Quantas vidas cabem numa vida? Imensas!!!
Para além das vidas de género: feminino, masculino e
trans, temos as vidas funcionais:
biológicas, espirituais, profissionais, amorosas,
clandestinas; as vidas etárias: crianças,
adolescentes, jovens, adultos e velhos. Caraterizando as
vidas etárias:
Criança: Não conhece os limites próprios da idade.
Adolescente: É um vulcão em ebulição.
Jovem: É uma casa em construção.
Adulto: Atingiu o pleno desenvolvimento biológico, físico
e intelectual. Conduz o carro
do país.
Sénior: “Os mais experientes”! Na cultura Ocidental são
empurrados para uma
prateleira.
Velho: Última fase da vida humana. Decadência física e
intelectual
Jerónimo
Pamplona
A vida é… o universo, abarca tudo, não conhece limites.
Assim sendo, como podemos falar dela? Talvez, se pegarmos
numa das milhares de definições que
ela pode ter, consigamos encontrar um ponto de partida.
Vou por “o que vai do nascimento à morte”…
E constato que a vida não se pode medir, não tem limites,
é muito forte e intensa – a vida é
imensa.
Com uma dimensão tão vasta, extravasa o conhecimento
especulativo e hipotético, a imaginação,
o sonho, a fantasia, nenhuma teoria a amarra.
Os estados de alma, a inspiração, a composição com enredo
e acção que formam o poema
também não conseguem contê-la dentro dos seus limites.
E escapa-nos se a quisermos prender a verdades aceites
por todos, preceitos, máximas, ao que é
tido por certo e indiscutível, ao não questionável que
qualquer dogma quer impor.
A vida…
I nspira
M orde
E nvolve
N ega
S alva
A braça.
Maria
Amélia Mendes
É como o mote que deu origem a este tema. Porquê tão
longo?
Para quê escrever, escrever, escrever, se afinal não há
nada interessante
para transmitir?
Por isso gosto de poesia. Os poetas em poucas palavras,
dizem muito
(fiquei maravilhada quando descobri os haikus)
Talvez seja uma característica dos portugueses. Falamos,
falamos, mas
não dizemos nada.
Provavelmente os outros povos também são assim, mas com a
mania que
temos de que os outros é que são bons, estou a cair no
mesmo.
Voltando ao título, com o qual não concordo. A vida é tão
simples.
Nascemos, crescemos (aqueles que não morrem à nascença) e
morremos.
Para quê complicar?
Foi o que acabei de fazer ao oferecer-me para publicar no
blogue Entre
Palavras. Eu já devia ter juízo, porque os meus textos
são apenas
reflexões, a maioria das vezes sem terem qualquer
sentido, a não ser para
mim. Eu nem gosto de me expor! Só no teatro. Mas aí não
sou eu, sou a
personagem que interpreto ou melhor tento interpretar.
E com este comentário final me despeço.
Parodiando o Raul Solnado, façam o favor de ser felizes e
não
compliquem.
Maria
José Saraiva
O parto não tinha sido fácil e a mãe precisava descansar.
Encaminharam-me para o berçário para poder ver a bebé.
Foi através do vidro que a conheci: um rostinho inchado e
congestionado pela luta
que travara para entrar neste mundo, depois de nove meses
do mais perfeito
aconchego num ninho gerador de vida.
Queria tanto pegar-lhe, encostá-la ao meu peito e
comunicar através da única
linguagem que ela talvez já entendesse, a linguagem
transmitida pelo bater
desenfreado de um coração dizendo: “amo-te!”
Mas… o vidro não deixava!
Era preciso esperar que fosse levada para o quarto e,
entretanto, permanecer colada
àquele vidro, com um turbilhão de emoções e pensamentos a
assaltarem-me, não
conseguindo que os meus olhos se desviassem da criança
que tinha diante de mim.
Um ser tão pequenino, envolvido numa mantinha que
pretende simular o conforto
que acaba de deixar. Um pequeno embrulhinho contendo a
imensidão de uma vida,
uma vida que não cabe numa teoria, num poema, num dogma.
Só despertei dos meus pensamentos quando alguém, com um
ar cansado e uma bata
vestida, se aproximou de mim e, apercebendo-se do meu
êxtase, me disse:
”Parabéns”, minha senhora, tem uma neta linda”.
A palavra “avó” devia estar estampada no meu rosto,
enquanto me rendia ao milagre
da vida.
Teresa Sousa
O Despertar no “Trás do Sol Posto”
Acordava logo de manhã com o estalar rítmico do frio nas
vigas de madeira do teto, um som que a cidade, com o seu zumbido elétrico
constante, tinha desaprendido de ensinar.
Não havia despertadores, apenas a mudança sutil da luz
que filtrava pelas frestas das portadas de carvalho. Para Daphie, aquele era o
primeiro sinal de que a vida é uma coisa imensa, que não cabe numa teoria,
num poema ou num dogma. Ali, a luz pintando linhas de pó dourado no
ar era a prova de que a existência se manifesta no ínfimo, muito antes de
qualquer explicação humana.
Daphie recordava-se das dúvidas que atormentavam os
brilhantes homens do passado —filósofos e cientistas que tentavam dissecar o
mundo através da lógica. Eles viviam na incerteza porque olhavam para a vida de
fora, como quem estuda um mapa sem nunca pisar o solo. Daphie, com as mãos na
terra húmida e a geada a morder-lhe os dedos, compreendeu que o erro deles era
tentar transformar o mundo num substantivo estático, quando a vida é, na
verdade, um verbo. Ao cuidar das árvores dos seus avós, a contradição da cidade
resolvia-se: a macieira não precisava de uma tese para existir; ela era um enunciado
completo de vida.
À noite, ela confrontava o relato daquela astronauta que,
do alto da sua solidão tecnológica, descrevera o espaço como um vácuo negro e
indiferente, um abismo que fazia a humanidade parecer insignificante. Mas
Daphie via essa mesma escuridão de baixo para cima. Sem as luzes da civilização
para camuflar o infinito, o céu sobre a quinta era um abismo cravejado de
prata. Onde a astronauta vira um vazio assustador, Daphie via o espaço
necessário para que a sua própria luz — a luz da consciência — pudesse brilhar.
Foi nesta colisão com o real que ela se tornou o “deus imberbe”: a divindade
que não nasce da arrogância, mas da presença absoluta. O dogma dissolveu-se
porque é apenas uma moldura para quem tem medo do quadro, e ela agora habitava
a tela inteira. A teoria calou-se porque quem sente o pulsar do sangue e o
ciclo das estações não precisa de provar a existência de Alguém — ela tocava na
assinatura desse Alguém na textura da casca e na geometria das sementes.
Naquela quinta, Daphie deixou de ser alguém que observa
para ser alguém que É. Se a vida é obra de Alguém, ela passou a ser o
pincel em movimento. O silêncio da terra tornou-se o seu diálogo mais profundo,
e o fôlego da manhã o seu maior ato de fé. Naquele pontinho azul, entre a
herança dos seus ancestrais e a imensidão do cosmos, ela estava, finalmente, em
casa.
Vasco
Patrício
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