Sim. E ainda bem que é. Se ganhássemos sempre, que graça teria? Já te imaginaste a ganhar em permanência? Uma chatice. O jogo faz parte de nós, é intrínseco à nossa génese — humana, diria mesmo animal. Viver é medir forças com o acaso.
E pouco há a fazer em relação a isso. A sorte não é um detalhe menor. Nunca foi. Apenas fingimos que é, para conseguirmos dormir melhor.
Há quem diga que não pedimos para vir ao mundo, nem escolhemos pais, irmãos, família. É verdade. Mas ainda bem que viemos. Neste jogo primordial, o mistério adensa-se. Cabe-nos depois tentar ganhar — sem batota. E se preferires, na próxima ganhas. O segredo é não desistir. No fundo, a natureza das coisas é perfeita, mesmo quando parece arbitrária.
Sim, a vida é um jogo. E provavelmente começa logo na junção dos cromossomas. Aqui não há escolha: vais a jogo e pronto. Se a sorte ditar X+X, serás mulher — o que condicionará a tua sorte consoante o lugar do planeta onde abres os olhos pela primeira vez. Acresce que o mundo é uma tômbola: gira sem perguntar quem lá está dentro.
Imagina nasceres mulher na Índia ou em certas zonas de África, onde te mutilam à nascença. Ou noutros lugares onde te empacotam dos pés à cabeça. Nem sequer te dão hipótese de ganhar — porque nem ao jogo entras. A injustiça maior é essa: perder sem ter jogado.
Claro que, se o jogo ditar X+Y, a vida do homem também não sai facilitada. Que o digam — não dizem porque já cá não estão — os milhões de jovens que morrem nas guerras. E nem precisamos de recuar às grandes guerras: basta olhar para quem a começou há um par de anos, num país para lá dos montes Urais. A guerra é o jogo onde quase todos perdem, mesmo os que vencem.
Claro que há outras sortes. No amor, por exemplo. Mas aí nem vale a pena falar.
— A mim, saíam-me só clandestinidades — diz André.
O segredo era saber parar o jogo a tempo, coisa que nem sempre soube fazer. Como não soube perceber que, no amor, no jogo do perde e ganha, não ganha quem quer: ganha quem joga melhor — ou quem sabe quando sair.
Talvez a verdadeira sabedoria seja, em certos momentos, não ir a jogo. Não por cobardia, mas por lucidez. Não ganhas, não perdes. O segredo é passar entre os pingos da chuva. E, como na guerra, não te voluntariares para nada.
É mais deixar a vida levar-te — sem largar completamente o leme.
Vasco Patrício
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