26/04/2026

EM TEMPO ...


O tempo, percebo agora, não passa apenas.

Ele observa, recolhe os instantes e devolve-nos, por vezes, aquilo que julgávamos

perdido.

Com a idade, penso hoje em pessoas que fizeram parte do meu quotidiano, e que há

muito deixei de ver.

Permanecem na memória quase intactas, suspensas na idade em que as

conheci.

E pergunto-me: Quantos rostos guarda cada um de nós de rostos que fizeram

parte da sua vida?

Surge-me por vezes a pergunta simples, inevitável: Estarão ainda vivas?

Não há qualquer dramatismo em tudo isto, apenas a certeza de que o tempo não

passou só por nós.

Mesmo quando desaparecem da rotina, supomos que continuem algures, vivendo

os seus dias. Mas a vida silenciosamente, muda o elenco de cada um. Sem

avisos, sem despedidas.

Quando reencontramos alguém que não víamos há meio século, o instante é

singular. O tempo alterou os rostos, abrandou os gestos, mas quase sempre

resiste qualquer coisa, um sorriso, um olhar, uma maneira de dizer o nosso nome.

Nesse momento sentimos uma satisfação tranquila: aquela pessoa continua a

partilhar o mesmo tempo que nós.

Enquanto conversamos, surge outro movimento interior. Procuramos perceber se

permanece, no essencial, a mesma pessoa que conhecemos. Não o aspecto, o

tempo a todos transforma, mas na forma de pensar, de sentir, de olhar a vida.

Talvez então nos abracemos antes que seja tarde.

Nesse momento, compreendemos que as pessoas raramente permanecem

intactas na vida umas das outras. O que realmente permanece é as forma como

as guardamos dentro de nós. Talvez por isso estes reencontros tenham sempre

algo de delicado. Não são apenas encontros entre duas pessoas. São encontros

entre memórias que atravessaram décadas separadas.

Talvez que envelhecer seja isto: descobrir que a vida muda rostos, caminhos e

circunstâncias, mas que algumas pessoas continuam a viver dentro de nós,

silenciosas, muito depois de terem deixado de caminhar ao nosso lado.

E perceber finalmente, que não é o tempo que determina a presença, somos nós

que a mantemos viva. E, no silêncio do nosso coração, algumas dessas

presenças tornam-se eternas. Afinal sempre à espera de serem lembradas.


Fernando Baptista

Linda-a-Velha, 15 de Março de 2026

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