08/04/2026

ESCRITA CRIATIVA - Mote: “Longe de todos não sei se consigo viver

 


 LIMITAM-SE A CONTINUAR

 

Numa tarde cinzenta, em pleno quadro de cheias generalizadas, detive-me a observar o Tejo num pequeno porto da Vala do Carregado. O rio extravasara os seus limites habituais, invadira margens, cobrira caminhos, misturara água com terra, troncos e destroços. Tudo parecia fora do lugar. Como acontece na vida, quando ela cresce demais e já não cabe nos contornos que lhe traçámos. O ar estava pesado, saturado de humidade e de uma tensão silenciosa. Havia um desconforto antigo, um pressentimento de que nada estava verdadeiramente seguro. Foi então que, ao longe, um vulto começou a destacar-se. Durante algum tempo resistiu à forma, confundindo-se com a água revolta e com a luz baça da tarde. Aproximava-se devagar, teimoso, como quem sabe que parar não é opção. Interroguei-me se conseguiriam chegar.

Entre chuvas sucessivas e águas a transbordar, uma velha bateira aproximou-se com a perícia de muitos anos, acariciando o que restava do cais, outrora firme e resistente, agora submetido à corrente impiedosa. O casal — primeiro a senhora — arrastou-se lentamente pelas tábuas incertas e pelos corrimãos que pareciam acenar à vida, tal era a força do rio.

Os rostos enrugados depreendiam vida por debaixo das silhuetas encharcadas e vestidas de negro, cada gesto medido e seguro, marcado por décadas de convivência com águas e tempestades.

Não houve dramatismo. Um simples “bom dia” atravessou a chuva, dito com naturalidade, como se o temporal fosse apenas mais um dia. Não valia a pena chorar nem mostrar fragilidade. As cheias não recuam por piedade.

A vida também não. Segue o seu curso, indiferente aos lamentos. E eles sabiam desde sempre que longe de todos não se consegue viver.

 Quando tudo ficou seguro, caminharam pela erva encharcada, tranquilos, apoiando-se no equilíbrio construído ao longo dos anos. O rio manteve-se cheio. O tempo permaneceu adverso. Mas neles havia uma dignidade que não se deixava submergir.

Fiquei a observá-los por debaixo do meu chapéu, que copiosamente continuava a chorar, com uma admiração funda e silenciosa. Não pelo esforço, mas pela forma. Percebi que há quem envelheça sem perder a verticalidade da alma. Quem, mesmo cercado pela água, sabe onde firmar os pés. Ali, à beira do Tejo, compreendi que certas vidas não esperaram que a vida fosse justa simplesmente se limitaram a vivê-la.

 

Fernando Baptista

 

A minha primeira reacção ao ler o tema desta semana foi “…todos… QUEM?” - longe de quem não sei se consigo viver?

Se é da espécie humana, direi já que me inclino para o SIM.

O ser humano é um ser sociável, gregário, que só se concebe a si mesmo enquanto fazendo parte de um grupo. Nós, seres vivos desta espécie, não sobrevivemos sozinhos.

Então, os “todos” serão os outros seres da mesma espécie – humanos como eu - da mesma comunidade a que pertenço?

Estes eu subdivido nos que me são queridos, próximos, e os que são estranhos e desconhecidos à minha volta.

Os desconhecidos, claro que conseguiria viver longe eles. Não temos laços que nos prendam. Somos estranhos e não construímos nada em comum que queiramos preservar.

Restam os que são próximos e os que são queridos. Viver sem eles seria horrível, era como perder a minha própria identidade.

Mas conseguiria viver – mal, por pouco tempo, talvez desejando um fim rápido e libertador.

Sinto que estamos natural e irremediavelmente “condenados” a preservar o maior dom que nos foi concedido ao entrarmos neste mundo – a VIDA.

Maria Amélia Mendes



(DIÁLOGO A DUAS VOZES)

1ª VOZ

1. Vais para o Corvo?!!!

2. Mas conheces lá alguém? Ninguém claro, como te vais aguentar sozinha, sem amigos nem família? E com o mau tempo que está sempre a castigar o arquipélago vais estar isolada e quase Longe reclusa naquela minúscula ilha.

3. Só tem uma povoação... está bem, pronto, é uma cidade, mas parece uma aldeia, tem pr’ai umas mil pessoas…

4. Mesmo que tenha mais pessoas, tu não conheces nenhuma e os ilhéus

desconfiam dos continentais, não vai ser fácil arranjar ligações ou amigos.

5. Claro que com o passar do tempo alguém hás-de ir conhecendo, nem que seja o merceeiro local ou a médica, mas isso não é vida.

6. Está bem, podem ser excelentes pessoas, mas e até descobrires se são ou não como vais conseguir aguentar sozinha?

2ª VOZ 

1. Sim, decidi ir viver para o Corvo…Calma, não é para sempre, é só durante algum tempo. Quero mudar de ambiente, de geografia, como se fosse começar do zero e construir a partir do nada com a bagagem que já transporto

2. Não, não conheço lá ninguém mas passo a conhecer. A família está à distância de um telefonema e amigos estão em todo o Mundo, assim os saibamos procurar e encontrar. E não faz mal nenhum aprender a viver só comigo algum tempo, eu até gosto da minha companhia.

3. É pequena sim, não passa de um vulcão com umas casitas a escorregar pelas fajãs até ao oceano…mas para mim é suficiente. Sossego e uma beleza de fazer vir lágrimas aos olhos.

4. Vai acontecer o que tiver que acontecer. E eu tenho muita curiosidade de

conhecer aquelas pessoas, corajosas ou desesperadas, que decidem viver

naquela pontinha de costas para a europa.

5. Não digas que não é vida! Vou viver rodeada de vida, nunca estarei sozinha. Só se for tão burra ou negligente que deixe passar essa oportunidade

6. Esse será o grande desafio. Vou ficar a saber se consigo viver longe de todos – quando, na verdade, estamos sempre perto de alguém. Nem que seja só de nós próprias

Conceição Brito

 

Desde muito nova Mariana tinha aversão às freiras. Criada numa família muito católica foi obrigada a ir para um colégio de freiras e foi uma experiência traumatizante. Interrogava-se, porque eram tão azedas? O que a vida lhes tinha feito para as modificarem a tal modo que nenhuma empatia tinham. Será que tinham professado porque sentiam vocação para tal ou porque dificuldades na vida as tinham empurrado para esse caminho?

Nos livros que Mariana leu e que falavam em freiras percebia que eram mulheres como quaisquer outras. Tinham as hormonas a pulsar durante a fase adulta da vida e o fato de não satisfazerem as necessidades sexuais provocava nelas um azedume que as transtornava.

Hoje, Mariana sabe que há a chamada crise das vocações, mas em pleno século XXI, o que levará algumas mulheres a irem para o convento e até para a clausura.

Não, decididamente Mariana não tinha vocação para freira. Desde muito cedo percebeu que longe de tudo e de todos, não sabia se conseguiria viver.

Maria José Saraiva

 

As raízes de Amélia encontravam-se naquela aldeia, naquela quinta, naquela casa enorme que acolhia uma grande família.

A vida académica de uns e a vida profissional de outros, foi dispersando aquele núcleo. Contudo, nas férias e nas datas festivas aquela casa continuava a ser o ponto de encontro onde todos iam beber do amor que os unia desde o berço.

Amélia, como professora primária, foi conseguindo colocação por perto, o que lhe permitiu continuar a viver na aldeia dando apoio aos que iam envelhecendo, tornando-se a âncora daquela família. Muito amada por todos, é certo, mas…à medida que os anos passavam, tanta coisa ficou por viver, em prol duma abnegação cada vez mais exigente.

Sempre que a casa se enchia era uma felicidade, não faltando o sorriso acolhedor que todos procuravam e o colo para os mais pequenos.

Mais difícil era voltar a ver a casa cada vez mais vazia.

Depois da partida dos pais, a solidão começou a instalar-se… sobrava tanta casa! Sobrava tanto tempo!

Pela primeira vez o sorriso se desvaneceu no rosto de Amélia.

Pela primeira vez lhe ouviram um desabafo: “Longe de todos, não sei se consigo sobreviver!”

Teresa Sousa

 

Era uma família grande, alegre, deliciosamente ruidosa, unida, de beijos,

toques e abraços fáceis e carinhosos.

Pai militar, Mãe cem por cento Mãe.

Os primeiros seis filhos, rapazes.

E chega o sétimo. Finalmente, a tão desejada menina.

E logo mais um rapaz e por fim mais duas meninas.

O Pai, austero e disciplinador, sempre com o objectivo de criar filhos

capazes, em adultos, de criar os seus próprios filhos.

A Mãe, protectora e carinhosa conduzia a prole no dia-a-dia e ensinava a

sua primeira menina a ser, simultaneamente, forte em carácter, firme com

os irmãos mais velhos, protectora e Mãe dos mais pequenos.

Com o passar dos anos e já na universidade, era ela que cuidava de todos.

Sempre ralhava e enquanto o fazia, sorria consigo própria e pensava:

longe de todos e de toda esta algazarra não sei se conseguiria viver.

Os dez irmãos se licenciaram, casaram, e nove tiveram filhos.

Ela foi a última a casar. Nunca teve filhos mas os irmãos e sobrinhos

tinham nela e na sua casa um porto seguro, a certeza da continuação da

algazarra própria de uma grande família, alegre, unida.

 

Teresa Barroso

 

Como se o que existe existisse para poder ser perdido e tornar-se precioso

Liese Mueller

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Mesmo Longe de Todos 

Todos é uma imensidão.

Quando Josemar entrou nessa idade em que a vida promete todas as independências, entrou também em sofrimento. Imaginam porquê? Males de amores.

Mas, na verdade, nem foi esse o seu primeiro desencanto. Nem o seu primeiro sofrer.

Nem sequer o seu primeiro medo. Tudo começara muito antes, quando ainda era menino e percebeu , de repente, que não ía estar cá para sempre. Lembra-se de ter perguntado:

— O que é a morte?

Ninguém lhe respondeu.

Vieram depois os males de amores. Paixão daquelas que se juram do caixão à cova. E ainda hoje se Todos é uma imensidão.

Quando Josemar entrou nessa idade em que a vida promete todas as independências, entrou também em sofrimento. Imaginam porquê? Males de amores.

Mas, na verdade, nem foi esse o seu primeiro desencanto. Nem o seu primeiro sofrer. Nem sequer o seu primeiro medo. 

Tudo começara muito antes, quando ainda era menino e percebeu, de repente, que não ia estar recorda da sua pobre mãe dizer-lhe, com a serenidade de quem já conhecia bem a vida:

— Josemar, por morrer uma andorinha não acaba a primavera.

A sua velhinha sabia o que dizia. Sabia que passamos a vida a correr atrás de miragens, de idealizações de nós próprios. E que, muitas vezes, procuramos nas mulheres amadas o reflexo de um amor incondicional — aquele que nos foi dado à nascença e que ficou colado à pele, impregnando-nos de medos. Até do medo de que, longe de todos, não saberíamos viver.

Um dia mandaram Josemar para longe de todos. Para a guerra.

Foi aí que saiu debaixo das saias da mãe e começou, finalmente, a ser homem.

Teve de sobreviver. Que remédio. O caminho é sempre seguir em frente, porque o remediado, remediado está. Chorou, claro. Comeu o pão que o diabo amassou, como acontece a quem aprende sozinho, à força da vida. Mas foi nesse aprendizado duro que ganhou traquejo para enfrentar as desventuras do mundo.

Os trabalhões foram tantos que aprendeu até a cair.

E, pouco a pouco, a distância deixou de o assustar.

Passou então a dar a si próprio alguns recados.

Primeiro: tens de aprender a não viver longe de ti, Josemar.

Depois: mesmo longe de todos, continuas com eles. Talvez até de forma mais altruísta.

Pensas neles, não pensas? Então estás com eles. E se estás com eles assim, em pensamento, talvez consigas também viver sem eles.

Porque o homem habitua-se a tudo.

À paixão.

Ao desencanto.

Ao medo.

À guerra.

Às perguntas sem resposta.

Até às mortes.

Talvez o homem já venha preparado para isso.

Para perder.

Para continuar.

Para aprender a viver.

Como as primaveras que regressam, mesmo depois de cair uma andorinha.

Mesmo quando, um dia, se descobre que está longe de todos.

Vasco Patrício

 

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