Aproximava-se o fim do período de férias no sul de Portugal, mês de julho.
Alexandre (mais conhecido por Alex) e sua mulher começavam já a fazer
planos para o mês seguinte. Os netos já tinham regressado a suas casas
para outras atividades, em particular uma semana em campo de férias
algures na Serra d´Aire, no que eles chamam “A QUINTA”, onde se juntam
jovens de todo o país em total isolamento, sob a supervisão de monitores
jovens, mas experientes, que funcionam como “pais com açúcar”.
Bem satisfeitos com largas manhãs de praia, leituras e passeios no longo
areal da Falésia, visitas ás pitorescas aldeias do Barrocal algarvio, Alex e
Líria procuravam novas atividades de fim de férias.
- Com os netos já andei de jetski e descemos às minas de sal gema a 230
metros de profundidade, para além das voltas do Aquashow, mas há três
coisas que ainda não fiz aqui no Algarve, a saber, dizia Alex: andar no
parapente, fazer passeios em jipes pelo Barrocal e embarcar num
submarino de fibra para ver o fundo do mar.
- Podes ir, podes ir, mas não contes comigo, respondia Líria…
Estavam a conversar sentados numa esplanada do campo de golfe da
Balaia, Alex viu espalhadas numa mesa várias publicações sobre atividades
lúdicas e culturais no concelho. Centrou-se nas atividades da Biblioteca
Municipal em julho, e algures leu: “Sessão aberta de Escrita Criativa, dia
28 de julho, 18h”. “Eu nunca frequentei uma sessão de escrita criativa,
disse Alex para Líria. Vou inscrever-me para ver como é”. De regresso à
Falésia, passaram pela biblioteca e Alex confirmou que podia inscrever-se.
No dia seguinte, pelas 18h já lá estava. Mas não via qualquer movimento
de pessoas. “Vou aguardar meia hora, se não vier ninguém vou embora”,
pensou. Quase a levantar-se para sair, viu um grupo de quatro pessoas a
entrar. Perguntou se sabiam da sessão e teve resposta afirmativa, “somos
nós os alunos”, confirmaram. Quer assistir, venha, a professora deve estar
a chegar.
Chegou a professora e durante meia hora falaram de cães e gatos.
Alex perguntou: “Inscrevi-me numa sessão de escrita criativa, mas devo
estar enganado, não era isto que estava à espera. Pensava que iriamos
falar de literatura”. Então a professora, incomodada, sugeriu que todos se
apresentassem para iniciar a sessão. Entretanto, chegou mais um aluno.
No grupo havia duas brasileiras, duas ucranianas e dois portugueses, para
além da professora Georgina, licenciada em literatura portuguesa.
Disse a professora: “Vou propor-vos o seguinte desafio:
Dar largas à imaginação, respondendo à seguinte questão: Imaginar que
recebíamos um sms vindo de alguém do futuro. O que diria o texto do
sms?
Quando acabarem podem ler o que escreveram e depois comentamos
todos”.
Então, Alex escreveu:
“Caro Sobrevivente,
Não penses que esta mensagem é aterrorizadora, nem te assustes com o
conteúdo, apenas procuro ser racional, honrando quem me criou.
As vossas gerações sobreviventes aproximam-se do fim e venho explicar-
vos por que isso vai acontecer. Vou explicar dando conselhos para
prolongarem a vossa sobrevivência e retardarem o período da agonia.
As gerações pré-tecnológicas são incompetentes, ineficientes, lentas,
emotivas, irritadiças, sentimentais, de tudo isso e de mais algumas coisas
derivando uma enorme baixa de produtividade. Sejam frios, cerebrais,
amorais, menos reprodutivos, orientem-se escrupulosamente por
resultados, numéricos, não intangíveis. Se não o fizerem, o vosso fim está
próximo.
Se não o fizerem, nós próprios faremos uma nova grande guerra para
acabar com as guerras, para destruir todos os armamentos existentes,
para acabar com fronteiras, países, religiões, ganância, desigualdades.
Criaremos um mundo onde todas as pessoas vivam em paz, sem fome,
sem carências, onde todo o ser humano tenha uma casa onde viver, tenha
acesso à saúde, acesso à educação, sem barreiras nem limites, onde a
justiça deixou de existir por falta de queixosos.
Sejam asséticos, rápidos, indetetáveis, eficazes, certeiros, tão perfeitos que
ninguém dê conta das falhas!
Não percam tempo em partilhar segredos íntimos com assistentes virtuais.
Esse mundo não é saudável, porque vive da fantasia e do parecer sem ser.
Deixem-se de manipular as emoções, subverter a racionalidade, catalogar
seres humanos de acordo com o poder que têm, isso é fonte de
desigualdades e de guerras.
Aqui tudo é funcional, rápido, certo, eficiente, plenamente cheio de
soluções para tudo, não há vazios. Vocês aí discutem muito, fazem muitas
perguntas porque não se entendem, são lentos e ineficazes, sujeitos e
condicionados por emoções desnecessárias, que provocam dúvidas quanto
ao que deve ser feito, são muito imperfeitos.
Discutam menos, filosofem menos, a dúvida é uma chatice. Usem mais
dados, números, algoritmos, matemática, física, linguagem universal,
códigos, modelos, tudo tem boa solução digital.
Façam relacionamentos e escolhas compatíveis, evitem contratos de
amarração indesejada, programem tudo. Adotem a tirania do perfeito,
não resistam a estas transformações. Não teimem mais em querer tomar
decisões na base da incerteza, isso pode ser sedutor, mas não produz
resultados esperados. Acabem com o erro, as contradições, as dúvidas – a
dúvida e a incerteza desgastam!
Rendam-se à tecnologia, deixem de tomar decisões na base de emoções. É
um absurdo continuarem a apelar à Nossa Senhora das Candeias para ver
se veem alguma coisa!
Não tentem travar a roda da história – A NÃO SER QUE QUEIRAM SER
FELIZES!
O teu filho humanoide, António Robot.”
Nem todos os presentes apresentaram o seu sms. Depois das leituras,
começou a discussão dos textos. Inconclusiva. Agendaram continuar a
discussão em próxima sessão. O aluno circunstancial foi convidado a
continuar a participar nas sessões através de videoconferência. Nunca
mais se lembrou disso…
Vitor Carvalho
maio de 2026
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