01/04/2026

AMOR SÉNIOR

 

Eu sei que daqui a poucas horas te vou encontrar

naquele nosso banco de jardim pintado de verde com

miradouro para o Tejo, e poder-te-ia dizer de viva voz o

que agora te escrevo.

Mas quero que guardes esta carta ciosamente, como

coisa preciosa, como sempre foi o nosso grande amor.

Mas, o silêncio a teu lado é muito mais eloquente,

suave e belo do que tudo o que te quisesse transmitir

por palavras.

Como sabes tenho dificuldade em andar, o levantar de

manhã já é um tormento, o vestir uma complicação,

mas não receies, vou mais cedo amparado na minha

bengala para não chegar atrasado e mais uma vez

olhar a tua bela figura sossegada, seguindo os barcos

que deslizam pelo rio. Chegarei a tempo de afagar e

aquecer entre as minhas as tuas mãos magras, com

veias salientes e manchas castanhas próprias da

idade, brincar com os teus dedos como fiz ao longo

dos anos, ajeitar a gola do teu casaco e pedir que

dividas comigo os raios de sol de Outono que nos

aquecem neste Inverno das nossas vidas. Vamos

trocar os nossos silêncios, e são muitos, porque ao

longo do tempo já dissemos tudo o que havia para

dizer e, mesmo sem falar sabemos tudo sobre o outro.

Escrevo, porque um dia posso não chegar, nem a

horas nem atrasado, e aí saberás que o meu lugar no

banco ficará vazio. Não precisas chorar pois então

sentirás que estou ainda mais perto de ti. Olha para o

sol dourado, imagina, e eu estarei lá. Vou ficar à tua

espera.

De qualquer modo, quando tal acontecer, perdoa a

minha ausência.

Eu queria estar, mas não consegui. Não vim, mas o

meu amor incondicional e de sempre estará contigo.

Perdoa.


F. Vital

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