01/12/2025

RESILIÊNCIA


Em Memória de todos os jovens
vítimas dos campos de batalha,
quando o vento uivava despido
do eco distante de todos os tiros,
 e o céu pesado e cinzento afundava
esmagando a réstia de esperança
dos dias em que nos afundávamos.

Cada movimento era uma dor nova
cada respiração doía como castigo
já não se sentia nem dedos nem medo
só fadiga surda de quem viu demais.


Quando os olhares se cruzaram, pararam;
dois homens arrastando-se pelo matagal
 igual sofrimento, bandeiras diferentes
nenhum levantou a arma. O vento amainou,
pensavam não restar ninguém naquele local.

Falavam a mesma língua e a mesma fome
sentaram-se, lado a lado junto ao tronco caído
mas já em nada acreditavam. Abraçaram-se.

O sabor do pão seco, amargo, soube pela vida.
 É a minha filha, disse tirando uma foto do bolso,
chama-se Leonor. O nome de minha irmã, escutou
falaram de casa, do cheiro a pão quente e do amor.

Levantaram-se devagar apoiados um no outro,
caminharam em direcção ao horizonte branco,
para trás o campo de batalha ficou silencioso
como se a terra esquecesse a vergonha dos homens.

O primeiro pássaro cantou, e por instantes o mundo
pareceu recordar que ainda poderia recomeçar.

 

                                                                                                         Fernando Baptista
                                                                                                Linda-a-Velha 2025.11.16





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