01/02/2026

HOMENAGEM A MIA COUTO


“Falo muito do mar? Eu sou como o salmão. Vivo no mar, mas estou sempre de
regresso ao lugar da minha origem. Vencendo a corrente, saltando cascata. Retorno ao
rio onde nasci para deixar meu sémen e depois morrer”

“A Varanda do Frangipani”
Mia Couto


“Eu não posso senão ser desta terra em que nasci”

Tomasse vagueava por aí.

Por aí, não!

Perto do mar — era o seu vínculo.

Quando ouviu, vindo não sabe d’onde:

“Eu não posso senão ser desta terra em que nasci.”

Provavelmente era o próprio mar lhe segredando, questionando de quem era ele.

Tomasse se recompôs, olhou para além — lá onde o céu e o mar se extinguem.

Depois respondeu na mesma moeda, para nenhures:

– Tocou no ponto fraco, não é?

Não ouviu resposta, e então continuou se inquirindo:

– Prefiro até nem botar palavra... A terra que escolhi para nascer — ou será renascer? —

me empurrou para fora dela? Ou fizeram para que me chutassem de lá?

Desta vez, a voz em eco que o acompanhava, sussurrou:

– Você escolheu? – quis saber sabed’onde.

– Sim! Qual é o espanto? – Tomasse, além de botar falhadura, gesticulava. Seu braço se

alongava na mão aberta, o dedo indicador apontando para lá do oceano, para um ponto

indefinido, muito ao sul.

Lá, a tradição fala assim:

“Parentes a gente não escolhe; agora, terra de nascença, sim.”

Antes de aterrar em algum lugar, você faz sua circunvolução — é seu privilégio apontar

onde quer cair.

– Está-me a estranhar, sabed’onde? – prosseguiu. – Agora, tem que saber escolher,

senão toda a vida vai comer o pão que o diabo desamassou.

Lhe dão várias chances.

Na nossa tradição, diz-se que voltamos cá, a este pontinho azul perdido na atmosfera,

tantas vezes quantas forem necessárias, até acertar.

Quando fizer bingo, encontrou seu paraíso perdido. Depois, não volta mais.

Agora entende, sabed’onde, porque eu não posso senão ser desta terra em que nasci?

Me ostracizaram lá, no lugar onde abri os olhos pela primeira vez, mas ela continua em

mim.

Tomasse faz prova: ergue a mão em concha, encosta no ouvido e exclama aos quatro

ventos:

– Os tambores hoje estão fortes... me lembro tanto dessa terra que parece que já passou

mil anos.

– Me fale dela – insistia sua outra voz, a “sabed’onde”.

– Falar o quê? Me poupe minhas bolsas lagrimais! Estão quase a rebentar, e vai virar rio

— quem sabe essa correnteza me faça voltar lá outra vez...

Que saudade de apalpar a terra com os pés livres da prisão do couro!

Quando chegar de novo lá, sabe o que vou fazer, sabed’onde?

– Me descalço e vou pisar, enraizar nela, sentir seu substrato, me alimentar dessa terra

sagrada.

Lhe devo esse respeito. Estou voltando às origens, recordando a natureza primeira — a

dela e a minha — que me esqueci, desde que migrei na força, feito essas aves que olham

o espaço, botando essa letra enganosa de vitória.

Já falei com os parentes: quando chegar, que me presenteiem com comida à nossa

maneira.

Em panela de barro preto de três pés, retirada da fogueira, nosso fogão.

Esqueçam rodízios, espeto, faca e garfo — quero mesmo é botar a mão no prato de

alumínio, deliciar o funje* de farinha de mandioca, triturada no pilão pelas Monacajes*.

Já estou até salivando, sentindo o paladar do peixe seco.

Ah, e regado com sura*, nosso vinho tradicional!

Já viu, não é, sabed’onde?

Depois, vamos bater pé em roda da fogueira; as batucadas nos acompanham, até que

nossos ancestrais acordem e façam festa connosco.

Festa de quem nada tem, é assim mesmo: faz acontecer.

Ehh! Meus parentes, que me deem essa prenda: a de voltar a dançar com os pirilampos,

sentir o som dos bichos no mato, ouvir histórias do antigamente.

Me façam desaprender, aprender a desvoluir.

– Quer ouvir uma história?

“Sabed’onde” já nem me respondia, embrulhado que ia nos pensamentos.

Lá, onde me exilaram, me contaram uma história do tempo dos kaparandanda*.

Antes ainda de os muzungos* entrarem nas caravelas para redescobrir o idoso mundo,

apareceu um velho de barba branca (acho até que nos visitou na nossa ilha) e clamava

para as gentes do barco:

– Voltem! Não vão! Vossa terra é aqui!

Lhe chamavam o Velho do Restelo.

Pois é, meus camaradas, quem bota agora o pedido sou eu, feito chamamento:

– Não embarquem nessa ilusão chamada Europa.

Vossa casa é aqui.

Lá, a natureza foge, parece doença.

Quero retornar do exílio, voltar ao sítio onde eu não posso senão ser desta terra em que

nasci.

Sabe, sabed’onde...

Nascemos várias vezes — e este meu coração diz que devo me proteger do choro do

mundo.


Vasco Patrício

19-01-2026


Nota: Termos do dialeto Africano *

 Funje – Prato típico tradicional de África ( Angola).

 Sura – Bebida tradicional de Moçambique, feita a partir de seiva de coqueiro,

fermentada torna-se alcoólica.

 Kaparandanda – Expressão Africana (Angola), que significa “há muito tempo” ou

“tempos idos”, referindo-se a um período antigo.

 Muzungos – Pessoa branca ou senhor ( Moçambique)


Obs.: O texto é escrito em prosa poética. Mantive a narrativa da voz cultural do povo

Moçambicano

Sem comentários: