Djalma ajusta os óculos como quem se prepara para um combate silencioso. Pigarreia. A
caneta pesa-lhe na mão. Há perguntas que exigem ritual; esta é uma delas.
Dizem que a vida é um sonho. Outros afirmam que somos feitos da mesma matéria
volátil dos sonhos e que, por isso, somos sempre passado. A realidade — insistem —
acontece noutro plano, noutras estratosferas.
Djalma sorri, ligeiramente. E daí? Até prova em contrário, tudo o que temos é esta
perceção instável entre o vivido e o lembrado.
O passado não é apenas o que aconteceu. É o que regressa. Uma sucessão de imagens
que se reorganizam sempre que a memória é convocada. Que diferença existe entre
recordar um sonho e recordar uma vida? Ambos nos visitam sem aviso, ambos chegam
já transformados. Esta escrita, enquanto acontece, já se afasta para esse território:
nasce presente, mas torna-se passado no mesmo instante.
Certas vivências resistem a qualquer tentativa de apagamento. A terra onde se nasceu,
mesmo quando distante, continua a colar-se aos pés da memória. E as mulheres — as
que atravessaram a vida deixando vestígios invisíveis — como esquecê-las? Como
apagar o rasto, se, como escreveu Mia, “os homens amam sempre irrealidades,
perseguem fantasmas de mulher”? Um fantasma, por definição, não desaparece:
reaparece.
Djalma sabe que o autoengano é uma prática antiga e eficaz. Enganamo-nos para
sobreviver, para seguir em frente, para dar forma ao que dói. Reescrevemos o passado
para o tornar suportável. Mas escrever denuncia-nos. A prova de que o passado não se
apaga é precisamente o que ele faz agora: escrever. Escrever é reescrever o passado, é o
eterno regresso. Podemos mascará-lo, dar-lhe novas nuances ou camuflá-lo
subitamente sob o verniz das palavras. Mas ele está lá. Não se apaga – transforma-se.
Dissertar, pensa ele, é uma forma de sonhar acordado. E os sonhos? Esses não
desaparecem: esbatem-se. Como o giz numa lousa negra, podem ser apagados, mas
deixam sempre uma mancha, um resto, um indício teimoso do indecifrável.
No fim, apesar de todas as voltas do pensamento, a pergunta mantém-se inteira, como
se nunca tivesse sido tocada:
alguma vez o passado se apaga?
Vasco Patrício
Mote: “Alguma vez o passado se apaga?”
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