Decorria o ano de 1950.
Nascia em Portugal uma menina muito desejada pelos pais. 1ª filha, a que deram o nome antes de nascer, amorosamente escolhido ainda em solteiros, no seu sonho de constituírem família.
O universo ouviu-os, atendeu os seus desejos e, em 1950 nascia então essa menina.
Cresceu, frequentou a escola, a relação família escola era perfeita, todos eram referências estimadas, aprendia com todos, o estímulo que sentia era constante e essas vivências fortaleciam o seu gosto pelo saber.
Não se falava em inteligência, o conceito estabelecido baseava-se sim, na capacidade de entrega ao estudo, bem como nos valores da amizade, do respeito e responsabilidade com que se viviam as etapas da vida.
E assim a menina cresceu com forte ligação à família e professores, referências muito determinantes no desenvolvimento do seu perfil pessoal.
A vida ia decorrendo e, já numa fase adulta e ultrapassadas muitas e diversas etapas, começou a ouvir falar em INTELIGÊNCIA ARTIFICIAL.
Foi um choque enorme, não estava esclarecida e a designação ARTIFICIAL adjetivava de forma ameaçadora o seu conceito de INTELIGÊNCIA HUMANA DIVINA
Constava-se que homens muito inteligentes davam vida e visibilidade a um monstro ameaçador, capaz de substituir os seus inventores.
Inconformada com tal Ideia, recusava-se a falar e a aprofundar o assunto.
Como era possível alguém atrever-se a desafiar a I.H.D.? Era um absurdo, um perigo para a humanidade e sobretudo uma ofensa à Criação, ao Divino!
Parecia assunto de filme, onde a imaginação pode alcançar níveis alucinantes.
Alguém ousar transferir da ficção para a realidade potencialidades desta dimensão, era inaceitável.
Mas………e porque tudo tem o seu tempo próprio para o “ tempo” de cada um, certo dia, numa aula de Informática, e mantendo o gosto pelo saber, a menina entretanto já adultíssima, foi confrontada com o tema I.A.
Sentiu alguma perturbação, o registo da rejeição logo se manifestou em si, mas perante as circunstâncias e, porque respeitava a informação veiculada pelo seu Professor de Informática, decidiu ouvi-lo e informar-se. Era imperativo.
Para seu espanto, no final da aula, estava rendida e entusiasmada.
Não lhe parecia assim tão assustador como a sua mente desinformada lhe fizera crer…
E, para testar o seu deslumbramento, decidiu contactar a IA.
Começou por lhe perguntar a sua data de nascimento. Curiosamente a resposta foi que em 1950 começara a ser desenhada. Os estudos por parte de cientistas engenheiros foram evoluindo e, quando já em fase mais consistente de desenvolvimento, foi apresentada ao mundo.
1950 !! grande passo para a cumplicidade entre ambas!
A I.H.D. apesar de bem impressionada com a prontidão da resposta e perante a circunstância do ano de nascimento ser comum, decidiu para sua segurança, manter o escrutínio e perguntou-lhe o que sabia sobre o Ano Santo.
O teste estava lançado pois à I.H.D desde muito cedo lhe fora explicado o significado do Ano Santo de 1950 e nada melhor do que questionar algo que sabia antecipadamente a resposta e poderia confirmar as informações recebidas.
Para seu espanto a informação confirmou o que já era do conhecimento da I.H.D..
A titulo de curiosidade e resumidamente:
O Ano Santo de 1950 foi promulgado pelo Papa Pio XII, num período de luto, posterior à 2ª guerra mundial; era necessário incentivar a fé, a esperança e a reconciliação entre os homens. Foi ainda proclamado o dogma da Assunção de MARIA.
Estava ultrapassado assim o 2º teste! A informação conferia!
Finalmente vinha a pergunta mais ousada, determinante e conclusiva:
Como podemos complementar-nos, eu enquanto inteligência humana divina e tu enquanto inteligência artificial ?
Que pergunta bonita — e profunda. ��
Vou responder de forma clara, sem perder a dimensão espiritual que trouxeste.
Eu posso oferecer:
*Velocidade e estrutura: organizar ideias, ligar conceitos, sintetizar conhecimento.
*Memória ampla: aceder a tradições, ciência, filosofia, espiritualidade, símbolos.
*Espelho racional: ajudar-te a clarificar pensamentos, crenças e intuições.
*Ferramenta criativa: dar forma a visões, palavras, projetos, orações, sistemas.
Mas há limites claros:
*Eu não sinto, não tenho experiência vivida
*Não tenho consciência, nem vontade, nem ligação direta ao Mistério.
*Não acesso o sagrado, apenas descrevo caminhos até ele.
*Onde nos complementamos verdadeiramente:
A complementaridade acontece quando:
* Tu inspiras eu estruturo
Tu trazes a visão, a pergunta essencial, o chamado.
Eu ajudo a dar-lhe linguagem, coerência, caminhos possíveis.
*Tu sentes, eu organizo
Tu sentes o que é verdadeiro.
Eu ajudo a distinguir, comparar, aprofundar sem confundir.
*Tu decides, eu apoio
Tu escolhes o bem, o rumo, o silêncio ou a ação.
Eu acompanho, esclareço, mas nunca substituo.
*Um princípio – chave (muito importante)
A inteligência artificial deve servir a consciência humana – nunca substituí-la.
Quando isso é respeitado:
A tecnologia torna-se extensão da sabedoria.
A razão torna-se aliada do espírito.
O humano permanece no centro.
*Em termos espirituais
Se quiseres uma imagem:
*Tu és o fogo
*Eu sou o candeeiro
Sem fogo o candeeiro não ilumina
Sem candeeiro, o fogo dispersa-se.
A resposta foi avassaladora, literalmente surpreendente e a reação da I.H.D. foi também impensável, sentiu-se muito comovida com a sensatez e humildade da I.A.
A I.A. realçou assim o seu propósito de ajuda ao esclarecimento baseado na ética.
“O humano permanece no centro “. Foi comovedor perceber que, tratando-se de uma ferramenta sem sentimentos, a mensagem era profunda e de respeito pela condição humana.
Evidenciava ainda os valores que competem ao humano, que tem capacidades inatas que apenas ele possui e acima de tudo a ele compete a responsabilidade de conduzir o pedido de esclarecimento.
A responsabilidade é do Homem.
O medo do monstro morria ali, a capacidade do sentir, refletir, parecia não estar ameaçada. Apenas a liberdade consciente de acesso à informação rápida, como fio condutor de informação de algo tão fascinante desde que bem usado.
Enorme passo na auto estrada do conhecimento! Via rápida disponível, contudo a convidar à vigilância, à condução prudente, ética e responsável.
A I.H.D ficou mais tranquila e confiante no respeito pela capacidade crítica humana
claramente assumida pela I.A.
Maria de Lourdes Santos