01/04/2026

MÉDIO ORIENTE


Por mais fundamentos que haja para justificar que tenha acabado de estalar uma nova guerra armada no Médio Oriente1 , envolvendo dois países contra um, e que um dos atacantes se envolvesse dias depois noutra guerra2 contra um outro país da região, é difícil encarar a situação de ânimo leve. Até onde e até quando prosseguirá o ciclo “ataca, retalia, contra-ataca, retalia”?

Trazer à coação tão delicada e complexa temática sem ter domínio do assunto é um atrevimento e corro o risco de não escapar ao adágio “quem te manda a ti sapateiro tocar violão?”. No entanto, acontece que tive uma experiência pessoal em meio académico de contacto direto simultaneamente com colegas do Líbano, Síria e Tunísia. Países estes, como é conhecido, que ficaram subordinados à França no período entre as duas Grandes Guerras Mundiais, o que levou posteriormente a que muitos estudantes seus frequentassem universidades francesas, nomeadamente, a que eu frequentava na altura.

No caso dos estudantes pós-graduados portugueses, entre os quais me incluo, as razões de ida para o exterior não eram as mesmas. A ida para fora do país tinha a ver com a falta de resposta nacional para prosseguimento de estudos após a licenciatura. A escolha recaiu sobre Lyon em França dado ser um dos polos académicos europeus de convergência de estudantes estrangeiros com relativa proximidade de Portugal. De cá éramos dois únicos pós-graduados, tendo a convivialidade entre todos os estudantes estrangeiros sido excelente, embora um pouco mais fechada com os franceses.

Ora, estava-se em 1982-83, período de uma das crises mais violentas precisamente no Líbano, cujo respetivo presidente era então Bashir Gemayel. Este tinha a particularidade de ser pró-israelita, o que favoreceu um momento histórico de grave conflitualidade em virtude do Líbano abrigar a OLP 3 que defendia a causa palestiniana, rejeitada por Israel. Dentre os graves acontecimentos registados nesse período destacam-se, por um lado, a invasão do Líbano por Israel e, pelo lado muçulmano, a retirada da OLP do Líbano e o assassinato do presidente libanês à época.

Coincidência das coincidências, no claustro da universidade, ao lá entrar na manhã do acontecimento (14.09.1982), em vez do que era habitual, estava quase vazio, o silêncio era ensurdecedor e, num dos recantos, avistava-se um grupo de estudantes reunidos com cara de caso.

Ia acompanhada, aproximámo-nos, eram precisamente os colegas do Líbano, deram-nos a notícia do assassinato, mostraram-se silenciosos e apreensivos. Não sabíamos nem soubemos se eram pró-Israel ou pró-muçulmanos, se eram todos do mesmo lado ou de lados opostos. A beleza foi vê-los abraçados tipo jogo de râguebi, chegar um colega sírio e outro tunisino, e envolverem-se no mesmo abraço (note-se quanto à Tunísia que havia rivalidade Médio Oriente e Magreb).

Para sempre retenho aquela imagem de boa convivência e mútua solidariedade confirmada pela escassa conversa que travámos, dadas as circunstâncias, na qual acentuaram em uníssono que aquela boa relação reproduzia uma efetiva facilidade de convívio entre os seus povos. Diziam, não fora a interferência e o permanente belicismo entre as elites e paz teriam…

Acreditei, quero acreditar. Virá o dia da não guerra, assim seja encontrada outra via!


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1 EUA e Israel contra o Irão (2026.02.28)

2 Israel contra o Líbano (2026.03.02)

3 Organização de Libertação da PalestinaS

Luísa Machado Rodrigues


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