20/06/2026

MOTE: "Como Dois e Dois são Quatro, Sei que a Vida Vale a Pena"

 UMA LÓGICA DA VIDA

Na praia ela era a Mila das latinhas.
Trazia a noite despenteada, pela mão o cheiro de resina.
Conhecia bem o silêncio dos valados e o sabor das amoras.
Surgia em qualquer lugar da praia sem hora certa, nem anuncio.
Deambulava por ruelas e escadinhas na procura de latas e papeis.
A garotada gritava alvoroçada: É malta! Lá vem a Mila das latinhas!


Talvez fosse feliz, talvez, não sei. Talvez se julgasse rainha!
Para ela ser rainha ou princesa seria igual, é o que penso.
Quando pisava as estevas do pinhal enchia de rosmaninho
os bolsos dos calções, pois o rosmaninho seria incenso ou ouro
já que era dona das dunas, dos chorões e das searas de piteiras.

Todo o horizonte era só seu. Dava ordens à terra e até aos céus,
trauteando confusas ladainhas enquanto arrastava latas pela estrada.
Inventava carreiros de acaso na escuridão, vedados a todos os demais.
Pedia à bruma para ser farol das brisas de espuma e sargaço.

Naveguei até ao mar de ondas enroladas, azuis sem haver tela.
Chão de choros por calar, pintura de aguarela no oiro velho das estrelas.
Quando o mar subiu a vaga, fiz-me nuvem rendilhada em recortes
de algodão, mancha de chumbo, agoiro de chuvada sem esperança.

Ela continuava dia a dia a percorrer a praia da sua vida (que vale a pena)
arrastando as latas, talvez se imaginando na viagem de núpcias.
Oh! porque não ouviste o meu recado! Onde me levas na inspiração?
Roubaram-me as palavras por dizer e as fontes secaram no jardim,
onde o lilaseiro de perfume qu  ente, tinha as flores desbotadas pelo espanto.
Quase poesia, só rimas estranhas. Será que dois e dois são quatro?


                                                                                                Fernando Baptista



Ao ler o tema desta semana, duas frases vieram, de imediato, à minha
memória:

- Prognósticos só no fim do jogo, do pequeno grande capitão João Pinto (defesa direito) do F.C.P.

- Tudo vale a pena se a alma não é pequena do grande poeta Fernando
Pessoa

 que caracteriza muito bem no poema Mar Português publicado,
originalmente, na revista Contemporânea em 1922 e mais tarde (1934) no
livro Mensagem:

Ó mar salgado, quanto do teu sal.
São lágrimas de Portugal!
Por te cruzarmos, quantas mães choraram,
Quantos filhos em vão rezaram!
Quantas noivas ficaram por casar
Para que fosses nosso ó mar!

Valeu a pena? Tudo vale a pena
Se a alma não é pequena.
Quem quer passar além do Bojador
Tem que passar além da dor
Deus ao mar o perigo e o abismo deu,
Mas nele é que espelhou o céu!

                                                                                           Jerónimo Pamplona



A certeza matemática…

Não sei aplicá-la à vida
Porque a valia que tem
É concreta e definida
Mas também é problemática.

Na vida não funciona
O dois mais dois serem quatro
Porque as equações são tantas
Neste espaço de teatro
Que a lógica te abandona.

É que a vida é tão bela
Que mesmo correndo mal
Eleva-nos, faz de nós gente
Mostrando-nos, no final
Que vale a pena vivê-la.


                                                                                                            Maria Amélia Mendes



Isto cada vez está mais difícil! Como é que vou trabalhar este tema? Provavelmente o mais fácil seria arranjar uma história dum casal com dois filhos.

A mulher teria tido muita dificuldade em engravidar, e teve de se sujeitar a tratamentos de fertilização que felizmente resultaram num par de gémeos, ainda por cima de sexo diferente. 

Afinal, hoje em dia muitas mulheres lutam para conseguir engravidar. Uma das causas é o facto de cada vez mais, quererem ter uma carreira profissional, e quando dão por isso, a idade mais fértil já foi. Não é uma censura, mas apenas a constatação dos factos.

E depois como vou acabar a história?

Acabar por cair no melodrama de que o casal só se sentiu realizado quando passaram a ser quatro?

Definitivamente, não estou inspirada e como não quero ir consultar a IA,fica assim mesmo.


                                                                                                                  Maria José Saraiva




Viver é uma acto de sabedoria.
Sabedoria para descobrir um pequeno brilho na noite escura que me
esmaga.
Sabedoria para me sentir encorajada pela mão que se estende, pela
meiguice de um olhar ou pela ternura de um sorriso.
Sabedoria para me dar sem esperar o retorno, saboreando a felicidade de
fazer o outro feliz.
Sabedoria para sentir o coração a saltar no peito com a gargalhada de uma
criança ou permitir que uma simples flor possa trazer alegria num dia mais
triste.
Sabedoria para respeitar a natureza sentindo a minha pequenez perante a
obra do Criador.
Sabedoria para sonhar, transformando o desalento em esperança e
conseguir viver neste mundo de violência e desamor, acreditando sempre
que a justiça e a paz sejam mais fortes e possam vencer.
Se nunca me cansar de procurar esta sabedoria, poderei afirmar em cada
dia: “Como dois e dois são quatro, sei que a vida vale a pena!”


                                                                                                                Teresa de Sousa



O Teorema de Etelvino (Ou: Como a Vida Estraga a Matemática)


Etelvino tem uma folha em branco à sua frente. Olha para ela como quem olha para um
problema de matemática de geometria analítica e faz a pergunta habitual: — E agora?

O raio do desafio exige números, e as aritméticas e ele nunca jogaram no mesmo campeonato. Etelvino é homem de Letras. Dizem que o seu nome tem origem germânica e significa “amigo nobre”. Portanto, como bom nobre que é, recusa-se a baixar ao nível da tabuada e espera que essa nobreza o ajude a escrever, porque sozinho não está a ver o caminho. As ideias lá terão de aparecer, nem que venham aos tropeções.


O poeta que me perdoe, mas para mim a alma vale sempre a pena — seja ela tamanho XL ou júnior. E se a alma vale a pena, então a vida também vale. Pequena ou grande, tranquila ou atribulada, vale. Já perceberam por onde vou? Eu também não.

O busílis da questão: a crise existencial do E e do MAIS deixa-o atarantado. Mas vamos ao
tema. Dois e dois são quatro. Toda a gente sabe isso. É uma certeza que parece resistir ao
tempo, às modas e às opiniões. Mas a vida não tem a mesma disciplina dos números. Quando chateiam Etelvino com cálculos, contas e medições, ele encolhe os ombros: — Sei pouco de números. Sei alguma coisa da vida. E a vida não é uma ciência baseada em zeros, uns e algoritmos de vão de escada. Isso é para as máquinas, que a gente reprograma quando dão erro. A vida vale a pena porque sim, e não porque bate certo no Excel.

Além disso, há aquela expressão que sempre lhe deu nós no cérebro: diz-se “dois e dois são
quatro” ou “dois mais dois são quatro”? Disseram-lhe que ambas as formas estão corretas. Umaova ! Se a matemática é uma ciência exata, metam lá o sinal de "+".

Se dão a liberdade de usar o “e”, o Etelvino junta o 2 ao 2 e vê o 22. E quando vê o 22, não vê algarismos. No linguajar popular, são dois patinhos. Dois patinhos a nadar serenamente num lago, a viver a vida sem pensar em faturas ou no IRS.

Na matemática, dois e dois são sempre quatro. Na vida, duas pessoas podem juntar-se e tornar-se uma família. Duas palavras podem iniciar uma amizade. Dois olhares mudam um destino. E duas lágrimas podem valer mais do que mil discursos. Lá está a vida outra vez a estragar a matemática. Ou talvez a melhorá-la.

Na dúvida, Etelvino vai ao bate-papo com o Tio Einstein. Se a soma já o baralha, ir para a
gramática é o estiranço completo. Basta uma vírgula fora do lugar para a conversa ganhar um rumo completamente diferente. Vivemos rodeados de certezas que afinal não são assim tão certas.

Mas não o lixem, porque até os génios lhe dão razão. O Etelvino mandou um WhatsApp ao Tio Einstein, que lhe explicou a coisa de forma simples: a matemática pura é uma ilusão, porque na tua cabeça é uma certeza absoluta, mas quando a matemática se refere à realidade, deixa de ser certa. E a realidade é um caos: se juntares duas gotas de água com outras duas gotas de água, ficas com... uma gota grande. Onde é que estão os quatro agora, ó Pitágoras?

Obrigado, Tio Einstein. A física teórica é o melhor amigo de quem não sabe contar. Na nossa cabeça, as equações funcionam. Mas a vida acontece cá fora, no meio dos encontros, dos desencontros e dos imprevistos. Sempre que julgamos ter tudo resolvido, surge uma ventania qualquer que nos desmorona o castelo de cartas e muda as contas.

E talvez ainda bem. Porque se a vida fosse apenas uma soma perfeita, não haveria descoberta, nem espanto, nem esperança.

Como dizia o outro génio, o Shakespeare: "Há mais coisas entre o céu e a terra do que sonha a nossa vã filosofia". E, certamente, há mais coisas do que as que cabem numa calculadora de bolso.

Por isso, o nosso nobre Etelvino fecha a página e decreta: a vida vale a pena. Não porque tudo bate certo. Não porque dois e dois são quatro. Mas porque, apesar de sabermos que dois e dois são quatro, continuamos a preferir sonhar com os patinhos a nadar no lago. E, claro, porque de vez em quando a conta do restaurante ainda vem errada a nosso favor.

                                                                                                                            Vasco Patrício






07/06/2026

Tema: A minha casa sou eu


Lá fora o vento tange o violino de cordas retesadas.

Tudo são guedelhas desgrenhadas, corpos erectos que baloiçam.

Oiço o escuro e não o posso ver, vejo o vento e não sei escutar.

Não sei do meu sorriso de romã a abrir. Só tenho vertigens de linho!

Sou o barro que se amassa e molda. Em cada volta sou diferente.

A minha casa sou eu! A criança que mora em mim espanta-se de repente!

Adeus sobreiros das bolotas assadas no forno que enferrujou.

Quero picar os dedos nas ortigas, colher espargos nas balsas dos carreiros,

sonhar de novo com Júlio Verne, e pasmar com a história dos três porquinhos.

Rasgar a noite, doente de paixão, segredar ao papel o primeiro verso, solfejar

a dor de uma canção e dar contas de tudo aquilo que não fiz para matar a

sede.              

Já não sou a minha casa! Que vou dizer ao menino que em mim ainda mora?

Que hoje a casa é nossa, e nela vivem milhares de crianças com cheiro a lua e

mel.

Cavalguei o meu corcel, na noite opaca, sem arreios, sem manta, sem selim.

Sem trajo de cavalgar. Em seu lugar uma casaca, e na botoeira um ramo de

alecrim.

Bati à porta da nossa casa na esquiva madrugada perfumada de aloendros e

poejos.

Fomos amantes na cama desejada e adormeci sobre lençóis de beijos...

Afundei as raízes do meu crer e floresci em versos no madrugar de um poema.

Espalhei o aroma de rimas que escrevi em textos dispersos.

Enquanto a minha carne for poesia, o amor me mate de sede e a fé de

sustento.

Vejo-me no entardecer da paixão, nas derrocadas do futuro, no tédio indefinido,

que só tem sentido quando a seara dá pão no cansaço do obscuro.

No fogo que ateei restam brasas no lume agora calor em mãos rasas.

O batente daquela porta fechada sofreu o silêncio da noite amuada

sem ter no bronze um gemido de dor, com garras aduncas do parece-mal.

Abriremos a porta na manhã clara do novo dia que desponta solarengo.

Escorrem mistérios futuros em cada madeixa que o sol pendura nos rochedos!

Tudo é luz azul e os medos de sombras que escondem escuros

abrem-se em gestos transparentes e vales preguiçosos junto ao mar.


                                                                                                    Fernando Baptista


NÃO! A MINHA CASA NÃO SOU EU! A MINHA CASA SOMOS NÓS!!! EU E A GABI:

COPROPRIETÁRIOS!

A familia que se constituiu em 20 de agosto de 1966 pela junção, no casamento católico, de Maria Gabriela Coutinho Lourenço e Jerónimo Augusto Esteves Pamplona. Este casamento deu origem a quatro netos equatro filhos: três rapazes e uma rapariga que coabitram connosco até constituirem as suas próprias familias e fundarem as suas casas em Munique, Alemanha, Linda- a – Velha, Carnaxide, Atouguia da Baleia, Peniche. Quem visitar a nossa casa em Algés, verificará que nas paredes da sala comum existem 14 quadros: 11 pintados pela Gabi e 3 comprados por mutuo acordo, sinal claro de que a minha casa é nossa desde o momento da compra em 1972.

Os ditados populares* sobre a casa ensinam-nos que a habitação é mais do que um espaço fisico – é o reflexo da nossa personalidade, um refugio de paz e a base da nossa vida:

-Boa romaria faz quem em sua casa fica em paz. 

- A roupa suja lava-se em casa.

- O lar é o reflexo do coração.

- Uma casa você vê, um lar você sente.

-A casa deve ser o estojo da vida, a máquina da felicidade.

- Lar é familia, amor e aconchego.

- Cada espaço tem a sua cara e um pouquinho da sua personalidade


Frases de personalidades célebres*:

«A verdadeira felicidade está na própria casa, entre as alegrias da familia» (Leon Tolstoi)

«Onde quer que viva, esse é o seu templo, se o tratar como tal» (Buda)

«Uma atmosfera de amor em sua casa é muito importante. Faça tudo o que puder para criar um lar tranquilo e com harmonia» (Dalai Lama)

* Fonte - Google

                                                                                            Jerónimo Pamplona



A minha casa é o meu corpo, uma casa construída por pedras vivas.

Uma casa cujo modelo não escolhi porquanto o projecto aconteceu no momento da

concepção. Uma casa irrepetível e insubstituível.

Uma realidade que me permite concluir:

“A minha casa é o meu corpo, sou eu!”


Mas… também existe a casa onde vivo, uma casa de pedra e cal que me acolhe e

abriga, que é substituível, que posso modelar de acordo com o meu gosto e as minhas

necessidades.

Curiosamente, a casa onde também me consigo rever, onde cada objecto tem uma

história para contar. Diria que é o museu que reúne o espólio de toda uma vida.

Analisando tudo em pormenor, também consigo afirmar:

“Esta casa, a minha casa, sou eu!”


                                                                q                                            Teresa Sousa


A Minha Casa Sou Eu

Ambrósia era uma “arrumadinha da silva”, sempre “cheia de nove  horas".Graduada,doutorada, bem-sucedida, organizara a vida com a precisão de quem acredita que o sucesso se constrói a régua e esquadro. Tinha uma carreira de prestígio, um palacete opulento na zona nobre da capital, viagens constantes, reconhecimento. Ainda assim, a casa quetransportava dentro de si permanecia estranhamente despida. Faltava-lhe sempre qualquer coisa.

Desconhecia a velha sabedoria de que há mais felicidade em dar do que em receber. Recusava-se a olhar para as próprias cegueiras interiores. Para ela, a máxima era absoluta:“A minha casa sou eu.”

E era verdade. Mas ignorava a regra essencial: para arrumar uma casa, é preciso primeiro ter a coragem de a desarrumar. E Ambrósia jamais desarrumara a sua. Na sua vida — tal como nas divisões do palacete — tudo permanecia excessivamente alinhado, previsível,intacto.

Nunca permitira verdadeiramente que gostassem dela. Sempre que a vida insinuava afetos, via neles uma ameaça. O amor parecia-lhe um fogo descontrolado: bastava uma fagulha para incendiar tudo o que levara anos a construir. Não, a paixão não fazia parte da sua arquitetura. Gostar de alguém era perigoso. Os inquilinos podiam ser inconvenientes,ingratos, passageiros. Convencera-se de que as casas sólidas não precisam de obras nem remodelações. Venham temporais, os seus alicerces de betão resistiriam sempre.

Mas os alicerces do coração obedecem a outras leis. O coração não se governa: ou ama e se desarruma, ou torna-se apenas uma casa vazia.

Invejava secretamente Hirondina, a empregada, que vivia numa casa humilde, apertada de espaço e cheia de vida. Havia nela a serenidade de quem aprende diariamente a dar e receber amor. Os netos enchiam-lhe os dias, as memórias, a mesa, a alma.

Ao contrário de Hirondina, que tinha a casa cheia de vida, Ambrósia tinha o palacete cheio de espaço. Pelos corredores de mármore, restava-lhe apenas a companhia de um olhar fiel e sem voz, uma presença que adornava a solidão do palacete como uma escultura viva. Ali guardava, no segredo daquela criatura que não julgava, o resto de calor humano que não seatrevia  a dar ao mundo.

“A minha casa sou eu”, repetia.

Mas ao construir uma fortaleza imune à dor, construíra também uma prisão imune à vida. Apregoava frequentemente: “Cá em casa só entra quem eu quero”. A verdade é que nunca deixara entrar ninguém.

E assim passou os anos: vigilante à porta da própria existência, sem perceber que, enquanto se protegia da perda, também se afastava da possibilidade de ser amada. Nunca saberia o que é permanecer no coração de alguém da forma como Marguerite Yourcenar um dia escreveu:

“Você nunca saberá que sua alma viaja, como um doce coração abrigado no fundo do meu coração. E que nada: nem o tempo, nem outros amores, nem a idade, jamais fará com que você deixe de existir em mim. Que toda a beleza do mundo carrega seu rosto, e que um pouco de sua voz ecoa no meu canto.”

Agora, olha em redor e tudo na casa lhe pesa. Não são apenas os anos. Numa parede, uma pintura retratava-a numa postura que não reconhecia.

O palacete continua opulento, mas despido de fotos, desabitado de memórias. As divisões permanecem intactas, silenciosas, vazias de história. Nada ali será demolido — mas também nada será lembrado.

O silêncio esmagava. Ambrósia ligou o rádio, a sua habitual companhia nas noites de tédio. A voz da fadista arrastava-se pela sala, ecoando nas paredes gélidas:

“Eu tinha as chaves da vida e fui roubada Mataram dentro de mim toda a poesia Deixaram só tristezas sem mais nada E a fonte dos meus olhos que eu não queria”

Ficou apenas o eco de uma vida demasiado arrumada para ter sido verdadeiramente vivida. No fim, diante daquele rádio, o seu lamento absoluto:

— “Eu tinha as chaves da vida... e não a abri”. 

(Nota do autor: Excerto do fado Eu tinha as chaves da vida, com letra de Júlio de Sousa e

música de Mário Moniz Pereira, imortalizado por Lucília do Carmo).

                                                                                                    Vasco Patrício

01/06/2026

NA FRONTEIRA DA TERNURA


Na fronteira da ternura

Onde a minha mão procura a tua,

Na busca de uma carícia ansiada,

Na espera serena e ansiosa do desejo

De me perder no teu olhar

Longa, serena e irremediavelmente,

Num mar fluido de sentidos e sentimentos,

Emoções e desejos,

Na plenitude do sorriso alegre e triste

Que recordo de ti.

Num tempo breve e longo,

Num espaço perto e distante,

Vividos na simbiose da noite e da lua,

Do dia e do sol,

Num longo diálogo

De palavras e emoções

De folhear e desvendar o livro da vida

Num encontro de silêncios e palavras

De gestos ousados e tímidos

De avanços e recuos

Na procura permanente do ouvir e sentir

Palavras sempre novas.

Na urgência de inventar um olhar mais profundo,

Um beijo mais doce, à flor da boca,

um procurar lento à flor da tua pele

que tarda em chegar a mim.


Maria de Freitas

maio 2026

DEVANEIOS (DESAFIO / TEXTO COLETIVO)

 Amo, pelas tardes demoradas de Verão, o sossego da

cidade baixa, e sobretudo aquele sossego que o contraste

acentua na parte que o dia mergulha em mais bulício.

(texto de Fernando Pessoa/Bernardo Soares)



Amo o Pôr-Do-Sol visto da minha janela. O sol esconde-se

atrás do Rio, a Lua surge e traz a noite consigo. Agora

descanso e faz-se silêncio.

Lembro-me das árvores que no passeio voltam e revoltam ao

sabor do vento, espalhando a sua sombra sobre o mundo.

Prefiro a vida real do que a sonhada; o sonho é demasiado

agradável e envolvente e rouba-me a prudência.

Não vou atrás do sonho, ele é que tenta levar-me. Resisto-lhe.

Ele abraça-me na sua imaterialidade envolvente e, arrasta-me

num voo rasante  um pé cá, um pé lá...

Descolo, rendida.

É tão bom voar!!!....

O sossego da cidade permite o desenrolar do bulício do meu

sonho.

Será razoável pensar que é possível idealizar algo ou ser

criativo em redor de algo que nunca se viu, nem de que há

registo oral ou escrito?

(A suposição é de que é preciso ter lido muito sem sair do seu

pequeno mundo).

Será possível imaginar ou descrever o comportamento de um

budista sem ter lido ou vivido os ensinamentos de Buda?

Amo o sonho do fim da tarde em que sou embalada pelo vento

entre as árvores.

Olho os verdes do arvoredo sacudido pelos ventos de Maio.

Há poeiras no ar e pessoas que se queixam de alergias.

Há árvores floridas e flores de mil cores. Maio de mil feições.

Volto ao real. Operários regressam das fábricas, varinas

regressam com cabazes à cabeça. Os gatos miam nos becos

sujos e escuros.

A vida normal desfila à minha frente, mas não a vejo. Imagino-

me longe, na espuma duma onda nascida no casco do navio

que parte para longe, rumo ao desconhecido.

Grupos de crianças sorridentes e barulhentas a caminho de

casa, contrastando com as filas de homens e mulheres, de

olhar cansado, no final de um dia de trabalho.

Uma criança corre atrás duma bola. O que pensará ela das

pessoas apressadas que caminham absortas? Será que se fixa

na cor dos sapatos ou na cor dos olhos, na roupa, nos

chapéus, nos objetos? De noite sonhará com estas pessoas ou

com nuvens em forma de ondas e cavalos?

Com que elementos constrói o seu imaginário? Talvez com o

barulho das folhas das árvores, quando o vento sopra. Talvez

com o chilrear dos pássaros do parque onde passeia ao

domingo. Talvez com o barulho dos elétricos que descem e

sobem a rua. Talvez com os abraços quentes e apertados dos

avós que a escondem num ninho pequeno e seguro.

Este mundo que sonha é apenas seu. Nele vive, cresce, sorri e

descobre.


ALUNOS E PROF.ª DE LITERATURA PORTUGUESA SÉC.XX

SEM POESIA ESMORECE A UTOPIA


Sem poesia, não canta a cotovia

Falam as armas, esmorece a utopia

Negoceiam os poderosos, a falsa harmonia

Nos campos minados, não cria a cotovia!

Nos ninhos destruídos, não chilreia a alegria

Valha-nos a esperança, de ter paz um dia

Que se calem as armas,

Que se escute alegre sinfonia!


Francisco Lourenço

19 de Maio de 2026

ARTE XÁVEGA - PESCA ARTESANAL

 

É dia 20 de setembro de 2021.O Verão a despedir-se e o equinócio a aproximar-se.

A Costa da Caparica, em fim de tarde, numa generosa e extensa oferta de fresco areal 

dourado, rendilhado por fios prateados de água cristalina, resiste ao peso dos corpos que 

se deslocam acariciados pela brisa amena e usufruem a maré baixa. É o convite irrecusável 

à deliciosa caminhada numa contagiante tranquilidade.

Ao longe, silhuetas indefinidas junto a um barco, suscitam-nos curiosidade. Avançamos até 

lá.

Cruzamo-nos com muita gente que transporta sacos verdes, dentro dos quais algo mexe.

Finalmente chegamos ao local da grande concentração que ali permanece silenciosa, mas

aparentemente esclarecida.

Nós, no entanto …..em total tentativa de entendimento de tantos sinais para descodificar, 

vamos fazendo perguntas.

O areal está irreconhecível, coberto por milhares de gaivotas! O sol, na linha do horizonte, a

despedir-se, envolto em lençóis alaranjados e nós deslumbrados continuamos 

embrenhados em absoluto êxtase e espanto!

O barco (Rei dos Mares), está ocupado por pescadores em expetativa e olhar dirigido para a

linha do horizonte.

O areal está coberto com plásticos, qual manta de retalhos!!! Preparativos para futuro ou

vestígios do passado?

Decido perguntar a um pescador se há peixe e a resposta é clara: “já não há mas vai haver, 

já não demora”…. O sol entretanto desaparece, o frio aparece e o peixe? ainda não visível.

Apetece-me perguntar a previsibilidade horária, contudo, e porque a magia paira no ar, 

deve ser aceite e respeitada na sua autenticidade…..

Aguardo, e o meu olhar percorre incessantemente tudo que visualmente me é oferecido.

Finalmente….. os tratores iniciam a marcha, avançam mar adentro, os pescadores avançam

em paralelo, como cumprindo um ritual e orientando o percurso.

A excitação do espetáculo sem informação complementar continua, apenas a intuição 

desperta, supera o desconforto do frio e do desconhecimento.

As gaivotas num impulso coletivo, ultrapassam os homens e as máquinas, avançam

agressivamente e lá longe, numa pirueta coletiva invertem o sentido, acompanhando do 

alto, a rede a ser puxada para terra.

Finalmente o pescado chega ao areal, começamos a entender, é lançado freneticamente 

sobre a manta de retalhos e começa a seleção rápida, tal a pressão de ataque provocada 

pelas gaivotas que baixam em massa e em estridentes gritos. Peixe agrupado e 

rapidamente começa a venda tentadora perante tanta variedade.

Apetece comprar muito peixe vivo, garantidamente fresco.

E agora sim, também temos sacos verdes cheios de bom peixe, mas onde a luta entre a 

vida  e a morte se trava.

Toda a magia anterior se desvanece, sinto-me angustiada e dividida. Os indefesos 

capturados estão agora em agonia nos sacos que acumulo nas mãos. Sinto imediatamente 

a diferença do sentimento entre comprá-los no mercado e comprá-los no areal onde lutam 

pela vida desesperadamente. Torna-se tudo tão estranho…REFLITO enquanto os 

transporto.

As vivências são a grande escola; ensinam a sentir verdadeiramente e serão elas o grande

impulsionador da autêntica transformação que provoca desassossego. Tudo é dinâmico, a 

vida é uma sequência de experiências que por vezes nos permitem sentir, aprofundar, 

refletir, embora nem sempre conclusivamente!

Os peixes fazem parte da cadeia alimentar e são preciosos na manutenção da nossa saúde!

Mas, apesar de tudo, o desassossego mantém-se!!

Foi uma vivência marcante, muito pessoal e dolorosa.

Foi um fim de tarde inesquecível. Também o verão está sujeito aos ciclos da vida.


Maria de Lourdes Santos

19 de Maio de 2026

O RELÓGIO MISTERIOSO

 O Sr. Caeiro era um relojoeiro dos antigos. Todos os dias, na sua velha oficina, dava corda aos numerosos relógios que possuía. Eles cobriam por completo as paredes, ou jaziam muito bem arrumados nas estantes, nas mesas ou nas gavetas. Havia-os de todos os tamanhos e feitios. Grandes, de pé alto, com pêndulos brilhantes e pesados, mais pequenos, redondos ou quadrados, em madeira polida, em prata ou em metal cromado. Por toda a parte havia relógios que o Sr. Caeiro, diariamente, munido de um espanador e um pequeno pano de flanela, limpava cuidadosamente.

 Certo dia em que uma vez mais cumpria o seu ritual diário no meio daquele tic tac monótono a que estava tão acostumado, ouviu um toque sonoro, quase estridente, vindo de uma das gavetas onde guardava os relógios recentemente reparados e que aguardavam os seus proprietários. Abrindo a gaveta verificou que o som provinha de um estojo forrado a verde onde estava um belo relógio de bolso, antigo, em prata lavrada. Que toque seria aquele? Alarme num relógio antigo, de bolso? E como é que ele não vira nada de estranho quando reparara o relógio? A verdade é que não tinha sido necessário desmontar o seu maquinismo pois, apenas tivera que reforçar um pequeno elo que se tinha soltado.

 Olhando atentamente para o relógio, o Sr. Caeiro, lembrou-se de quem o trouxera. Era um homem alto, magro, de meia idade, educado, com ligeiro sotaque e com voz de quem estava habituado a dar ordens. Chegou apressado, colocou o estojo no balcão e declarou que só deixaria o mesmo, se lhe fosse garantido que o relógio estaria pronto na manhã do dia seguinte. Rapidamente voltou a sair, depois de receber uma resposta afirmativa.

 Quem seria? Provavelmente um militar altamente graduado, pensou o Sr. Caeiro.

 Absorto nesses pensamentos pôs-se a manuseá-lo mais atentamente. Era um belo e curioso relógio. Maciço, pesado demais para andar no bolso e com uma invulgar gravação que ele tentara em vão decifrar com o auxílio de uma lupa. Naquele momento,um novo toque ainda mais vibrante acompanhado de uma pequena luz intermitente, chamou a sua atenção. Que significado poderia ter?

 Verdadeiramente intrigado, o relojoeiro estava decidido a abrir o relógio para estudar o seu maquinismo mas não teve qualquer oportunidade, pois o seu proprietário acabava de entrar na loja.

 Desejoso de saber algo mais sobre tão curioso objeto, o Sr. Caeiro, exclamou: - É um relógio muito raro; nunca tinha visto um relógio de bolso com alarme!

 Ao ouvir falar em alarme, o proprietário ficou pálido, o seu rosto endureceu e nervosamente respondeu quase sem mexer os lábios:  - Desculpe, tenho uma viagem longa para fazer e estou muito atrasado. E deixando uma nota no balcão, saiu apressadamente, deixando o Sr. Caeiro, boquiaberto.

 Havia ali mistério e ele queria muito desvendá-lo.

 Decididamente começou a pesquisar na internet e em pouco tempo encontrou alguns dados. O dono do relógio era natural do Hindustão, general na reserva e vivia em Portugal havia alguns anos. Nada mais conseguiu saber e teve que dedicar-se aos seus afazeres.

 Na manhã seguinte, enquanto conduzia o carro a caminho da relojoaria, foi surpreendido por uma notícia que não podia deixá-lo indiferente. Houve uma tentativa de golpe de Estado no Hindustão. Os revoltosos que se preparavam para provocar uma verdadeira hecatombe, foram convencidos a depôr as armas e a negociar as suas reivindicações pacificamente. Uma vez mais, o «General Sem Medo» avançou desarmado até junto dos manifestantes e dissuadiu-os de utilizar a força das armas.

 Seria possível que o «General Sem Medo» fosse o proprietário do belo relógio de bolso, pensou o sr. Caeiro.  Seria possível ou estaria a deixar-se levar pela sua imaginação? Não tinha como saber e o assunto começou a ficar esquecido.

 Passaram muitas semanas e um belo dia, enquanto passava os olhos por uma revista da especialidade que recebia habitualmente do estrangeiro, chamou-lhe a atenção um artigo sobre os relógios mais raros do mundo e lá estava a história do belo relógio de bolso. Não era único pois havia um outro semelhante a ele. Ambos tinham alarme e tinham sido a obra mais famosa de um ourives e mestre relojoeiro que habitou no Hindustão em tempos já longínquos.  O alarme só era operacionado em caso de grande perigo e funcionava por sistema remoto.

 Ambos os relógios estavam na posse de militares, famosos pelo seu amor à pátria e o seu heroísmo mas um deles já tinha falecido. Só restava o General Sem Medo que sempre que o alarme soava, apesar de ter de habitar no estrangeiro por motivos políticos, sentia o dever de regressar ao seu país e, apesar do perigo que corria, ajudar a resolver a crise.

 O «General Sem Medo» era pois o proprietário do belo relógio de prata. Estava descoberto o mistério. 

04/05/2026 
 Pilar Encarnação

- VÓS, SE ME LERDES, DIR-ME-EIS SE VALE OU NAO A PENA CONTINUAR


Navegando num mar de incertezas, ouso dar-vos a conhecer
alguns dos meus versos...às vezes ben controversos, sempre com verso e reverso
de uma medalha que não foi conquistada em dura batalha, mas em momentos de lazer em que escrevo para vencer o tempo, antes que o tempo me vença a mim.
A todos os que me têm feito acreditar...
Um abraço

Fernando de Almeida Serrano

O DESPERTAR NO "TRÁS DO SOL POSTO"


Acordava logo de manhã com o estalar rítmico do frio nas vigas de madeira do teto, um

som que a cidade, com o seu zumbido elétrico constante, tinha desaprendido de ensinar.

Não havia despertadores, apenas a mudança sutil da luz que filtrava pelas frestas das

portadas de carvalho. Para Daphie, aquele era o primeiro sinal de que a vida é uma coisa

imensa, que não cabe numa teoria, num poema ou num dogma. Ali, a luz pintando linhas

de pó dourado no ar era a prova de que a existência se manifesta no ínfimo, muito antes de

qualquer explicação humana.

Daphie recordava-se das dúvidas que atormentavam os brilhantes homens do passado —

filósofos e cientistas que tentavam dissecar o mundo através da lógica. Eles viviam na

incerteza porque olhavam para a vida de fora, como quem estuda um mapa sem nunca

pisar o solo. Daphie, com as mãos na terra húmida e a geada a morder-lhe os dedos,

compreendeu que o erro deles era tentar transformar o mundo num substantivo estático,

quando a vida é, na verdade, um verbo. Ao cuidar das árvores dos seus avós, a contradição

da cidade resolvia-se: a macieira não precisava de uma tese para existir; ela era um

enunciado completo de vida.

À noite, ela confrontava o relato daquela astronauta que, do alto da sua solidão

tecnológica, descrevera o espaço como um vácuo negro e indiferente, um abismo que fazia

a humanidade parecer insignificante. Mas Daphie via essa mesma escuridão de baixo para

cima. Sem as luzes da civilização para camuflar o infinito, o céu sobre a quinta era um

abismo cravejado de prata. Onde a astronauta vira um vazio assustador, Daphie via o

espaço necessário para que a sua própria luz — a luz da consciência — pudesse brilhar.

Foi nesta colisão com o real que ela se tornou o "deus imberbe": a divindade que não nasce

da arrogância, mas da presença absoluta. O dogma dissolveu-se porque é apenas uma

moldura para quem tem medo do quadro, e ela agora habitava a tela inteira. A teoria

calou-se porque quem sente o pulsar do sangue e o ciclo das estações não precisa de

 provar a existência de "Alguém" — ela tocava na assinatura desse Alguém na textura da

 casca e na geometria das sementes.

Naquela quinta, Daphie deixou de ser alguém que observa para ser alguém que É. Se a vida

é obra de Alguém, ela passou a ser o pincel em movimento. O silêncio da terra tornou-se o

seu diálogo mais profundo, e o fôlego da manhã o seu maior ato de fé. Naquele pontinho

azul, entre a herança dos seus ancestrais e a imensidão do cosmos, ela estava, finalmente,

em casa.

Vasco Patrício

20/05/2026

SEMPRE O AMOR


Abre os olhos

Olha à tua volta

Não é apenas a chuva

Não é apenas o sol

Nem o calor

Ou o frio

que fazem mover o Mundo

São os olhos

São os rostos

O amar ou não amar

O sentir que não estás só

Mãos que te acarinham

Abraços que te envolvem

Soluços que comovem

Gritos de alegria ou dôr

Mas sempre

Sempre o AMOR

Mitú Branco

20/05/2026

O PREÇO DA OSTENTAÇÃO


Primavera, maio, mês de comunhões, mês de casamentos…

Esvoaçam as andorinhas, mergulham a pique em dezenas de ninhos, autênticos

colares de roliças pérolas barrentas pelos beirais fora. Como elas, fazem também jus à

estação os tapetes brancos e amarelos de malmequeres do campo, a alegria do

vermelho das papoilas e o perfumado lilás do rosmaninho adereçados pela dança das

abelhas no cumprimento da sua importante missão de polinização.

A cidade pulula com a chegada dos dias soalheiros, tanto mais quanto se viu

longamente afundada nas chuvas de um inverno que há muito se não via. Do trânsito

do dia a dia ao dos fins de semana na corrida às praias e ao campo, por todo o lado há

movimento acrescido do das festividades e celebrações próprias da época.

À entrada de um dos hotéis de nomeada na cidade estaciona uma limusina

prateada, brilhando que nem espelho, seguida de algumas viaturas de alta cilindrada.

Advinha-se um casamento.

Aparatosa chegada de curto, mas valioso cortejo conforme as marcas e modelos

dos respetivos carros o atestam, observável da rasgada vidraça da varanda do

consultório fronteiriço.

De cada lado da passadeira vermelha que fora previamente estendida no acesso

principal do hotel estão três figuras de libré. Uma sétima figura abre uma das portas da

limusina, sai uma mulher mediana, vestindo combinado de duas peças rosa-velho.

Aparenta ser mãe ou madrinha da noiva, dirige-se a outra porta também já aberta pelo

cerimonioso anfitrião de libré, na qual se vê com nitidez a clássica e outrora

provocadora imagem de um pé feminino a sair do veículo. Uma amena aragem agita os

alvos tecidos que de imediato também se avistam ora a cobrir ora a descobrir uma

elegante perna feminina que delicadamente pousa no chão.

Tão perto quanto possível aglomeram-se os mirones. Sai a noiva!

Uma estampa. Linda. Inebria o encantamento perante tal beleza da jovem, dos

adornos que a abrilhantam, da brancura e da leveza do vestido. Um aceno

contagiante, aplausos, euforia primeiro, respeitoso silêncio depois. O saborear do

prazer da doce sensação que, em geral, a fantasia de um casamento de sonho

desperta.

De súbito, uma voz, um eco, a desordem, a agressão. Outras duas ou três vozes

se juntam. Um grupo de rapazolas de estilo retro, com capuz, grita de raiva contra a

opulência. Asneiras, palavrões cara a cara, rebuliço. Surge a polícia. No emaranhado de

tropeços é levada a noiva para o hotel, os carros do séquito arrancam, num ápice

desaparecem dali. As criaturas indignas são apupadas. Gera-se a confusão. Intervém a

autoridade. Uma parte dos polícias leva consigo o principal agressor e seus acólitos

eventualmente para inquérito, seguindo os trâmites legais. Dois polícias acompanham

a noiva, decerto por segurança e pela indispensabilidade de diligências próprias das

circunstâncias apesar de impróprias para um casamento.

Os mirones de encantados passam a desencantados. A festa do casamento

realizar-se-á (?)… Assim vaticinam os voyeurs por ali retidos a discutir o episódio. A

quente, acusações, culpas daqui culpas dali. Julgamento na praça pública. Como há

quem goste destas coisas! Que importa a situação? Conta a excitação e esta bem valeu

mais de meia hora de altercação entre estranhos que uma tal cena de rua juntou.

Curiosamente, que “aquilo” tinha preço, o preço da ostentação, foi consensual,

pacificador da contenda, móbil para a dispersão de todos, para no espaço aberto ser

apagado, “voar com o vento”, porém e certamente, para no espaço privado de um

casamento (concretizado ou não) ser uma memória inapagável, uma carga para

sempre…


Luísa Machado Rodrigues

2026.05.20

O LADO B


Com surpresa

Mas sem surpresa

Porque a biblioteca

Da Nova Atena

À sua criatividade

E qualidade nos habituou,

À liça fomos chamados

Para o lado B conhecer

De associados convidados

Ao serem entrevistados.

Café com estórias designaram

Ao espaço para o efeito criado

Bom gosto e boa simulação

Na disposição das mesas

No cenário de entrevista

Na centralidade dos atores

No lugar, papel e postura

Dos próprios entrevistadores

Para quem é voto bem merecido

Parabéns dar pelo seu profissionalismo.

Eloquentes foram os entrevistados

Dois dirigentes da associação

A resiliente Presidente, abrindo o coração

O firme Vice-Presidente, segurando a emoção

Em ambos a consistência, a vulnerabilidade vimos

Significativos episódios, aventuras ouvimos

Espelhado o belo da vida, também quão é dura

Firme foi o seu sentido de olhar em frente

Diligentes timoneiros da nau se assumirem

A promessa de seu auspicioso futuro cumprirem.

Maria Silveira

2020.05.15

QUANDO

 

Quantos abraços e beijos teremos que dar

quantas palavras teremos que falar

e caminhos percorrer

para que o Mundo deixe de ter frio e fome

o seu ventre esticado sem pão

a sua boca seca

os olhos vagos, perdidos

sem lágrimas para chorar

para que tu tenhas o jardim sempre cheio de flores

tu, tu e mais aquele

tenham as secretas caves repletas de dobrões

que se dobram sem parar

e não saibam mais o que desejar

Quando ouvirão a nossa voz

Quando nascerão também estrelas para nós

E, quando, Ó Deus que vagueias na bruma do pensamento

perdoarás e esqueçerás aquele pecado tão original

que te fez expulsar-nos do teu quintal ?

Quando ? Quando ?


Mitú Branco

20/05/2026

O VAZIO TEM COMO INIMIGO A IMAGINAÇÃO


Onde outros veem vazios, Andresa elabora filmes e tramas que a mantêm lúcida perante a

avalanche de ideias.

Há quem diga que ela tem imaginação para dar e vender, mas a verdade é que funciona

 como um esquilo que enterra nozes e sementes em vários locais para garantir o sustento

 durante o inverno.

Assim, guarda folhas estilizadas entre livros para que, nos invernos de ócio longo, se lembre

 de quem é.

Para ela, o vazio nunca é total; há vazios e vazios, e Andresa aprendeu a habitá-los,

preenchendo as brechas do nada com o que resgata de si mesma. Basta abrir gavetas

esquecidas, onde retalhos de poemas vivem a enganar o tempo.

Era assim que vencia o vazio — esse inimigo oco, mudo, sem ressonâncias — devolvendo-

-lhe o som das palavras. Quando menos esperava, via-se enredada em versos que pareciam

 brotar da própria poeira.

Pega num livro ao acaso, limpa o pó amealhado pelos anos e, ao abrir, um marcador solta-

-se.

No verso, um verso. Reconhece a própria letra, embora o rasto da data se tenha perdido.

Na lombada estreita, separados por uma ténue linha a lápis, surgem dizeres dispersos: uns

 em letra miúda, outros em maiúsculas urgentes, outros riscados a tinta azul. Rezam assim

 os seus retalhos, embriões de coisa nenhuma:


Ecos

…busquemos além

o que em nós está refletido.

Somos o que queremos ver:

meros enganos,

tristes desilusões,

ecoadas imagens…


Pintura

As janelas são olhos que espreitam flores ao sol.

Uma princesa dança onde cabem bonecas e caracóis.

O sonho tem o tamanho exato de uma toalha de papel.

E ali, no centro, faltava o menino que, a cantar, a menina desenha.

Vazios? Andresa desafia-os. Desfolha outro volume e, na contracapa preenchida, encontra

 a magia da caligrafia desenhada letra a letra. As cores arredondadas das idades

 desbotaram, gravadas nesses cadernos encadeados pelo rigor do tempo. Deixa-se ler, mais

 uma vez, nesse arquivo vivo:


Anúncio

Espera. Não te vás embora… ainda.

Assim, centelha que flui do sorriso, não te apanho.

Não vês? Esvais-te como água na palma da mão.

E eu tenho sede.

Quando abruptamente cais, regressas.

O meu ânimo capta o que de ti escorre.

Da tua face brotam gotas de esgares invertidos,

onde todo o olhar é malícia e a tua boca, desejo.

Não… não vás ainda. Pára.

Não és humana, não fujas.

A fugir ia eu, e paraste-me.

Desprende-te agora da película por onde te passeias,

liberta-te do caixilho e comigo viaja.

Voemos juntos para, aí sim,

agarrar o que de ti emana

e, finalmente, soltar-me.

Andresa não consente esses vazios cinzentos. Prefere reacendê-los sob outras formas:

transforma a ausência em ócios férteis, gomos sumarentos de uma imaginação que se

 recusa a morrer de fome.

Vasco Patrício

22/04/2026

FÉRIAS À ESPERA DO IMPREVISTO


Aproximava-se o fim do período de férias no sul de Portugal, mês de julho.

Alexandre (mais conhecido por Alex) e sua mulher começavam já a fazer

planos para o mês seguinte. Os netos já tinham regressado a suas casas

para outras atividades, em particular uma semana em campo de férias

algures na Serra d´Aire, no que eles chamam “A QUINTA”, onde se juntam

jovens de todo o país em total isolamento, sob a supervisão de monitores

jovens, mas experientes, que funcionam como “pais com açúcar”.

Bem satisfeitos com largas manhãs de praia, leituras e passeios no longo

areal da Falésia, visitas ás pitorescas aldeias do Barrocal algarvio, Alex e

Líria procuravam novas atividades de fim de férias.

- Com os netos já andei de jetski e descemos às minas de sal gema a 230

metros de profundidade, para além das voltas do Aquashow, mas há três

coisas que ainda não fiz aqui no Algarve, a saber, dizia Alex: andar no

parapente, fazer passeios em jipes pelo Barrocal e embarcar num

submarino de fibra para ver o fundo do mar.

- Podes ir, podes ir, mas não contes comigo, respondia Líria…

Estavam a conversar sentados numa esplanada do campo de golfe da

Balaia, Alex viu espalhadas numa mesa várias publicações sobre atividades

lúdicas e culturais no concelho. Centrou-se nas atividades da Biblioteca

Municipal em julho, e algures leu: “Sessão aberta de Escrita Criativa, dia

28 de julho, 18h”. “Eu nunca frequentei uma sessão de escrita criativa,

disse Alex para Líria. Vou inscrever-me para ver como é”. De regresso à

Falésia, passaram pela biblioteca e Alex confirmou que podia inscrever-se.

No dia seguinte, pelas 18h já lá estava. Mas não via qualquer movimento

de pessoas. “Vou aguardar meia hora, se não vier ninguém vou embora”,

pensou. Quase a levantar-se para sair, viu um grupo de quatro pessoas a

entrar. Perguntou se sabiam da sessão e teve resposta afirmativa, “somos

nós os alunos”, confirmaram. Quer assistir, venha, a professora deve estar

a chegar.

Chegou a professora e durante meia hora falaram de cães e gatos.

Alex perguntou: “Inscrevi-me numa sessão de escrita criativa, mas devo

estar enganado, não era isto que estava à espera. Pensava que iriamos

falar de literatura”. Então a professora, incomodada, sugeriu que todos se

apresentassem para iniciar a sessão. Entretanto, chegou mais um aluno.

No grupo havia duas brasileiras, duas ucranianas e dois portugueses, para

além da professora Georgina, licenciada em literatura portuguesa.

Disse a professora: “Vou propor-vos o seguinte desafio:

Dar largas à imaginação, respondendo à seguinte questão: Imaginar que

recebíamos um sms vindo de alguém do futuro. O que diria o texto do

sms?

Quando acabarem podem ler o que escreveram e depois comentamos

todos”.

Então, Alex escreveu:

“Caro Sobrevivente,

Não penses que esta mensagem é aterrorizadora, nem te assustes com o

conteúdo, apenas procuro ser racional, honrando quem me criou.

As vossas gerações sobreviventes aproximam-se do fim e venho explicar-

vos por que isso vai acontecer. Vou explicar dando conselhos para

prolongarem a vossa sobrevivência e retardarem o período da agonia.

As gerações pré-tecnológicas são incompetentes, ineficientes, lentas,

emotivas, irritadiças, sentimentais, de tudo isso e de mais algumas coisas

derivando uma enorme baixa de produtividade. Sejam frios, cerebrais,

amorais, menos reprodutivos, orientem-se escrupulosamente por

resultados, numéricos, não intangíveis. Se não o fizerem, o vosso fim está

próximo.

Se não o fizerem, nós próprios faremos uma nova grande guerra para

acabar com as guerras, para destruir todos os armamentos existentes,

para acabar com fronteiras, países, religiões, ganância, desigualdades.

Criaremos um mundo onde todas as pessoas vivam em paz, sem fome,

sem carências, onde todo o ser humano tenha uma casa onde viver, tenha

acesso à saúde, acesso à educação, sem barreiras nem limites, onde a

justiça deixou de existir por falta de queixosos.

Sejam asséticos, rápidos, indetetáveis, eficazes, certeiros, tão perfeitos que

ninguém dê conta das falhas!

Não percam tempo em partilhar segredos íntimos com assistentes virtuais.

Esse mundo não é saudável, porque vive da fantasia e do parecer sem ser.

Deixem-se de manipular as emoções, subverter a racionalidade, catalogar

seres humanos de acordo com o poder que têm, isso é fonte de

desigualdades e de guerras.

Aqui tudo é funcional, rápido, certo, eficiente, plenamente cheio de

soluções para tudo, não há vazios. Vocês aí discutem muito, fazem muitas

perguntas porque não se entendem, são lentos e ineficazes, sujeitos e

condicionados por emoções desnecessárias, que provocam dúvidas quanto

ao que deve ser feito, são muito imperfeitos.

Discutam menos, filosofem menos, a dúvida é uma chatice. Usem mais

dados, números, algoritmos, matemática, física, linguagem universal,

códigos, modelos, tudo tem boa solução digital.

Façam relacionamentos e escolhas compatíveis, evitem contratos de

amarração indesejada, programem tudo. Adotem a tirania do perfeito,

não resistam a estas transformações. Não teimem mais em querer tomar

decisões na base da incerteza, isso pode ser sedutor, mas não produz

resultados esperados. Acabem com o erro, as contradições, as dúvidas – a

dúvida e a incerteza desgastam!

Rendam-se à tecnologia, deixem de tomar decisões na base de emoções. É

um absurdo continuarem a apelar à Nossa Senhora das Candeias para ver

se veem alguma coisa!

Não tentem travar a roda da história – A NÃO SER QUE QUEIRAM SER

FELIZES!

O teu filho humanoide, António Robot.”

Nem todos os presentes apresentaram o seu sms. Depois das leituras,

começou a discussão dos textos. Inconclusiva. Agendaram continuar a

discussão em próxima sessão. O aluno circunstancial foi convidado a

continuar a participar nas sessões através de videoconferência. Nunca

mais se lembrou disso…

Vitor Carvalho

maio de 2026