01/04/2026

CARTA A FERNANDO PESSOA

Caro Fernando Pessoa,

 Antes de mais, permite que te trate com familiaridade. Na realidade, eu estou cá e tu ainda andas por aí – e andarás, disso não tenho dúvidas – pelo que assim é mais fácil o nosso convívio.

No tempo em que fiz o ensino secundário, não se falava muito em ti, e o que se falava já foi há muitos anos, já me tinha esquecido. Só há bem pouco tempo, menos de dois anos, é que comecei a ter um contacto mais estreito com aquilo que nos deixaste – coisas tão fascinantes que nos acompanham como algo que não se pode dispensar. O que evidencia de forma certeira, e mais uma vez, que só morre quem é esquecido – “a morte é o esquecimento”, terá dito alguém. Ora, tu estás vivo e bem vivo e embora eu não espere resposta da tua parte isso não me impede de te contar como surgiste no meu caminho.

No início da minha vida profissional, recebi um postal de boas festas que incluía um poema que me deixou encantado e que aqui reproduzo:




Pouco tempo depois, numa visita ao Mosteiro dos Jerónimos, dei conta que o mesmo poema estava numa lápide em tua homenagem. Fiquei encantado, mas as exigências profissionais de então não me permitiram dedicar-me a aprofundar o assunto.

Um dia, em Bruxelas, eu estava a frequentar um curso no âmbito da minha vida profissional. O programa incluía entrevistas com especialistas em gestão de recursos humanos. Numa dessas entrevistas, reparei que o dito especialista ouvia música enquanto entrevistava, e em certo momento estava a passar uma música que eu conhecia, mas cuja letra era para mim estranha. Perguntei ao entrevistador que música era aquela e ele disse que era uma fadista portuguesa a cantar Fernando Pessoa.

Quem? perguntei. Mísia, respondeu ele. Pedi para ver a capa do disco. E láestava: “Mísia, canta Fernando Pessoa, Fado das Violetas, com música do Fado Hilário”. Ah! agora percebo, disse eu. Eu bem conhecia aquela música, mas não a letra, nem a fadista. Até há bem pouco tempo, tinha sido através da música que mais contactos eu tinha tido com a tua poesia.

Por exemplo, “Mar Português”, cantada por Frei Hermano da Câmara, é uma música de que sempre gostei.

Até que, recentemente, me inscrevi num curso de literatura portuguesa, focado em Fernando Pessoa. Então percebi que havia dentro de ti uma panóplia de personalidades que mais parecia um repositório das gentes portuguesas. Fiquei fascinado!

O que mais admiro em ti é a tua imaginação, a tua versatilidade, a tua capacidade de nos surpreender, com tão ricos heterónimos, os mais conhecidos, e tantos outros que não pudeste desenvolver porque decidiste meter-te num baú misterioso. E obviamente pelos textos que assinaste em teu nome próprio, os ortónimos, em particular o livro MENSAGEM, o único que publicaste em vida, não contando com os textos publicados em inglês.

Soubeste muito bem interpretar as gentes do campo, na sua relação com a terra, os animais e as plantas, aquelas pessoas que nascem, vivem e morrem sem se preocupar com as coisas do mundo, limitam-se a sentir, e talvez por isso sejam felizes.

Em contraste, mostras-nos um homem fascinado pelo resultado da capacidade humana de inventar, criar e desenvolver as máquinas que mudaram o mundo e que continuamente estão a ser mudadas pelo mesmo processo que levou à sua criação, ou seja, o engenho humano.

Neste sentido, um homem de todos os tempos. A reconhecida capacidade do homem português de resolver problemas, ultrapassar obstáculos não previstos, deitando mão daquilo que popularmente se chama o “desenrascanço” acompanha este personagem, sendo por isso mais um retrato das facetas do povo português. Um personagem muito atual, nas mutações tecnológicas que nos rodeiam e nos formatam.

De permeio, mostras-nos um ser que absorve todas as culturas desde que há registos escritos, e viaja pelo mundo à procura da sua liberdade, desgostoso com as mudanças, sendo ele um adepto das tradições e da estabilidade hereditária. Alguém que, contraditoriamente, nos diz para sermos inteiros, sem medo de mostrarmos o que somos, para sermos genuínos- o que implica não aceitar a submissão tão conservadoramente defendida por aqueles que ele aprecia.

Tivesses tu continuado nas tuas andanças pelos cafés de Lisboa por muito mais tempo e terias a possibilidade de desenvolver as dezenas de esboços que deixaste, sobre outras tipologias que enriqueceriam a vitrine das personalidades típicas da vida portuguesa e universal. Mesmo assim, fizeste bem em arrumar todas as ideias em envelopes, sem te preocupares com organização, pois isso é tarefa de académicos, e tu és por natureza um criador, sem tempo para arrumações- a tua imaginação tem um ritmo maior que a capacidade humana de a organizar, pois nada te é estranho e, de facto, pões quanto és naquilo que fazes. Assim, deixaste tudo em aberto, dando a cada investigador da tua obra a oportunidade de ir sempre descobrindo novas associações de temas e ideias, na senda dos maiores vultos da literatura.

Dou por muito boa a decisão que tomei de frequentar as aulas da Profª Maria Freitas, numa universidade sénior da zona onde vivo. Através dessas aulas, fiquei fascinado com a tua versatilidade, a tua capacidade de abordar temas muito diversos, a tua cultura transversal a todos os temas que o ser humano já abordou, mas sobretudo com a tua imaginação à solta, que é o que mais me encanta na literatura. E com a capacidade de nos surpreenderes pelas contradições e pelas discussões entre os teus amigos heterónimos. Ah, e uma última coisa: através da explicação sobre os teus poemas, dei-me conta que o mais importante na poesia não é apenas o que se diz, mas o que fica em aberto para o leitor completar a ideia – ou ideias, conforme o leitor. Assim o entendi, para meu espanto, pois não tinha bem a noção do que é fazer poesia.

Despeço-me com o sentimento de que quando voltar a ler os teus escritos, certamente que te escreverei uma carta diferente.

Um saudoso abraço do


Vitor Carvalho

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