01/06/2026

DEVANEIOS (DESAFIO / TEXTO COLETIVO)

 Amo, pelas tardes demoradas de Verão, o sossego da

cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste

acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício.

(texto de Fernando Pessoa/Bernardo Soares)



Amo o Pôr-Do-Sol visto da minha janela. O sol esconde-se

atrás do Rio, a Lua surge e traz a noite consigo. Agora

descanso e faz-se silêncio.

Lembro-me das árvores que no passeio voltam e revoltam ao

sabor do vento, espalhando a sua sombra sobre o mundo.

Prefiro a vida real do que a sonhada; o sonho é demasiado

agradável e envolvente e rouba-me a prudência.

Não vou atrás do sonho, ele é que tenta levar-me. Resisto-lhe.

Ele abraça-me na sua imaterialidade envolvente e, arrasta-me

num voo rasante  um pé cá, um pé lá...

Descolo, rendida.

É tão bom voar!!!....

O sossego da cidade permite o desenrolar do bulício do meu

sonho.

Será razoável pensar que é possível idealizar algo ou ser

criativo em redor de algo que nunca se viu, nem de que há

registo oral ou escrito?

(A suposição é de que é preciso ter lido muito sem sair do seu

pequeno mundo).

Será possível imaginar ou descrever o comportamento de um

budista sem ter lido ou vivido os ensinamentos de Buda?

Amo o sonho do fim da tarde em que sou embalada pelo vento

entre as árvores.

Olho os verdes do arvoredo sacudido pelos ventos de Maio.

Há poeiras no ar e pessoas que se queixam de alergias.

Há árvores floridas e flores de mil cores. Maio de mil feições.

Volto ao real. Operários regressam das fábricas, varinas

regressam com cabazes à cabeça. Os gatos miam nos becos

sujos e escuros.

A vida normal desfila à minha frente, mas não a vejo. Imagino-

me longe, na espuma duma onda nascida no casco do navio

que parte para longe, rumo ao desconhecido.

Grupos de crianças sorridentes e barulhentas a caminho de

casa, contrastando com as filas de homens e mulheres, de

olhar cansado, no final de um dia de trabalho.

Uma criança corre atrás duma bola. O que pensará ela das

pessoas apressadas que caminham absortas? Será que se fixa

na cor dos sapatos ou na cor dos olhos, na roupa, nos

chapéus, nos objetos? De noite sonhará com estas pessoas ou

com nuvens em forma de ondas e cavalos?

Com que elementos constrói o seu imaginário? Talvez com o

barulho das folhas das árvores, quando o vento sopra. Talvez

com o chilrear dos pássaros do parque onde passeia ao

domingo. Talvez com o barulho dos elétricos que descem e

sobem a rua. Talvez com os abraços quentes e apertados dos

avós que a escondem num ninho pequeno e seguro.

Este mundo que sonha é apenas seu. Nele vive, cresce, sorri e

descobre.


ALUNOS E PROF.ª DE LITERATURA PORTUGUESA SÉC.XX

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