01/12/2025

VIAGEM À MINHA INFÂNCIA

 

Anunciava-se mais de um milhão de pessoas para os três dias principais das festas da região. Toda a Zona Norte falava e se mobilizava para festas únicas, por serem um espelho das ancestrais tradições daquelas terras. As principais ruas da vila, com as suas casas apalaçadas, varandas engalanadas, eram o espelho do esplendor de riqueza de outrora. A zona ribeirinha, com a ponte velha com arcos coloridos, dava as boas-vindas aos veraneantes. Na margem esquerda do rio, a sul e a norte da ponte milenária, as tendas de vendedores ambulantes inundavam o espaço, deixando apenas livres as áreas destinadas à praia fluvial com as suas zonas de relva e areia para os banhistas apanharem sol e mergulharem nas piscinas naturais que os diversos açudes oferecem. Vistas de cima da ponte, as tendas fazem pensar o veraneante: desde roupas, calçado, ferramentas para a agricultura e afins, até aos produtos alimentares da região, presuntos, chouriços, e todo o tipo de charcutaria, toda aquela azáfama fez pensar o nosso viajante. Tendas fixas com coberturas de lona, amarradas por cordas e ferros, mas também produtos espalhados pelo chão, tudo é oferecido com preços atrativos. A “economia paralela” na sua mais evidente expressão. “O que seria destas famílias, de vendedores e de compradores, se tivessem que pagar impostos sobre tudo o que vendem/compram?”, ouvia-se a um grupo que passava. No meio das tendas e ao longo das ruas da vila não faltavam outras tendas de oferta de comida, de bebida e de diversão.

Antes da hora de atuação das tunas e de grupos musicais de diversas aldeias da região, um grupo de convidados, vindos do sul do país, de aproximadamente vinte e cinco rapazes entre os vinte e trinta anos, divertia-se num pequeno bar erguendo copos de cerveja e ensaiando o seu cante alentejano, para a atuação no dia seguinte. Quadras soltas, bem apimentadas, vozes graves e bem afinadas faziam levantar os pelos dos mais sensíveis, pela música que vem do fundo da alma. Nas praças, pequenos grupos de concertinas iam ensaiando a atuação do dia seguinte no cortejo etnográfico. Fados de Coimbra na parte mais alta da vila mobilizavam os mais saudosistas de Menano, Bettencourt e José Afonso. Noite fora, os milhares de pessoas movimentavam-se para ver, para comer e beber e apreciar o ambiente festivo.

No dia do cortejo etnográfico, mais de trinta grupos desfilaram pelas ruas principais da vila. Os que estavam no fim do percurso esperaram mais de três horas para ver chegar o primeiro grupo e outras três horas para verem chegar o último grupo. Carros de bois engalanados, tratores revestidos a preceito, pequenas camionetas de caixa aberta com grupo de cantores e tocadores sentados em escadaria montada na parte da carga, mostravam à multidão, de pé ou sentada em bancos móveis, toda a panóplia de atividades agrícolas. Moinhos de azeite, moinhos de cereais, toda a parafernália de objetos agrícolas, todo o tipo de produtos era mostrado com a alegria incentivada pelos grupos de zés pereiras e de cabeçudos, normalmente à frente de cada representação local. Para alegrar e dar mais colorido, um dos grupos simulou a alegria de três mulheres bêbedas, cantando e discutindo, rua abaixo. Uma luta de paus pela disputa de namorada fez reviver as tradições dos jogos e das habilidades para conquistar a preferência das raparigas.

Num palco preparado a preceito numa das praças da vila, pelas dez horas da noite começou um espetáculo que atraiu multidões noite fora, até de madrugada. Entrou em cena o primeiro grupo de “Cantadores ao Desafio”, um homem e uma mulher, provocando-se sem parar com as mais divertidas cantigas improvisadas, qual delas a mais picante e provocatória, cantigas obrigatoriamente bem rimadas. No público, várias eram as reações: uns rindo às gargalhadas, lágrimas nos olhos, explosões de alegria; outros observavam o cantadeiro e a cantadeira com ar sereno e intrigante, concentrados no que ouviam. O nosso viajante interrogava-se sobre esta reação tão serena, tão intrigante. Não resistiu e perguntou a um sorumbático grupo de espectadores o que eles pensavam do que estavam a ver e ouvir. Resposta pronta: “Estamos a ver se eles respeitam as rimas!” “E isso é assim tão importante?” perguntou o nosso turista. “É sim, meu caro senhor, eles têm que cumprir as regras, isso é mais importante que a história que contam, falam de tudo, criticam tudo e têm que ter argumentos e contra-argumentos que façam sentido e rimem!”, protestava um outro elemento do grupo de habituais frequentadores destes desafios. “Então, mas eles dizem tantos disparates e brincam com tanta graça e isso não vos faz rir?”, perguntou o veraneante. “Vamos estar aqui pela noite fora, vamos ouvir muitas estórias, algumas já conhecemos de outras paragens, estamos habituados a aguentar as lágrimas de riso”, concluíram. Outros grupos de cantadores ao desafio se seguiram. O grupo do nosso turista não aguentou tanta risada. “Vamos embora, onde haverá casas de banho?”.

Os amigos, que por ali andaram durante dois dias, regressaram à cidade deliciados, uns porque nunca tinham visto semelhante manifestação de tradições populares, outros porque aqueles dias foram como que um certo regresso às suas infâncias de vida campestre. Prometeram voltar e convencer outros amigos a ir às Feiras Novas, em agosto, naquelas terras banhadas pelo Rio Lima, uma vila tão bela que se recusa a que a transformem em cidade.

Vitor Carvalho 
novembro de 2025


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