Lembro
aqueles dias em que, de nariz esmurrado na vidraça da janela, aguardava que
parassem os frequentes e fortes aguaceiros fustigados pelo vento e encimados
por negras nuvens sombreadas de amarelo-ouro e ocre.
Seguia-se-lhes
um sol radioso. A glicínia da moradia da frente já luzia no seu lilás e, a seus
pés, jazia o tapete de pétalas que densamente se formava e me encantava. Aqui e
acolá separavam-se partes suas que escorriam, lembrando frotas de minúsculos
veleiros, deslizando à tona da água acumulada e feita ribeiro.
O que eu
ainda hoje gosto de glicínias!
Nas
bermas do caminho, saltitante, a água esgueirava-se límpida sobre uma leve
camada de terra barrenta aqui e ali invadida por pedras variadas que a borrasca
trouxera. Algumas eram lindas: rosa mesclado, transparente lascado, amarelo
baço, branco-leite, engranitadas e até meio esverdeadas.
Assim
que estiava a borrasca, a autorização da mãe para ir brincar na rua chegava com
mil e uma romendações – não te molhes, não te sujes, cuidado para não te
constipares, olha o casaco, se voltar a chover toca logo cá para dentro...
Decorada
a récita tantas vezes ouvida e com os habituais e repetidos sim, sim, corria
para a saída de casa e, lampeira, lá ia eu para as minhas quintinhas e para os meus riozinhos,
assim os designava eu, a brincadeira dominante em dias chuvosos,
aproveitando a água e o enlameado que escorria pela beira dos passeios.
Mal
abria a porta da moradia logo assomava aquele cheiro a terra molhada de fresco
e que ainda hoje me inebria: o característico cheiro a ozono. Bem perto, outro
cheiro inesquecível e que o molhado da chuva ainda parecia reforçar era o das
madressilvas.
Morávamos
no topo da rua, a qual desaguava numa soberba propriedade a que chamavam quinta,
mas que afinal era uma excelente horta sem muros, separada da via pública
apenas por uma sebe de canas tão típica da região oeste dado o seu poder de
proteção dos ventos norte e marítimos. Entrava-se por um tosco portão de
madeira donde se via de imediato o nosso ídolo: a nora. Nesses dias, com a abundância
da água do poço graças há preciosa chuva acabada de cair era vê-la a trabalhar
afincada e luminosamente. Podíamos olhá-la a uma certa distância sem nos
aproximarmos dado ser perigoso segundo ecoavam nos nossos ouvidos as palavras
de risco e de interdição da mãe e do senhor Pinto, o dono da horta. A nora
ficava a poucos metros dos caniços (nome
corrente dado à vedação de canas), permitindo admirar a beleza das múltiplas
quedas de água saídas de baldinhos (alcatruzes)
pendurados no engenho a rodar à custa da força motriz desencadeada pela marcha
regular de uma mula que, de olhos vendados para não entontecer, volteava sem
cessar o poço onde tal maquinaria estava instalada..
Tudo era
uma aventura. Era o máximo ter a sorte de chegarem donos ou trabalhadores que
nos explicavam como aquilo funcionava e para que servia. Repetidos os avisos, pegavam-nos
na mão e levavam-nos até à bordinha da água. Desvendava-se o mistério. O poço
era muito fundo, a água subia bastante e ver à superfície o nosso rosto como se
fosse ao espelho era um espanto. Aprendíamos que a altura da água não era
sempre a mesma, que dependia da chuva. O pau que ia da mula até ao meio da nora
por cima do poço era o eixo e fazia andar umas rodas viradas de modo a que tudo
rodasse ao mesmo tempo, acionando uma espécie de fita que prendia os
alcatruzes. A água caía destes com força e destinava-se à rega duas vezes por
dia. Saía daquela engrenagem por uma caleira diretamente para a terra onde
corria por numerosos regos matematicamente desenhados como se fossem canais.
Não sei
quantas aulas tive de não letrados,
porém, verdadeiros catedráticos de horticultura. Só sei o quanto usufruí
e aprendi. Tanto me marcaram que foram contributo para que gostasse imenso de
física, tendo mesmo sido a disciplina com melhores classificações quando andei
no liceu. Ficou para toda a vida.
Também memória
única a qualidade da água que da caleira brotava. A verdadeira água: inodora, insípida
e incolor. Uma maravilha acrescida do seu brilho reluzente e dos mini arco-íris
nas gotículas emergentes da nora em atividade, essa engenhoca de então que já
não era mistério, mas impunha um grande respeito!
Veio a
moderna irrigação. Já não há noras.
Porém, sem
saudosismos, mas feliz sempre que me regressam à mente as boas memórias que
guardo da nora, não me escapam ao olhar e ao bater do coração os restos de
velhas noras abandonadas que avisto pelos campos fora quando atravesso o nosso
país…
Luísa Machado Rodrigues
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