Maio despedia-se. Com ele e graças às alterações climáticas as nossas almas,
revitalizadas por dias e dias estivais fora de época após um castigador inverno,
ansiavam por saídas por mais agradável que tivesse sido o aconchego do lar nos dias
frios.
Voltar ao prazer de ver o azul do céu e saborear o calor do sol impôs-se e não
faltaram programas sucessivos de estilos variados entre os quais escolhi revisitar
Peniche.
Pesou a atração pela cidade em si que não visitava já havia bastantes anos e a
atração pela sua localização numa península abraçada pelo Atlântico, o oceano que a
ocidente do nosso país não cansa de apelar aos nossos olhos, de mexer com os nossos
sentidos e de nos encantar com a sua beleza, do amanhecer ao ocaso, à medida que o
mar vai do intenso azul matinal ao alaranjar com o pôr do sol no horizonte, de nos
encantar com a sua beleza, das trindades ao anoitecer, com o roncar das suas águas
especialmente na maré cheia e com a sua transformação em espelho prateado
particularmente em noites de luar.
A visita foi diurna, o mar estava lindo, com um toque de vento oeste que o fazia
resfolgar na costa de imponentes falésias calcárias ricas em lapiás, as inúmeras fendas
que provocam um relevo muito próprio e que dá um embelezamento característico de
toda aquela zona, cuja paisagem foi enriquecida com o avistamento do arquipélago
das Berlengas não muito longe, no horizonte, num dia de céu bastante limpo. Como
não podia deixar de ser, não faltou a ida muito perto da Nau dos Corvos, o belo
rochedo que lembra uma caravela, erguendo-se no mar imediatamente fora do topo da
península.
Duas curiosidades bem conhecidas e que não resisto em referir foi ter
relembrado que o termo Peniche terá origem na palavra península e que a expressão
amigos de Peniche, que significa pessoas com quem não se deve contar, vem de um
episódio histórico, a fuga ali havida dos militares britânicos que viriam ajudar na luta
pela independência do nosso país no século XVI, uma atitude de recuo que, por
dificuldade de haver herdeiro, resultou no fim da segunda dinastia, dando lugar ao
início da terceira, a Filipina, colocando em causa a soberania de Portugal durante o
respetivo reinado.
Um outro aspeto relevante de Peniche é a atividade piscatória, mas desta vez
não houve oportunidade de ser incluída na visita. Porém, uma outra associada a ela e
muito interessante é a da renda de bilros, tema que nos despertou passar junto ao
monumento às rendeiras de Peniche justamente homenageadas por tão belo trabalho
artesanal e velha tradição artística influenciada pelas redes utilizadas na pesca.
Outro peso importante nesta saída foi a visita ao Forte de Peniche de má
memória no período da ditadura que antecedeu a democracia instaurada com o 25 de
abril de 1974. Este alberga um museu* sobre a resistência havida e a repressão sobre
os que nela militaram durante décadas. Uma dor de alma. Impossível não se ficar
chocado com uma tal realidade independentemente dos credos então envolvidos e
diferença de conceitos de liberdade que dificultaram o modelo de sociedade
sucedâneo a essa época e que nos rege apesar das suas muitas contradições: o
democrático.
Um périplo pleno de momentos enriquecedores e tocantes. Mais uma
experiência que fica. Mais um estímulo que muito acrescentou ao que poderia julgar
sabido, mas que afinal está sempre aquém por mais que se vá e volte a qualquer que
seja o lugar.
Luísa Machado Rodrigues
2026.06.20
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* Museu Nacional Resistência e Liberdade
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