O Sr. Caeiro era um relojoeiro dos antigos. Todos os dias, na sua velha oficina, dava corda aos numerosos relógios que possuía. Eles cobriam por completo as paredes, ou jaziam muito bem arrumados nas estantes, nas mesas ou nas gavetas. Havia-os de todos os tamanhos e feitios. Grandes, de pé alto, com pêndulos brilhantes e pesados, mais pequenos, redondos ou quadrados, em madeira polida, em prata ou em metal cromado. Por toda a parte havia relógios que o Sr. Caeiro, diariamente, munido de um espanador e um pequeno pano de flanela, limpava cuidadosamente.
Certo dia em que uma vez mais cumpria o seu ritual diário no meio daquele tic tac monótono a que estava tão acostumado, ouviu um toque sonoro, quase estridente, vindo de uma das gavetas onde guardava os relógios recentemente reparados e que aguardavam os seus proprietários. Abrindo a gaveta verificou que o som provinha de um estojo forrado a verde onde estava um belo relógio de bolso, antigo, em prata lavrada. Que toque seria aquele? Alarme num relógio antigo, de bolso? E como é que ele não vira nada de estranho quando reparara o relógio? A verdade é que não tinha sido necessário desmontar o seu maquinismo pois, apenas tivera que reforçar um pequeno elo que se tinha soltado.
Olhando atentamente para o relógio, o Sr. Caeiro, lembrou-se de quem o trouxera. Era um homem alto, magro, de meia idade, educado, com ligeiro sotaque e com voz de quem estava habituado a dar ordens. Chegou apressado, colocou o estojo no balcão e declarou que só deixaria o mesmo, se lhe fosse garantido que o relógio estaria pronto na manhã do dia seguinte. Rapidamente voltou a sair, depois de receber uma resposta afirmativa.
Quem seria? Provavelmente um militar altamente graduado, pensou o Sr. Caeiro.
Absorto nesses pensamentos pôs-se a manuseá-lo mais atentamente. Era um belo e curioso relógio. Maciço, pesado demais para andar no bolso e com uma invulgar gravação que ele tentara em vão decifrar com o auxílio de uma lupa. Naquele momento,um novo toque ainda mais vibrante acompanhado de uma pequena luz intermitente, chamou a sua atenção. Que significado poderia ter?
Verdadeiramente intrigado, o relojoeiro estava decidido a abrir o relógio para estudar o seu maquinismo mas não teve qualquer oportunidade, pois o seu proprietário acabava de entrar na loja.
Desejoso de saber algo mais sobre tão curioso objeto, o Sr. Caeiro, exclamou: - É um relógio muito raro; nunca tinha visto um relógio de bolso com alarme!
Ao ouvir falar em alarme, o proprietário ficou pálido, o seu rosto endureceu e nervosamente respondeu quase sem mexer os lábios: - Desculpe, tenho uma viagem longa para fazer e estou muito atrasado. E deixando uma nota no balcão, saiu apressadamente, deixando o Sr. Caeiro, boquiaberto.
Havia ali mistério e ele queria muito desvendá-lo.
Decididamente começou a pesquisar na internet e em pouco tempo encontrou alguns dados. O dono do relógio era natural do Hindustão, general na reserva e vivia em Portugal havia alguns anos. Nada mais conseguiu saber e teve que dedicar-se aos seus afazeres.
Na manhã seguinte, enquanto conduzia o carro a caminho da relojoaria, foi surpreendido por uma notícia que não podia deixá-lo indiferente. Houve uma tentativa de golpe de Estado no Hindustão. Os revoltosos que se preparavam para provocar uma verdadeira hecatombe, foram convencidos a depôr as armas e a negociar as suas reivindicações pacificamente. Uma vez mais, o «General Sem Medo» avançou desarmado até junto dos manifestantes e dissuadiu-os de utilizar a força das armas.
Seria possível que o «General Sem Medo» fosse o proprietário do belo relógio de bolso, pensou o sr. Caeiro. Seria possível ou estaria a deixar-se levar pela sua imaginação? Não tinha como saber e o assunto começou a ficar esquecido.
Passaram muitas semanas e um belo dia, enquanto passava os olhos por uma revista da especialidade que recebia habitualmente do estrangeiro, chamou-lhe a atenção um artigo sobre os relógios mais raros do mundo e lá estava a história do belo relógio de bolso. Não era único pois havia um outro semelhante a ele. Ambos tinham alarme e tinham sido a obra mais famosa de um ourives e mestre relojoeiro que habitou no Hindustão em tempos já longínquos. O alarme só era operacionado em caso de grande perigo e funcionava por sistema remoto.
Ambos os relógios estavam na posse de militares, famosos pelo seu amor à pátria e o seu heroísmo mas um deles já tinha falecido. Só restava o General Sem Medo que sempre que o alarme soava, apesar de ter de habitar no estrangeiro por motivos políticos, sentia o dever de regressar ao seu país e, apesar do perigo que corria, ajudar a resolver a crise.
O «General Sem Medo» era pois o proprietário do belo relógio de prata. Estava descoberto o mistério.
04/05/2026
Pilar Encarnação
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