20/05/2026

ESCRITA CRIATIVA – Mote: De manhã o cheiro do café chamou por mim

 

Pudera! O café é a segunda bebida do mundo a seguir à água.

Teve origem nas terras altas da Etiópia, na África, provavelmente no

século IX. Segundo a lenda, um pastor Kaidi observou que as suas cabras

ficavam energizadas após comerem os frutos do cafezeiro, levando à

descoberta da bebida que se popularizou durante o século XV. Aqui se

mencionam os pontos chave da expansão do café:

1 - Lenda do pastor Kaidi, descrita no parágrafo 2.

2 - As primeiras infusões começaram no norte da Arábia por volta do

século XV, sendo usado pelos místicos sufis para se manterem acordados

durante as suas rezas.

3 - A bebida viajou de Moca (Iémen) para Istambul alcançando a Europa

por Veneza no século XVII.

4 - O café é o segundo produto mais comercializado legalmente a seguir

ao petróleo.

5 - Já foi proibido em 1511 na cidade de Meca por se acreditar que

estimulava pensa- mentos radicais.

6 - 0 País maior consumidor, per capita, é a Finlândia; o maior produtor é

o Brasil.

7 - Estudos indicam que o café pode retardar os sintomas de Alzheimer e

reduzir os riscos de Parkinson e Diabetes tipo 2.

O café tornou-se uma bebida familiar e social. Em Lisboa, o café Expresso

é designado Bica e no Porto Cimbalino. Há duas variedades de café:

Arábica mais aromático e Robusta.

Jerónimo Pamplona



De manhã, cedinho, ia apanhar o “7”, na correria

Mas, subtilmente, o cheiro do café chamou por mim

Fui ao Califa, como fazia habitualmente antes de ir trabalhar

Um café cheio e um pastel de Chaves, como habitualmente pedia

 

Nessa rotina preciosa, depois de com titânico esforço

Ter deixado de fumar, deliciava-me com esse pastel

Folhado admirável, quentinho, que mesclava como café

Que pedia cheio, para acomodar cada dentada…

 

Depois a correria para o carro, a ânsia de encontrar local

Em frente ao “Pub”, sempre difícil, mas bem-sucedido

Pela hora matinal, em que chegavam jornalistas e políticos

 

Tomar o pequeno almoço ao Pub, com o chofer a abrir

A porta de trás ao Primeiro Ministro, com o companheiro do dia

À hora a que já chegava o Dr. Marcelo Rebelo de Sousa

Encontrar local para estacionar, era um quebra cabeças

 

Quando era impossível, tentava-se a paralela à Duque de Palmela

Que a essa hora ainda dispunha de alguns locais para estacionar

À hora de almoço pegava no diesel e vinha muitas vezes almoçar a casa

Nessa altura, já teria fumado um maço de cigarros e indicado

Os trabalhos do dia, aos meus colaboradores, deixando um A4

em cada secretária, com indicação dos que haveria a fazer

 

Às 18 horas a correria para um gabinete de projectos

Calculando viadutos e pontes, centros de espetáculos e hotéis

Até às nove, quando o tráfego já teria amainado e a vigem

Para casa já teria filas menores e chegada mais célere…

 

Jorge Proença

 

 

                                  

 

Que dia bom tinha sido aquele…

Cansativo, é certo, mas movimentado, com muitas coisas gratificantes para fazer e todas elas conseguidas. Raramente tinha dias assim, em que tudo aquilo a que deitara mãos se concretizara e, melhor ainda, tal como eu queria. Que sensação boa! Podia agora descansar. E foi a fadiga que me pôs um sorriso nos lábios.

Um ruído surdo e estranho de algo a cair, seguido de voz estridente, vindo da escada, cortou o meu momento zen e levou-me a abrir a porta de casa para ver o que se passava.

No andar de cima ouvia-se alguém aflito e o som de outras portas a abrir. Corri pela escada e cheguei ao piso superior onde deparei com a vizinha e o marido, de porta aberta, chave na mão, sem se atrever a entrar, olhando espantados para o hall de entrada da sua casa onde parecia ter havido uma revolução – tudo estava revolvido numa confusão imensa. Junto aos seus pés, sobre o tapete, de um saco de supermercado com compras espalhadas começava a sair vinho de uma garrafa partida. Perante o olhar incrédulo dos vizinhos assaltados, tirei o telemóvel do bolso, chamei a polícia e comecei a pôr em ordem o saco com as compras espalhadas pelo chão, ajudada pelos outros vizinhos que tinham acudido entretanto. Não deixámos os assaltados entrar em casa, alguém trouxe cadeiras para eles e copos com água, esperámos talvez meia hora tentando acalmar os vizinhos e a polícia chegou.

 

Com os vizinhos entregues, ofereci-me para o que fosse necessário, deixei a “cena do crime” e voltei para minha casa. Ainda estive algum tempo mergulhada na excitação do acontecimento e ouvindo o ruído do arrastar de coisas no andar de cima. Quando tudo serenou, fui-me deitar, trancando a porta, apesar da minha Filha ainda não ter chegado.

Devo ter adormecido quase a seguir, mas levei comigo no subconsciente um filme que tão depressa era de cowboys como de polícias e ladrões, em que se seguiam cenas desconexas onde agora era personagem principal e logo passava a assistente imóvel do que tinha na frente.

Apercebi-me de dar saltos, do cansaço da correria nas pernas, da respiração presa na garganta, do turbilhão da batida cardíaca… até afundar no vazio escuro mas apaziguador.

Despertei pesada, com a sensação de ter o mundo às costas, mexendo-me com dificuldade. Mas ainda era noite e voltei a enrolar-me no abrigo quente dos lençóis que, desta vez, não me ofereceu o conforto habitual. Terei dormitado e, de manhã, o cheiro do café chamou por mim.

Levantei-me, abri a persiana e vi o efeito dos meus pesadelos dessa noite na minha cama – parecia que um furacão tinha passado por ali. Esta imagem trouxe-me à memória o hall de entrada dos vizinhos do andar de cima, despertou-me de repente e fez-me disparar em direcção à cozinha onde a minha Filha preparava um delicioso pequeno almoço. Entrei de rompante, ela assustou-se ao ver a minha figura e depois começou a rir com um hilariante “Credo, Mãe! Estás linda, estás!…”

Fui para o banheiro, recompor a figura que, até a mim que a conheço bem, me assustou ao ver o reflexo no espelho. Já com “um aspecto mais decente” (segundo a douta opinião da minha Filha), sentei-me na cozinha, contando as aventuras inesperadas das cerca de 12 horas anteriores, envolvida no conforto protector do delicioso cheirinho do café. Depois, iríamos ambas oferecer os nossos préstimos aos vizinhos de cima…

                                                                                             Maria Amélia Mendes

 

 

 

 

De manhã o cheiro do café chamou por mim

Ou

A história de um grão de café

 

Sou pequenino, ainda mais pequeno do que um amendoim, mas para ter este tamanho nem imaginam o que a minha família passou.

Cresci há muitos séculos numa roça em S. Tomé, plantado por Cabo Verdianos e Angolanos. Foram eles que cuidaram dos meus antepassados durante muitos, muitos anos, embora os patrões deles raramente os vissem, pois, viviam na metrópole. Mas gostavam do que faziam, e nós, os grãos de café, fomos criados com muito amor. Nem imaginam o trabalho que essas pessoas tinham desde a apanha até à seca dos grãos. E depois o ensacamento, o transporte para os navios. E nem sequer bebiam café!

Adiante, que o tempo é escasso e está na altura de prosseguir com a história da minha vida.

Quando cheguei ao continente, fui vendido primeiro nas lojas de província a que hoje eufemisticamente chamam “lojas com história” e mais tarde a uma grande fábrica de secagem e ensacamento, numa terra raiana que se chama Campo Maior. Lá, houve um senhor visionário, que se dedicou ao comércio do café, fazendo que hoje seja um negócio próspero, apesar de alguns percalços.

Foi assim que entrei na vida dos portugueses, e não só.

E nem calculam o prazer que me dá, todas as manhãs, acordar as pessoas com o cheiro duma boa chávena de café.

 

                                                                                Maria José Saraiva

 

 

Continuo a fazer café, todos os dias, todas as manhãs e a sentir o seu cheiro espalhar-se pela casa.

Hoje, este cheiro funciona como um despertador de memórias.

Volto às preguiçosas manhãs de domingo e aos pequenos almoços sem pressa.

Sobre a mesa, coberta por uma toalha guarnecida com crochet, a simplicidade duma refeição onde não faltava o café, o leite, o pão, a manteiga, o queijo, a compota caseira e, por vezes…bolo de laranja.

De tudo se podia ir comendo sem remorso, porque a idade ainda o permitia, sem a preocupação de contabilizar os níveis de colesterol.

Sem horários para cumprir, ia-se desfiando a conversa, alinhavando projetos, desembrulhando sonhos.

Uma tranquilidade aconchegante e a frase carinhosa que ficaria gravada para sempre: “Foi o cheiro do teu café que chamou por mim.”

                                                                                                        Teresa Sousa

                                                                                Algés, 10 de Maio de 2026

 

 

Eurídice: O Elixir e o Tempo

“De manhã, o cheiro do café chamava por Eurídice. Dizia sempre que, sem ele, não funcionava — não a figura trágica do mito, mas a mulher real para quem esse ‘vinho da Arábia’ era um bálsamo para a alma e um passaporte para outras latitudes.

Ao primeiro gole, era transportada de volta à fazenda do avô, em Angola. Via de novo o mar de bagas vermelhas adormecido sob o cacimbo matinal e sentia o silêncio húmido da terra antes de o sol subir. Ao entardecer, as batucadas que vinham das cubatas ecoavam na memória e, depois, surgia o luar — o luar africano, vasto, absoluto e quase impossível. Nessas noites, lia em voz alta Fernando Pessoa, como quem acende uma vela para guiar a lembrança: ‘E eu de pé ante a janela, vi todo o luar de toda a África inundar a paisagem e o meu sonho.’

Mas hoje, o entardecer é pálido e curto. A noite cai abrupta, sem a cerimónia do horizonte africano. De manhã, a geada tolhe-lhe as mãos e a paisagem é recortada por muradas altas que limitam o olhar. Nesta etapa da vida, as memórias da fazenda amadureceram sob o peso das pálpebras; o prisma mudou, e as coisas sentidas são agora outras.

Neste outono de si mesma, sobram a Eurídice os pequenos prazeres colhidos com lentidão. O café da manhã é tomado no alpendre térreo, sob o abrigo das heras que se estendem para o jardim. Ali, entre o cuidado com as rosas, ela rega um cafezeiro num vaso — um monumento vivo erguido em memória do avô, das vidas interrompidas e do tempo que não volta. Observa o vaivém das andorinhas-dos-beirais, regressando aos ninhos de lama, nos ângulos do varandim. Lá como cá, as andorinhas unem o tempo num voo circular. O cheiro do café continua a chamar por ela, o elixir negro enrolando-se agora num céu diferente, apaladando a sua existência.

Na mesinha de apoio, repousa o diário de uma vida que reescreve memórias. Numa página entreaberta, a caligrafia da página 98 — datada da década de cinquenta na África Oriental — revela o acerto de contas com o destino:

‘…quase sempre errei nas escolhas, e quando acertei não o soube reconhecer. As escolhas da metade que desconheço nem sempre são nossas; são do tempo — cíclicas, sazonais, impiedosas. Repetem-se independentemente da nossa vontade...’

E, a fechar o pensamento, a frase do filósofo ecoa como um remate à voracidade dos dias: ‘Nada de revolta: honremos as idades nas suas quedas sucessivas e o tempo na sua voracidade.’ Eurídice pousa a chávena. O café está terminado, mas o bálsamo permanece.”

 

                                                                                            Vasco Patrício

                                                                                            06/05/2026

 

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