Pudera! O café é a segunda
bebida do mundo a seguir à água.
Teve origem nas terras altas
da Etiópia, na África, provavelmente no
século IX. Segundo a lenda,
um pastor Kaidi observou que as suas cabras
ficavam energizadas após
comerem os frutos do cafezeiro, levando à
descoberta da bebida que se
popularizou durante o século XV. Aqui se
mencionam os pontos chave da
expansão do café:
1 - Lenda do pastor Kaidi,
descrita no parágrafo 2.
2 - As primeiras infusões
começaram no norte da Arábia por volta do
século XV, sendo usado pelos
místicos sufis para se manterem acordados
durante as suas rezas.
3 - A bebida viajou de Moca
(Iémen) para Istambul alcançando a Europa
por Veneza no século XVII.
4 - O café é o segundo
produto mais comercializado legalmente a seguir
ao petróleo.
5 - Já foi proibido em 1511
na cidade de Meca por se acreditar que
estimulava pensa- mentos
radicais.
6 - 0 País maior consumidor,
per capita, é a Finlândia; o maior produtor é
o Brasil.
7 - Estudos indicam que o
café pode retardar os sintomas de Alzheimer e
reduzir os riscos de
Parkinson e Diabetes tipo 2.
O café tornou-se uma bebida
familiar e social. Em Lisboa, o café Expresso
é designado Bica e no Porto
Cimbalino. Há duas variedades de café:
Arábica mais aromático e
Robusta.
Jerónimo
Pamplona
De manhã, cedinho, ia apanhar o “7”, na correria
Mas, subtilmente, o cheiro do café chamou por mim
Fui ao Califa, como fazia habitualmente antes de ir
trabalhar
Um café cheio e um pastel de Chaves, como habitualmente
pedia
Nessa rotina preciosa, depois de com titânico esforço
Ter deixado de fumar, deliciava-me com esse pastel
Folhado admirável, quentinho, que mesclava como café
Que pedia cheio, para acomodar cada dentada…
Depois a correria para o carro, a ânsia de encontrar
local
Em frente ao “Pub”, sempre difícil, mas bem-sucedido
Pela hora matinal, em que chegavam jornalistas e
políticos
Tomar o pequeno almoço ao Pub, com o chofer a abrir
A porta de trás ao Primeiro Ministro, com o companheiro
do dia
À hora a que já chegava o Dr. Marcelo Rebelo de Sousa
Encontrar local para estacionar, era um quebra cabeças
Quando era impossível, tentava-se a paralela à Duque de
Palmela
Que a essa hora ainda dispunha de alguns locais para
estacionar
À hora de almoço pegava no diesel e vinha muitas vezes
almoçar a casa
Nessa altura, já teria fumado um maço de cigarros e
indicado
Os trabalhos do dia, aos meus colaboradores, deixando um
A4
em cada secretária, com indicação dos que haveria a fazer
Às 18 horas a correria para um gabinete de projectos
Calculando viadutos e pontes, centros de espetáculos e hotéis
Até às nove, quando o tráfego já teria amainado e a vigem
Para casa já teria filas menores e chegada mais célere…
Jorge
Proença
Que dia bom tinha sido
aquele…
Cansativo, é certo, mas
movimentado, com muitas coisas gratificantes para fazer e todas elas conseguidas.
Raramente tinha dias assim, em que tudo aquilo a que deitara mãos se
concretizara e, melhor ainda, tal como eu queria. Que sensação boa! Podia agora
descansar. E foi a fadiga que me pôs um sorriso nos lábios.
Um ruído surdo e estranho de
algo a cair, seguido de voz estridente, vindo da escada, cortou o meu momento
zen e levou-me a abrir a porta de casa para ver o que se passava.
No andar de cima ouvia-se
alguém aflito e o som de outras portas a abrir. Corri pela escada e cheguei ao
piso superior onde deparei com a vizinha e o marido, de porta aberta, chave na
mão, sem se atrever a entrar, olhando espantados para o hall de entrada da sua
casa onde parecia ter havido uma revolução – tudo estava revolvido numa
confusão imensa. Junto aos seus pés, sobre o tapete, de um saco de supermercado
com compras espalhadas começava a sair vinho de uma garrafa partida. Perante o
olhar incrédulo dos vizinhos assaltados, tirei o telemóvel do bolso, chamei a
polícia e comecei a pôr em ordem o saco com as compras espalhadas pelo chão,
ajudada pelos outros vizinhos que tinham acudido entretanto. Não deixámos os
assaltados entrar em casa, alguém trouxe cadeiras para eles e copos com água,
esperámos talvez meia hora tentando acalmar os vizinhos e a polícia chegou.
Com
os vizinhos entregues, ofereci-me para o que fosse necessário, deixei a “cena
do crime” e voltei para minha casa. Ainda estive algum tempo mergulhada na
excitação do acontecimento e ouvindo o ruído do arrastar de coisas no andar de
cima. Quando tudo serenou, fui-me deitar, trancando a porta, apesar da minha
Filha ainda não ter chegado.
Devo
ter adormecido quase a seguir, mas levei comigo no subconsciente um filme que
tão depressa era de cowboys como de polícias e ladrões, em que se seguiam cenas
desconexas onde agora era personagem principal e logo passava a assistente
imóvel do que tinha na frente.
Apercebi-me
de dar saltos, do cansaço da correria nas pernas, da respiração presa na
garganta, do turbilhão da batida cardíaca… até afundar no vazio escuro mas
apaziguador.
Despertei
pesada, com a sensação de ter o mundo às costas, mexendo-me com dificuldade.
Mas ainda era noite e voltei a enrolar-me no abrigo quente dos lençóis que,
desta vez, não me ofereceu o conforto habitual. Terei dormitado e, de manhã, o
cheiro do café chamou por mim.
Levantei-me,
abri a persiana e vi o efeito dos meus pesadelos dessa noite na minha cama –
parecia que um furacão tinha passado por ali. Esta imagem trouxe-me à memória o
hall de entrada dos vizinhos do andar de cima, despertou-me de repente e fez-me
disparar em direcção à cozinha onde a minha Filha preparava um delicioso
pequeno almoço. Entrei de rompante, ela assustou-se ao ver a minha figura e
depois começou a rir com um hilariante “Credo, Mãe! Estás linda, estás!…”
Fui
para o banheiro, recompor a figura que, até a mim que a conheço bem, me
assustou ao ver o reflexo no espelho. Já com “um aspecto mais decente” (segundo
a douta opinião da minha Filha), sentei-me na cozinha, contando as aventuras
inesperadas das cerca de 12 horas anteriores, envolvida no conforto protector
do delicioso cheirinho do café. Depois, iríamos ambas oferecer os nossos
préstimos aos vizinhos de cima…
Maria
Amélia Mendes
De
manhã o cheiro do café chamou por mim
Ou
A
história de um grão de café
Sou pequenino, ainda
mais pequeno do que um amendoim, mas para ter este tamanho nem imaginam o que a
minha família passou.
Cresci há muitos
séculos numa roça em S. Tomé, plantado por Cabo Verdianos e Angolanos. Foram
eles que cuidaram dos meus antepassados durante muitos, muitos anos, embora os
patrões deles raramente os vissem, pois, viviam na metrópole. Mas gostavam do
que faziam, e nós, os grãos de café, fomos criados com muito amor. Nem imaginam
o trabalho que essas pessoas tinham desde a apanha até à seca dos grãos. E
depois o ensacamento, o transporte para os navios. E nem sequer bebiam café!
Adiante, que o tempo
é escasso e está na altura de prosseguir com a história da minha vida.
Quando cheguei ao
continente, fui vendido primeiro nas lojas de província a que hoje
eufemisticamente chamam “lojas com história” e mais tarde a uma grande fábrica
de secagem e ensacamento, numa terra raiana que se chama Campo Maior. Lá, houve
um senhor visionário, que se dedicou ao comércio do café, fazendo que hoje seja
um negócio próspero, apesar de alguns percalços.
Foi assim que entrei
na vida dos portugueses, e não só.
E nem calculam o
prazer que me dá, todas as manhãs, acordar as pessoas com o cheiro duma boa
chávena de café.
Maria
José Saraiva
Continuo
a fazer café, todos os dias, todas as manhãs e a sentir o seu cheiro espalhar-se
pela casa.
Hoje,
este cheiro funciona como um despertador de memórias.
Volto
às preguiçosas manhãs de domingo e aos pequenos almoços sem pressa.
Sobre
a mesa, coberta por uma toalha guarnecida com crochet, a simplicidade duma refeição
onde não faltava o café, o leite, o pão, a manteiga, o queijo, a compota caseira
e, por vezes…bolo de laranja.
De
tudo se podia ir comendo sem remorso, porque a idade ainda o permitia, sem a preocupação
de contabilizar os níveis de colesterol.
Sem
horários para cumprir, ia-se desfiando a conversa, alinhavando projetos, desembrulhando
sonhos.
Uma
tranquilidade aconchegante e a frase carinhosa que ficaria gravada para sempre:
“Foi o cheiro do teu café que chamou por mim.”
Teresa
Sousa
Algés,
10 de Maio de 2026
Eurídice:
O Elixir e o Tempo
“De
manhã, o cheiro do café chamava por Eurídice. Dizia sempre que, sem ele, não
funcionava — não a figura trágica do mito, mas a mulher real para quem esse
‘vinho da Arábia’ era um bálsamo para a alma e um passaporte para outras
latitudes.
Ao
primeiro gole, era transportada de volta à fazenda do avô, em Angola. Via de
novo o mar de bagas vermelhas adormecido sob o cacimbo matinal e sentia o
silêncio húmido da terra antes de o sol subir. Ao entardecer, as batucadas que
vinham das cubatas ecoavam na memória e, depois, surgia o luar — o luar africano,
vasto, absoluto e quase impossível. Nessas noites, lia em voz alta Fernando
Pessoa, como quem acende uma vela para guiar a lembrança: ‘E eu de pé ante a
janela, vi todo o luar de toda a África inundar a paisagem e o meu sonho.’
Mas
hoje, o entardecer é pálido e curto. A noite cai abrupta, sem a cerimónia do
horizonte africano. De manhã, a geada tolhe-lhe as mãos e a paisagem é
recortada por muradas altas que limitam o olhar. Nesta etapa da vida, as
memórias da fazenda amadureceram sob o peso das pálpebras; o prisma mudou, e as
coisas sentidas são agora outras.
Neste
outono de si mesma, sobram a Eurídice os pequenos prazeres colhidos com
lentidão. O café da manhã é tomado no alpendre térreo, sob o abrigo das heras
que se estendem para o jardim. Ali, entre o cuidado com as rosas, ela rega um
cafezeiro num vaso — um monumento vivo erguido em memória do avô, das vidas
interrompidas e do tempo que não volta. Observa o vaivém das
andorinhas-dos-beirais, regressando aos ninhos de lama, nos ângulos do
varandim. Lá como cá, as andorinhas unem o tempo num voo circular. O cheiro do
café continua a chamar por ela, o elixir negro enrolando-se agora num céu diferente,
apaladando a sua existência.
Na
mesinha de apoio, repousa o diário de uma vida que reescreve memórias. Numa
página entreaberta, a caligrafia da página 98 — datada da década de cinquenta
na África Oriental — revela o acerto de contas com o destino:
‘…quase
sempre errei nas escolhas, e quando acertei não o soube reconhecer. As escolhas
da metade que desconheço nem sempre são nossas; são do tempo — cíclicas,
sazonais, impiedosas. Repetem-se independentemente da nossa vontade...’
E, a
fechar o pensamento, a frase do filósofo ecoa como um remate à voracidade dos
dias: ‘Nada de revolta: honremos as idades nas suas quedas sucessivas e o tempo
na sua voracidade.’ Eurídice pousa a chávena. O café está terminado, mas o
bálsamo permanece.”
Vasco
Patrício
06/05/2026
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