01/05/2026

A COR DA MINHA BICICLETA: A ARTE DE COLECIONAR MEMÓRIAS


O sol raiava morno, em sintonia com a aragem que embalava a folhagem das

árvores rasteiras. Na véspera tinha chovido, o que dava à atmosfera um aspeto

limpo; os insetos pululavam entre os malmequeres e a passarada orquestrava

aquela manhã perfeita para caminhar.

Rosana seguia a meio da fila indiana que avançava por trilhos enviesados. Era o dia

da semana desta atividade e os caminheiros conversavam entre si sobre um pouco

de tudo. A páginas tantas, uma das amigas deixou pairar uma interrogação que a

deixou perturbada:

— Como se colecionam boas memórias? — Os que o conseguem são felizes —

responderam-lhe. — Mas a vida não é uma linha reta — ripostaram.

As interações entre as amigas continuavam: — O segredo, dizem, é esquecer

rapidamente as más memórias e guardar apenas as que nos fazem bem.

Rosana, desta vez, interveio: — Mas como reagir ao rancor de alguém a quem se

votou um amor incondicional e que, no entanto, mais nos ofendeu?

Uma profusão de sentimentos ficou a pairar no ar, verbalizada por alguém: —

Ansiedade, medo, indignação, paixão, esperança, confusão, êxtase… Se conseguires

passar incólume por estes sentimentos, talvez consigas passar uma esponja sobre

essa memória.

Rosana gostaria que lhe ensinassem a fazer essa coleção de boas recordações. Por

vezes, ainda recorria aos álbuns de família quando os pensamentos a assombravam,

dizendo a si mesma: “Lembras-te, Rosana, como eras feliz quando eras menina?”.

Desfolhava as páginas com fotos durante horas. Mas não era fácil. Concluiu que não

se guardam memórias como se guardam selos num álbum: as memórias são vivas e,

às vezes, mordem.

Estes pensamentos abateram-na. O dia lindo ficou ensombrado pelos diálogos sobre

o passado. A claridade da manhã contrastava com a sombra que transparecia nela.

Naquela noite, o cansaço da caminhada e o teor das conversas venceram,

finalmente, a sua resistência.

No sonho, Rosana encontrou a sua versão mais velha: uma mulher de olhar calmo

que lhe pediu para escolher um objeto que representasse uma alegria antiga.

— Quem és tu? — perguntou a Rosana jovem.

A mulher sorriu; as rugas ao redor dos olhos pareciam contar mil histórias. — Sou a

Rosana que aprendeu a filtrar o vento. Sou tu, depois de decidires que o teu peito

não é um depósito de lixo para as ofensas dos outros. Mas escolhe um objeto,

Rosana, que te traga uma alegria antiga.

Desta vez, ela não hesitou. Escolheu uma bicicleta — algo que nunca teve, a não ser

em sonho. A sua bicicleta tinha cores, claro. Tinha as cores dos seus primeiros lápis

da primeira classe — aquela caixa onde uma menina de tranças loiras pulava com o

seu cão felpudo. No sonho, Rosana não sabia se pedalava, mas, para que não lha

roubassem, prendia-a com uma corda ao seu próprio tornozelo.

Imaginem a deceção quando, ao acordar, vasculhou o quarto todo e não encontrou

nem sombras da bicicleta colorida. Na sombra ficou ela. Mas a Rosana mais velha,

segurando-lhe a mão no silêncio do pensamento, explicou-lhe o mistério:

— Rosana, a bicicleta não era de ferro, era de cor. Não a podias prender ao

tornozelo porque ela não era para o teu corpo, era para a tua alma. — E as más

memórias? — insistiu a Rosana nova. — Essas… — A versão mais velha soprou para

longe. — Essas deixamos que a maré as leve. Não as apagas com força: deixas

apenas de lhes dar oxigénio. O segredo é este: só floresce aquilo que regas.

Afinal, colecionar boas memórias é isto: encontrar a luz daquela bicicleta no meio de

todas as sombras que a vida nos deixou.


Vasco Patrício

19- Abril -2026

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