Vivia-se uma grande crise de falta de habitações
disponíveis no mercado. No contexto da crise financeira que afetou todo o
mundo, desapareceu a maior parte dos construtores civis, particularmente
aqueles que satisfaziam a procura de habitação a preços acessíveis. Ficaram as
grandes empresas de construção de casas, orientadas, em particular, para
satisfazer uma procura de elevado poder de compra. Um divórcio, uma separação, ou
um desentendimento familiar alimentavam também a crescente procura de casas.
Segundos e terceiros casamentos ou uniões de facto acabavam por aumentar a procura
de casas mais pequenas e de menor valor de mercado, mais distantes também dos
centros urbanos.
No novo modelo familiar passou a ser frequente um avô
ser pai de filhos de segundas e terceiras uniões que fazem diferença de muitos
anos em relação aos filhos da primeira união. Se antes havia alguns problemas durante
a discussão sobre a casa onde passar a noite de Natal, agora o problema
tinha-se multiplicado. Vida moderna.
Com separação de famílias, os encontros de Natal
passaram a ser um problema em vez de serem uma oportunidade de festa. Conciliar
agendas, espaços e ambientes para encontros passou a ser um desafio. Casas
pequenas, dispersas, estranhas, onde a árvore de Natal não tem espaço
disponível, são um empecilho à socialização. Onde colocar as prendas, se não há
espaço para a árvore?! Como podiam celebrar o Natal? Um amigo solteiro, convidado
habitual de uma das famílias, homem rico que acabara de herdar uma pequena fortuna
em andares e dinheiro, deu uma sugestão: juntar num hotel as diversas famílias
para celebrar o Natal. Ele próprio trataria de todos os detalhes logísticos. A
celebração incluía uma dormida no hotel, exatamente na noite de Natal, podendo,
quem quisesse, permanecer lá por mais alguns dias.
Juntaram-se no hotel 23 pessoas, familiares e amigos.
Discursos emotivos e agradecimentos a quem teve a ideia marcaram aquela noite.
Um problema foi transformado em oportunidade de novos relacionamentos. Ondina
Abranches, divorciada de meia idade, sentou-se junto de Gildásio Clemente, o
solteirão rico, organizador do evento.
- Parabéns pela organização deste encontro, Ondina começou
por dizer.
- Fi-lo com grande entusiasmo e expectativa, pois
daqui poderá nascer um novo conceito de família, respondeu Gildásio, denotando algum
nervosismo.
- Concordo, eu quis ter uma família tradicional,
sempre ambicionei ser mãe, mas a natureza não me deu essa possibilidade, agora
a minha família é esta, tenho aqui cunhados, sobrinhos e amigos. Talvez um dia
adote uma criança, quem sabe, rematou secamente.
Continuaram a
conversar, noite dentro. Falaram das suas vidas profissionais, dos seus gostos,
das viagens que já fizeram. Ele confessou que tinha acabado de chegar da
América, ia frequentemente a Nova Iorque, mas desta vez tinha andado pelo
interior dos EUA.
- Trabalha nalguma empresa americana?
- Não, tenho uma galeria de arte em Lisboa e vou
frequentemente ver exposições e contactar artistas a várias capitais. Gosto
muito desta vida.
- Não tem filhos?
- Podemos mudar de conversa?
- Desculpe a minha irreverência, certamente resultante
desta interessante conversa…
- É provável que mais tarde perceba esta minha atitude.
Também estou a gostar de conversar consigo, não leve a mal a minha reação.
- Ótimo, fico mais descansada. Ficaria triste se a
nossa conversa não continuasse. Acho-o um bom conversador e extremamente
educado. Há muito tempo que não encontrava um conversador assim, com quem a
conversa pode não ter fim…
- Obrigado, é muito paciente…deve ter muita pena de
não ter filhos, seria certamente uma boa mãe, rematou Gildásio.
- Não desisti de pensar em ser bafejada pela sorte…
- Eu também sempre quis ser pai, os meus sobrinhos que
ali andam a divertir-se são muito chegados a mim, mas são apenas sobrinhos… não
os posso acompanhar, até porque tenho uma vida pouco comum, vivo só, não tenho
vocação para o casamento tradicional.
- Tenho pensado muito nas soluções que muitos casais
adotam, a América é rica em soluções, barrigas de aluguer em particular, disse
Ondina.
- Com cem mil dólares disponíveis, há muitas soluções,
respondeu Gildásio, aparentando conhecimento de causa.
- Pois, quem me dera ter essa possibilidade,
abraçava-a com paixão.
Interromperam aqui a conversa. Aproximava-se a ceia de
Natal.
Muitos brindes, muitas prendas, muito champanhe,
muitos discursos, assim passaram com muita alegria a noite de Natal.
Acabada a ceia, começou a troca de presentes. Muitos
presentes…
Discretamente, Gildásio retirou-se da sala e
dirigiu-se a um outro quarto que tinha reservado para uma amiga.
Reapareceu quinze minutos depois, trazendo consigo um
lindo bebé, de poucos meses. Louro, olhos muito vivos, muito calmo, mostrava
espanto por aquele ambiente.
- Este é o meu presente de natal, que ofereço a mim
mesmo, exclamou Gildásio, eufórico. Fui busca-lo à América, chegámos na semana
passada. É meu filho biológico, de mãe desconhecida, a quem paguei para fazer a
gestação por mãe biológica/barriga de aluguer. Adoro esta criança!
Muitas palmas se seguiram. Todos queriam abraçar o
novo membro da família. E a noite terminou em paz!
No dia seguinte, as conversas giravam à volta do novo
membro da família. Ondina era talvez a mais excitada. Procurou sentar-se
próxima de Gildásio.
- Já tem certamente uma precetora para educar a
criança, perguntou.
- Sim, atempadamente contratei uma senhora experiente
na educação de crianças, que já está a tomar conta do André, está ali num
quarto ao lado.
- Como eu adorava ser a precetora de um bebé tão
lindo, exclamou. Posso visitá-lo de vez em quando?
- Sim, terei muito gosto em recebê-la em minha casa.
Entretanto chegou uma amiga de Ondina, que ouviu as
últimas palavras. Juntou-se à conversa, pois era amiga de Gildásio desde há
muito tempo. Perguntou a Gildásio: é verdade que te zangaste com o teu amigo Adolfo?
- Sim, estamos de costas voltadas.
Três semanas passaram. Gildásio convidou Ondina para
tomar um café e conviver com o André. Ondina sabia do risco de desilusão se embarcasse
numa relação com Gildásio.
As visitas ao André tornaram-se assíduas. Alguns
sustos com a saúde da criança justificaram passar a noite em casa de Gildásio,
junto da criança, num dos vários quartos do luxuoso apartamento. Ambos estavam
a gostar desta aventura. Ondina arriscou. Podia não ter homem, mas tinha uma
criança.
Foram felizes à sua maneira.
Vítor Carvalho
Sem comentários:
Enviar um comentário