Bem conhecido é aquele sentir espontâneo que de repente perante um
qualquer estímulo significativo nos provoca uma reação muito particular, a emoção.
Da alegria à tristeza, da coragem ao medo, do orgulho à modéstia longo é o
desfile de emoções que, das prazerosas às dolorosas, nos assaltam
desprevenidamente a cada fração de tempo do nosso dia a dia.
Anunciada formalmente a primavera, pois as datas do calendário não
perdoam, seriam os belos dias de sol, o azul de um céu deslumbrante e as andorinhas
a esvoaçar algumas das agradáveis emoções de hoje. Quiçá um passeio pelo campo,
o deleite face ao colorido da natureza com o florescer das plantas, o inalar dos seus
perfumes…
Seria, mas não foi. Temperaturas baixas, céu encoberto, vento matreiro, um
convite a um sábado caseiro e, entre muitos outros, um convite à leitura. Dia de
aproveitar a pôr o jornal em dia.
Estava ainda a finalizar algumas outras tarefas e já o marido lia o “Expresso”
quando de repente oiço um “anda cá, lê isto”.
Uma emoção! Na respetiva “Revista”, letras bem gordas, o título “Os últimos
baleeiros dos Açores” (1).
Falou a voz do sangue. Açores e, mais especificamente, a ilha do Pico, o
concelho das Lajes do Pico, matriz da baleação açoriana, raiz da minha ascendência,
pilar do meu ser.
Um texto que recomendo a quem tenha curiosidade no tema independentemente de eu
ser suspeita na matéria. Um artigo bem feito que dá uma ideia razoável do quê e do
contexto da baleação, salvaguardado o enfoque humano ser centrado em testemunhos
apenas do que resta dos baleeiros, como seja o importante Trancador entrevistado, pois já
não subsistem os vários tipos de elementos da companha de um bote. Esta, como é
referido no texto, era constituída por sete homens, a que acrescento a distribuição das
suas funções. O Mestre à ré e seis Remadores, sendo o da proa o Trancador.
Segunda emoção! Ao rodar as páginas do artigo, as imagens.
Por um lado, a foto do bote, do elegante e vivaz barco ergonomicamente
talhado para sulcar águas exigentes e tarefa dura, um companheiro que, só de vê-lo,
a alma se me enche desde a infância até hoje, varado ou mar fora, esteja eu em terra
ou a banhar-me nele, um dos mais deliciosos que conheço.
Por outro lado, a foto de uma parede do Museu dos Baleeiros, pano de fundo
do grande profissional que é Manuel Costa, o seu diretor (dedicado não só à causa da
baleação, mas também homem da música e de elevada cultura), foto essa de um
mural do qual constam as fotografias de uma panóplia de idos baleeiros, tantos!!!
Saudosos conhecidos, amigos, parentes e, adivinhem, o meu próprio avô paterno,
Mestre de nomeada como salienta o escritor Dias de Melo no seu livro “A montanha
cobria-se de negro”, no qual desnuda o respeito, os anseios e temores dos
marinheiros em relação ao homem do leme, o timoneiro, o Mestre de quem depende
o cálculo do tempo para o cetáceo emergir, determinar o local de saída e que direção
tomará, o Mestre, que dirige o bote e a companha, o garante da segurança de todos
e do sucesso no trancar do animal.
Impossível melhor surpresa numa tarde meia invernosa a reter-me em casa.
Um artigo que não deu para escapar ao que me corre nas veias. Grande foi a emoção,
o sentimento de pertença, o peso de memórias, a carga de uma cultura, o vigor dos
laços estruturantes da identidade de uma comunidade da região mais periférica do
país, outrora “As Ilhas Desconhecidas” na obra de Raul Brandão, hoje um destino
conhecido e de encantar.
Um destino, cuja particularidade nos fins do séc. XIX impôs um estilo de vida
quase sem alternativas para a sobrevivência das suas populações. Uma região com
passado de erupções onde a lava tudo queimou, pobre e rico empobreceu, a terra
quase nua lhes ofereceu, valendo que lhes deixou intacta a riqueza do mar. À
recoleção nele tiveram de deitar a mão, a caça à baleia, o animal de que
praticamente tudo se vendia desde o âmbar ao óleo, matéria-prima esta versátil,
inclusive, importante para iluminação.
Mudaram-se os tempos e é emocionante ver a evolução havida a partir de
meados do século XX com a terra progressivamente regenerada e o impulso das
atividades a ela ligadas, bem como com o fim da caça à baleia para proteção da
espécie. O estilo de vida evoluiu e a economia progrediu ao contar com outras fontes
de riqueza, nomeadamente, com o turismo. Foi chave ter-se passado à observação
de cetáceos, o bote ter sido recuperado e reconvertido para desportos náuticos, com
ênfase para regatas de nível regional, nacional e internacional.
Uma reconversão que emociona. Não há mais baleeiros nem caça à baleia, mas
o bote continua a ser lançado à água, porém, agora é por desportistas. É lindo ver as
novas gerações já não apenas de rapazes, também de raparigas, a repetir o ritual de
navegação dos velhos marinheiros, a remar ou a velejar em treinos e em saudável
competição. É lindo observar baleias e golfinhos já não ameaçados, antes a
usufruírem livremente da sua sazonal visita em crescentes cardumes à catedral dos
cetáceos, a baía das Lajes do Pico.
(1) Texto de Sara Sousa Oliveira e fotografias de Rui Soares, A Revista do Expresso, 2789, pág. 27, 10.04.2026
Luísa Machado Rodrigues
10.04.2026
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