Uma
primeira decisão de avaliar o potencial da construção de uma represa no Rio
Guadiana, no Baixo Alentejo, foi tomada no ano de 1993. Dois anos mais tarde, o
governo de então decidiu avançar com o projeto de construção da barragem, uma
visão estratégica que ambicionava um desenvolvimento energético e económico
para boa parte do Alentejo. Alguns anos de construção, e finalmente em 2004 era
inaugurado o maior lago artificial da Europa, com 1.100 km de margens, que une
cinco concelhos alentejanos. Investidores
portugueses e estrangeiros apostaram na produção agrícola de bens de elevado
consumo de água, vencendo a histórica escassez. A água do Alqueva trouxe
oportunidades de exploração agrícola no Alentejo como nunca tinha acontecido
naquela região. Com a abundância de água vieram os investimentos, mas faltava a
mão de obra, tradicionalmente escassa no sul de Portugal. A solução foi abrir
as portas a mão de obra estrangeira – do Paquistão, do Bangladesh, do Nepal e
da Índia, principalmente, vieram milhares de trabalhadores, para quem os baixos
salários alentejanos eram bem superiores aos salários dos seus países de
origem. A paisagem humana de muitas aldeias alentejanas transformou-se, com
estes novos habitantes.
Novos e relevantes investimentos
na preparação para novas e velhas culturas agrícolas trouxeram muitas máquinas
para os campos. Na ausência de armazéns apropriados, muitos desses materiais para
utilização agrícola ficavam de noite ao relento: fio de cobre para controlo dos
motores das bombas, dos sistemas de controlo, da iluminação, dos sensores que
monitorizam a humidade do solo e outras aplicações. Num fim de semana, parte
desse material foi roubado. Na vastidão da planície e na escuridão das noites
de lua nova, ninguém pôde testemunhar ao vivo e acusar o autor dessa façanha.
Criou-se uma suspeição sobre quem poderia estar interessado nesse material,
para uso pessoal ou para venda de um bem tão caro e tão procurado, como é o
cobre. A GNR tomou conta da ocorrência e pediu ajuda à Polícia Judiciária. Um amolador
de tesouras, de facas e de outros instrumentos de corte, que visitava
frequentemente as aldeias da região, referiu numa taberna que se tinha cruzado,
altas horas da noite, com um grupo de cavalos puxando carroças a alta
velocidade, alumiadas por lanternas de pilhas, que lhe causou estranheza, mas
que não pôde identificar pessoas. Pela força das chicotadas nos cavalos,
pareceu-lhe que aquele grupo estava em fuga de alguma maldade cometida. Pareceu-lhe
ouvir gritar por “verdasca”, mas não percebeu se era ordem para malhar nos
cavalos ou chamamento por alguém.
- Então a Polícia
Judiciária já pode ter aí uma pista, respondeu o amolador.
- Ontem esteve aqui o Zé Varosa, que pertence ao novo partido, o tal que quer limpar o país desses malfeitores, que vivem do contrabando, da droga e de subsídios. Falámos no assunto do roubo do cobre e concluímos que esse Verdasca anda de carro de luxo, não me parece que tenha dificuldades, referiu o taberneiro.
No processo judicial que
resultou das investigações da PJ, iniciadas a partir de uma denúncia anónima,
foi a tribunal o citado indivíduo conhecido por Verdasca. Um jovem advogado
vindo de Lisboa, conhecido do arguido, foi contratado para o defender. E
conseguiu provar que não havia provas, pelo que o dito Verdasca foi ilibado. Na
comunidade, o jovem advogado ficou com a fama de grande causídico, embora jovem
e de proveniência onde o grau de instrução é muito baixo.
Alguns meses passaram depois do julgamento. Foi comprado material para substituir o que fora roubado. As novas explorações agrícolas estavam já em pleno funcionamento. As aldeias da região, outrora em processo de esvaziamento populacional, eram agora habitadas em grande parte por imigrantes vindos da Ásia.
Entretanto, uma jovem indiana, Ujala, de dezassete anos, ficou grávida. Não se sabia, nem ela, quem era o pai da criança. A jovem dizia apenas que um senhor que se apresentou como o dono da herdade, falando inglês, lhe pediu várias vezes para ir limpar a casa, levando-a e trazendo-a de automóvel. E disse também que nessa casa ele lhe deu dinheiro e lhe fez promessas de vir a ter um papel importante naquela herdade, forçando-a a ter relações sexuais.
Passaram quatro meses depois da primeira ida da moça à casa da herdade, e a partir daí ela confessou aos colegas que algo de estranho se passava na sua barriga. Não sabia o nome de quem a tinha violado, não sabia o tipo de carro que ele usou, só dizia que era alto e forte e que falava bem inglês. Os habitantes da aldeia não reconheceram ninguém com aquela descrição. Assumiram que ela estava a tentar culpar algum senhorio para receber as tão prometidas recompensas e que, vivendo numa casa com muitos colegas, não saberia quem era o pai da criança.
A criança nasceu, saudável e com aspeto europeu. Foi acarinhada por todos os amigos da jovem e teve uma evolução normal. A discussão sobre a paternidade foi lentamente saindo da ordem do dia.
Dois anos passaram. As aldeias da região encheram-se de cartazes de propaganda eleitoral para as eleições autárquicas. A maioria deles apelava ao voto de mudança. “Vamos acabar com a corrupção”, “Vamos limpar o país”, “Imigrantes para a sua terra”. Na comunidade dos novos habitantes das aldeias do Baixo Alentejo a apreensão era notória. “Vamos ser expulsos?”, comentavam. “E quem vai fazer o nosso trabalho, não há aqui mais ninguém para trabalhar! Pagámos tanto dinheiro para vir para aqui e agora vamos embora? Não temos direitos, não temos apoios, quem nos vai valer? E a Ujala, que tem nos braços um filho de português, quem lhe vai valer? protestavam ansiosos.
Especulava-se que o pai da criança poderia ser o putativo ladrão do cobre, que só aparecia de vez em quando. Ele negava, dizendo apenas que era meio escuro e a criança era bem clara. Da fama não se livrou, e a moça não estava segura para o denunciar.
Chegaram outros cartazes do novo partido, a inundar a aldeia onde aquela comunidade vivia, com fotografia do candidato á Camara Municipal do concelho ao lado de um conhecido político nacional.
- Foi aquele, foi aquele, gritava a Ujala, apontando para um cartaz onde apareciam duas figuras, a de um político nacional e a do líder desse partido na região. Quem abusou de mim foi aquele senhor sem gravata, aquele senhor de bigode.
Ninguém queria
acreditar. O candidato não mais apareceu naquela aldeia durante a campanha
eleitoral. Entretanto, rapou o bigode…
Vitor Carvalho
novembro de 2025
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