Primavera, maio, mês de comunhões, mês de casamentos…
Esvoaçam as andorinhas, mergulham a pique em dezenas de ninhos, autênticos
colares de roliças pérolas barrentas pelos beirais fora. Como elas, fazem também jus à
estação os tapetes brancos e amarelos de malmequeres do campo, a alegria do
vermelho das papoilas e o perfumado lilás do rosmaninho adereçados pela dança das
abelhas no cumprimento da sua importante missão de polinização.
A cidade pulula com a chegada dos dias soalheiros, tanto mais quanto se viu
longamente afundada nas chuvas de um inverno que há muito se não via. Do trânsito
do dia a dia ao dos fins de semana na corrida às praias e ao campo, por todo o lado há
movimento acrescido do das festividades e celebrações próprias da época.
À entrada de um dos hotéis de nomeada na cidade estaciona uma limusina
prateada, brilhando que nem espelho, seguida de algumas viaturas de alta cilindrada.
Advinha-se um casamento.
Aparatosa chegada de curto, mas valioso cortejo conforme as marcas e modelos
dos respetivos carros o atestam, observável da rasgada vidraça da varanda do
consultório fronteiriço.
De cada lado da passadeira vermelha que fora previamente estendida no acesso
principal do hotel estão três figuras de libré. Uma sétima figura abre uma das portas da
limusina, sai uma mulher mediana, vestindo combinado de duas peças rosa-velho.
Aparenta ser mãe ou madrinha da noiva, dirige-se a outra porta também já aberta pelo
cerimonioso anfitrião de libré, na qual se vê com nitidez a clássica e outrora
provocadora imagem de um pé feminino a sair do veículo. Uma amena aragem agita os
alvos tecidos que de imediato também se avistam ora a cobrir ora a descobrir uma
elegante perna feminina que delicadamente pousa no chão.
Tão perto quanto possível aglomeram-se os mirones. Sai a noiva!
Uma estampa. Linda. Inebria o encantamento perante tal beleza da jovem, dos
adornos que a abrilhantam, da brancura e da leveza do vestido. Um aceno
contagiante, aplausos, euforia primeiro, respeitoso silêncio depois. O saborear do
prazer da doce sensação que, em geral, a fantasia de um casamento de sonho
desperta.
De súbito, uma voz, um eco, a desordem, a agressão. Outras duas ou três vozes
se juntam. Um grupo de rapazolas de estilo retro, com capuz, grita de raiva contra a
opulência. Asneiras, palavrões cara a cara, rebuliço. Surge a polícia. No emaranhado de
tropeços é levada a noiva para o hotel, os carros do séquito arrancam, num ápice
desaparecem dali. As criaturas indignas são apupadas. Gera-se a confusão. Intervém a
autoridade. Uma parte dos polícias leva consigo o principal agressor e seus acólitos
eventualmente para inquérito, seguindo os trâmites legais. Dois polícias acompanham
a noiva, decerto por segurança e pela indispensabilidade de diligências próprias das
circunstâncias apesar de impróprias para um casamento.
Os mirones de encantados passam a desencantados. A festa do casamento
realizar-se-á (?)… Assim vaticinam os voyeurs por ali retidos a discutir o episódio. A
quente, acusações, culpas daqui culpas dali. Julgamento na praça pública. Como há
quem goste destas coisas! Que importa a situação? Conta a excitação e esta bem valeu
mais de meia hora de altercação entre estranhos que uma tal cena de rua juntou.
Curiosamente, que “aquilo” tinha preço, o preço da ostentação, foi consensual,
pacificador da contenda, móbil para a dispersão de todos, para no espaço aberto ser
apagado, “voar com o vento”, porém e certamente, para no espaço privado de um
casamento (concretizado ou não) ser uma memória inapagável, uma carga para
sempre…
Luísa Machado Rodrigues
2026.05.20
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