“De manhã, o cheiro do café chamava por Eurídice. Dizia sempre que, sem ele, não
funcionava — não a figura trágica do mito, mas a mulher real para quem esse ‘vinho da
Arábia’ era um bálsamo para a alma e um passaporte para outras latitudes.
Ao primeiro gole, era transportada de volta à fazenda do avô, em Angola. Via de novo o
mar de bagas vermelhas adormecido sob o cacimbo matinal e sentia o silêncio húmido da
terra antes de o sol subir. Ao entardecer, as batucadas que vinham das cubatas ecoavam na
memória e, depois, surgia o luar — o luar africano, vasto, absoluto e quase impossível.
Nessas noites, lia em voz alta Fernando Pessoa, como quem acende uma vela para guiar a
lembrança: ‘E eu de pé ante a janela, vi todo o luar de toda a África inundar a paisagem e
o meu sonho.’
Mas hoje, o entardecer é pálido e curto. A noite cai abrupta, sem a cerimónia do horizonte
africano. De manhã, a geada tolhe-lhe as mãos e a paisagem é recortada por muradas altas
que limitam o olhar. Nesta etapa da vida, as memórias da fazenda amadureceram sob o
peso das pálpebras; o prisma mudou, e as coisas sentidas são agora outras.
Neste outono de si mesma, sobram a Eurídice os pequenos prazeres colhidos com lentidão.
O café da manhã é tomado no alpendre térreo, sob o abrigo das heras que se estendem
para o jardim. Ali, entre o cuidado com as rosas, ela rega um cafezeiro num vaso — um
monumento vivo erguido em memória do avô, das vidas interrompidas e do tempo que
não volta. Observa o vaivém das andorinhas-dos-beirais, regressando aos ninhos de lama,
nos ângulos do varandim. Lá como cá, as andorinhas unem o tempo num voo circular. O
cheiro do café continua a chamar por ela, o elixir negro enrolando-se agora num céu
diferente, apaladando a sua existência.
Na mesinha de apoio, repousa o diário de uma vida que reescreve memórias. Numa página
entreaberta, a caligrafia da página 98 — datada da década de cinquenta na África Oriental
— revela o acerto de contas com o destino:
‘…quase sempre errei nas escolhas, e quando acertei não o soube reconhecer. As escolhas
da metade que desconheço nem sempre são nossas; são do tempo — cíclicas, sazonais,
impiedosas. Repetem-se independentemente da nossa vontade...’
E, a fechar o pensamento, a frase do filósofo ecoa como um remate à voracidade dos dias:
‘Nada de revolta: honremos as idades nas suas quedas sucessivas e o tempo na sua
voracidade.’ Eurídice pousa a chávena. O café está terminado, mas o bálsamo permanece.”
Vasco Patrício
06/05/2026
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