O mercado ganhava vida e fervia de gente;
era um entra e sai constante, gritos pregões e risos
todos faziam negócio e o que vendia mal dava tempo
para pousar na banca, pois logo outra mão levava.
Um dia, já sem a azáfama da algazarra, quando o mercado
cansado se preparava para o seu banho de fim de manhã,
entraram dois homens pelo portão principal.
Um era alto e elegante; o outro, mais bonacheirão,
de casaco escuro e comprido.
Pela maneira introvertida como moviam os braços
tinham possivelmente os dedos encaracolados e feios.
Rasgaram o mercado como sombras e varreram a luz da manhã
até à banca da tia Rosa, que sempre usava uma flor em cada dia
por sobre a roupa, e perto do coração. Era o filho morto na guerra.
Recordo ainda o olhar feroz do mais baixo, e o sorriso sarcástico do outro.
A tia Rosa encarou-os de soslaio, preparada para o que desse e viesse;
há muito o sangue lhe “fervia” na ansia de um dia como este.
O mais pequeno todo se esticou por sobre a banca para tirar a rosa
que a tia Rosa orgulhosamente exibia junto ao peito em cada dia
mas antes que o conseguisse um som quase trovão ecoou
por todo o mercado, tal a força do murro que a tia Rosa lhe deu.
Furiosa discussão nem começou, pois todo o mercado se interpôs
entre a tia Rosa e o “marmanjo” que lançava fogo dos olhos e das mãos.
Durante muito tempo a tia Rosa não apareceu no mercado, mas
sempre o seu negócio continuou com uma ou outra companheira, e
o valor das vendas lhe era entregue em local diferente dia a dia.
A tia Rosa reapareceu no mercado com a sua rosa de sempre
mas também nesse dia com um cravo vermelho e cantou junto
com todos os do mercado a canção de então: “Grândola vila morena”
Hoje recordo esses dias vividos junto da minha avó e penso para comigo:
Vale mais julgar, assistir ou ser julgado por coerente com os princípios
aprendidos desde o berço, ou apenas agradecer os dias da liberdade?
Fernando Baptista
Cela Velha, 30.11.2025
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