Aos seus olhos, a caixa brilhava.
A caixa que brilhava aos seus olhos remetia Valdemiro para o Natal da sua infância. Há
sempre um Natal especial nas nossas vidas que se destaca entre tantos outros. Que se
lembre, ao contrário dos que se seguiram, as prendas não foram colocadas à volta da
árvore de Natal, na sala, mas por baixo da lareira, na cozinha.
Que alegria era acreditar que o Pai Natal descia pela chaminé e lhe deixava uma pequena
caixa que brilhava aos seus olhos. A sua, recorda-se bem, não era de metal nem de ouro,
mas de cartão grosso, envolta em papel de seda vermelho, que aos seus olhos de criança
cintilava mais do que qualquer estrela.
Ao abri-la, não havia um brinquedo caro, mas algo que, para ele, era infinitamente mais
valioso: um pequeno e robusto avião de madeira, pintado de um azul-celeste desbotado.
Estava ali a promessa de voar — não era apenas um brinquedo; era a liberdade, era um
sonho de futuro entregue naquele Natal mágico.
Na longínqua década de cinquenta, a sua casa situava-se nas proximidades de uma fábrica
de cerveja. Ainda hoje se recorda da sirene marcando o ritmo das horas. Da campainha
tilintando do leiteiro, que trazia o leite acabado de ordenhar e o transportava numa vasilha
de metal, encavalitada na bicicleta, pelas casas do bairro. Da buzinadela do padeiro,
avisando que chegara o pão ainda quente. Do vento fluindo nas folhas da palmeira nas
traseiras da sua casa. Sons que se perpetuaram e ficaram como a música de fundo da vida
lá fora.
Valdemiro recorda-se bem do seu Natal africano. Enquanto arrumavam as figuras do
presépio, moldadas em barro na véspera, num serão com os pais e irmãos, os tambores
soavam ritmados, vindos dos musseques nos arredores do bairro. À sua maneira, os
naturais entoavam os seus cânticos de Natal, chegando-lhe os sons sob a forma de uma
melodia distante:
U… À… À… Ô…
Maria, a Senhora,
a Jesus guardava,
e à luz das estrelas…
Uma voz soava:
U… À… À… Ô…
Muitas décadas depois, Valdemiro ainda acredita no Pai Natal. Acredita pela pergunta que
ecoa dentro de si e que lhe pede um novo olhar — um olhar que acolhe e confia. Um olhar
que reconhece a luz, mesmo quando tudo parece escuro.
E os seus olhos voltam a brilhar ao arrumar, primorosamente, numa simples caixa de
sapatos, um cabaz de Natal, que depois embrulha em papel colorido para ser distribuído
pelos sem-abrigo da cidade, na noite da consoada.
Os anos passam, e a barba de Valdemiro rivaliza com a do velhinho do trenó puxado pelas
renas. Hoje, o Natal já não brilha aos seus olhos como antes, e parece que já não existem
caixas. E, a ter de haver uma, seria a de Pandora.
E se a abrisse, em turbilhão, surgiria toda uma panóplia de questões existenciais que há
muito o atormentam: Natais agora? Só guerras, e nem tréguas se fazem neste tempo
supostamente sagrado. É a cegueira interior dos poderosos do mundo. Como podem as
pessoas festejar o Natal?
Mas, no fundo do fundo dessa caixa imaginária, como na antiga lenda, não escapariam
apenas os males. Ficaria lá, escondida, teimosa e viva, a última coisa: a esperança.
E enquanto houver mãos capazes de embrulhar um cabaz, de acender uma vela, de
oferecer um gesto simples a quem nada tem, ainda existirão caixas que brilham — não de
ouro, nem de metal, mas da luz que nas suas vidas nunca se apaga.
Vasco Patrício
Nova Atena- Linda-a-Velha
19/01/2026
Mote: “Aos meus olhos a pequena caixa brilhava”
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