Viajavam no comboio intercidades que liga Faro a Lisboa. Vinha pouca
gente na carruagem traseira e os jovens que entraram em Albufeira
falavam bastante alto, os três passageiros não jovens achavam graça aos
disparates que ouviam. Era um grupo de jovens que frequentava o
primeiro ano da faculdade de Motricidade Humana, em Oeiras. Vinham
muito divertidos, a contar piadas e a comentar o que viam no Facebook,
no TikTok e no Instagram.
Em Grândola, entrou naquela carruagem um homem de cerca de 75 anos.
Cabelo grisalho, corte clássico, boa estatura, com um livro na mão. Abriu o
livro onde havia uma marcação com um cartão, a dois terços do fim.
Começou a ler. Mas o barulho ensurdecedor dos jovens impedia-o de se
concentrar. “Vai ser um inferno até Lisboa, é melhor mudar de
carruagem”, pensou. A certa altura, os jovens discutiam política a partir
dos vídeos que visionavam. Dois deles criticavam o personagem do vídeo,
pela linguagem dramática, violenta, qual espectador de circo romano a
gritar “mata-mata”!
Os restantes gritavam “Ah! Grande nazófilo, Ah! Grande patriota, vais
salvar Portugal, vais acabar com as elites que sugam o país, nós somos o
povo!”
“Que juventude é esta?”, disse para consigo o cavalheiro que tinha
entrado em Grândola. “Não suporto isto!” Fechou o livro e preparava-se
para mudar de carruagem na próxima estação. Mas depois pensou: “a
próxima paragem é em Pinhal Novo, ainda falta muito tempo, não vou
aguentar esta algazarra”! Mudou de ideias, decidiu interpelar os jovens.
- Bom dia, juventude! Vejo que vão muito divertidos. Eu tenho idade para
ser vosso avô, mas não tenho netos, tenho pena, os casais modernos não
querem ter filhos. Já pensaram no que vai ser o Portugal da vossa geração
se se continuar a verificar um cenário de sub-reposição populacional?
- E o que é que isso quer dizer, pergunta um dos jovens.
- Então vocês não estudam os temas relacionados com a crise
demográfica?
- Não me lembro de ter ouvido falar disso. Ó Zé, vê lá no ChatGPT o que é
isso da crise demográfica.
- Ó palerma, não sabes o que significa declínio demográfico?! Disse um
dos dois jovens mais tranquilos.
- Ah, sim, agora percebi. Antigamente faziam muitos filhos e agora fazem
poucos, não é? Disse um dos mais eufóricos.
- Pelo que eu percebi da vossa algazarra, estão a louvar alguém que não
tem filhos nem os quer ter porque dão muito trabalho. Talvez por isso ele
é desumano ao ponto de querer separar pais de filhos que imigraram para
Portugal. Não sabe o que é ser pai!
- O quê, o nazófilo não tem filhos?
- Não, não tem, nem quer ter. E a sua porta-voz mais maquiavélica, que é
a “voz do dono”, braço direito do líder, também não quer ter filhos, dizem.
Mas, à boa maneira das fantasias do seu líder, quando se apresentou na
Assembleia da República como deputada, levou ao colo uma criança, filha
de uma amiga, só para tirar uma foto com ar de mãe. Criticada por isso,
disse que “lhe pediram para levar a criança ao pai”. À boa maneira do seu
chefe, que pegou numa árvore jovem para a plantar, mostrando ser
também ecologista, mas não passou de uma cena para tirar uma foto…
- Isso foi verdade? Não serão “fake news”, perguntou o mais atrevido.
- Vocês leem jornais veem televisão, regularmente? Ou só veem
Facebook, TikTok e afins?
- Eu detesto ler livros e jornais. Já me bastou o que tive que ler no
secundário, o telemóvel diz-me tudo, exclamou o jovem tatuado no
pescoço.
- Querem todos fazer carreira ligada ao desporto ou a escolha do curso
não teve muitas alternativas, perguntou o homem de cabelo grisalho.
- Alguns querem vir a ser polícias, têm ordenado certo e seguro e além
disso gostam de ser autoridade, com uma farda. Alguns de nós já foram
convidados para se alistarem na polícia e a partir daí ligar-se ao partido.
- Qual partido?
- Ora qual havia de ser, o do grande líder! O que quer mudar Portugal,
acabar com a corrupção, prender os pedófilos, que devem ser castrados,
devolver os imigrantes ao seu país de origem e acabar com os ciganos.
- Se devolverem os imigrantes, quem vai fazer os trabalhos que eles fazem
em Portugal? Quem vai servir nas vossas cantinas e residências
universitárias, nos hotéis, nos restaurantes e na agricultura. Vocês estão
dispostos a isso? E qual é a pátria dos ciganos?
- Não sei nem quero saber, é pô-los a andar, rematou outro jovem.
- Vocês são católicos?
- Sim, vamos todos à missa aos domingos, comungamos e pertencemos ao
grupo de escuteiros, ligado à Igreja.
- São católicos e concordam com as propostas do líder do vosso partido?!
- Isso aí já não queremos saber. Só sabemos é que Portugal nos últimos
cinquenta anos foi uma roubalheira, todos a gamar e para limpar isto só o
nosso líder o pode fazer.
- Então, digam-me: quem foi Salazar? E qual era o estado do País antes da
Revolução do 25 de Abril?
- O chefe diz que não havia corrupção nem pedófilos, havia ordem.
- Vivem todos na cidade, no Algarve?
- Só um ou dois, os outros são todos de aldeias algarvias.
- Já pensaram que no tempo de Salazar quase todos de vós não teriam
acesso ao ensino secundário?
- Como assim, não havia escolas?
- Vocês precisam de estudar História. Pelos vistos não sabem nada de
nada sobre as misérias do tempo de Salazar, a falta de liberdade, de
acesso ao ensino, a maioria da população era analfabeta… e outras coisas
piores ainda. Sabem o que foi o Tarrafal?
- Não sei do que está a falar, respondeu um jovem lá do fundo da
carruagem.
- Vocês já pensaram que podem vir a ser uma geração bem preparada do
ponto de vista técnico, mas serem ao mesmo tempo a geração mais
ignorante dos últimos cinquenta anos?
- Está a chamar-nos ignorantes? Não se atreva, nós somos muitos!
Muito calmo perante as ameaças, o senhor que deixou de ler para
perceber o que pensava aquela juventude, respondeu:
- Na minha geração, os jovens lutavam pela liberdade, lutavam contra as
guerras, eram solidários, respeitavam os velhos, liam livros e jornais, eram
razoavelmente cultos, liam livros proibidos correndo o risco de serem
presos, os estudantes faziam greves contra a repressão nas universidades,
muitos foram presos, alguns mortos, tinham ideias e sabiam História,
tinham ideais. E vocês por qual objetivo lutam?
Meus caros jovens: chega de mentiras, chega de ódio, chega de incentivar
a violência, chega de fazer acusações sem fundamento, só para envenenar
a opinião pública, chega de desumanidade. Se são cristãos, ajam em
coerência com os ensinamentos de Cristo. Não sejam cínicos! Pensem,
abram os olhos!
E continuou, perante o silêncio dos jovens: Se na escola não aprenderam a
pensar, não questionaram, então correm o risco de falhar na vida, que
está a mudar muito rapidamente, sempre com novos desafios. Sem
valores, sem princípios, sem competências para questionar o mundo,
querendo apenas ser especialistas em tecnologia ou em desporto, correm
o risco de ficar frustrados, a vossa geração poderá vir a ficar obsoleta,
mais do que está hoje ao deixar-se manipular com tanta facilidade.
Fez-se silêncio. Voltou a abrir o livro.
Vítor Carvalho
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