UMA LÓGICA DA VIDA
Na praia ela era a Mila das latinhas.
Trazia a noite despenteada, pela mão o cheiro de resina.
Conhecia bem o silêncio dos valados e o sabor das amoras.
Surgia em qualquer lugar da praia sem hora certa, nem anuncio.
Deambulava por ruelas e escadinhas na procura de latas e papeis.
A garotada gritava alvoroçada: É malta! Lá vem a Mila das latinhas!
Talvez fosse feliz, talvez, não sei. Talvez se julgasse rainha!
Para ela ser rainha ou princesa seria igual, é o que penso.
Quando pisava as estevas do pinhal enchia de rosmaninho
os bolsos dos calções, pois o rosmaninho seria incenso ou ouro
já que era dona das dunas, dos chorões e das searas de piteiras.
Todo o horizonte era só seu. Dava ordens à terra e até aos céus,
trauteando confusas ladainhas enquanto arrastava latas pela estrada.
Inventava carreiros de acaso na escuridão, vedados a todos os demais.
Pedia à bruma para ser farol das brisas de espuma e sargaço.
Naveguei até ao mar de ondas enroladas, azuis sem haver tela.
Chão de choros por calar, pintura de aguarela no oiro velho das estrelas.
Quando o mar subiu a vaga, fiz-me nuvem rendilhada em recortes
de algodão, mancha de chumbo, agoiro de chuvada sem esperança.
Ela continuava dia a dia a percorrer a praia da sua vida (que vale a pena)
arrastando as latas, talvez se imaginando na viagem de núpcias.
Oh! porque não ouviste o meu recado! Onde me levas na inspiração?
Roubaram-me as palavras por dizer e as fontes secaram no jardim,
onde o lilaseiro de perfume qu ente, tinha as flores desbotadas pelo espanto.
Quase poesia, só rimas estranhas. Será que dois e dois são quatro?
Fernando Baptista
Ao ler o tema desta semana, duas frases vieram, de imediato, à minha
memória:
- Prognósticos só no fim do jogo, do pequeno grande capitão João Pinto (defesa direito) do F.C.P.
- Tudo vale a pena se a alma não é pequena do grande poeta Fernando
Pessoa
que caracteriza muito bem no poema Mar Português publicado,
originalmente, na revista Contemporânea em 1922 e mais tarde (1934) no
livro Mensagem:
Ó mar salgado, quanto do teu sal.
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso ó mar!
Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu!
Jerónimo Pamplona
A certeza matemática…
Não sei aplicá-la à vida
Porque a valia que tem
É concreta e definida
Mas também é problemática.
Na vida não funciona
O dois mais dois serem quatro
Porque as equações são tantas
Neste espaço de teatro
Que a lógica te abandona.
É que a vida é tão bela
Que mesmo correndo mal
Eleva-nos, faz de nós gente
Mostrando-nos, no final
Que vale a pena vivê-la.
Maria Amélia Mendes
Isto cada vez está mais difícil! Como é que vou trabalhar este tema? Provavelmente o mais fácil seria arranjar uma história dum casal com dois filhos.
A mulher teria tido muita dificuldade em engravidar, e teve de se sujeitar a tratamentos de fertilização que felizmente resultaram num par de gémeos, ainda por cima de sexo diferente.
Afinal, hoje em dia muitas mulheres lutam para conseguir engravidar. Uma das causas é o facto de cada vez mais, quererem ter uma carreira profissional, e quando dão por isso, a idade mais fértil já foi. Não é uma censura, mas apenas a constatação dos factos.
E depois como vou acabar a história?
Acabar por cair no melodrama de que o casal só se sentiu realizado quando passaram a ser quatro?
Definitivamente, não estou inspirada e como não quero ir consultar a IA,fica assim mesmo.
Maria José Saraiva
Viver é uma acto de sabedoria.
Sabedoria para descobrir um pequeno brilho na noite escura que me
esmaga.
Sabedoria para me sentir encorajada pela mão que se estende, pela
meiguice de um olhar ou pela ternura de um sorriso.
Sabedoria para me dar sem esperar o retorno, saboreando a felicidade de
fazer o outro feliz.
Sabedoria para sentir o coração a saltar no peito com a gargalhada de uma
criança ou permitir que uma simples flor possa trazer alegria num dia mais
triste.
Sabedoria para respeitar a natureza sentindo a minha pequenez perante a
obra do Criador.
Sabedoria para sonhar, transformando o desalento em esperança e
conseguir viver neste mundo de violência e desamor, acreditando sempre
que a justiça e a paz sejam mais fortes e possam vencer.
Se nunca me cansar de procurar esta sabedoria, poderei afirmar em cada
dia: “Como dois e dois são quatro, sei que a vida vale a pena!”
Teresa de Sousa
O Teorema de Etelvino (Ou: Como a Vida Estraga a Matemática)
Etelvino tem uma folha em branco à sua frente. Olha para ela como quem olha para um
problema de matemática de geometria analítica e faz a pergunta habitual: — E agora?
O raio do desafio exige números, e as aritméticas e ele nunca jogaram no mesmo campeonato. Etelvino é homem de Letras. Dizem que o seu nome tem origem germânica e significa “amigo nobre”. Portanto, como bom nobre que é, recusa-se a baixar ao nível da tabuada e espera que essa nobreza o ajude a escrever, porque sozinho não está a ver o caminho. As ideias lá terão de aparecer, nem que venham aos tropeções.
O poeta que me perdoe, mas para mim a alma vale sempre a pena — seja ela tamanho XL ou júnior. E se a alma vale a pena, então a vida também vale. Pequena ou grande, tranquila ou atribulada, vale. Já perceberam por onde vou? Eu também não.
O busílis da questão: a crise existencial do E e do MAIS deixa-o atarantado. Mas vamos ao
tema. Dois e dois são quatro. Toda a gente sabe isso. É uma certeza que parece resistir ao
tempo, às modas e às opiniões. Mas a vida não tem a mesma disciplina dos números. Quando chateiam Etelvino com cálculos, contas e medições, ele encolhe os ombros: — Sei pouco de números. Sei alguma coisa da vida. E a vida não é uma ciência baseada em zeros, uns e algoritmos de vão de escada. Isso é para as máquinas, que a gente reprograma quando dão erro. A vida vale a pena porque sim, e não porque bate certo no Excel.
Além disso, há aquela expressão que sempre lhe deu nós no cérebro: diz-se “dois e dois são
quatro” ou “dois mais dois são quatro”? Disseram-lhe que ambas as formas estão corretas. Umaova ! Se a matemática é uma ciência exata, metam lá o sinal de "+".
Se dão a liberdade de usar o “e”, o Etelvino junta o 2 ao 2 e vê o 22. E quando vê o 22, não vê algarismos. No linguajar popular, são dois patinhos. Dois patinhos a nadar serenamente num lago, a viver a vida sem pensar em faturas ou no IRS.
Na matemática, dois e dois são sempre quatro. Na vida, duas pessoas podem juntar-se e tornar-se uma família. Duas palavras podem iniciar uma amizade. Dois olhares mudam um destino. E duas lágrimas podem valer mais do que mil discursos. Lá está a vida outra vez a estragar a matemática. Ou talvez a melhorá-la.
Na dúvida, Etelvino vai ao bate-papo com o Tio Einstein. Se a soma já o baralha, ir para a
gramática é o estiranço completo. Basta uma vírgula fora do lugar para a conversa ganhar um rumo completamente diferente. Vivemos rodeados de certezas que afinal não são assim tão certas.
Mas não o lixem, porque até os génios lhe dão razão. O Etelvino mandou um WhatsApp ao Tio Einstein, que lhe explicou a coisa de forma simples: a matemática pura é uma ilusão, porque na tua cabeça é uma certeza absoluta, mas quando a matemática se refere à realidade, deixa de ser certa. E a realidade é um caos: se juntares duas gotas de água com outras duas gotas de água, ficas com... uma gota grande. Onde é que estão os quatro agora, ó Pitágoras?
Obrigado, Tio Einstein. A física teórica é o melhor amigo de quem não sabe contar. Na nossa cabeça, as equações funcionam. Mas a vida acontece cá fora, no meio dos encontros, dos desencontros e dos imprevistos. Sempre que julgamos ter tudo resolvido, surge uma ventania qualquer que nos desmorona o castelo de cartas e muda as contas.
E talvez ainda bem. Porque se a vida fosse apenas uma soma perfeita, não haveria descoberta, nem espanto, nem esperança.
Como dizia o outro génio, o Shakespeare: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia". E, certamente, há mais coisas do que as que cabem numa calculadora de bolso.
Por isso, o nosso nobre Etelvino fecha a página e decreta: a vida vale a pena. Não porque tudo bate certo. Não porque dois e dois são quatro. Mas porque, apesar de sabermos que dois e dois são quatro, continuamos a preferir sonhar com os patinhos a nadar no lago. E, claro, porque de vez em quando a conta do restaurante ainda vem errada a nosso favor.
Vasco Patrício
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