Nesse dia sentei-me ao lado do Tiago Ribeiro Teles. Nunca mais esqueci o nome. Estudara Direito e exercera advocacia numa vila do interior. Pediu licença para se alongar e contou-me o episódio que o levara a abandonar a profissão.
A empregada pousou os pratos. O Tiago suspirou e começou: há vinte e cinco anos, encontrava-se sozinho no escritório, diante de uma secretária cheia de papéis. Era incapaz de organizar documentos. Tentou fazer café; as cápsulas tinham acabado. Reaproveitou algumas usadas e bebeu um café fraco, suficiente para reconhecer o cansaço acumulado.
A janela para a avenida era o melhor do escritório. Dava-lhe um ponto de fuga: a cidade em movimento, longe dos códigos e das leis que tentavam disciplinar aquele caos.
A campainha tocou. Estranhou. Chovia com força. Abriu a porta e não viu ninguém. Só então se lembrou da reunião marcada: uma defesa oficiosa atribuída pela Ordem.
Folheou o processo. A acusação parecia sólida. Os indícios alinhavam-se; o arguido seria, provavelmente, condenado.
Desceu as escadas à procura do cliente e voltou a subir. Perdera-lhe o nome. Consultou o processo: Faustino Manuel Rodrigues. Quando regressou ao escritório, Faustino já lá estava, de pé, encharcado, como quem teme estar no lugar errado.
— Perco-me sempre nestes prédios — disse. — Tenho medo de elevadores.
Sentaram-se. O feirante encolheu-se na cadeira, como um gato molhado. O advogado sentiu, pela primeira vez em semanas, que a presença de alguém lhe devolvia propósito.
Analisaram o processo. As contradições eram poucas. O envolvimento da GNR tornava tudo mais grave.
— Não está fácil, doutor? — perguntou Faustino.
— Não — respondeu ele. — A lei não costuma ser sensível a histórias pessoais.
Faustino explicou-se: uma oportunidade única, ténis de marca a preço baixo, a família, o gasóleo, a mãe à espera de uma operação aos olhos.
— Fui ganancioso — admitiu. — Mas foi a primeira e a última vez.
O advogado reconheceu naquele arrependimento algo antigo, quase infantil. Sabia, porém, que a sobrevivência pesa mais do que a virtude.
Enquanto Faustino falava, cada palavra parecia prejudicá-lo mais. Quando se calou, o advogado encontrou espaço para responder.
— O melhor conselho é simples: fale o menos possível. Cada palavra a mais abre-lhe um alçapão debaixo dos pés.
Faustino acenou, como um fiel diante do padre.
— Seja discreto. Quase mudo. Quase morto.
Pediu para ir à casa de banho. Quando voltou, o advogado levantou-se.
— Por agora, não lhe posso dizer mais nada. Voltaremos a falar quando for indispensável.
Olhou-o nos olhos.
— Até lá, faça-se de morto. Ninguém ataca quem acabou de morrer.
Faustino levou aquilo a sério. Apertou-lhe a mão e saiu sem se despedir.
O dia clareara. O advogado viu-o ainda, aliviado e sorridente, a desaparecer sob as árvores. Como numa fórmula de Física, o peso de que o arguido se livrara pesava-lhe agora nas costas. Pressentiu que, a partir dali cada processo lhe recairia em cima da mesma forma. Foi nesse dia que percebeu que a advocacia era pesada demais para ele.
O Tiago calou-se.
— E o Faustino? — perguntei.
— Apanhou uma coima aceitável. Depois nunca mais soube dele. Há pessoas que desaparecem quando deixam de precisar de nós.
Continuámos a comer em silêncio. Um silêncio cheio, habitado, como se Faustino — invisível — tivesse ocupado connosco o resto da mesa.
O almoço seguiu, simples e quotidiano. Como seguem as histórias que nunca chegamos a saber se eram sobre os outros ou sobre nós.
Luís Palma Gomes
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