01/06/2026

O VAZIO TEM COMO INIMIGO A IMAGINAÇÃO


Onde outros veem vazios, Andresa elabora filmes e tramas que a mantêm lúcida perante a

avalanche de ideias.

Há quem diga que ela tem imaginação para dar e vender, mas a verdade é que funciona

 como um esquilo que enterra nozes e sementes em vários locais para garantir o sustento

 durante o inverno.

Assim, guarda folhas estilizadas entre livros para que, nos invernos de ócio longo, se lembre

 de quem é.

Para ela, o vazio nunca é total; há vazios e vazios, e Andresa aprendeu a habitá-los,

preenchendo as brechas do nada com o que resgata de si mesma. Basta abrir gavetas

esquecidas, onde retalhos de poemas vivem a enganar o tempo.

Era assim que vencia o vazio — esse inimigo oco, mudo, sem ressonâncias — devolvendo-

-lhe o som das palavras. Quando menos esperava, via-se enredada em versos que pareciam

 brotar da própria poeira.

Pega num livro ao acaso, limpa o pó amealhado pelos anos e, ao abrir, um marcador solta-

-se.

No verso, um verso. Reconhece a própria letra, embora o rasto da data se tenha perdido.

Na lombada estreita, separados por uma ténue linha a lápis, surgem dizeres dispersos: uns

 em letra miúda, outros em maiúsculas urgentes, outros riscados a tinta azul. Rezam assim

 os seus retalhos, embriões de coisa nenhuma:


Ecos

…busquemos além

o que em nós está refletido.

Somos o que queremos ver:

meros enganos,

tristes desilusões,

ecoadas imagens…


Pintura

As janelas são olhos que espreitam flores ao sol.

Uma princesa dança onde cabem bonecas e caracóis.

O sonho tem o tamanho exato de uma toalha de papel.

E ali, no centro, faltava o menino que, a cantar, a menina desenha.

Vazios? Andresa desafia-os. Desfolha outro volume e, na contracapa preenchida, encontra

 a magia da caligrafia desenhada letra a letra. As cores arredondadas das idades

 desbotaram, gravadas nesses cadernos encadeados pelo rigor do tempo. Deixa-se ler, mais

 uma vez, nesse arquivo vivo:


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Espera. Não te vás embora… ainda.

Assim, centelha que flui do sorriso, não te apanho.

Não vês? Esvais-te como água na palma da mão.

E eu tenho sede.

Quando abruptamente cais, regressas.

O meu ânimo capta o que de ti escorre.

Da tua face brotam gotas de esgares invertidos,

onde todo o olhar é malícia e a tua boca, desejo.

Não… não vás ainda. Pára.

Não és humana, não fujas.

A fugir ia eu, e paraste-me.

Desprende-te agora da película por onde te passeias,

liberta-te do caixilho e comigo viaja.

Voemos juntos para, aí sim,

agarrar o que de ti emana

e, finalmente, soltar-me.

Andresa não consente esses vazios cinzentos. Prefere reacendê-los sob outras formas:

transforma a ausência em ócios férteis, gomos sumarentos de uma imaginação que se

 recusa a morrer de fome.

Vasco Patrício

22/04/2026

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