Anunciava-se mais de um milhão de pessoas para os três
dias principais das festas da região. Toda a Zona Norte falava e se mobilizava
para festas únicas, por serem um espelho das ancestrais tradições daquelas
terras. As principais ruas da vila, com as suas casas apalaçadas, varandas
engalanadas, eram o espelho do esplendor de riqueza de outrora. A zona
ribeirinha, com a ponte velha com arcos coloridos, dava as boas-vindas aos
veraneantes. Na margem esquerda do rio, a sul e a norte da ponte milenária, as
tendas de vendedores ambulantes inundavam o espaço, deixando apenas livres as
áreas destinadas à praia fluvial com as suas zonas de relva e areia para os
banhistas apanharem sol e mergulharem nas piscinas naturais que os diversos
açudes oferecem. Vistas de cima da ponte, as tendas fazem pensar o veraneante: desde
roupas, calçado, ferramentas para a agricultura e afins, até aos produtos
alimentares da região, presuntos, chouriços, e todo o tipo de charcutaria, toda
aquela azáfama fez pensar o nosso viajante. Tendas fixas com coberturas de lona,
amarradas por cordas e ferros, mas também produtos espalhados pelo chão, tudo é
oferecido com preços atrativos. A “economia paralela” na sua mais evidente
expressão. “O que seria destas famílias, de vendedores e de compradores, se
tivessem que pagar impostos sobre tudo o que vendem/compram?”, ouvia-se a um
grupo que passava. No meio das tendas e ao longo das ruas da vila não faltavam
outras tendas de oferta de comida, de bebida e de diversão.
Antes da hora de atuação das tunas e de grupos
musicais de diversas aldeias da região, um grupo de convidados, vindos do sul
do país, de aproximadamente vinte e cinco rapazes entre os vinte e trinta anos,
divertia-se num pequeno bar erguendo copos de cerveja e ensaiando o seu cante
alentejano, para a atuação no dia seguinte. Quadras soltas, bem apimentadas,
vozes graves e bem afinadas faziam levantar os pelos dos mais sensíveis, pela
música que vem do fundo da alma. Nas praças, pequenos grupos de concertinas iam
ensaiando a atuação do dia seguinte no cortejo etnográfico. Fados de Coimbra na
parte mais alta da vila mobilizavam os mais saudosistas de Menano, Bettencourt
e José Afonso. Noite fora, os milhares de pessoas movimentavam-se para ver,
para comer e beber e apreciar o ambiente festivo.
No dia do cortejo etnográfico, mais de trinta grupos
desfilaram pelas ruas principais da vila. Os que estavam no fim do percurso
esperaram mais de três horas para ver chegar o primeiro grupo e outras três
horas para verem chegar o último grupo. Carros de bois engalanados, tratores
revestidos a preceito, pequenas camionetas de caixa aberta com grupo de
cantores e tocadores sentados em escadaria montada na parte da carga, mostravam
à multidão, de pé ou sentada em bancos móveis, toda a panóplia de atividades agrícolas.
Moinhos de azeite, moinhos de cereais, toda a parafernália de objetos agrícolas,
todo o tipo de produtos era mostrado com a alegria incentivada pelos grupos de
zés pereiras e de cabeçudos, normalmente à frente de cada representação local. Para
alegrar e dar mais colorido, um dos grupos simulou a alegria de três mulheres
bêbedas, cantando e discutindo, rua abaixo. Uma luta de paus pela disputa de
namorada fez reviver as tradições dos jogos e das habilidades para conquistar a
preferência das raparigas.
Num palco preparado a preceito numa das praças da
vila, pelas dez horas da noite começou um espetáculo que atraiu multidões noite
fora, até de madrugada. Entrou em cena o primeiro grupo de “Cantadores ao Desafio”,
um homem e uma mulher, provocando-se sem parar com as mais divertidas cantigas
improvisadas, qual delas a mais picante e provocatória, cantigas
obrigatoriamente bem rimadas. No público, várias eram as reações: uns rindo às
gargalhadas, lágrimas nos olhos, explosões de alegria; outros observavam o
cantadeiro e a cantadeira com ar sereno e intrigante, concentrados no que
ouviam. O nosso viajante interrogava-se sobre esta reação tão serena, tão
intrigante. Não resistiu e perguntou a um sorumbático grupo de espectadores o
que eles pensavam do que estavam a ver e ouvir. Resposta pronta: “Estamos a ver
se eles respeitam as rimas!” “E isso é assim tão importante?” perguntou o nosso
turista. “É sim, meu caro senhor, eles têm que cumprir as regras, isso é mais
importante que a história que contam, falam de tudo, criticam tudo e têm que
ter argumentos e contra-argumentos que façam sentido e rimem!”, protestava um
outro elemento do grupo de habituais frequentadores destes desafios. “Então,
mas eles dizem tantos disparates e brincam com tanta graça e isso não vos faz
rir?”, perguntou o veraneante. “Vamos estar aqui pela noite fora, vamos ouvir
muitas estórias, algumas já conhecemos de outras paragens, estamos habituados a
aguentar as lágrimas de riso”, concluíram. Outros grupos de cantadores ao
desafio se seguiram. O grupo do nosso turista não aguentou tanta risada. “Vamos
embora, onde haverá casas de banho?”.
Os amigos, que por ali andaram durante dois dias,
regressaram à cidade deliciados, uns porque nunca tinham visto semelhante
manifestação de tradições populares, outros porque aqueles dias foram como que
um certo regresso às suas infâncias de vida campestre. Prometeram voltar e
convencer outros amigos a ir às Feiras Novas, em agosto, naquelas terras
banhadas pelo Rio Lima, uma vila tão bela que se recusa a que a transformem em
cidade.
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