Onde outros veem vazios, Andresa elabora filmes e tramas que a mantêm lúcida perante a
avalanche de ideias.
Há quem diga que ela tem imaginação para dar e vender, mas a verdade é que funciona
como um esquilo que enterra nozes e sementes em vários locais para garantir o sustento
durante o inverno.
Assim, guarda folhas estilizadas entre livros para que, nos invernos de ócio longo, se lembre
de quem é.
Para ela, o vazio nunca é total; há vazios e vazios, e Andresa aprendeu a habitá-los,
preenchendo as brechas do nada com o que resgata de si mesma. Basta abrir gavetas
esquecidas, onde retalhos de poemas vivem a enganar o tempo.
Era assim que vencia o vazio — esse inimigo oco, mudo, sem ressonâncias — devolvendo-
-lhe o som das palavras. Quando menos esperava, via-se enredada em versos que pareciam
brotar da própria poeira.
Pega num livro ao acaso, limpa o pó amealhado pelos anos e, ao abrir, um marcador solta-
-se.
No verso, um verso. Reconhece a própria letra, embora o rasto da data se tenha perdido.
Na lombada estreita, separados por uma ténue linha a lápis, surgem dizeres dispersos: uns
em letra miúda, outros em maiúsculas urgentes, outros riscados a tinta azul. Rezam assim
os seus retalhos, embriões de coisa nenhuma:
Ecos
…busquemos além
o que em nós está refletido.
Somos o que queremos ver:
meros enganos,
tristes desilusões,
ecoadas imagens…
Pintura
As janelas são olhos que espreitam flores ao sol.
Uma princesa dança onde cabem bonecas e caracóis.
O sonho tem o tamanho exato de uma toalha de papel.
E ali, no centro, faltava o menino que, a cantar, a menina desenha.
Vazios? Andresa desafia-os. Desfolha outro volume e, na contracapa preenchida, encontra
a magia da caligrafia desenhada letra a letra. As cores arredondadas das idades
desbotaram, gravadas nesses cadernos encadeados pelo rigor do tempo. Deixa-se ler, mais
uma vez, nesse arquivo vivo:
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Espera. Não te vás embora… ainda.
Assim, centelha que flui do sorriso, não te apanho.
Não vês? Esvais-te como água na palma da mão.
E eu tenho sede.
Quando abruptamente cais, regressas.
O meu ânimo capta o que de ti escorre.
Da tua face brotam gotas de esgares invertidos,
onde todo o olhar é malícia e a tua boca, desejo.
Não… não vás ainda. Pára.
Não és humana, não fujas.
A fugir ia eu, e paraste-me.
Desprende-te agora da película por onde te passeias,
liberta-te do caixilho e comigo viaja.
Voemos juntos para, aí sim,
agarrar o que de ti emana
e, finalmente, soltar-me.
Andresa não consente esses vazios cinzentos. Prefere reacendê-los sob outras formas:
transforma a ausência em ócios férteis, gomos sumarentos de uma imaginação que se
recusa a morrer de fome.
Vasco Patrício
22/04/2026
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