01/12/2025

INESQUECÍVEL E HILARIANTE PASSEIO AO ALENTEJO


Era Verão! O bom tempo convidava ao passeio e entre várias hipóteses, a mais votada foi “UM PASSEIO AO ALENTEJO”, garantidamente hospitaleiro e especial.

A meta escolhida foi Moura onde a gastronomia seria o culminar da aprazível viagem!

Saímos de Lisboa de manhã cedo e a primeira paragem foi em Évora. Tomado o café, acompanhado da saborosa queijada de requeijão, iniciávamos assim o prelúdio gastronómico dos sentidos.

O calor já marcava território e, para preservarmos a energia que seria necessária para o programa estipulado, contornámos a Praça do Giraldo sob as suas icónicas arcadas que nos protegiam do sol.

Aí deparámo-nos com uma ave que se refugiava nas mesmas.

Aproximámo-nos, estava cansada, evadira-se do seu refúgio doméstico e ali lutava pela sobrevivência, na ausência do que seria a sua zona de conforto. Aproximámo-nos e rapidamente se rendeu e entregou aos nossos cuidados

Agora era imperativo tomar decisões urgentemente e estabelecer prioridades!

Voltámos à pastelaria, pedimos uma caixa que perfurámos para o transporte ser mais cómodo, e ainda água para a hidratação desejável à manutenção da sua saúde.

A segunda medida foi a tentativa de a encaminhar para uma instituição, e para tal dirigimo-nos a um polícia local que nos aconselhou ir à GNR, o que fizemos imediatamente.

Aí começou o caricato drama/comédia.

O Agente lia o jornal que só abandonou decorrido algum tempo e erguendo o olhar com expressão contrariada, nos perguntou o que pretendíamos. Explicámos detalhadamente a ocorrência bem como a pretensão. Para nossa surpresa e estupefação informou-nos que não podia receber o animal e seríamos nós os responsáveis pelo achado, que seria objeto da emissão de um auto nesse sentido.

Dirigiu-se a uma máquina de datilografia, modelo muito antigo mas funcional.

Encontrar papel foi o desafio seguinte. Procurou, procurou e finalmente descobriu uma resma guardada num armário metálico e distante.

Reunidas as condições, começava então a elaboração do auto onde ficaria registada a ocorrência bem como a identificação do responsável máximo.

Solenemente feita a pergunta” quem se oferecia”, mais uma vez a nossa reação foi de espanto, mas mais uma vez ultrapassámos a situação e a minha filha, numa atitude solidária, ofereceu-se prontamente.

Decorrida a fase burocrática a ave pertencia ao clã e a madrinha escolheu o nome para a afilhada em homenagem ao nosso periquito que morrera numa gaiola dourada que mas, apesar de tudo, a morte venceu e o periquito morreu!

Parecia que iríamos finalmente retomar a nossa viagem quando, ao passarmos no Centro Histórico, na rua do comércio de artesanato, decidi entrar numa loja e pedir uma caixa maior para o transporte da  nossa afilhada.

Ao abordar a situação, o comerciante mostrou-se recetivo e ofereceu uma caixa de papelão onde o atual T0  seria  substituído por um T4 e em simultâneo mostrou curiosidade de conhecer  o inquilino do “apartamento” que estava a oferecer a custo zero.

Identificou-o rapidamente como uma “caturra” e,  com enorme entusiasmo, mencionou cuidados concretos a termos com ela.

 Tivera uma que morrera e com enorme emoção chamou o filho e a sogra que estavam no andar superior da loja. Rapidamente desceram e todos com evidente paixão e saudade recordaram a sua falecida!

Despedimo-nos, retomámos o nosso percurso já com a afilhada bem instalada no novo espaço.

 Perante o calor e o adiantado da hora decidimos almoçar em Évora.

Durante o almoço e em constante vigilância ao “apartamento e respetivo inquilino”, ocorreu uma inspiração contagiante, um sentimento de união na causa comum que nos ligava.

Todos desejávamos contribuir para o bem-estar da nossa afilhada.

Decidimos por magia simultânea voltar à loja e oferecer a caturra àquela família, convictos que seria o melhor a fazer naquele contexto.

Novamente o filho e avó desceram e, carinhosa e alegremente receberam a oferta.

Porém, rapidamente a burocracia falou mais alto e fomos de novo ao Posto da GNR atualizar a situação, onde  mais uma vez causámos desconforto. O auto foi atualizado e a caturra passava então a ter um jovem padrinho responsável por ela. Concluído o processo de doação despedimo-nos com a convicção que a nossa ex afilhada continuaria a viver em Évora e certamente numa boa família de acolhimento onde seria feliz e onde ocuparia o “apartamento” da caturra falecida.

Continuámos a nossa viagem, com a sensação de missão cumprida. Decidimos ir jantar a Mourão aonde ainda conseguimos visitar o Castelo e onde a gastronomia não nos desiludiu.

Foi um dia hilariante. Apesar das surpresas e respetivas alterações inerentes, nada perturbou a nossa alegria e determinação.

Superámos da melhor forma o que foi acontecendo ao longo do dia. Considerámos que o agente da autoridade deveria ser mais flexível às situações que no seu local de trabalho ocorrem.

A felicidade também resulta das atitudes que assumimos perante as surpresas que a vida nos apresenta.

O meu querido Alentejo foi o palco desta peça escrita naturalmente pela VIDA e sua imprevisibilidade e todos os intervenientes fomos os atores que lhe deram vida.

Quando estamos em união de causas e ideais reunimos meios para superar dificuldades sem nos vitimizarmos, isto é, a paz e alegria mantêm-se presentes e dão-nos forças para prosseguir fiéis a nós próprios.

A aparente exceção talvez tenha sido o personagem GNR cuja postura não contribuiu para a sua felicidade nem para a felicidade geral. Porém, e porque foi um elemento isolado, não teve a força suficiente para destruir os nossos sonhos….

O meu querido, inesquecível e saudoso Alentejo continua vivo no meu coração.

Maria de Lourdes Santos
19 de Novembro de 2025

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