Amo, pelas tardes demoradas de Verão, o sossego da
cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste
acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício.
(texto de Fernando Pessoa/Bernardo Soares)
Amo o Pôr-Do-Sol visto da minha janela. O sol esconde-se
atrás do Rio, a Lua surge e traz a noite consigo. Agora
descanso e faz-se silêncio.
Lembro-me das árvores que no passeio voltam e revoltam ao
sabor do vento, espalhando a sua sombra sobre o mundo.
Prefiro a vida real do que a sonhada; o sonho é demasiado
agradável e envolvente e rouba-me a prudência.
Não vou atrás do sonho, ele é que tenta levar-me. Resisto-lhe.
Ele abraça-me na sua imaterialidade envolvente e, arrasta-me
num voo rasante um pé cá, um pé lá...
Descolo, rendida.
É tão bom voar!!!....
O sossego da cidade permite o desenrolar do bulício do meu
sonho.
Será razoável pensar que é possível idealizar algo ou ser
criativo em redor de algo que nunca se viu, nem de que há
registo oral ou escrito?
(A suposição é de que é preciso ter lido muito sem sair do seu
pequeno mundo).
Será possível imaginar ou descrever o comportamento de um
budista sem ter lido ou vivido os ensinamentos de Buda?
Amo o sonho do fim da tarde em que sou embalada pelo vento
entre as árvores.
Olho os verdes do arvoredo sacudido pelos ventos de Maio.
Há poeiras no ar e pessoas que se queixam de alergias.
Há árvores floridas e flores de mil cores. Maio de mil feições.
Volto ao real. Operários regressam das fábricas, varinas
regressam com cabazes à cabeça. Os gatos miam nos becos
sujos e escuros.
A vida normal desfila à minha frente, mas não a vejo. Imagino-
me longe, na espuma duma onda nascida no casco do navio
que parte para longe, rumo ao desconhecido.
Grupos de crianças sorridentes e barulhentas a caminho de
casa, contrastando com as filas de homens e mulheres, de
olhar cansado, no final de um dia de trabalho.
Uma criança corre atrás duma bola. O que pensará ela das
pessoas apressadas que caminham absortas? Será que se fixa
na cor dos sapatos ou na cor dos olhos, na roupa, nos
chapéus, nos objetos? De noite sonhará com estas pessoas ou
com nuvens em forma de ondas e cavalos?
Com que elementos constrói o seu imaginário? Talvez com o
barulho das folhas das árvores, quando o vento sopra. Talvez
com o chilrear dos pássaros do parque onde passeia ao
domingo. Talvez com o barulho dos elétricos que descem e
sobem a rua. Talvez com os abraços quentes e apertados dos
avós que a escondem num ninho pequeno e seguro.
Este mundo que sonha é apenas seu. Nele vive, cresce, sorri e
descobre.
ALUNOS E PROF.ª DE LITERATURA PORTUGUESA SÉC.XX
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