Eu sei que daqui a poucas horas te vou encontrar
naquele nosso banco de jardim pintado de verde com
miradouro para o Tejo, e poder-te-ia dizer de viva voz o
que agora te escrevo.
Mas quero que guardes esta carta ciosamente, como
coisa preciosa, como sempre foi o nosso grande amor.
Mas, o silêncio a teu lado é muito mais eloquente,
suave e belo do que tudo o que te quisesse transmitir
por palavras.
Como sabes tenho dificuldade em andar, o levantar de
manhã já é um tormento, o vestir uma complicação,
mas não receies, vou mais cedo amparado na minha
bengala para não chegar atrasado e mais uma vez
olhar a tua bela figura sossegada, seguindo os barcos
que deslizam pelo rio. Chegarei a tempo de afagar e
aquecer entre as minhas as tuas mãos magras, com
veias salientes e manchas castanhas próprias da
idade, brincar com os teus dedos como fiz ao longo
dos anos, ajeitar a gola do teu casaco e pedir que
dividas comigo os raios de sol de Outono que nos
aquecem neste Inverno das nossas vidas. Vamos
trocar os nossos silêncios, e são muitos, porque ao
longo do tempo já dissemos tudo o que havia para
dizer e, mesmo sem falar sabemos tudo sobre o outro.
Escrevo, porque um dia posso não chegar, nem a
horas nem atrasado, e aí saberás que o meu lugar no
banco ficará vazio. Não precisas chorar pois então
sentirás que estou ainda mais perto de ti. Olha para o
sol dourado, imagina, e eu estarei lá. Vou ficar à tua
espera.
De qualquer modo, quando tal acontecer, perdoa a
minha ausência.
Eu queria estar, mas não consegui. Não vim, mas o
meu amor incondicional e de sempre estará contigo.
Perdoa.
F. Vital
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