O seu pouso habitual depois de almoço era o Café Trianon, na Alta de Coimbra. Aí, Genésio dos Santos encontrava os seus amigos, com quem ficava toda a tarde a conversar sobre as mais diversas questões. Viveu quase toda a vida em Coimbra, funcionário público nos serviços da universidade. Depois de aposentado, visitava a sua terra natal, Aldeia da Ponte, na Beira Transmontana, onde tinha ainda alguns familiares. Fazia essa viagem com entusiasmo, embora regressasse a Coimbra sempre com a mesma conclusão, de que tudo estava velho na aldeia onde nasceu.
“Tudo é velho onde fui novo”, dizia sempre aos seus amigos, quando lhe perguntavam novidades da sua aldeia.
Certo dia trouxe novidades da sua aldeia, que se apressou a contar aos amigos Deolindo e Balbino. Meus amigos, ouçam a história que ouvi esta semana na aldeia, clamou. Tudo se passa num café-bar da Aldeia da Ponte. O dono do café-bar, de apelido Zé Fragulha, fazia sociedade com os seus clientes (bebiam em conjunto), quase todos já bem aviados de bom tinto da região. A história que ouvi foi:
À entrada do café-bar havia um papagaio, que já fazia parte da mobília da casa. Os clientes tratavam de dar instruções ao papagaio sobre como ele devia falar para as pessoas que passavam na rua. Obviamente, ensinavam-lhe asneiras e termos grosseiros. O papagaio replicava tudo na perfeição e misturava palavras das mais ousadas. Era um problema, mas também um divertimento. E era frequente dirigir-se a algumas pessoas que passavam com adjetivos que até lhes assentavam bem, certeiramente.
Em dia de carnaval, um dos homens da aldeia vestiu-se com roupas cor de rosa e de minissaia. O papagaio não se calava de o chamar de nomes feios.
- Cala-te papagaio, isso não se diz daquele homem!
- Mas ele não é homem, é mulher! Vai de minissaia e tem o peito saído. Foi o que vocês me ensinaram para caracterizar as pessoas que passam, eu tenho toda a informação que vocês me transmitiram, replicou o papagaio.
E a discussão entre os bêbados e o papagaio continuava, no café -bar que mais parecia uma taberna à moda antiga.
Entretanto, o neto do Zé Fragulha, Diniz, de dezasseis anos, que vivia no Porto e estava na aldeia a passar férias, entrou no café-bar e pediu ao avô cinco euros para comprar uma bola de futebol na vila próxima, onde iria com um tio. Ele e os amigos ali em férias não tinham bola para se divertirem.
Na televisão do café-bar estava a passar um programa sobre inteligência artificial. Diniz reteve-se, depois de receber os cinco euros, a ver o programa. Os clientes ficaram espantados e perguntaram:
- Percebes o que eles estão a dizer?
- Percebo o suficiente do que se pode fazer com a inteligência artificial,
respondeu.
- Então explica para nós, que não percebemos nada, no nosso tempo só era preciso saber ler, escrever e contar.
- Não andaram na escola primária?
- Qual quê, ainda andámos lá, mas com oito anos tivemos que ir trabalhar no campo para ajudar a família, não era obrigatório estudar. E nem havia escolas aqui por perto!
- O menino deve ser inteligente, explique lá isso para nós, insistiu outro cliente.
Diniz respondeu:
- A Inteligência Artificial é uma plataforma tecnológica que funciona com algoritmos. Com base nas nossas pesquisas ou interações, os chamados prompts, isto é, instruções, perguntas ou comandos de texto, imagem ou voz dados a sistemas de inteligência artificial para gerar uma resposta, ela vai consultar muita informação que os humanos publicaram e através desses algoritmos a Inteligência Artificial dá-nos todas as respostas ao que perguntamos. A IA aprende com as interações que com ela fazemos, utiliza a informação de que dispõe para nos dar respostas às nossas perguntas.
- Mas isso também o nosso papagaio faz, nós perguntamos e ele responde, diz um bêbado lá do fundo da sala.
- Ele até sabe quem se porta bem, aqui na aldeia, e quem se porta mal,
responde outro.
- Passa uma mulher de peito à mostra e ele trata logo de a classificar com os palavrões que nós lhe ensinámos, disse ainda outro cliente, já bem bebido.
- Então, perguntem ao papagaio quantos copos de vinho os senhores já beberam hoje, questionou Diniz.
- Agora é que foram elas, respondeu o taberneiro Zé Fragulha. Nem eu sei, e eles têm que me pagar!
- Não, não, não lhe perguntem que ele pode saber! Dá conta de tudo,
respondeu o Zacarias, principal instrutor do papagaio.
- Querem que eu pergunte ao meu telemóvel que tem acesso à AI, quantos sinos tem o Convento de Mafra? Ou quais foram os reis de Portugal desde a sua fundação? Ou como se cultiva a terra para produzir vinho? Ele responde a tudo!
- Ah! Não acredito, respondeu o Zacarias.
Então oiçam, disse Diniz, puxando do seu telemóvel. A resposta do Gemini às três questões, em alta voz, deixou os clientes do café-bar embasbacados.
- Isso é o demónio, responderam.
- E querem que eu pergunte quem foi o primeiro homem a pousar na lua?
- Não acreditamos nisso. O homem não foi à lua, como disseram, isso é aldrabice, exclamaram três dos presentes.
- Então quem anda na lua são os senhores, respondeu Diniz. Bebam mais uns copos, pode ser que continuem iluminados com tanta certeza!
Diniz saiu porta fora a pensar que aquela gente vivia noutro mundo. Para eles, a vida parou no tempo, ia refletindo no que ia contar aos amigos. É muito triste a ignorância, ia pensando, a olhar para a nota que o avô lhe deu.
Vítor Carvalho
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