01/07/2026

VER NA ESCURIDÃO


Conheceram-se numa festa onde havia muitos amigos seus. Adolfo foi

apresentado a Dionísia nessa festa. Dançaram até altas horas da noite. A

atração foi notória e trocaram números de telefone.

Três dias depois, Dionísia recebeu um telefonema de Adolfo, convidando-

a para tomar café e passear à beira mar. Ela quis conhecê-lo melhor,

depois de algumas observações que as amigas lhe fizeram sobre a

personalidade do seu novo pretendente. Diziam-lhe que ele era conhecido

por ser muito cerebral, nada emotivo, com comportamentos um pouco

fora do normal, muito autocentrado, narcísico até, nunca tendo

evidenciado alterações de humor quando os amigos contavam histórias.

Estas observações das amigas aguçaram a curiosidade em conhecê-lo

melhor. Dionísia sempre tinha sido muito curiosa e amante de desafios.

Era uma elegante e bonita mulher, nos seus vinte e um anos. Tinha já tido

vários namorados, mas de pouca duração, nenhum lhe alterou a sua

natureza, gostava de divertir-se, esperando alguém por quem

verdadeiramente se apaixonasse. Trabalhavam os dois no sistema

bancário, mas em bancos diferentes. Nenhum deles quis tentar a

universidade, quiseram arranjar emprego e deixar de depender dos pais.

Não passearam à beira mar como ele tinha proposto, antes ficaram a

conversar numa esplanada. Um mês depois de se conhecerem,

combinaram ir de novo à discoteca. Algumas amigas dela foram também,

dançaram alegremente, mas Adolfo tomou todo o tempo de Dionísia,

inclusive saíram várias vezes para o parque onde se situava a discoteca. As

bebidas e o calor da noite lisboeta fizeram esquecer as amigas. Um carro

na escuridão serviu de encosto para ele lhe “pôr o selo”.

Casaram seis meses depois, quando a barriga de Dionísia começava a ficar

gordinha.

O bebé nasceu saudável e era o encanto da avó materna. Quando o casal

aceitava convites para passeios com amigos, a avó disponibilizava-se com

agrado em ficar com a neta.

O prédio onde moravam, na periferia da capital, tinha apenas quatro

andares, um rés-do-chão e três andares sem elevador. Viviam ao todo

naquele bloco oito famílias, que se conheciam bem, pois todos eram

moradores desde o início da utilização do prédio, com exceção do jovem

casal. Outros blocos semelhantes formavam o essencial daquela rua

pacata da freguesia de Odivelas. Os moradores cruzavam-se no café do

meio da rua. No café e nas saídas diárias para passear os cães, os vizinhos

criaram uma ligação forte de proximidade, um “espírito de bairro”.

A rua era pacata, mas naquele prédio os novos inquilinos quebravam

frequentemente o silêncio das paredes. Discutiam altas horas da noite e

gritos de criança eram frequentes naquele contexto. Os vizinhos estavam

preocupados, sobretudo com o efeito que as discussões teriam na criança

de menos de dois anos.

Os pais de Adolfo viviam em Trás-os-Montes, eram agricultores

remediados. O pai teve um princípio de acidente vascular cerebral e o

filho quis ir vê-lo ao hospital, em Vila Real.

Saíram de Odivelas pela manhã, depois de entregarem a filha à avó

materna. Decidiram parar no meio do caminho para almoçar na Bairrada,

num restaurante especializado em leitão.

Adolfo comeu e bebeu abundantemente. Mas no fim, quando veio a

conta, protestou com o empregado dizendo que o leitão não era de boa

qualidade e tinha muitos ossos. Esta discussão chamou a atenção de

outros comensais, admirados com aquela reação intempestiva daquele

cliente. Logo que entraram no carro para prosseguir viagem, começaram

em discussão violenta sobre os comportamentos que Adolfo andava a

evidenciar nos últimos meses. Ela insinuou pela primeira vez a eventual

separação do casal. Ele parou o carro na berma da autoestrada e bateu-

lhe, duas violentas bofetadas deixaram-lhe a cara muito vermelha. O resto

da viagem foi um choro permanente. Dionísia ameaçou sair do carro

quando passassem por Lamego e pedir boleia para Lisboa. Com violência

verbal e física, conduzindo a alta velocidade, ele ameaçou-a de morte se

fizesse isso. Dionísia esperou no carro até que ele regressasse de visitar o

pai. O regresso a Odivelas decorreu em silêncio.

A partir daquela viagem, a vida do casal mudou drasticamente. Acusações

de adultério eram frequentes nas discussões a altas horas da noite, com

crescente inquietação dos vizinhos, que temiam um dramático desfecho

daquelas discussões.

Certo dia, um dos vizinhos fez queixa na esquadra da PSP que serve

Odivelas. Pensou que a polícia devia estar atenta a uma eventual

desavença séria daquele casal. Algumas rondas da polícia confirmaram as

perturbações para a vizinhança. O casal passou a estar referenciado.

Num fim de tarde de outubro, o que era temido aconteceu. Com uma

agressividade nunca vista, Adolfo abriu a porta de casa e empurrou

Dionísia para o patamar da escadaria. Da luta corpo a corpo aconteceu

que Adolfo foi parar ao fundo da escadaria daquele andar, de cabeça para

baixo. Morreu com a cabeça enfiada no contador da água cuja porta

estava aberta. A PSP e depois a Polícia Judiciária tomaram conta da

ocorrência. Formularam acusação de homicídio por parte da esposa,

Dionísia. Seis meses depois, começou o julgamento em Loures, no Juízo

Central Criminal. A maior parte dos vizinhos disponibilizou-se para

testemunhar. Interrogados, nenhum assumiu explicitamente quem tinha

cometido o crime. Numa das sessões do julgamento, Dionísia descreveu

pormenorizadamente as cenas do restaurante do leitão e na subsequente

viagem a Vila Real. Os vizinhos estavam incrédulos, porque Dionísia nada

disso tinha contado antes. As dúvidas sobre os factos apurados

avolumavam- se. Seriam os dois mentalmente saudáveis? A certa altura

do julgamento, quando tudo parecia estar orientado para a condenação

de Dionísia, o vizinho que morava no andar de cima esclareceu o coletivo

de juízes do seguinte:

“Senhores juízes, eu e a minha mulher naquele dia chegámos a casa com

alguns minutos de diferença. Fomos às compras, saímos da paragem do

autocarro, que fica longe de casa, e eu fiquei no café a jogar na

raspadinha. A minha mulher seguiu para casa, mas ela encontrou uma

amiga e demoraram na conversa. Acabei por entrar primeiro no prédio.

Mas eu não tinha chave de casa, tinha-me esquecido dela naquele dia.

Esperei pela minha mulher nas escadas do meu andar, por cima do andar

do casal desavindo. E, sentado num degrau, no escuro, porque a luz das

escadas tem sensor que se apaga sem movimento, eu ouvi a discussão

que o casal estava a ter. E vi a porta da casa do casal a abrir-se e o Sr.

Adolfo a empurrar a mulher; a luz do patamar acendeu-se e eu vi a luta

dos dois a ver quem ia ao chão, num jogo de empurra. A Sr.ª Dionísia

defendeu-se muito bem dos empurrões do marido. E nas voltas do

empurra ele escorregou escada abaixo. Eu acho que ela agiu em legítima

defesa, não penso que houvesse intenção de matar”.

Fez-se silêncio na sala de audiências.

O coletivo de juízes marcou nova sessão para uma semana depois.

A sentença ilibou de crime a vítima de muitas ações de violência

doméstica. A paz regressou àquele bairro.


VITOR CARVALHO

20 DE JUNHO 2026

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