01/02/2026

O FEIRANTE

Costumo almoçar num pequeno restaurante familiar em frente à escola. Apesar das tentativas de arranjar companhia, acabo quase sempre sozinho, rodeado de outros solitários. Não gosto de comer calado e meto conversa sempre que posso. Assim conheço vidas e profissões diversas.

Nesse dia sentei-me ao lado do Tiago Ribeiro Teles. Nunca mais esqueci o nome. Estudara Direito e exercera advocacia numa vila do interior. Pediu licença para se alongar e contou-me o episódio que o levara a abandonar a profissão.

A empregada pousou os pratos. O Tiago suspirou e começou: há vinte e cinco anos, encontrava-se sozinho no escritório, diante de uma secretária cheia de papéis. Era incapaz de organizar documentos. Tentou fazer café; as cápsulas tinham acabado. Reaproveitou algumas usadas e bebeu um café fraco, suficiente para reconhecer o cansaço acumulado.

A janela para a avenida era o melhor do escritório. Dava-lhe um ponto de fuga: a cidade em movimento, longe dos códigos e das leis que tentavam disciplinar aquele caos.

A campainha tocou. Estranhou. Chovia com força. Abriu a porta e não viu ninguém. Só então se lembrou da reunião marcada: uma defesa oficiosa atribuída pela Ordem.

Folheou o processo. A acusação parecia sólida. Os indícios alinhavam-se; o arguido seria, provavelmente, condenado.

Desceu as escadas à procura do cliente e voltou a subir. Perdera-lhe o nome. Consultou o processo: Faustino Manuel Rodrigues. Quando regressou ao escritório, Faustino já lá estava, de pé, encharcado, como quem teme estar no lugar errado.

— Perco-me sempre nestes prédios — disse. — Tenho medo de elevadores.

Sentaram-se. O feirante encolheu-se na cadeira, como um gato molhado. O advogado sentiu, pela primeira vez em semanas, que a presença de alguém lhe devolvia propósito.

Analisaram o processo. As contradições eram poucas. O envolvimento da GNR tornava tudo mais grave.

— Não está fácil, doutor? — perguntou Faustino.

— Não — respondeu ele. — A lei não costuma ser sensível a histórias pessoais.

Faustino explicou-se: uma oportunidade única, ténis de marca a preço baixo, a família, o gasóleo, a mãe à espera de uma operação aos olhos.

— Fui ganancioso — admitiu. — Mas foi a primeira e a última vez.

O advogado reconheceu naquele arrependimento algo antigo, quase infantil. Sabia, porém, que a sobrevivência pesa mais do que a virtude.

Enquanto Faustino falava, cada palavra parecia prejudicá-lo mais. Quando se calou, o advogado encontrou espaço para responder.

— O melhor conselho é simples: fale o menos possível. Cada palavra a mais abre-lhe um alçapão debaixo dos pés.

Faustino acenou, como um fiel diante do padre.

— Seja discreto. Quase mudo. Quase morto.

Pediu para ir à casa de banho. Quando voltou, o advogado levantou-se.

— Por agora, não lhe posso dizer mais nada. Voltaremos a falar quando for indispensável.

Olhou-o nos olhos.

— Até lá, faça-se de morto. Ninguém ataca quem acabou de morrer.

Faustino levou aquilo a sério. Apertou-lhe a mão e saiu sem se despedir.

O dia clareara. O advogado viu-o ainda, aliviado e sorridente, a desaparecer sob as árvores. Como numa fórmula de Física, o peso de que o arguido se livrara pesava-lhe agora nas costas. Pressentiu que, a partir dali cada processo lhe recairia em cima da mesma forma. Foi nesse dia que percebeu que a advocacia era pesada demais para ele.

O Tiago calou-se.

— E o Faustino? — perguntei.

— Apanhou uma coima aceitável. Depois nunca mais soube dele. Há pessoas que desaparecem quando deixam de precisar de nós.

Continuámos a comer em silêncio. Um silêncio cheio, habitado, como se Faustino — invisível — tivesse ocupado connosco o resto da mesa.

O almoço seguiu, simples e quotidiano. Como seguem as histórias que nunca chegamos a saber se eram sobre os outros ou sobre nós.

 

                                                                       Luís Palma Gomes

Sem comentários: