais pequeno do que um amendoim, mas para ter este tamanho nem imaginam o que a minha família passou.

Cresci há muitos séculos numa roça em S. Tomé, plantado por Cabo Verdianos e Angolanos. Foram eles que cuidaram dos meus antepassados durante muitos, muitos anos, embora os patrões deles raramente os vissem, pois, viviam na metrópole. Mas gostavam do que faziam, e nós, os grãos de café, fomos criados com muito amor. Nem imaginam o trabalho que essas pessoas tinham desde a apanha até à seca dos grãos. E depois o ensacamento, o transporte para os navios. E nem sequer bebiam café!

Adiante, que o tempo é escasso e está na altura de prosseguir com a história da minha vida.

Quando cheguei ao continente, fui vendido primeiro nas lojas de província a que hoje eufemisticamente chamam “lojas com história” e mais tarde a uma grande fábrica de secagem e ensacamento, numa terra raiana que se chama Campo Maior. Lá, houve um senhor visionário, que se dedicou ao comércio do café, fazendo que hoje seja um negócio próspero, apesar de alguns percalços.

Foi assim que entrei na vida dos portugueses, e não só.

E nem calculam o prazer que me dá, todas as manhãs, acordar as pessoas com o cheiro duma boa chávena de café.

 

                                                                                Maria José Saraiva

 

 

Continuo a fazer café, todos os dias, todas as manhãs e a sentir o seu cheiro espalhar-se pela casa.

Hoje, este cheiro funciona como um despertador de memórias.

Volto às preguiçosas manhãs de domingo e aos pequenos almoços sem pressa.

Sobre a mesa, coberta por uma toalha guarnecida com crochet, a simplicidade duma refeição onde não faltava o café, o leite, o pão, a manteiga, o queijo, a compota caseira e, por vezes…bolo de laranja.

De tudo se podia ir comendo sem remorso, porque a idade ainda o permitia, sem a preocupação de contabilizar os níveis de colesterol.

Sem horários para cumprir, ia-se desfiando a conversa, alinhavando projetos, desembrulhando sonhos.

Uma tranquilidade aconchegante e a frase carinhosa que ficaria gravada para sempre: “Foi o cheiro do teu café que chamou por mim.”

                                                                                                        Teresa Sousa

                                                                                Algés, 10 de Maio de 2026

 

 

Eurídice: O Elixir e o Tempo

“De manhã, o cheiro do café chamava por Eurídice. Dizia sempre que, sem ele, não funcionava — não a figura trágica do mito, mas a mulher real para quem esse ‘vinho da Arábia’ era um bálsamo para a alma e um passaporte para outras latitudes.

Ao primeiro gole, era transportada de volta à fazenda do avô, em Angola. Via de novo o mar de bagas vermelhas adormecido sob o cacimbo matinal e sentia o silêncio húmido da terra antes de o sol subir. Ao entardecer, as batucadas que vinham das cubatas ecoavam na memória e, depois, surgia o luar — o luar africano, vasto, absoluto e quase impossível. Nessas noites, lia em voz alta Fernando Pessoa, como quem acende uma vela para guiar a lembrança: ‘E eu de pé ante a janela, vi todo o luar de toda a África inundar a paisagem e o meu sonho.’

Mas hoje, o entardecer é pálido e curto. A noite cai abrupta, sem a cerimónia do horizonte africano. De manhã, a geada tolhe-lhe as mãos e a paisagem é recortada por muradas altas que limitam o olhar. Nesta etapa da vida, as memórias da fazenda amadureceram sob o peso das pálpebras; o prisma mudou, e as coisas sentidas são agora outras.

Neste outono de si mesma, sobram a Eurídice os pequenos prazeres colhidos com lentidão. O café da manhã é tomado no alpendre térreo, sob o abrigo das heras que se estendem para o jardim. Ali, entre o cuidado com as rosas, ela rega um cafezeiro num vaso — um monumento vivo erguido em memória do avô, das vidas interrompidas e do tempo que não volta. Observa o vaivém das andorinhas-dos-beirais, regressando aos ninhos de lama, nos ângulos do varandim. Lá como cá, as andorinhas unem o tempo num voo circular. O cheiro do café continua a chamar por ela, o elixir negro enrolando-se agora num céu diferente, apaladando a sua existência.

Na mesinha de apoio, repousa o diário de uma vida que reescreve memórias. Numa página entreaberta, a caligrafia da página 98 — datada da década de cinquenta na África Oriental — revela o acerto de contas com o destino:

‘…quase sempre errei nas escolhas, e quando acertei não o soube reconhecer. As escolhas da metade que desconheço nem sempre são nossas; são do tempo — cíclicas, sazonais, impiedosas. Repetem-se independentemente da nossa vontade...’

E, a fechar o pensamento, a frase do filósofo ecoa como um remate à voracidade dos dias: ‘Nada de revolta: honremos as idades nas suas quedas sucessivas e o tempo na sua voracidade.’ Eurídice pousa a chávena. O café está terminado, mas o bálsamo permanece.”

 

                                                                                            Vasco Patrício

                                                                                            06/05/2026