O sol raiava morno, em sintonia com a aragem que embalava a folhagem das
árvores rasteiras. Na véspera tinha chovido, o que dava à atmosfera um aspeto
limpo; os insetos pululavam entre os malmequeres e a passarada orquestrava
aquela manhã perfeita para caminhar.
Rosana seguia a meio da fila indiana que avançava por trilhos enviesados. Era o dia
da semana desta atividade e os caminheiros conversavam entre si sobre um pouco
de tudo. A páginas tantas, uma das amigas deixou pairar uma interrogação que a
deixou perturbada:
— Como se colecionam boas memórias? — Os que o conseguem são felizes —
responderam-lhe. — Mas a vida não é uma linha reta — ripostaram.
As interações entre as amigas continuavam: — O segredo, dizem, é esquecer
rapidamente as más memórias e guardar apenas as que nos fazem bem.
Rosana, desta vez, interveio: — Mas como reagir ao rancor de alguém a quem se
votou um amor incondicional e que, no entanto, mais nos ofendeu?
Uma profusão de sentimentos ficou a pairar no ar, verbalizada por alguém: —
Ansiedade, medo, indignação, paixão, esperança, confusão, êxtase… Se conseguires
passar incólume por estes sentimentos, talvez consigas passar uma esponja sobre
essa memória.
Rosana gostaria que lhe ensinassem a fazer essa coleção de boas recordações. Por
vezes, ainda recorria aos álbuns de família quando os pensamentos a assombravam,
dizendo a si mesma: “Lembras-te, Rosana, como eras feliz quando eras menina?”.
Desfolhava as páginas com fotos durante horas. Mas não era fácil. Concluiu que não
se guardam memórias como se guardam selos num álbum: as memórias são vivas e,
às vezes, mordem.
Estes pensamentos abateram-na. O dia lindo ficou ensombrado pelos diálogos sobre
o passado. A claridade da manhã contrastava com a sombra que transparecia nela.
Naquela noite, o cansaço da caminhada e o teor das conversas venceram,
finalmente, a sua resistência.
No sonho, Rosana encontrou a sua versão mais velha: uma mulher de olhar calmo
que lhe pediu para escolher um objeto que representasse uma alegria antiga.
— Quem és tu? — perguntou a Rosana jovem.
A mulher sorriu; as rugas ao redor dos olhos pareciam contar mil histórias. — Sou a
Rosana que aprendeu a filtrar o vento. Sou tu, depois de decidires que o teu peito
não é um depósito de lixo para as ofensas dos outros. Mas escolhe um objeto,
Rosana, que te traga uma alegria antiga.
Desta vez, ela não hesitou. Escolheu uma bicicleta — algo que nunca teve, a não ser
em sonho. A sua bicicleta tinha cores, claro. Tinha as cores dos seus primeiros lápis
da primeira classe — aquela caixa onde uma menina de tranças loiras pulava com o
seu cão felpudo. No sonho, Rosana não sabia se pedalava, mas, para que não lha
roubassem, prendia-a com uma corda ao seu próprio tornozelo.
Imaginem a deceção quando, ao acordar, vasculhou o quarto todo e não encontrou
nem sombras da bicicleta colorida. Na sombra ficou ela. Mas a Rosana mais velha,
segurando-lhe a mão no silêncio do pensamento, explicou-lhe o mistério:
— Rosana, a bicicleta não era de ferro, era de cor. Não a podias prender ao
tornozelo porque ela não era para o teu corpo, era para a tua alma. — E as más
memórias? — insistiu a Rosana nova. — Essas… — A versão mais velha soprou para
longe. — Essas deixamos que a maré as leve. Não as apagas com força: deixas
apenas de lhes dar oxigénio. O segredo é este: só floresce aquilo que regas.
Afinal, colecionar boas memórias é isto: encontrar a luz daquela bicicleta no meio de
todas as sombras que a vida nos deixou.
Vasco Patrício
19- Abril -2026
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