A
Joana preparava a mesa para o jantar. Não era um jantar cerimonioso, mas também
não era muito casual, afinal, o futuro genro vinha pedir a mão da sua filha. Da
sua filha que já atingira a idade adulta formada em engenharia eletrotécnica, recém-formada
melhor dizendo, preparava-se para um momento importante da sua vida. A Inês era
uma rapariga alta desempoeirada, cabelo castanho-dourado e ondulado e os olhos
azuis, muito azuis, e muito transparentes que deixavam perceber uma alma alegre
e divertida. A espera estava a deixá-la tão nervosa e ansiosa que até perdeu o
sorriso que sempre ostentava e o fino e acutilante humor que a caraterizava. O
pai, Fernando de seu nome, estava sentado num cadeirão no outro lado da sala
com o jornal à frente dos olhos, mas não estava lendo, estava mais pensando
naquele momento tão especial. Ainda há tão pouco tempo aquela filha era uma
criança. Sentia-se orgulhoso do percurso da filha que sempre lutou com
tenacidade e força de vontade para tirar o curso e para ser campeã de natação. Há
cerca de um ano quando se apercebeu que a filha andava a namoriscar um rapaz
chamado Miguel procurou informações sobre ele e sobre a família. O rapaz era
filho de boas famílias, gente lá do Norte, agricultores ou vinicultores não
sabia bem, mas era uma família com algumas posses e bem considerados na terra
onde viviam, à beira do Douro.
Finalmente
tocou a campainha. A Inês saltou da cadeira como se tivesse uma mola no assento,
mas o pai fez-lhe sinal para não se levantar e caminhou lentamente para a porta
para abri-la. Abriu a porta, do lado de fora estava o Miguel com um ramo de
flores numa mão e uma bonita caixa de madeira com duas garrafas de vinho na
outra. Apesar da nervoseira conseguiu apresentar-se e oferecer, muito
delicadamente, as flores à Joana e a caixa do vinho ao Fernando. Enquanto a
Joana foi colocar as flores numa jarra com água, o Fernando abriu a caixa do
vinho e ficou com ar espantado, ou mesmo zangado, quando viu o nome do vinho “Cabeça
de Burro” e, pior do que o nome, eram as duas cabeças de burro desenhadas numa
espécie de brasão no rótulo da garrafa que olhavam para ele com ar trocista. Passou-lhe
tudo pela cabeça: Será que este gajo está a gozar comigo? Será que me quer ofender? Será que terei de
lhe dar duas bofetadas e correr com ele porta fora a pontapé?
O
Miguel assustado com o ar zangado do futuro sogro, lançou um olhar suplicante à
Inês. A Inês, perante tão divertida situação, recuperou o sorriso e explicou ao
pai que os pais do Miguel eram produtores daquela marca de vinhos e que aquelas
garrafas eram raras, de uma colheita muito especial. O Fernando sentiu-se um
pouco ridículo e, para disfarçar, abriu um sorriso deu duas palmadinhas nas
costas do Miguel e foram todos para a mesa jantar. O vinho era, realmente,
muito bom.
Carlos Baptista
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