01/01/2026

CABEÇA DE BURRO


 

A Joana preparava a mesa para o jantar. Não era um jantar cerimonioso, mas também não era muito casual, afinal, o futuro genro vinha pedir a mão da sua filha. Da sua filha que já atingira a idade adulta formada em engenharia eletrotécnica, recém-formada melhor dizendo, preparava-se para um momento importante da sua vida. A Inês era uma rapariga alta desempoeirada, cabelo castanho-dourado e ondulado e os olhos azuis, muito azuis, e muito transparentes que deixavam perceber uma alma alegre e divertida. A espera estava a deixá-la tão nervosa e ansiosa que até perdeu o sorriso que sempre ostentava e o fino e acutilante humor que a caraterizava. O pai, Fernando de seu nome, estava sentado num cadeirão no outro lado da sala com o jornal à frente dos olhos, mas não estava lendo, estava mais pensando naquele momento tão especial. Ainda há tão pouco tempo aquela filha era uma criança. Sentia-se orgulhoso do percurso da filha que sempre lutou com tenacidade e força de vontade para tirar o curso e para ser campeã de natação. Há cerca de um ano quando se apercebeu que a filha andava a namoriscar um rapaz chamado Miguel procurou informações sobre ele e sobre a família. O rapaz era filho de boas famílias, gente lá do Norte, agricultores ou vinicultores não sabia bem, mas era uma família com algumas posses e bem considerados na terra onde viviam, à beira do Douro.

Finalmente tocou a campainha. A Inês saltou da cadeira como se tivesse uma mola no assento, mas o pai fez-lhe sinal para não se levantar e caminhou lentamente para a porta para abri-la. Abriu a porta, do lado de fora estava o Miguel com um ramo de flores numa mão e uma bonita caixa de madeira com duas garrafas de vinho na outra. Apesar da nervoseira conseguiu apresentar-se e oferecer, muito delicadamente, as flores à Joana e a caixa do vinho ao Fernando. Enquanto a Joana foi colocar as flores numa jarra com água, o Fernando abriu a caixa do vinho e ficou com ar espantado, ou mesmo zangado, quando viu o nome do vinho “Cabeça de Burro” e, pior do que o nome, eram as duas cabeças de burro desenhadas numa espécie de brasão no rótulo da garrafa que olhavam para ele com ar trocista. Passou-lhe tudo pela cabeça: Será que este gajo está a gozar comigo?  Será que me quer ofender? Será que terei de lhe dar duas bofetadas e correr com ele porta fora a pontapé?

O Miguel assustado com o ar zangado do futuro sogro, lançou um olhar suplicante à Inês. A Inês, perante tão divertida situação, recuperou o sorriso e explicou ao pai que os pais do Miguel eram produtores daquela marca de vinhos e que aquelas garrafas eram raras, de uma colheita muito especial. O Fernando sentiu-se um pouco ridículo e, para disfarçar, abriu um sorriso deu duas palmadinhas nas costas do Miguel e foram todos para a mesa jantar. O vinho era, realmente, muito bom.

Carlos Baptista

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