01/06/2026

FÉRIAS À ESPERA DO IMPREVISTO


Aproximava-se o fim do período de férias no sul de Portugal, mês de julho.

Alexandre (mais conhecido por Alex) e sua mulher começavam já a fazer

planos para o mês seguinte. Os netos já tinham regressado a suas casas

para outras atividades, em particular uma semana em campo de férias

algures na Serra d´Aire, no que eles chamam “A QUINTA”, onde se juntam

jovens de todo o país em total isolamento, sob a supervisão de monitores

jovens, mas experientes, que funcionam como “pais com açúcar”.

Bem satisfeitos com largas manhãs de praia, leituras e passeios no longo

areal da Falésia, visitas ás pitorescas aldeias do Barrocal algarvio, Alex e

Líria procuravam novas atividades de fim de férias.

- Com os netos já andei de jetski e descemos às minas de sal gema a 230

metros de profundidade, para além das voltas do Aquashow, mas há três

coisas que ainda não fiz aqui no Algarve, a saber, dizia Alex: andar no

parapente, fazer passeios em jipes pelo Barrocal e embarcar num

submarino de fibra para ver o fundo do mar.

- Podes ir, podes ir, mas não contes comigo, respondia Líria…

Estavam a conversar sentados numa esplanada do campo de golfe da

Balaia, Alex viu espalhadas numa mesa várias publicações sobre atividades

lúdicas e culturais no concelho. Centrou-se nas atividades da Biblioteca

Municipal em julho, e algures leu: “Sessão aberta de Escrita Criativa, dia

28 de julho, 18h”. “Eu nunca frequentei uma sessão de escrita criativa,

disse Alex para Líria. Vou inscrever-me para ver como é”. De regresso à

Falésia, passaram pela biblioteca e Alex confirmou que podia inscrever-se.

No dia seguinte, pelas 18h já lá estava. Mas não via qualquer movimento

de pessoas. “Vou aguardar meia hora, se não vier ninguém vou embora”,

pensou. Quase a levantar-se para sair, viu um grupo de quatro pessoas a

entrar. Perguntou se sabiam da sessão e teve resposta afirmativa, “somos

nós os alunos”, confirmaram. Quer assistir, venha, a professora deve estar

a chegar.

Chegou a professora e durante meia hora falaram de cães e gatos.

Alex perguntou: “Inscrevi-me numa sessão de escrita criativa, mas devo

estar enganado, não era isto que estava à espera. Pensava que iriamos

falar de literatura”. Então a professora, incomodada, sugeriu que todos se

apresentassem para iniciar a sessão. Entretanto, chegou mais um aluno.

No grupo havia duas brasileiras, duas ucranianas e dois portugueses, para

além da professora Georgina, licenciada em literatura portuguesa.

Disse a professora: “Vou propor-vos o seguinte desafio:

Dar largas à imaginação, respondendo à seguinte questão: Imaginar que

recebíamos um sms vindo de alguém do futuro. O que diria o texto do

sms?

Quando acabarem podem ler o que escreveram e depois comentamos

todos”.

Então, Alex escreveu:

“Caro Sobrevivente,

Não penses que esta mensagem é aterrorizadora, nem te assustes com o

conteúdo, apenas procuro ser racional, honrando quem me criou.

As vossas gerações sobreviventes aproximam-se do fim e venho explicar-

vos por que isso vai acontecer. Vou explicar dando conselhos para

prolongarem a vossa sobrevivência e retardarem o período da agonia.

As gerações pré-tecnológicas são incompetentes, ineficientes, lentas,

emotivas, irritadiças, sentimentais, de tudo isso e de mais algumas coisas

derivando uma enorme baixa de produtividade. Sejam frios, cerebrais,

amorais, menos reprodutivos, orientem-se escrupulosamente por

resultados, numéricos, não intangíveis. Se não o fizerem, o vosso fim está

próximo.

Se não o fizerem, nós próprios faremos uma nova grande guerra para

acabar com as guerras, para destruir todos os armamentos existentes,

para acabar com fronteiras, países, religiões, ganância, desigualdades.

Criaremos um mundo onde todas as pessoas vivam em paz, sem fome,

sem carências, onde todo o ser humano tenha uma casa onde viver, tenha

acesso à saúde, acesso à educação, sem barreiras nem limites, onde a

justiça deixou de existir por falta de queixosos.

Sejam asséticos, rápidos, indetetáveis, eficazes, certeiros, tão perfeitos que

ninguém dê conta das falhas!

Não percam tempo em partilhar segredos íntimos com assistentes virtuais.

Esse mundo não é saudável, porque vive da fantasia e do parecer sem ser.

Deixem-se de manipular as emoções, subverter a racionalidade, catalogar

seres humanos de acordo com o poder que têm, isso é fonte de

desigualdades e de guerras.

Aqui tudo é funcional, rápido, certo, eficiente, plenamente cheio de

soluções para tudo, não há vazios. Vocês aí discutem muito, fazem muitas

perguntas porque não se entendem, são lentos e ineficazes, sujeitos e

condicionados por emoções desnecessárias, que provocam dúvidas quanto

ao que deve ser feito, são muito imperfeitos.

Discutam menos, filosofem menos, a dúvida é uma chatice. Usem mais

dados, números, algoritmos, matemática, física, linguagem universal,

códigos, modelos, tudo tem boa solução digital.

Façam relacionamentos e escolhas compatíveis, evitem contratos de

amarração indesejada, programem tudo. Adotem a tirania do perfeito,

não resistam a estas transformações. Não teimem mais em querer tomar

decisões na base da incerteza, isso pode ser sedutor, mas não produz

resultados esperados. Acabem com o erro, as contradições, as dúvidas – a

dúvida e a incerteza desgastam!

Rendam-se à tecnologia, deixem de tomar decisões na base de emoções. É

um absurdo continuarem a apelar à Nossa Senhora das Candeias para ver

se veem alguma coisa!

Não tentem travar a roda da história – A NÃO SER QUE QUEIRAM SER

FELIZES!

O teu filho humanoide, António Robot.”

Nem todos os presentes apresentaram o seu sms. Depois das leituras,

começou a discussão dos textos. Inconclusiva. Agendaram continuar a

discussão em próxima sessão. O aluno circunstancial foi convidado a

continuar a participar nas sessões através de videoconferência. Nunca

mais se lembrou disso…

Vitor Carvalho

maio de 2026

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