01/02/2026

A NORA


Lembro aqueles dias em que, de nariz esmurrado na vidraça da janela, aguardava que parassem os frequentes e fortes aguaceiros fustigados pelo vento e encimados por negras nuvens sombreadas de amarelo-ouro e ocre.

Seguia-se-lhes um sol radioso. A glicínia da moradia da frente já luzia no seu lilás e, a seus pés, jazia o tapete de pétalas que densamente se formava e me encantava. Aqui e acolá separavam-se partes suas que escorriam, lembrando frotas de minúsculos veleiros, deslizando à tona da água acumulada e feita ribeiro.

O que eu ainda hoje gosto de glicínias!

Nas bermas do caminho, saltitante, a água esgueirava-se límpida sobre uma leve camada de terra barrenta aqui e ali invadida por pedras variadas que a borrasca trouxera. Algumas eram lindas: rosa mesclado, transparente lascado, amarelo baço, branco-leite, engranitadas e até meio esverdeadas.

Assim que estiava a borrasca, a autorização da mãe para ir brincar na rua chegava com mil e uma romendações – não te molhes, não te sujes, cuidado para não te constipares, olha o casaco, se voltar a chover toca logo cá para dentro...

Decorada a récita tantas vezes ouvida e com os habituais e repetidos sim, sim, corria para a saída de casa e, lampeira, lá ia eu para as minhas quintinhas e para os meus riozinhos, assim os designava eu, a brincadeira dominante em dias chuvosos, aproveitando a água e o enlameado que escorria pela beira dos passeios. 

Mal abria a porta da moradia logo assomava aquele cheiro a terra molhada de fresco e que ainda hoje me inebria: o característico cheiro a ozono. Bem perto, outro cheiro inesquecível e que o molhado da chuva ainda parecia reforçar era o das madressilvas.

Morávamos no topo da rua, a qual desaguava numa soberba propriedade a que chamavam quinta, mas que afinal era uma excelente horta sem muros, separada da via pública apenas por uma sebe de canas tão típica da região oeste dado o seu poder de proteção dos ventos norte e marítimos. Entrava-se por um tosco portão de madeira donde se via de imediato o nosso ídolo: a nora. Nesses dias, com a abundância da água do poço graças há preciosa chuva acabada de cair era vê-la a trabalhar afincada e luminosamente. Podíamos olhá-la a uma certa distância sem nos aproximarmos dado ser perigoso segundo ecoavam nos nossos ouvidos as palavras de risco e de interdição da mãe e do senhor Pinto, o dono da horta. A nora ficava a poucos metros dos caniços (nome corrente dado à vedação de canas), permitindo admirar a beleza das múltiplas quedas de água saídas de baldinhos (alcatruzes) pendurados no engenho a rodar à custa da força motriz desencadeada pela marcha regular de uma mula que, de olhos vendados para não entontecer, volteava sem cessar o poço onde tal maquinaria estava instalada..

Tudo era uma aventura. Era o máximo ter a sorte de chegarem donos ou trabalhadores que nos explicavam como aquilo funcionava e para que servia. Repetidos os avisos, pegavam-nos na mão e levavam-nos até à bordinha da água. Desvendava-se o mistério. O poço era muito fundo, a água subia bastante e ver à superfície o nosso rosto como se fosse ao espelho era um espanto. Aprendíamos que a altura da água não era sempre a mesma, que dependia da chuva. O pau que ia da mula até ao meio da nora por cima do poço era o eixo e fazia andar umas rodas viradas de modo a que tudo rodasse ao mesmo tempo, acionando uma espécie de fita que prendia os alcatruzes. A água caía destes com força e destinava-se à rega duas vezes por dia. Saía daquela engrenagem por uma caleira diretamente para a terra onde corria por numerosos regos matematicamente desenhados como se fossem canais.

Não sei quantas aulas tive de não letrados, porém, verdadeiros catedráticos de horticultura. Só sei o quanto usufruí e aprendi. Tanto me marcaram que foram contributo para que gostasse imenso de física, tendo mesmo sido a disciplina com melhores classificações quando andei no liceu. Ficou para toda a vida.

Também memória única a qualidade da água que da caleira brotava. A verdadeira água: inodora, insípida e incolor. Uma maravilha acrescida do seu brilho reluzente e dos mini arco-íris nas gotículas emergentes da nora em atividade, essa engenhoca de então que já não era mistério, mas impunha um grande respeito!

Veio a moderna irrigação. Já não há noras.

Porém, sem saudosismos, mas feliz sempre que me regressam à mente as boas memórias que guardo da nora, não me escapam ao olhar e ao bater do coração os restos de velhas noras abandonadas que avisto pelos campos fora quando atravesso o nosso país…

 

                                                                                                Luísa Machado Rodrigues

                                                                                         2026.01.20 

 

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