01/07/2026

REVISITAR PENICHE

 

Maio despedia-se. Com ele e graças às alterações climáticas as nossas almas,

revitalizadas por dias e dias estivais fora de época após um castigador inverno,

ansiavam por saídas por mais agradável que tivesse sido o aconchego do lar nos dias

frios.

Voltar ao prazer de ver o azul do céu e saborear o calor do sol impôs-se e não

faltaram programas sucessivos de estilos variados entre os quais escolhi revisitar

Peniche.

Pesou a atração pela cidade em si que não visitava já havia bastantes anos e a

atração pela sua localização numa península abraçada pelo Atlântico, o oceano que a

ocidente do nosso país não cansa de apelar aos nossos olhos, de mexer com os nossos

sentidos e de nos encantar com a sua beleza, do amanhecer ao ocaso, à medida que o

mar vai do intenso azul matinal ao alaranjar com o pôr do sol no horizonte, de nos

encantar com a sua beleza, das trindades ao anoitecer, com o roncar das suas águas

especialmente na maré cheia e com a sua transformação em espelho prateado

particularmente em noites de luar.

A visita foi diurna, o mar estava lindo, com um toque de vento oeste que o fazia

resfolgar na costa de imponentes falésias calcárias ricas em lapiás, as inúmeras fendas

que provocam um relevo muito próprio e que dá um embelezamento característico de

toda aquela zona, cuja paisagem foi enriquecida com o avistamento do arquipélago

das Berlengas não muito longe, no horizonte, num dia de céu bastante limpo. Como

não podia deixar de ser, não faltou a ida muito perto da Nau dos Corvos, o belo

rochedo que lembra uma caravela, erguendo-se no mar imediatamente fora do topo da

península.

Duas curiosidades bem conhecidas e que não resisto em referir foi ter

relembrado que o termo Peniche terá origem na palavra península e que a expressão

amigos de Peniche, que significa pessoas com quem não se deve contar, vem de um

episódio histórico, a fuga ali havida dos militares britânicos que viriam ajudar na luta

pela independência do nosso país no século XVI, uma atitude de recuo que, por

dificuldade de haver herdeiro, resultou no fim da segunda dinastia, dando lugar ao

início da terceira, a Filipina, colocando em causa a soberania de Portugal durante o

respetivo reinado.

Um outro aspeto relevante de Peniche é a atividade piscatória, mas desta vez

não houve oportunidade de ser incluída na visita. Porém, uma outra associada a ela e

muito interessante é a da renda de bilros, tema que nos despertou passar junto ao

monumento às rendeiras de Peniche justamente homenageadas por tão belo trabalho

artesanal e velha tradição artística influenciada pelas redes utilizadas na pesca.

Outro peso importante nesta saída foi a visita ao Forte de Peniche de má

memória no período da ditadura que antecedeu a democracia instaurada com o 25 de

abril de 1974. Este alberga um museu* sobre a resistência havida e a repressão sobre

os que nela militaram durante décadas. Uma dor de alma. Impossível não se ficar

chocado com uma tal realidade independentemente dos credos então envolvidos e

diferença de conceitos de liberdade que dificultaram o modelo de sociedade

sucedâneo a essa época e que nos rege apesar das suas muitas contradições: o

democrático.

Um périplo pleno de momentos enriquecedores e tocantes. Mais uma

experiência que fica. Mais um estímulo que muito acrescentou ao que poderia julgar

sabido, mas que afinal está sempre aquém por mais que se vá e volte a qualquer que

seja o lugar.


Luísa Machado Rodrigues

2026.06.20

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* Museu Nacional Resistência e Liberdade

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