01/05/2026

GRANDE FOI A EMOÇÃO


Bem conhecido é aquele sentir espontâneo que de repente perante um

qualquer estímulo significativo nos provoca uma reação muito particular, a emoção.

Da alegria à tristeza, da coragem ao medo, do orgulho à modéstia longo é o

desfile de emoções que, das prazerosas às dolorosas, nos assaltam

desprevenidamente a cada fração de tempo do nosso dia a dia.

Anunciada formalmente a primavera, pois as datas do calendário não

perdoam, seriam os belos dias de sol, o azul de um céu deslumbrante e as andorinhas

a esvoaçar algumas das agradáveis emoções de hoje. Quiçá um passeio pelo campo,

o deleite face ao colorido da natureza com o florescer das plantas, o inalar dos seus

perfumes…

Seria, mas não foi. Temperaturas baixas, céu encoberto, vento matreiro, um

convite a um sábado caseiro e, entre muitos outros, um convite à leitura. Dia de

aproveitar a pôr o jornal em dia.

Estava ainda a finalizar algumas outras tarefas e já o marido lia o “Expresso”

quando de repente oiço um “anda cá, lê isto”.

Uma emoção! Na respetiva “Revista”, letras bem gordas, o título “Os últimos

baleeiros dos Açores” (1).

Falou a voz do sangue. Açores e, mais especificamente, a ilha do Pico, o

concelho das Lajes do Pico, matriz da baleação açoriana, raiz da minha ascendência,

pilar do meu ser.

Um texto que recomendo a quem tenha curiosidade no tema independentemente de eu

 ser suspeita na matéria. Um artigo bem feito que dá uma ideia razoável do quê e do

 contexto da baleação, salvaguardado o enfoque humano ser centrado em testemunhos

 apenas do que resta dos baleeiros, como seja o importante Trancador entrevistado, pois já

 não subsistem os vários tipos de elementos da companha de um bote. Esta, como é

 referido no texto, era constituída por sete homens, a que acrescento a distribuição das

 suas funções. O Mestre à ré e seis Remadores, sendo o da proa o Trancador.

Segunda emoção! Ao rodar as páginas do artigo, as imagens.

Por um lado, a foto do bote, do elegante e vivaz barco ergonomicamente

talhado para sulcar águas exigentes e tarefa dura, um companheiro que, só de vê-lo,

a alma se me enche desde a infância até hoje, varado ou mar fora, esteja eu em terra

ou a banhar-me nele, um dos mais deliciosos que conheço.

Por outro lado, a foto de uma parede do Museu dos Baleeiros, pano de fundo

do grande profissional que é Manuel Costa, o seu diretor (dedicado não só à causa da

baleação, mas também homem da música e de elevada cultura), foto essa de um

mural do qual constam as fotografias de uma panóplia de idos baleeiros, tantos!!!

Saudosos conhecidos, amigos, parentes e, adivinhem, o meu próprio avô paterno,

Mestre de nomeada como salienta o escritor Dias de Melo no seu livro “A montanha

cobria-se de negro”, no qual desnuda o respeito, os anseios e temores dos

marinheiros em relação ao homem do leme, o timoneiro, o Mestre de quem depende

o cálculo do tempo para o cetáceo emergir, determinar o local de saída e que direção

tomará, o Mestre, que dirige o bote e a companha, o garante da segurança de todos

e do sucesso no trancar do animal.

Impossível melhor surpresa numa tarde meia invernosa a reter-me em casa.

Um artigo que não deu para escapar ao que me corre nas veias. Grande foi a emoção,

o sentimento de pertença, o peso de memórias, a carga de uma cultura, o vigor dos

laços estruturantes da identidade de uma comunidade da região mais periférica do

país, outrora “As Ilhas Desconhecidas” na obra de Raul Brandão, hoje um destino

conhecido e de encantar.

Um destino, cuja particularidade nos fins do séc. XIX impôs um estilo de vida

quase sem alternativas para a sobrevivência das suas populações. Uma região com

passado de erupções onde a lava tudo queimou, pobre e rico empobreceu, a terra

quase nua lhes ofereceu, valendo que lhes deixou intacta a riqueza do mar. À

recoleção nele tiveram de deitar a mão, a caça à baleia, o animal de que

praticamente tudo se vendia desde o âmbar ao óleo, matéria-prima esta versátil,

inclusive, importante para iluminação.

Mudaram-se os tempos e é emocionante ver a evolução havida a partir de

meados do século XX com a terra progressivamente regenerada e o impulso das

atividades a ela ligadas, bem como com o fim da caça à baleia para proteção da

espécie. O estilo de vida evoluiu e a economia progrediu ao contar com outras fontes

de riqueza, nomeadamente, com o turismo. Foi chave ter-se passado à observação

de cetáceos, o bote ter sido recuperado e reconvertido para desportos náuticos, com

ênfase para regatas de nível regional, nacional e internacional.

Uma reconversão que emociona. Não há mais baleeiros nem caça à baleia, mas

o bote continua a ser lançado à água, porém, agora é por desportistas. É lindo ver as

novas gerações já não apenas de rapazes, também de raparigas, a repetir o ritual de

navegação dos velhos marinheiros, a remar ou a velejar em treinos e em saudável

competição. É lindo observar baleias e golfinhos já não ameaçados, antes a

usufruírem livremente da sua sazonal visita em crescentes cardumes à catedral dos

cetáceos, a baía das Lajes do Pico.



(1) Texto de Sara Sousa Oliveira e fotografias de Rui Soares, A Revista do Expresso, 2789, pág. 27, 10.04.2026


Luísa Machado Rodrigues

10.04.2026

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