01/07/2026

EURÍDICE: O ELIXIR E O TEMPO

 

“De manhã, o cheiro do café chamava por Eurídice. Dizia sempre que, sem ele, não

funcionava — não a figura trágica do mito, mas a mulher real para quem esse ‘vinho da

Arábia’ era um bálsamo para a alma e um passaporte para outras latitudes.

Ao primeiro gole, era transportada de volta à fazenda do avô, em Angola. Via de novo o

mar de bagas vermelhas adormecido sob o cacimbo matinal e sentia o silêncio húmido da

terra antes de o sol subir. Ao entardecer, as batucadas que vinham das cubatas ecoavam na

memória e, depois, surgia o luar — o luar africano, vasto, absoluto e quase impossível.

Nessas noites, lia em voz alta Fernando Pessoa, como quem acende uma vela para guiar a

lembrança: ‘E eu de pé ante a janela, vi todo o luar de toda a África inundar a paisagem e

o meu sonho.’

Mas hoje, o entardecer é pálido e curto. A noite cai abrupta, sem a cerimónia do horizonte

africano. De manhã, a geada tolhe-lhe as mãos e a paisagem é recortada por muradas altas

que limitam o olhar. Nesta etapa da vida, as memórias da fazenda amadureceram sob o

peso das pálpebras; o prisma mudou, e as coisas sentidas são agora outras.

Neste outono de si mesma, sobram a Eurídice os pequenos prazeres colhidos com lentidão.

O café da manhã é tomado no alpendre térreo, sob o abrigo das heras que se estendem

para o jardim. Ali, entre o cuidado com as rosas, ela rega um cafezeiro num vaso — um

monumento vivo erguido em memória do avô, das vidas interrompidas e do tempo que

 não volta. Observa o vaivém das andorinhas-dos-beirais, regressando aos ninhos de lama,

 nos ângulos do varandim. Lá como cá, as andorinhas unem o tempo num voo circular. O 

cheiro do café continua a chamar por ela, o elixir negro enrolando-se agora num céu 

diferente, apaladando a sua existência.

Na mesinha de apoio, repousa o diário de uma vida que reescreve memórias. Numa página

entreaberta, a caligrafia da página 98 — datada da década de cinquenta na África Oriental

— revela o acerto de contas com o destino:

‘…quase sempre errei nas escolhas, e quando acertei não o soube reconhecer. As escolhas

da metade que desconheço nem sempre são nossas; são do tempo — cíclicas, sazonais,

impiedosas. Repetem-se independentemente da nossa vontade...’

E, a fechar o pensamento, a frase do filósofo ecoa como um remate à voracidade dos dias:

‘Nada de revolta: honremos as idades nas suas quedas sucessivas e o tempo na sua

voracidade.’ Eurídice pousa a chávena. O café está terminado, mas o bálsamo permanece.”


Vasco Patrício

06/05/2026

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