Era
Verão! O bom tempo convidava ao passeio e entre várias hipóteses, a mais votada
foi “UM PASSEIO AO ALENTEJO”, garantidamente hospitaleiro e especial.
A
meta escolhida foi Moura onde a gastronomia seria o culminar da aprazível viagem!
Saímos
de Lisboa de manhã cedo e a primeira paragem foi em Évora. Tomado o café,
acompanhado da saborosa queijada de requeijão, iniciávamos assim o prelúdio
gastronómico dos sentidos.
O
calor já marcava território e, para preservarmos a energia que seria necessária
para o programa estipulado, contornámos a Praça do Giraldo sob as suas icónicas
arcadas que nos protegiam do sol.
Aí deparámo-nos
com uma ave que se refugiava nas mesmas.
Aproximámo-nos,
estava cansada, evadira-se do seu refúgio doméstico e ali lutava pela sobrevivência,
na ausência do que seria a sua zona de conforto. Aproximámo-nos e rapidamente
se rendeu e entregou aos nossos cuidados
Agora
era imperativo tomar decisões urgentemente e estabelecer prioridades!
Voltámos
à pastelaria, pedimos uma caixa que perfurámos para o transporte ser mais
cómodo, e ainda água para a hidratação desejável à manutenção da sua saúde.
A
segunda medida foi a tentativa de a encaminhar para uma instituição, e para tal
dirigimo-nos a um polícia local que nos aconselhou ir à GNR, o que fizemos
imediatamente.
Aí
começou o caricato drama/comédia.
O
Agente lia o jornal que só abandonou decorrido algum tempo e erguendo o olhar
com expressão contrariada, nos perguntou o que pretendíamos. Explicámos
detalhadamente a ocorrência bem como a pretensão. Para nossa surpresa e
estupefação informou-nos que não podia receber o animal e seríamos nós os
responsáveis pelo achado, que seria objeto da emissão de um auto nesse sentido.
Dirigiu-se
a uma máquina de datilografia, modelo muito antigo mas funcional.
Encontrar
papel foi o desafio seguinte. Procurou, procurou e finalmente descobriu uma
resma guardada num armário metálico e distante.
Reunidas
as condições, começava então a elaboração do auto onde ficaria registada a
ocorrência bem como a identificação do responsável máximo.
Solenemente
feita a pergunta” quem se oferecia”, mais uma vez a nossa reação foi de
espanto, mas mais uma vez ultrapassámos a situação e a minha filha, numa
atitude solidária, ofereceu-se prontamente.
Decorrida
a fase burocrática a ave pertencia ao clã e a madrinha escolheu o nome para a afilhada
em homenagem ao nosso periquito que morrera numa gaiola dourada que mas, apesar
de tudo, a morte venceu e o periquito morreu!
Parecia
que iríamos finalmente retomar a nossa viagem quando, ao passarmos no Centro
Histórico, na rua do comércio de artesanato, decidi entrar numa loja e pedir
uma caixa maior para o transporte da nossa afilhada.
Ao
abordar a situação, o comerciante mostrou-se recetivo e ofereceu uma caixa de papelão
onde o atual T0 seria substituído por um T4 e em simultâneo mostrou curiosidade
de conhecer o inquilino do “apartamento”
que estava a oferecer a custo zero.
Identificou-o
rapidamente como uma “caturra” e, com
enorme entusiasmo, mencionou cuidados concretos a termos com ela.
Tivera uma que morrera e com enorme emoção chamou
o filho e a sogra que estavam no andar superior da loja. Rapidamente desceram e
todos com evidente paixão e saudade recordaram a sua falecida!
Despedimo-nos,
retomámos o nosso percurso já com a afilhada bem instalada no novo espaço.
Perante o calor e o adiantado da hora
decidimos almoçar em Évora.
Durante
o almoço e em constante vigilância ao “apartamento e respetivo inquilino”,
ocorreu uma inspiração contagiante, um sentimento de união na causa comum que
nos ligava.
Todos
desejávamos contribuir para o bem-estar da nossa afilhada.
Decidimos
por magia simultânea voltar à loja e oferecer a caturra àquela família,
convictos que seria o melhor a fazer naquele contexto.
Novamente
o filho e avó desceram e, carinhosa e alegremente receberam a oferta.
Porém,
rapidamente a burocracia falou mais alto e fomos de novo ao Posto da GNR
atualizar a situação, onde mais uma vez
causámos desconforto. O auto foi atualizado e a caturra passava então a ter um
jovem padrinho responsável por ela. Concluído o processo de doação
despedimo-nos com a convicção que a nossa ex afilhada continuaria a viver em
Évora e certamente numa boa família de acolhimento onde seria feliz e onde ocuparia
o “apartamento” da caturra falecida.
Continuámos
a nossa viagem, com a sensação de missão cumprida. Decidimos ir jantar a Mourão
aonde ainda conseguimos visitar o Castelo e onde a gastronomia não nos
desiludiu.
Foi
um dia hilariante. Apesar das surpresas e respetivas alterações inerentes, nada
perturbou a nossa alegria e determinação.
Superámos
da melhor forma o que foi acontecendo ao longo do dia. Considerámos que o
agente da autoridade deveria ser mais flexível às situações que no seu local de
trabalho ocorrem.
A
felicidade também resulta das atitudes que assumimos perante as surpresas que a
vida nos apresenta.
O
meu querido Alentejo foi o palco desta peça escrita naturalmente pela VIDA e
sua imprevisibilidade e todos os intervenientes fomos os atores que lhe deram
vida.
Quando
estamos em união de causas e ideais reunimos meios para superar dificuldades sem
nos vitimizarmos, isto é, a paz e alegria mantêm-se presentes e dão-nos forças
para prosseguir fiéis a nós próprios.
A
aparente exceção talvez tenha sido o personagem GNR cuja postura não contribuiu
para a sua felicidade nem para a felicidade geral. Porém, e porque foi um elemento
isolado, não teve a força suficiente para destruir os nossos sonhos….
O
meu querido, inesquecível e saudoso Alentejo continua vivo no meu coração.
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