Viu-os passar devagar, de mãos dadas, vergados pelo tempo e inteiros
na entrega. Benjamim pensou em estrada e lançou um desafio silencioso: querem
saber o que é caminhar? Então, olhem.
O par de idosos seguia em direção ao supermercado. Entraram ao seu
ritmo, esse que já não pede licença a ninguém.
O gerente viu-os e elevou a voz:
— Têm de desimpedir a loja, têm de dar passagem!
O casal avançava entre prateleiras sem dar conta do chamamento. O que
o chefe de turno queria dizer era simples, embora não o pudesse formular assim:
têm de ir embora. Pensava nos números, na comissão, no espaço ocupado
por quem consome pouco e demora muito.
A mulher puxava pela mão o homem cambaleante. Rivalizavam na brancura
dos cabelos. Os olhos mortiços de um contrastavam com os do outro, vivos, de um
azul ainda limpo.
Chegaram, por fim, à mesa de pé alto junto ao balcão. A mulher tirou a
senha. Ali não havia prioridades. Pegou no tabuleiro; a empregada nem esperou
pelo pedido:
— Um pastel de nata, pão com manteiga (pouca), um galão morno e um
café cheio. Não é, Dona Lisete? Ah, e um copo de água.
Ela assentiu. Colocou o tabuleiro entre os dois. Mexeu o açúcar,
pousou a colher sobre o bolo e deslizou-o para a frente do companheiro.
O gerente voltou a passar:
— Desimpedem a loja, têm de dar lugar aos outros.
As mãos trémulas do ancião raspavam a nata com cuidado extremo. Da
colher à boca, o percurso era longo. Sorvia o bolo devagar, como quem sorve o
tempo que resta. A vida, ali, não tinha pressa.
A mulher observava-o sem fixar o olhar. Retirou um guardanapo e
limpou-lhe os lábios. Depois colocou-lhe o comprimido na boca e levou-lhe o
copo de água. Tudo sem palavras, como se o gesto bastasse.
Depois de arrumar a bandeja, pegou-lhe novamente na mão e fizeram o
caminho inverso até à saída.
— Até amanhã, Dona Lisete.
— Têm de desimpedir a loja…
Benjamim ficou parado, enquanto o mundo retomava a pressa.
Pensou que ninguém ensina a caminhar assim. Aprende-se ficando.
Há caminhos que não levam a lado nenhum — e outros que se fazem a dois.
Escolhe-se um. E anda-se.
Vasco Patrício
Mote: “Viver é assim: caminhar de mãos dadas rumo ao
paraíso.”
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