01/04/2026

LOTARIA DA FELICIDADE


Os valores do Maio 68 tardaram a chegar àquela região, conhecida pelo formalismo nas relações entre as pessoas, ao nível de todos os estratos sociais e mais ainda nos contactos entre gentes de classes sociais diferentes. A influência massiva da igreja católica também contribuía para que nada se alterasse na submissão de uns em relação aos outros. Um sinal de todo este modo de pensar e atuar era o gesto físico de inclinação da cabeça perante alguém de estatuto social superior que passava, seja para dizer um simples “bom dia”, seja para iniciar algum tipo de conversa.


Eram assim os comportamentos daquela cidade de província no Norte de Portugal, mais pronunciados ainda quando se tratava de aldeias ou concelhos rurais.


Os encontros entre rapazes e raparigas eram também muito formais, se excluirmos aqueles casos em que uns e outros frequentavam a mesma escola secundária oficial ou colégio particular. Nesses ambientes criavam-se relações fortes de amizade, que duravam a vida inteira. Em algumas circunstâncias, outros tipos de encontros aconteciam nas festas populares ou nos bailes organizados pelas associações de bombeiros ou similares.


Era a normalidade, mas havia exceções, em particular raparigas que, por razões diversas, não frequentavam esses ambientes populares.


Alexandre e Rosalinda pertenciam ao mesmo concelho, mas de povoações diferentes e distantes. Nunca se cruzaram de perto nem se falaram até à idade adulta, ele mais velho que ela. Mas sabiam quem eram, de onde eram e a que famílias pertenciam – famílias que não tinham relações entre si. Alexandre foi para a cidade grande quando Rosalinda era ainda muito jovem, estava a meio do ensino secundário.


Alexandre cumpriu o serviço militar no Porto e por lá ficou a trabalhar depois dessa missão compulsiva. Só raramente ia à sua terra natal ver a família. Depois de feito o Magistério Primário, Rosalinda começou a trabalhar em aldeias da região Norte, todos os anos letivos saltitando de terra em terra, por não ser professora com lugar efetivo.


Vidas distantes, sabiam que existiam, mas não se conheciam, as hipóteses de se encontrarem eram deixadas à roda da sorte. A sorte, sempre a sorte a marcar destinos naqueles ambientes. Mas a sorte também se procura, e foi o que levou Alexandre à iniciativa de enviar uma carta para a morada dos pais de Rosalinda. No seu interior dizia poucas palavras, resumidas a isto: “Cruzámo-nos uma vez, agora sei de onde a Rosalinda é e penso que não vai ser fácil cruzarmo-nos outra vez, dado termos ocupações tão distantes. Venho simplesmente convidá-la a ir tomar café à cidade mais próxima, podemos encontrar-nos no café junto à central de camionagem.
Se estiver interessada, diga-me o dia e hora, num fim de semana qualquer.
Entretanto, poderá recolher as informações que entender, eu já o fiz, num certo sentido”.

Na volta do correio, a resposta de Rosalinda era também breve, mas
simpática. Dizia, resumidamente: “Porque não? acho boa ideia, é sempre interessante conhecer pessoas da mesma região. Dou aulas em ambientes muito fechados, sem ninguém interessante para conversar. Pode ser dia tal às tantas horas no café junto à Central de Camionagem”.

Assim aconteceu: passaram a tarde a conversar, frente a frente, um livro e um jornal a separá-los. Falaram de tudo um pouco, do ensino no colégio interno onde ela esteve sete anos, da vida militar e dos estudos que ele fez nesse tempo, das pessoas que os rodeavam, etc. Riram-se muito quando ela contou que estava a dar aulas numa aldeia onde não havia estrada de acesso, eram caminhos enlameados no inverno, por entre grandes blocos de pedra, não havia eletricidade, os mortos eram transportados numa paviola que mais parecia um andor, carregado por quatro homens pelas matas em direção ao cemitério da freguesia, bem distante. Havia bastantes alunos na povoação, famílias numerosas, do primeiro ao quarto ano da escola primária, sendo ela a única professora para os diversos anos. Faziam muitas brincadeiras, alunos interessados, eram aparentemente felizes. Rosalinda estava instalada na aldeia em um
quarto pertencente ao casal que tinha a única loja comercial da povoação, “a venda da tia Joaquina”, como era conhecida. Só ali havia telefone, único meio de comunicação para o exterior, para além das cartas dos CTT que o carteiro levava de bicicleta duas vezes por semana. Era o Portugal profundo, espelho do regime do dito Estado Novo.


Passou depressa o tempo para regressarem à camioneta de carreira que os levaria de regresso às suas aldeias, distantes vários quilómetros, por onde a camioneta passava.


Por muitos momentos, a conversa limitou-se a uma troca de olhares e de sorrisos. Não falaram de namoro nem de namorados, mas o aperto de mãos no final da conversa foi quente e significante.


Tomaram apenas café, não compraram jornais nem bilhetes de lotaria.


Muitos anos mais tarde, no tempo em que os netos começam a não precisar da ajuda das avós, Rosalinda chamou Alexandre para lhe ler uma passagem de um livro que andava a ler, “DOM CASMURRO”, de Machado de Assis. Dizia o texto: “Se a felicidade conjugal pode ser comparada à sorte grande, eles a tiraram no bilhete comprado de sociedade”.


Vítor Carvalho


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