01/05/2026

É TEMPO DE


O mercado ganhava vida e fervia de gente;

era um entra e sai constante, gritos pregões e risos

todos faziam negócio e o que vendia mal dava tempo

para pousar na banca, pois logo outra mão levava.

Um dia, já sem a azáfama da algazarra, quando o mercado

cansado se preparava para o seu banho de fim de manhã,

entraram dois homens pelo portão principal.

Um era alto e elegante; o outro, mais bonacheirão,

de casaco escuro e comprido.

Pela maneira introvertida como moviam os braços

tinham possivelmente os dedos encaracolados e feios.

Rasgaram o mercado como sombras e varreram a luz da manhã

até à banca da tia Rosa, que sempre usava uma flor em cada dia

por sobre a roupa, e perto do coração. Era o filho morto na guerra.

Recordo ainda o olhar feroz do mais baixo, e o sorriso sarcástico do outro.

A tia Rosa encarou-os de soslaio, preparada para o que desse e viesse;

há muito o sangue lhe “fervia” na ansia de um dia como este.

O mais pequeno todo se esticou por sobre a banca para tirar a rosa

que a tia Rosa orgulhosamente exibia junto ao peito em cada dia

mas antes que o conseguisse um som quase trovão ecoou

por todo o mercado, tal a força do murro que a tia Rosa lhe deu.

Furiosa discussão nem começou, pois todo o mercado se interpôs

entre a tia Rosa e o “marmanjo” que lançava fogo dos olhos e das mãos.

Durante muito tempo a tia Rosa não apareceu no mercado, mas

sempre o seu negócio continuou com uma ou outra companheira, e

o valor das vendas lhe era entregue em local diferente dia a dia.

A tia Rosa reapareceu no mercado com a sua rosa de sempre

mas também nesse dia com um cravo vermelho e cantou junto

com todos os do mercado a canção de então: “Grândola vila morena”

Hoje recordo esses dias vividos junto da minha avó e penso para comigo:

Vale mais julgar, assistir ou ser julgado por coerente com os princípios

aprendidos desde o berço, ou apenas agradecer os dias da liberdade?


Fernando Baptista

Cela Velha, 30.11.2025

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