01/02/2026

O SOLDADO QUE GOSTAVA DA TROPA


Já era julho avançado, no ano de 1975, e o sol impiedoso, típico das terras do interior nos meses de verão, fazia suar os soldados do pelotão de recrutas em formatura na parada da Escola Prática de Cavalaria de Santarém. Os soldados todos equipados com mochila, cantil, espingarda G3 e quatro cartucheiras dependuradas no cinturão. O alcatrão do chão da parada estava tão quente que até parecia que escaldava. À ordem do alferes Couto, os soldados embarcaram em dois camiões Berliet, sem capota, com destino à carreira de tiro que ficava a seis ou sete quilómetros do quartel. O desconforto de estarem sentados em bancos corridos de madeira, encostados aos taipais laterais do camião, era compensado pela frescura do vento, resultante da deslocação do carro. Alguma excitação e um misto de curiosidade e receio pois era a primeira vez que iam disparar balas a sério. Já estavam habituados à arma. Usaram-na na ordem unida, nas marchas, nos exercícios de campo e nos treinos de combate. Muitas vezes a desmontaram, limparam e olearam. Conheciam-na bem.

Chegados à carreira de tiro desmontaram da viatura, e o primeiro grupo de dez instruendos formou em linha, frente aos alvos colocados a vinte metros. O alferes repetiu pela enésima vez as instruções de segurança: nunca, nunca apontem a arma para ninguém; só disparam à ordem de fogo; só destravam a patilha de segurança quando receberem ordem de fogo e, quando acabarem a série de disparos, voltam a pôr a patilha na posição de segurança; se a arma encravar não se voltem para trás, apontem a arma para o ar e levantem a mão esquerda e aguardem que o instrutor vos ajude. Depois gritou: preparar… apontar…FOGO. O barulho ensurdecedor de dez armas a disparar em simultâneo. E repetiu FOGO. Novamente o barulho e novamente FOGO. Uma das armas não disparou. A do Manuel Martins o soldado que estava na pista oito. Desobedecendo às instruções de segurança o Manuel voltou-se para trás com a arma em posição horizontal, e durante o movimento de rotação apontou-a aos sete camaradas que se encontravam à sua esquerda, finalizando o movimento com a arma apontada ao alferes que, de imediato, agarrou a arma pelo cano apontando-a para cima e deu um safanão ao recruta. Percebia-se, pela cara do Manuel, que ele não tinha sequer a noção que tinha posto em risco a vida dos seus camaradas e a do alferes Couto.

- Entrega a arma ao furriel Travassos e vai imediatamente para o camião e só sais de lá quando eu mandar, gritou o alferes irritadíssimo. Terminado o exercício, voltaram para os camiões. O alferes fez sinal ao furriel para que o acompanhasse no regresso ao quartel e entraram ambos na cabine do camião que seguia na frente.

- Travassos, vou ter que chumbar este gajo na recruta, e vou fazer um relatório pedindo ao comandante que considere o Manuel inapto para todo o serviço. Reconheço que ele é leal, obediente e é um dos melhores na pista de obstáculos e em toda a atividade física, mas não consegue aprender as coisas mais básicas. Até parece que é atrasado! Não atina com nada, e em combate seria mais perigoso para as nossas tropas do que o inimigo. E talvez esteja a prestar-lhe um favor, assim ficará isento do serviço militar obrigatório. Não é o que todos querem? ficar livre da tropa??

- O meu alferes não conhece a história deste rapaz. Ele nasceu numa pequena aldeia de montanha no interior de Trás-os-Montes aonde ainda não chegara a eletricidade nem a civilização. O pai gastava quase todo o dinheiro da jorna em vinho. Chegava sempre bêbado a casa e maltratava a mãe. O pouco dinheiro que entregava em casa mal dava para comprar uma côdea de pão. Aos nove anos, o Manuel deixou a escola e começou a trabalhar como guardador de cabras. Tinha ele doze anos quando o pai morreu de cirrose. Depois da morte do pai, foi o Manuel que garantiu, com a sua miserável jorna, o sustento dele, da mãe e as despesas da casa. À cerca de um ano, a mãe faleceu de uma doença da qual ele não sabe o nome. Duvido que ele tenha vontade de regressar para a vida civil.

- Quando chegarmos ao quartel falo com ele.

O alferes Couto chamou o recruta Manuel ao seu gabinete.

- Manuel Martins, já deves ter percebido que não tens jeito nenhum para ser soldado atirador. Vou fazer um relatório ao comando a solicitar que sejas dispensado do serviço militar. Estás cheio de sorte, vais ficar livre da tropa. Estás contente?

Os olhos do Manuel encheram-se de lágrimas, de medo, de desanimo e de súplica.

- Mas então tu não queres sair da tropa? Olha que todos os teus camaradas só cá estão porque são obrigados. Tu és o único que quer ficar. Ó pá! podes ao menos explicar por que razão queres ficar??

- Meu alferes eu aqui como todos os dias. E tenho amigos, sim, mesmo quando gozam comigo porque não falo como eles, porque não tenho namorada e porque sou desajeitado, eu acho que eles são meus amigos. Eu, na minha terra, vivia sozinho rodeado de cabras. Posso não ter jeito para armas, mas, se me quiserem, posso ajudar na cozinha e para isso tenho bastante jeito, e não tenho medo de trabalhar.

O alferes fez o relatório, mas, em vez de solicitar a dispensa do serviço, sugeriu que o Manuel fosse colocado para trabalhar na cozinha. E assim aconteceu. Daí em diante o alferes Couto era o mais bem servido na messe. O Manuel não esquecia quem lhe fazia bem.

Carlos Baptista

17/1/2026

 

 

TODOS OS DIAS NASCEM NOVOS DIAS, TODOS OS ANOS NASCEM NOVOS ANOS


Mês de Janeiro de 2026.

Dia 1 nasceu um novo dia e um novo ano

Nascer remete para nova vida, de esperança, alento, sonho, oportunidade…

Cada nascimento transporta dádivas e desafios.

 O velho esfuma-se e o novo traz consigo a esperança da renovação, a luz otimista ao coração.

 Os dias dependem da relação da Terra com o Sol e de condições circunstanciais climatéricas, associadas à localização geográfica e não só, influenciando a nossa vida, saúde, estados psicológicos, atividades, alimentação….hábitos e costumes.

Mas, são ainda algo mais!

Na dimensão em que vivemos, o nosso tempo é balizado por passado, presente e futuro, conceitos enraizados que nos condicionam.

Abordá-los, talvez ajude à proposta de renovação que cada novo dia nos oferece.

Tendencialmente repetimos com frequência o que já conhecemos, torna-se confortável, prático, e por vezes até antevemos os resultados, com alguma facilidade!

 O novo ano, resultante da sucessão de 365 dias, vividos nessas repetições, é festejado geralmente com intensidade, transporta sensações que alimentam sonhos e promessas de significativas alterações. Contudo, muitas vezes são sonhos efémeros que se desvanecem quase ao ritmo das explosões cromáticas dos fogos de artifício tão generalizados e que acarretam despesas megalómanas, nem sempre compatíveis com as condições económicas existentes.

  Porquê insistir então em tais consumos exagerados? Decorrido o clímax, volta-se ao silêncio, o teatro termina rapidamente, a ilusão e competição entre regiões terminam e fica o convite à reflexão no silêncio que paira no ar, ainda carregado de fumos branco cinza a pintar os céus. Sente-se o vazio…

Sendo o novo dia e novo ano campos de novas oportunidades, como dar-lhes “oportunidade” mantendo as tradicionais conceções?

Se o dia é novo, transporta em si propostas que contribuem para a sua renovação! Sendo nós o resultado do meio, também vamos sendo transformados por vezes de forma inconsciente, mas resistimos e insistimos que como sempre se fez é que é bom e esse sentimento torna-se dominante. O medo da mudança faz-nos resistir e perpetuar o que já conhecemos.

O tempo cronológico dá-nos a ilusão que somos a mesma pessoa do dia anterior! Tomar consciência da plena vivência e dinâmica que cada novo dia e novo ano nos oferecem, talvez seja uma chave útil para usar no presente e assim preparar e alterar o futuro, enquanto ainda campo de potencialidades.

Sem reflexão, e vivendo em manutenção sistemática de crenças e costumes enraizados no passado, e cujas consequências são visivelmente desanimadoras,  corremos o risco de não aproveitar as potencialidades de cada novo dia /novo ano.

Sendo o presente o resultado do passado e o futuro o resultado do presente, muito pouco se alterará se os padrões continuarem a repetir-se.

Einstein já defendia que “loucura é querer resultados diferentes fazendo tudo exatamente igual”.

O mundo está a mostrar-nos a desconstrução dos sistemas, fase crítica em que cada novo dia e novo ano apresentam desafios dolorosos que nos obrigam a refletir, reavaliar, rever, ir fundo em nós e encarar a transformação sem falsos pudores. Questionamento imprescindível : quais serão as causas?

O convite à quietude levar-nos-á certamente a alterações necessárias.

Cada dia, cada ano, são um buffet recheado de alimentos metafóricos.

Aliar os bons paladares, com os bons aromas, com os bons nutrientes, contribuiremos certamente para a recuperação da “saúde” física, mental presente e futura.

Novas visões, novos caminhos, se apresentam; selecioná-los, aprofundar a sua mensagem e ousar percorrê-los com esperança na renovação a que cada novo dia convida, talvez seja uma boa escolha!

Somos responsáveis pelo uso do presente que prepara o futuro. Todos os dias e ano temos a possibilidade de reformular e escolher; a decisão é pessoal.

Termino, agradecendo ao Sol, Sistema Grandioso que nos aquece e vivifica os nossos dias, que não colapsa nem sofre ”apagão”, apenas poderá ser enfraquecido por nuvens passageiras, ou eclipses, que em nada comprometem o nascimento de novos dias todos os dias.

 

Maria de Lourdes Santos

18 de Janeiro de 2026

2026 BOLETIM DE VOTO PRESIDENCIAIS, NUNCA TANTOS FORAM DEMAIS!



O Pestana não caiu na “besana”

O Jorge Pinto não conseguiu voar

O João Vieira apostou na brincadeira

A Catarina ficou atenta e mais fina

O C. Figueiredo foi apanhado no segredo

O Raimundo não conseguiu sair do fundo

O Seguro acendeu a luz, saiu do “escuro”

O Marques Mendes caiu na facilitação

O Filipe andou a fugir da gripe

O Ventura foi o mais refilão

O Gouveia picou-se na veia

Os rejeitados ficaram zangados

Mais nove vão ser eliminados

E só dois vão ser apurados

Poderão os resultados ser contestados?

Para a segunda volta querem ser convocados.

 



Francisco Lourenço

18 de Janeiro de 2026

OLIVIA



A Olívia é pequenina,

Ainda não tem dois aninhos.

Seus olhos são negros, negros

Como duas azeitonas.

São curiosos e meigos,

Luminosos, brincalhões.

Um tufo de caracóis

Não tão negros como os olhos,

Duas bochechas rosadas

E um sorriso irradiante,

Saltitando sem parar

E de dedinho no ar

Determinada a dizer “Não”,

Sabe sempre o que quer!

Fruta! Mirtilos, mamã!

A bebé quer mirtilos!

E quando o soninho chega,

Agarrada ao seu ursinho

Depois de um dia afadigado,

Vai dormir como um anjinho!
  


Pilar Encarnação

13/01/26

O FEIRANTE

Costumo almoçar num pequeno restaurante familiar em frente à escola. Apesar das tentativas de arranjar companhia, acabo quase sempre sozinho, rodeado de outros solitários. Não gosto de comer calado e meto conversa sempre que posso. Assim conheço vidas e profissões diversas.

Nesse dia sentei-me ao lado do Tiago Ribeiro Teles. Nunca mais esqueci o nome. Estudara Direito e exercera advocacia numa vila do interior. Pediu licença para se alongar e contou-me o episódio que o levara a abandonar a profissão.

A empregada pousou os pratos. O Tiago suspirou e começou: há vinte e cinco anos, encontrava-se sozinho no escritório, diante de uma secretária cheia de papéis. Era incapaz de organizar documentos. Tentou fazer café; as cápsulas tinham acabado. Reaproveitou algumas usadas e bebeu um café fraco, suficiente para reconhecer o cansaço acumulado.

A janela para a avenida era o melhor do escritório. Dava-lhe um ponto de fuga: a cidade em movimento, longe dos códigos e das leis que tentavam disciplinar aquele caos.

A campainha tocou. Estranhou. Chovia com força. Abriu a porta e não viu ninguém. Só então se lembrou da reunião marcada: uma defesa oficiosa atribuída pela Ordem.

Folheou o processo. A acusação parecia sólida. Os indícios alinhavam-se; o arguido seria, provavelmente, condenado.

Desceu as escadas à procura do cliente e voltou a subir. Perdera-lhe o nome. Consultou o processo: Faustino Manuel Rodrigues. Quando regressou ao escritório, Faustino já lá estava, de pé, encharcado, como quem teme estar no lugar errado.

— Perco-me sempre nestes prédios — disse. — Tenho medo de elevadores.

Sentaram-se. O feirante encolheu-se na cadeira, como um gato molhado. O advogado sentiu, pela primeira vez em semanas, que a presença de alguém lhe devolvia propósito.

Analisaram o processo. As contradições eram poucas. O envolvimento da GNR tornava tudo mais grave.

— Não está fácil, doutor? — perguntou Faustino.

— Não — respondeu ele. — A lei não costuma ser sensível a histórias pessoais.

Faustino explicou-se: uma oportunidade única, ténis de marca a preço baixo, a família, o gasóleo, a mãe à espera de uma operação aos olhos.

— Fui ganancioso — admitiu. — Mas foi a primeira e a última vez.

O advogado reconheceu naquele arrependimento algo antigo, quase infantil. Sabia, porém, que a sobrevivência pesa mais do que a virtude.

Enquanto Faustino falava, cada palavra parecia prejudicá-lo mais. Quando se calou, o advogado encontrou espaço para responder.

— O melhor conselho é simples: fale o menos possível. Cada palavra a mais abre-lhe um alçapão debaixo dos pés.

Faustino acenou, como um fiel diante do padre.

— Seja discreto. Quase mudo. Quase morto.

Pediu para ir à casa de banho. Quando voltou, o advogado levantou-se.

— Por agora, não lhe posso dizer mais nada. Voltaremos a falar quando for indispensável.

Olhou-o nos olhos.

— Até lá, faça-se de morto. Ninguém ataca quem acabou de morrer.

Faustino levou aquilo a sério. Apertou-lhe a mão e saiu sem se despedir.

O dia clareara. O advogado viu-o ainda, aliviado e sorridente, a desaparecer sob as árvores. Como numa fórmula de Física, o peso de que o arguido se livrara pesava-lhe agora nas costas. Pressentiu que, a partir dali cada processo lhe recairia em cima da mesma forma. Foi nesse dia que percebeu que a advocacia era pesada demais para ele.

O Tiago calou-se.

— E o Faustino? — perguntei.

— Apanhou uma coima aceitável. Depois nunca mais soube dele. Há pessoas que desaparecem quando deixam de precisar de nós.

Continuámos a comer em silêncio. Um silêncio cheio, habitado, como se Faustino — invisível — tivesse ocupado connosco o resto da mesa.

O almoço seguiu, simples e quotidiano. Como seguem as histórias que nunca chegamos a saber se eram sobre os outros ou sobre nós.

 

                                                                       Luís Palma Gomes

HOMENAGEM A MIA COUTO


“Falo muito do mar? Eu sou como o salmão. Vivo no mar, mas estou sempre de
regresso ao lugar da minha origem. Vencendo a corrente, saltando cascata. Retorno ao
rio onde nasci para deixar meu sémen e depois morrer”

“A Varanda do Frangipani”
Mia Couto


“Eu não posso senão ser desta terra em que nasci”

Tomasse vagueava por aí.

Por aí, não!

Perto do mar — era o seu vínculo.

Quando ouviu, vindo não sabe d’onde:

“Eu não posso senão ser desta terra em que nasci.”

Provavelmente era o próprio mar lhe segredando, questionando de quem era ele.

Tomasse se recompôs, olhou para além — lá onde o céu e o mar se extinguem.

Depois respondeu na mesma moeda, para nenhures:

– Tocou no ponto fraco, não é?

Não ouviu resposta, e então continuou se inquirindo:

– Prefiro até nem botar palavra... A terra que escolhi para nascer — ou será renascer? —

me empurrou para fora dela? Ou fizeram para que me chutassem de lá?

Desta vez, a voz em eco que o acompanhava, sussurrou:

– Você escolheu? – quis saber sabed’onde.

– Sim! Qual é o espanto? – Tomasse, além de botar falhadura, gesticulava. Seu braço se

alongava na mão aberta, o dedo indicador apontando para lá do oceano, para um ponto

indefinido, muito ao sul.

Lá, a tradição fala assim:

“Parentes a gente não escolhe; agora, terra de nascença, sim.”

Antes de aterrar em algum lugar, você faz sua circunvolução — é seu privilégio apontar

onde quer cair.

– Está-me a estranhar, sabed’onde? – prosseguiu. – Agora, tem que saber escolher,

senão toda a vida vai comer o pão que o diabo desamassou.

Lhe dão várias chances.

Na nossa tradição, diz-se que voltamos cá, a este pontinho azul perdido na atmosfera,

tantas vezes quantas forem necessárias, até acertar.

Quando fizer bingo, encontrou seu paraíso perdido. Depois, não volta mais.

Agora entende, sabed’onde, porque eu não posso senão ser desta terra em que nasci?

Me ostracizaram lá, no lugar onde abri os olhos pela primeira vez, mas ela continua em

mim.

Tomasse faz prova: ergue a mão em concha, encosta no ouvido e exclama aos quatro

ventos:

– Os tambores hoje estão fortes... me lembro tanto dessa terra que parece que já passou

mil anos.

– Me fale dela – insistia sua outra voz, a “sabed’onde”.

– Falar o quê? Me poupe minhas bolsas lagrimais! Estão quase a rebentar, e vai virar rio

— quem sabe essa correnteza me faça voltar lá outra vez...

Que saudade de apalpar a terra com os pés livres da prisão do couro!

Quando chegar de novo lá, sabe o que vou fazer, sabed’onde?

– Me descalço e vou pisar, enraizar nela, sentir seu substrato, me alimentar dessa terra

sagrada.

Lhe devo esse respeito. Estou voltando às origens, recordando a natureza primeira — a

dela e a minha — que me esqueci, desde que migrei na força, feito essas aves que olham

o espaço, botando essa letra enganosa de vitória.

Já falei com os parentes: quando chegar, que me presenteiem com comida à nossa

maneira.

Em panela de barro preto de três pés, retirada da fogueira, nosso fogão.

Esqueçam rodízios, espeto, faca e garfo — quero mesmo é botar a mão no prato de

alumínio, deliciar o funje* de farinha de mandioca, triturada no pilão pelas Monacajes*.

Já estou até salivando, sentindo o paladar do peixe seco.

Ah, e regado com sura*, nosso vinho tradicional!

Já viu, não é, sabed’onde?

Depois, vamos bater pé em roda da fogueira; as batucadas nos acompanham, até que

nossos ancestrais acordem e façam festa connosco.

Festa de quem nada tem, é assim mesmo: faz acontecer.

Ehh! Meus parentes, que me deem essa prenda: a de voltar a dançar com os pirilampos,

sentir o som dos bichos no mato, ouvir histórias do antigamente.

Me façam desaprender, aprender a desvoluir.

– Quer ouvir uma história?

“Sabed’onde” já nem me respondia, embrulhado que ia nos pensamentos.

Lá, onde me exilaram, me contaram uma história do tempo dos kaparandanda*.

Antes ainda de os muzungos* entrarem nas caravelas para redescobrir o idoso mundo,

apareceu um velho de barba branca (acho até que nos visitou na nossa ilha) e clamava

para as gentes do barco:

– Voltem! Não vão! Vossa terra é aqui!

Lhe chamavam o Velho do Restelo.

Pois é, meus camaradas, quem bota agora o pedido sou eu, feito chamamento:

– Não embarquem nessa ilusão chamada Europa.

Vossa casa é aqui.

Lá, a natureza foge, parece doença.

Quero retornar do exílio, voltar ao sítio onde eu não posso senão ser desta terra em que

nasci.

Sabe, sabed’onde...

Nascemos várias vezes — e este meu coração diz que devo me proteger do choro do

mundo.


Vasco Patrício

19-01-2026


Nota: Termos do dialeto Africano *

 Funje – Prato típico tradicional de África ( Angola).

 Sura – Bebida tradicional de Moçambique, feita a partir de seiva de coqueiro,

fermentada torna-se alcoólica.

 Kaparandanda – Expressão Africana (Angola), que significa “há muito tempo” ou

“tempos idos”, referindo-se a um período antigo.

 Muzungos – Pessoa branca ou senhor ( Moçambique)


Obs.: O texto é escrito em prosa poética. Mantive a narrativa da voz cultural do povo

Moçambicano

GERAÇÃO DE AMANHÃ

 

A geração de amanhã sonha!

Mas… não será que cada vez mais

Sonha passivamente?

De ecrãs dependente

Espectadora da criatividade alheia

Presa a inovação atrás de inovação

Por slogans e slogans invadida

Grande é a tentação

O lazer privilegiar

Comprar, beber, viajar

A afadigada rotina

Do quotidiano tolerar…

Em proventos parca

Casa ter nem pensar

Ou sequer casar

Adiado o futuro

Pairam promessas no ar

Tarda a alternativa

Sobra a incógnita perante a vida

Mas… a geração de amanhã sonha!

 

Maria Silveira

2025.12.20  

QUANDO EU PARTIR

 

  tantas  coisas que  vão  acabar

quando eu  partir.

Tantos segredos,  tantas  estórias

que  não  vou  repetir.

Palavras  que  tantos  disseram

que  serão  esquecidas.

Sorrisos,  lágrimas

por  tantos  vertidas

Tudo  partirá  e  será  esquecido.

Assim  como  eu

que  serei  a  lembrança

de  um  passado  antigo

Mas  o  amor  que  te  tenho

esse  ficará

No  ar,  nas  árvores,  no  mar.

Em  todo  o  lado  por  onde  passámos.

E  se  mais  ninguém  falar  nisso

que  importa?

Amor  como  o  nosso

jamais  será  letra  morta

                                                                                                                    Mitú Branco

                                                                                                                    2026/19/01



NO COMBOIO ASCENDENTE


Viajavam no comboio intercidades que liga Faro a Lisboa. Vinha pouca

gente na carruagem traseira e os jovens que entraram em Albufeira

falavam bastante alto, os três passageiros não jovens achavam graça aos

disparates que ouviam. Era um grupo de jovens que frequentava o

primeiro ano da faculdade de Motricidade Humana, em Oeiras. Vinham

muito divertidos, a contar piadas e a comentar o que viam no Facebook,

no TikTok e no Instagram.

Em Grândola, entrou naquela carruagem um homem de cerca de 75 anos.

Cabelo grisalho, corte clássico, boa estatura, com um livro na mão. Abriu o

livro onde havia uma marcação com um cartão, a dois terços do fim.

Começou a ler. Mas o barulho ensurdecedor dos jovens impedia-o de se

concentrar. “Vai ser um inferno até Lisboa, é melhor mudar de

carruagem”, pensou. A certa altura, os jovens discutiam política a partir

dos vídeos que visionavam. Dois deles criticavam o personagem do vídeo,

pela linguagem dramática, violenta, qual espectador de circo romano a

gritar “mata-mata”!

Os restantes gritavam “Ah! Grande nazófilo, Ah! Grande patriota, vais

salvar Portugal, vais acabar com as elites que sugam o país, nós somos o

povo!”

“Que juventude é esta?”, disse para consigo o cavalheiro que tinha

entrado em Grândola. “Não suporto isto!” Fechou o livro e preparava-se

para mudar de carruagem na próxima estação. Mas depois pensou: “a

próxima paragem é em Pinhal Novo, ainda falta muito tempo, não vou

aguentar esta algazarra”! Mudou de ideias, decidiu interpelar os jovens.

- Bom dia, juventude! Vejo que vão muito divertidos. Eu tenho idade para

ser vosso avô, mas não tenho netos, tenho pena, os casais modernos não

querem ter filhos. Já pensaram no que vai ser o Portugal da vossa geração

se se continuar a verificar um cenário de sub-reposição populacional?

- E o que é que isso quer dizer, pergunta um dos jovens.

- Então vocês não estudam os temas relacionados com a crise

demográfica?

- Não me lembro de ter ouvido falar disso. Ó Zé, vê lá no ChatGPT o que é

isso da crise demográfica.

- Ó palerma, não sabes o que significa declínio demográfico?! Disse um

dos dois jovens mais tranquilos.

- Ah, sim, agora percebi. Antigamente faziam muitos filhos e agora fazem

poucos, não é? Disse um dos mais eufóricos.

- Pelo que eu percebi da vossa algazarra, estão a louvar alguém que não

tem filhos nem os quer ter porque dão muito trabalho. Talvez por isso ele

é desumano ao ponto de querer separar pais de filhos que imigraram para

Portugal. Não sabe o que é ser pai!

- O quê, o nazófilo não tem filhos?

- Não, não tem, nem quer ter. E a sua porta-voz mais maquiavélica, que é

a “voz do dono”, braço direito do líder, também não quer ter filhos, dizem.

Mas, à boa maneira das fantasias do seu líder, quando se apresentou na

Assembleia da República como deputada, levou ao colo uma criança, filha

de uma amiga, só para tirar uma foto com ar de mãe. Criticada por isso,

disse que “lhe pediram para levar a criança ao pai”. À boa maneira do seu

chefe, que pegou numa árvore jovem para a plantar, mostrando ser

também ecologista, mas não passou de uma cena para tirar uma foto…

- Isso foi verdade? Não serão “fake news”, perguntou o mais atrevido.

- Vocês leem jornais veem televisão, regularmente? Ou só veem

Facebook, TikTok e afins?

- Eu detesto ler livros e jornais. Já me bastou o que tive que ler no

secundário, o telemóvel diz-me tudo, exclamou o jovem tatuado no

pescoço.

- Querem todos fazer carreira ligada ao desporto ou a escolha do curso

não teve muitas alternativas, perguntou o homem de cabelo grisalho.

- Alguns querem vir a ser polícias, têm ordenado certo e seguro e além

disso gostam de ser autoridade, com uma farda. Alguns de nós já foram

convidados para se alistarem na polícia e a partir daí ligar-se ao partido.

- Qual partido?

- Ora qual havia de ser, o do grande líder! O que quer mudar Portugal,

acabar com a corrupção, prender os pedófilos, que devem ser castrados,

devolver os imigrantes ao seu país de origem e acabar com os ciganos.

- Se devolverem os imigrantes, quem vai fazer os trabalhos que eles fazem

em Portugal? Quem vai servir nas vossas cantinas e residências

universitárias, nos hotéis, nos restaurantes e na agricultura. Vocês estão

dispostos a isso? E qual é a pátria dos ciganos?

- Não sei nem quero saber, é pô-los a andar, rematou outro jovem.

- Vocês são católicos?

- Sim, vamos todos à missa aos domingos, comungamos e pertencemos ao

grupo de escuteiros, ligado à Igreja.

- São católicos e concordam com as propostas do líder do vosso partido?!

- Isso aí já não queremos saber. Só sabemos é que Portugal nos últimos

cinquenta anos foi uma roubalheira, todos a gamar e para limpar isto só o

nosso líder o pode fazer.

- Então, digam-me: quem foi Salazar? E qual era o estado do País antes da

Revolução do 25 de Abril?

- O chefe diz que não havia corrupção nem pedófilos, havia ordem.

- Vivem todos na cidade, no Algarve?

- Só um ou dois, os outros são todos de aldeias algarvias.

- Já pensaram que no tempo de Salazar quase todos de vós não teriam

acesso ao ensino secundário?

- Como assim, não havia escolas?

- Vocês precisam de estudar História. Pelos vistos não sabem nada de

nada sobre as misérias do tempo de Salazar, a falta de liberdade, de

acesso ao ensino, a maioria da população era analfabeta… e outras coisas

piores ainda. Sabem o que foi o Tarrafal?

- Não sei do que está a falar, respondeu um jovem lá do fundo da

carruagem.

- Vocês já pensaram que podem vir a ser uma geração bem preparada do

ponto de vista técnico, mas serem ao mesmo tempo a geração mais

ignorante dos últimos cinquenta anos?

- Está a chamar-nos ignorantes? Não se atreva, nós somos muitos!

Muito calmo perante as ameaças, o senhor que deixou de ler para

perceber o que pensava aquela juventude, respondeu:

- Na minha geração, os jovens lutavam pela liberdade, lutavam contra as

guerras, eram solidários, respeitavam os velhos, liam livros e jornais, eram

razoavelmente cultos, liam livros proibidos correndo o risco de serem

presos, os estudantes faziam greves contra a repressão nas universidades,

muitos foram presos, alguns mortos, tinham ideias e sabiam História,

tinham ideais. E vocês por qual objetivo lutam?

Meus caros jovens: chega de mentiras, chega de ódio, chega de incentivar

a violência, chega de fazer acusações sem fundamento, só para envenenar

a opinião pública, chega de desumanidade. Se são cristãos, ajam em

coerência com os ensinamentos de Cristo. Não sejam cínicos! Pensem,

abram os olhos!

E continuou, perante o silêncio dos jovens: Se na escola não aprenderam a

pensar, não questionaram, então correm o risco de falhar na vida, que

está a mudar muito rapidamente, sempre com novos desafios. Sem

valores, sem princípios, sem competências para questionar o mundo,

querendo apenas ser especialistas em tecnologia ou em desporto, correm

o risco de ficar frustrados, a vossa geração poderá vir a ficar obsoleta,

mais do que está hoje ao deixar-se manipular com tanta facilidade.

Fez-se silêncio. Voltou a abrir o livro.


Vítor Carvalho

VENTOS

 

Desce a noite

Os ventos descem

Errantes volteiam as sombras

Meu ser em rodopio

Na tempestade submerge

Ousa vencer o destino

Com a força de quem não cede

Na alvorada acredita

O primeiro raio de sol aguarda.

 

Branda é a claridade

Vencidos os ventos

Paz anuncia na acalmia

Minha prece pelos céus ouvida

Ao meu espírito esperança oferece

Em véu de bonança envolvida.

 

Maria Silveira

2026.01.20  

A CRIANÇA E O LIVRO

 


Como são lindos os livros! Não deixam criança ficar só…

São tão lindas suas letras! Umas grandes, outras pequenas. De todos os feitios, mexem-se de um lado para outro, andam e desandam, bailam, correm e dançam.

Juntam-se as letras, formam palavras, com as palavras nascem frases, com as frases se fazem os livros. Livros de estórias, livros de versos. Livros que as crianças leem, livros que os grandes leem. Livros que divertem, livros que ensinam.

Era uma vez… Assim começam as estórias. Estórias de reis e rainhas. Estórias do tempo em que os animais falavam. Estórias de índios e cowboys. Estórias do antigamente, estórias de agora, estórias do futuro.

Muitos livros, muitas estórias. Estórias de adormecer, estórias de brincar. Estórias do avô, estórias da avó…

Livros de estórias no dia dos anos, livros de estórias no dia de Natal. Livros, as prendas queridas. Livros, os grandes amigos em casa, na escola, nas férias. Livros, companhia de todos os dias.

Obra de escritores, de poetas, de contadores de estórias, livros! Amigos da criança são sua alegria, de pais, padrinhos e avós, são bons companheiros dela e de todos nós! 

 

Luísa Machado Rodrigues

2025.12.20

 

 

Mote – Visualização de Powerpoint sobre livros

Textos de Reflexão – Pensamentos de autores consagrados

 

A CAIXA QUE BRILHAVA

Aos seus olhos, a caixa brilhava.

A caixa que brilhava aos seus olhos remetia Valdemiro para o Natal da sua infância. Há

sempre um Natal especial nas nossas vidas que se destaca entre tantos outros. Que se

lembre, ao contrário dos que se seguiram, as prendas não foram colocadas à volta da

árvore de Natal, na sala, mas por baixo da lareira, na cozinha.

Que alegria era acreditar que o Pai Natal descia pela chaminé e lhe deixava uma pequena

caixa que brilhava aos seus olhos. A sua, recorda-se bem, não era de metal nem de ouro,

mas de cartão grosso, envolta em papel de seda vermelho, que aos seus olhos de criança

cintilava mais do que qualquer estrela.

Ao abri-la, não havia um brinquedo caro, mas algo que, para ele, era infinitamente mais

valioso: um pequeno e robusto avião de madeira, pintado de um azul-celeste desbotado.

Estava ali a promessa de voar — não era apenas um brinquedo; era a liberdade, era um

sonho de futuro entregue naquele Natal mágico.

Na longínqua década de cinquenta, a sua casa situava-se nas proximidades de uma fábrica

de cerveja. Ainda hoje se recorda da sirene marcando o ritmo das horas. Da campainha

tilintando do leiteiro, que trazia o leite acabado de ordenhar e o transportava numa vasilha

de metal, encavalitada na bicicleta, pelas casas do bairro. Da buzinadela do padeiro,

avisando que chegara o pão ainda quente. Do vento fluindo nas folhas da palmeira nas

traseiras da sua casa. Sons que se perpetuaram e ficaram como a música de fundo da vida

lá fora.

Valdemiro recorda-se bem do seu Natal africano. Enquanto arrumavam as figuras do

presépio, moldadas em barro na véspera, num serão com os pais e irmãos, os tambores

soavam ritmados, vindos dos musseques nos arredores do bairro. À sua maneira, os

naturais entoavam os seus cânticos de Natal, chegando-lhe os sons sob a forma de uma

melodia distante:

U… À… À… Ô…

Maria, a Senhora,

a Jesus guardava,

e à luz das estrelas…

Uma voz soava:

U… À… À… Ô…

Muitas décadas depois, Valdemiro ainda acredita no Pai Natal. Acredita pela pergunta que

ecoa dentro de si e que lhe pede um novo olhar — um olhar que acolhe e confia. Um olhar

que reconhece a luz, mesmo quando tudo parece escuro.

E os seus olhos voltam a brilhar ao arrumar, primorosamente, numa simples caixa de

sapatos, um cabaz de Natal, que depois embrulha em papel colorido para ser distribuído

pelos sem-abrigo da cidade, na noite da consoada.

Os anos passam, e a barba de Valdemiro rivaliza com a do velhinho do trenó puxado pelas

renas. Hoje, o Natal já não brilha aos seus olhos como antes, e parece que já não existem

caixas. E, a ter de haver uma, seria a de Pandora.

E se a abrisse, em turbilhão, surgiria toda uma panóplia de questões existenciais que há

muito o atormentam: Natais agora? Só guerras, e nem tréguas se fazem neste tempo

supostamente sagrado. É a cegueira interior dos poderosos do mundo. Como podem as

pessoas festejar o Natal?

Mas, no fundo do fundo dessa caixa imaginária, como na antiga lenda, não escapariam

apenas os males. Ficaria lá, escondida, teimosa e viva, a última coisa: a esperança.

E enquanto houver mãos capazes de embrulhar um cabaz, de acender uma vela, de

oferecer um gesto simples a quem nada tem, ainda existirão caixas que brilham — não de

ouro, nem de metal, mas da luz que nas suas vidas nunca se apaga.


Vasco Patrício

Nova Atena- Linda-a-Velha

19/01/2026

Mote: “Aos meus olhos a pequena caixa brilhava”

A NORA


Lembro aqueles dias em que, de nariz esmurrado na vidraça da janela, aguardava que parassem os frequentes e fortes aguaceiros fustigados pelo vento e encimados por negras nuvens sombreadas de amarelo-ouro e ocre.

Seguia-se-lhes um sol radioso. A glicínia da moradia da frente já luzia no seu lilás e, a seus pés, jazia o tapete de pétalas que densamente se formava e me encantava. Aqui e acolá separavam-se partes suas que escorriam, lembrando frotas de minúsculos veleiros, deslizando à tona da água acumulada e feita ribeiro.

O que eu ainda hoje gosto de glicínias!

Nas bermas do caminho, saltitante, a água esgueirava-se límpida sobre uma leve camada de terra barrenta aqui e ali invadida por pedras variadas que a borrasca trouxera. Algumas eram lindas: rosa mesclado, transparente lascado, amarelo baço, branco-leite, engranitadas e até meio esverdeadas.

Assim que estiava a borrasca, a autorização da mãe para ir brincar na rua chegava com mil e uma romendações – não te molhes, não te sujes, cuidado para não te constipares, olha o casaco, se voltar a chover toca logo cá para dentro...

Decorada a récita tantas vezes ouvida e com os habituais e repetidos sim, sim, corria para a saída de casa e, lampeira, lá ia eu para as minhas quintinhas e para os meus riozinhos, assim os designava eu, a brincadeira dominante em dias chuvosos, aproveitando a água e o enlameado que escorria pela beira dos passeios. 

Mal abria a porta da moradia logo assomava aquele cheiro a terra molhada de fresco e que ainda hoje me inebria: o característico cheiro a ozono. Bem perto, outro cheiro inesquecível e que o molhado da chuva ainda parecia reforçar era o das madressilvas.

Morávamos no topo da rua, a qual desaguava numa soberba propriedade a que chamavam quinta, mas que afinal era uma excelente horta sem muros, separada da via pública apenas por uma sebe de canas tão típica da região oeste dado o seu poder de proteção dos ventos norte e marítimos. Entrava-se por um tosco portão de madeira donde se via de imediato o nosso ídolo: a nora. Nesses dias, com a abundância da água do poço graças há preciosa chuva acabada de cair era vê-la a trabalhar afincada e luminosamente. Podíamos olhá-la a uma certa distância sem nos aproximarmos dado ser perigoso segundo ecoavam nos nossos ouvidos as palavras de risco e de interdição da mãe e do senhor Pinto, o dono da horta. A nora ficava a poucos metros dos caniços (nome corrente dado à vedação de canas), permitindo admirar a beleza das múltiplas quedas de água saídas de baldinhos (alcatruzes) pendurados no engenho a rodar à custa da força motriz desencadeada pela marcha regular de uma mula que, de olhos vendados para não entontecer, volteava sem cessar o poço onde tal maquinaria estava instalada..

Tudo era uma aventura. Era o máximo ter a sorte de chegarem donos ou trabalhadores que nos explicavam como aquilo funcionava e para que servia. Repetidos os avisos, pegavam-nos na mão e levavam-nos até à bordinha da água. Desvendava-se o mistério. O poço era muito fundo, a água subia bastante e ver à superfície o nosso rosto como se fosse ao espelho era um espanto. Aprendíamos que a altura da água não era sempre a mesma, que dependia da chuva. O pau que ia da mula até ao meio da nora por cima do poço era o eixo e fazia andar umas rodas viradas de modo a que tudo rodasse ao mesmo tempo, acionando uma espécie de fita que prendia os alcatruzes. A água caía destes com força e destinava-se à rega duas vezes por dia. Saía daquela engrenagem por uma caleira diretamente para a terra onde corria por numerosos regos matematicamente desenhados como se fossem canais.

Não sei quantas aulas tive de não letrados, porém, verdadeiros catedráticos de horticultura. Só sei o quanto usufruí e aprendi. Tanto me marcaram que foram contributo para que gostasse imenso de física, tendo mesmo sido a disciplina com melhores classificações quando andei no liceu. Ficou para toda a vida.

Também memória única a qualidade da água que da caleira brotava. A verdadeira água: inodora, insípida e incolor. Uma maravilha acrescida do seu brilho reluzente e dos mini arco-íris nas gotículas emergentes da nora em atividade, essa engenhoca de então que já não era mistério, mas impunha um grande respeito!

Veio a moderna irrigação. Já não há noras.

Porém, sem saudosismos, mas feliz sempre que me regressam à mente as boas memórias que guardo da nora, não me escapam ao olhar e ao bater do coração os restos de velhas noras abandonadas que avisto pelos campos fora quando atravesso o nosso país…

 

                                                                                                Luísa Machado Rodrigues

                                                                                         2026.01.20