01/12/2025

TODOS OS DIAS ACABAMOS, TODOS OS DIAS NOS RENOVAMOS



Claro que sim — Pensa, Euclides! Todos os dias nos renovamos e morremos, mas não de
morte matada, como se costuma dizer. — São as chamadas pequenas mortes. Morremos
para que possamos renascer, dia após dia.
Dizem-nos: "Ouve com o coração." Mas como se ouve com o coração?
Euclides não sabe.
Talvez porque nem sempre pomos o coração em tudo o que fazemos, no nosso dia a dia.
Não nos entregamos por completo.
É sabido que, fisicamente, amanhã já seremos diferentes de hoje. O nosso corpo muda: há
células que morrem, outras que se renovam.
Para além dessas transformações físicas, talvez também nos renovemos noutras dimensões
— psicológicas, emocionais, espirituais. Será? Euclides não sabe. Euclides não sabe nada.
Até porque, presentemente, o que é válido hoje, amanhã já pode não valer.
A velocidade com que se vive, já nem deixa espaço para a reflexão.
Será que o que fizemos hoje valeu a pena? Acrescentámos algo a nós mesmos? A alguém?
A alguma coisa?
Sabemos apenas que o dia acabou, e que amanhã será outro dia — e que nós já seremos
diferentes. Renasceremos, talvez, para novos projetos, novas esperanças.
Uma frase hoje muito popular diz: "Viver um dia de cada vez." E, quem sabe, a voz do povo
tem razão.
A leitura que Euclides faz é que não devemos fazer projetos a longo prazo — não devemos
dar um passo maior do que o outro.
Será por aí? Talvez. Talvez ouvir-nos com o coração...
Mas Euclides não tem certezas.
Sabe, porém, que é preciso terminar o texto, porque já se passaram vinte minutos — e a
vida, nas suas obrigações quotidianas, não espera. Entretanto, passam-se mais dez minutos.
Alguma coisa vai ter de ficar para trás, porque o autocarro não espera... nem o da vida.

Vasco Patrício
2025-11-15

VIAGEM À MINHA INFÂNCIA

 

Anunciava-se mais de um milhão de pessoas para os três dias principais das festas da região. Toda a Zona Norte falava e se mobilizava para festas únicas, por serem um espelho das ancestrais tradições daquelas terras. As principais ruas da vila, com as suas casas apalaçadas, varandas engalanadas, eram o espelho do esplendor de riqueza de outrora. A zona ribeirinha, com a ponte velha com arcos coloridos, dava as boas-vindas aos veraneantes. Na margem esquerda do rio, a sul e a norte da ponte milenária, as tendas de vendedores ambulantes inundavam o espaço, deixando apenas livres as áreas destinadas à praia fluvial com as suas zonas de relva e areia para os banhistas apanharem sol e mergulharem nas piscinas naturais que os diversos açudes oferecem. Vistas de cima da ponte, as tendas fazem pensar o veraneante: desde roupas, calçado, ferramentas para a agricultura e afins, até aos produtos alimentares da região, presuntos, chouriços, e todo o tipo de charcutaria, toda aquela azáfama fez pensar o nosso viajante. Tendas fixas com coberturas de lona, amarradas por cordas e ferros, mas também produtos espalhados pelo chão, tudo é oferecido com preços atrativos. A “economia paralela” na sua mais evidente expressão. “O que seria destas famílias, de vendedores e de compradores, se tivessem que pagar impostos sobre tudo o que vendem/compram?”, ouvia-se a um grupo que passava. No meio das tendas e ao longo das ruas da vila não faltavam outras tendas de oferta de comida, de bebida e de diversão.

Antes da hora de atuação das tunas e de grupos musicais de diversas aldeias da região, um grupo de convidados, vindos do sul do país, de aproximadamente vinte e cinco rapazes entre os vinte e trinta anos, divertia-se num pequeno bar erguendo copos de cerveja e ensaiando o seu cante alentejano, para a atuação no dia seguinte. Quadras soltas, bem apimentadas, vozes graves e bem afinadas faziam levantar os pelos dos mais sensíveis, pela música que vem do fundo da alma. Nas praças, pequenos grupos de concertinas iam ensaiando a atuação do dia seguinte no cortejo etnográfico. Fados de Coimbra na parte mais alta da vila mobilizavam os mais saudosistas de Menano, Bettencourt e José Afonso. Noite fora, os milhares de pessoas movimentavam-se para ver, para comer e beber e apreciar o ambiente festivo.

No dia do cortejo etnográfico, mais de trinta grupos desfilaram pelas ruas principais da vila. Os que estavam no fim do percurso esperaram mais de três horas para ver chegar o primeiro grupo e outras três horas para verem chegar o último grupo. Carros de bois engalanados, tratores revestidos a preceito, pequenas camionetas de caixa aberta com grupo de cantores e tocadores sentados em escadaria montada na parte da carga, mostravam à multidão, de pé ou sentada em bancos móveis, toda a panóplia de atividades agrícolas. Moinhos de azeite, moinhos de cereais, toda a parafernália de objetos agrícolas, todo o tipo de produtos era mostrado com a alegria incentivada pelos grupos de zés pereiras e de cabeçudos, normalmente à frente de cada representação local. Para alegrar e dar mais colorido, um dos grupos simulou a alegria de três mulheres bêbedas, cantando e discutindo, rua abaixo. Uma luta de paus pela disputa de namorada fez reviver as tradições dos jogos e das habilidades para conquistar a preferência das raparigas.

Num palco preparado a preceito numa das praças da vila, pelas dez horas da noite começou um espetáculo que atraiu multidões noite fora, até de madrugada. Entrou em cena o primeiro grupo de “Cantadores ao Desafio”, um homem e uma mulher, provocando-se sem parar com as mais divertidas cantigas improvisadas, qual delas a mais picante e provocatória, cantigas obrigatoriamente bem rimadas. No público, várias eram as reações: uns rindo às gargalhadas, lágrimas nos olhos, explosões de alegria; outros observavam o cantadeiro e a cantadeira com ar sereno e intrigante, concentrados no que ouviam. O nosso viajante interrogava-se sobre esta reação tão serena, tão intrigante. Não resistiu e perguntou a um sorumbático grupo de espectadores o que eles pensavam do que estavam a ver e ouvir. Resposta pronta: “Estamos a ver se eles respeitam as rimas!” “E isso é assim tão importante?” perguntou o nosso turista. “É sim, meu caro senhor, eles têm que cumprir as regras, isso é mais importante que a história que contam, falam de tudo, criticam tudo e têm que ter argumentos e contra-argumentos que façam sentido e rimem!”, protestava um outro elemento do grupo de habituais frequentadores destes desafios. “Então, mas eles dizem tantos disparates e brincam com tanta graça e isso não vos faz rir?”, perguntou o veraneante. “Vamos estar aqui pela noite fora, vamos ouvir muitas estórias, algumas já conhecemos de outras paragens, estamos habituados a aguentar as lágrimas de riso”, concluíram. Outros grupos de cantadores ao desafio se seguiram. O grupo do nosso turista não aguentou tanta risada. “Vamos embora, onde haverá casas de banho?”.

Os amigos, que por ali andaram durante dois dias, regressaram à cidade deliciados, uns porque nunca tinham visto semelhante manifestação de tradições populares, outros porque aqueles dias foram como que um certo regresso às suas infâncias de vida campestre. Prometeram voltar e convencer outros amigos a ir às Feiras Novas, em agosto, naquelas terras banhadas pelo Rio Lima, uma vila tão bela que se recusa a que a transformem em cidade.

Vitor Carvalho 
novembro de 2025


SE AO MENOS O MAR ...


 

 

Amanhã vou-me embora sem destino
e no meu peito aberto o desatino.
Levo nas mãos fechadas liberdade
vestida de loucura e de vontade

No olhar delirante levo um hino
levo um sonho, acordado, de menino
marcado pelos traços da saudade
e asas feitas de paz e de verdade

Amanhã vou-me embora por aí
quando o mar me fala só de ti
em fugazes fiapos de marginalidade

Caso a sombra regresse ao meu caminho
farei na solidão, ornamentos de azevinho
quando o mar trouxer o que não tem idade

 

 

Fernando Baptista
        Cela Velha, 30.04.2025

O MOINHO DE PAPEL

Era um simples moinho de papel de seis pontas, com cores bem definidas que  colocado no alto de um muro e impulsionado por uma ligeira brisa,  rodava, rodava sem parar.
Uma criança, de narizito empinado e boca entreaberta, olhava fascinada para aquela bola multicolorida que não parava de rodar. Era um brinquedo e só podia ser para ela. Tinha de ser para ela. Esticou o bracito para o agarrar, mas o muro era uma torre quase tão alta como o seu pai. Tentou trepar mas a parede era demasiado lisa.
A criança olhava para o muro e para o seu brinquedo sem vontade de desistir. E acabou por dar-se conta de que havia uma parte mais baixa. E sem tempo para refletir ela correu e, com alguma dificuldade, conseguiu trepar e escarranchar-se no cimo. Era só estender o braço, pensava ela, mas não era bem assim. O moinho ainda continuava longe.  Andar a cavalo no muro até parecia divertido desde que não olhasse para o chão! E ansiosa por agarrar o seu moinho, ela avançou corajosamente, só parando quando conseguiu tê-lo bem seguro na sua mão.
Triunfante, iniciou a descida, mas com uma das mãos ocupada era mais difícil. Escorregou-lhe um pé, tentou agarrar-se e acabou por cair no chão duro. Soaram apitos nos seus ouvidos e tudo se apagou por instantes. Chegou em seu socorro a família aflita e a criança rapidamente recuperou. Um belo galo na cabeça, os joelhos esfolados, mas o seu troféu mantinha-se firmemente em seu poder.
Mais tarde, da janela aberta do seu quarto, a criança olhava embevecida para o seu moinho colorido, de seis pontas,  que rodava, rodava sem parar.

Pilar Encarnação
19/11/2025

INESQUECÍVEL E HILARIANTE PASSEIO AO ALENTEJO


Era Verão! O bom tempo convidava ao passeio e entre várias hipóteses, a mais votada foi “UM PASSEIO AO ALENTEJO”, garantidamente hospitaleiro e especial.

A meta escolhida foi Moura onde a gastronomia seria o culminar da aprazível viagem!

Saímos de Lisboa de manhã cedo e a primeira paragem foi em Évora. Tomado o café, acompanhado da saborosa queijada de requeijão, iniciávamos assim o prelúdio gastronómico dos sentidos.

O calor já marcava território e, para preservarmos a energia que seria necessária para o programa estipulado, contornámos a Praça do Giraldo sob as suas icónicas arcadas que nos protegiam do sol.

Aí deparámo-nos com uma ave que se refugiava nas mesmas.

Aproximámo-nos, estava cansada, evadira-se do seu refúgio doméstico e ali lutava pela sobrevivência, na ausência do que seria a sua zona de conforto. Aproximámo-nos e rapidamente se rendeu e entregou aos nossos cuidados

Agora era imperativo tomar decisões urgentemente e estabelecer prioridades!

Voltámos à pastelaria, pedimos uma caixa que perfurámos para o transporte ser mais cómodo, e ainda água para a hidratação desejável à manutenção da sua saúde.

A segunda medida foi a tentativa de a encaminhar para uma instituição, e para tal dirigimo-nos a um polícia local que nos aconselhou ir à GNR, o que fizemos imediatamente.

Aí começou o caricato drama/comédia.

O Agente lia o jornal que só abandonou decorrido algum tempo e erguendo o olhar com expressão contrariada, nos perguntou o que pretendíamos. Explicámos detalhadamente a ocorrência bem como a pretensão. Para nossa surpresa e estupefação informou-nos que não podia receber o animal e seríamos nós os responsáveis pelo achado, que seria objeto da emissão de um auto nesse sentido.

Dirigiu-se a uma máquina de datilografia, modelo muito antigo mas funcional.

Encontrar papel foi o desafio seguinte. Procurou, procurou e finalmente descobriu uma resma guardada num armário metálico e distante.

Reunidas as condições, começava então a elaboração do auto onde ficaria registada a ocorrência bem como a identificação do responsável máximo.

Solenemente feita a pergunta” quem se oferecia”, mais uma vez a nossa reação foi de espanto, mas mais uma vez ultrapassámos a situação e a minha filha, numa atitude solidária, ofereceu-se prontamente.

Decorrida a fase burocrática a ave pertencia ao clã e a madrinha escolheu o nome para a afilhada em homenagem ao nosso periquito que morrera numa gaiola dourada que mas, apesar de tudo, a morte venceu e o periquito morreu!

Parecia que iríamos finalmente retomar a nossa viagem quando, ao passarmos no Centro Histórico, na rua do comércio de artesanato, decidi entrar numa loja e pedir uma caixa maior para o transporte da  nossa afilhada.

Ao abordar a situação, o comerciante mostrou-se recetivo e ofereceu uma caixa de papelão onde o atual T0  seria  substituído por um T4 e em simultâneo mostrou curiosidade de conhecer  o inquilino do “apartamento” que estava a oferecer a custo zero.

Identificou-o rapidamente como uma “caturra” e,  com enorme entusiasmo, mencionou cuidados concretos a termos com ela.

 Tivera uma que morrera e com enorme emoção chamou o filho e a sogra que estavam no andar superior da loja. Rapidamente desceram e todos com evidente paixão e saudade recordaram a sua falecida!

Despedimo-nos, retomámos o nosso percurso já com a afilhada bem instalada no novo espaço.

 Perante o calor e o adiantado da hora decidimos almoçar em Évora.

Durante o almoço e em constante vigilância ao “apartamento e respetivo inquilino”, ocorreu uma inspiração contagiante, um sentimento de união na causa comum que nos ligava.

Todos desejávamos contribuir para o bem-estar da nossa afilhada.

Decidimos por magia simultânea voltar à loja e oferecer a caturra àquela família, convictos que seria o melhor a fazer naquele contexto.

Novamente o filho e avó desceram e, carinhosa e alegremente receberam a oferta.

Porém, rapidamente a burocracia falou mais alto e fomos de novo ao Posto da GNR atualizar a situação, onde  mais uma vez causámos desconforto. O auto foi atualizado e a caturra passava então a ter um jovem padrinho responsável por ela. Concluído o processo de doação despedimo-nos com a convicção que a nossa ex afilhada continuaria a viver em Évora e certamente numa boa família de acolhimento onde seria feliz e onde ocuparia o “apartamento” da caturra falecida.

Continuámos a nossa viagem, com a sensação de missão cumprida. Decidimos ir jantar a Mourão aonde ainda conseguimos visitar o Castelo e onde a gastronomia não nos desiludiu.

Foi um dia hilariante. Apesar das surpresas e respetivas alterações inerentes, nada perturbou a nossa alegria e determinação.

Superámos da melhor forma o que foi acontecendo ao longo do dia. Considerámos que o agente da autoridade deveria ser mais flexível às situações que no seu local de trabalho ocorrem.

A felicidade também resulta das atitudes que assumimos perante as surpresas que a vida nos apresenta.

O meu querido Alentejo foi o palco desta peça escrita naturalmente pela VIDA e sua imprevisibilidade e todos os intervenientes fomos os atores que lhe deram vida.

Quando estamos em união de causas e ideais reunimos meios para superar dificuldades sem nos vitimizarmos, isto é, a paz e alegria mantêm-se presentes e dão-nos forças para prosseguir fiéis a nós próprios.

A aparente exceção talvez tenha sido o personagem GNR cuja postura não contribuiu para a sua felicidade nem para a felicidade geral. Porém, e porque foi um elemento isolado, não teve a força suficiente para destruir os nossos sonhos….

O meu querido, inesquecível e saudoso Alentejo continua vivo no meu coração.

Maria de Lourdes Santos
19 de Novembro de 2025

QUANTAS VEZES

 

Quantas  vezes  o  sol                                                                              

entrará no  meu  quarto

quando  eu  abrir os  olhos  sonolenta

de  madrugada  ?

Quantas  vezes  ainda

adormecerei  nos  teus  braços

depois  de  o  dia  tranquilo

que  a  velhice  nos    ?

E  a  tua  mão suave

acariciará  o  meu  rosto,

o  teu  beijo  de  boas noites

acompanhará  os meus  sonhos,

e as  tuas  palavras

serão  o  conforto  de  todos  os  dias  ?

Quantas  vezes  ainda 

os  gestos  ternos  da  família  e  amigos

os  seus  sorrisos

as  suas  gargalhadas

os  seus  abraços  que me  darão  calor ?

Tudo .   Tudo  o  tempo  fará  esquecer

na sua  corrida  veloz

que  nada deixa  para  trás

O tempo  não  tem  memória.

Mas  que  importa ?   Não  importa

enquanto  tu,   tu  e   tu

estiverem  ao  meu  lado  para  me  acompanhar 

 

Mitú Branco
20/11/2025

FELICIDADE NOS TRAZIAS...


Primeiro dos primeiros

Disponível, bem disposto,

Raiava a Nova Atena

A docência aceitaste

Da pioneira informática

Interveniente, dinâmico.

Como se não bastasse

Com teus dotes de agricultor

Ali mesmo

À horta, às árvores de fruto

Te dedicaste

Beleza da natureza,

Orgulhoso pela dádiva

Exemplo de solidariedade

De singela safra na mão

Felicidade nos trazias

A produção distribuindo,

Alimento nosso de boca e coração.

 

Não mais nos estenderás o açafate

As nêsperas continuarão doces!…

 

Maria Silveira

2025.10.06[1]

                                                                                                                                          



[1] No passamento de Ilídio Granja Coelho, saudoso amigo e associado da Nova Atena

OLHA ESTAS CRIANÇAS DE VIDRO, PROCURANDO A VIDA NOS CAIXOTES DO LIXO

 

 

Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA): - Considera-se criança toda a pessoa até aos doze anos de idade. No meu entender, nenhuma criança “vai procurando a vida” nos caixotes do lixo. Vai, a mando dos seus progenitores, procurar restos de comida nos caixotes do lixo!

A pobreza e a segurança alimentar afetaram, no ano de 2022, cerca de 17,6% das crianças até aos 6 anos de idade, taxa que subiu para 23,4% nas idades entre os 11 e 15 anos de idade.

Apesar de Portugal ter uma taxa de pobreza inferior a outros países da OCDE a insegurança alimentar ainda é uma realidade para muitas famílias. Um estudo de 2024 revelou que quase meio milhão de crianças viveriam em situação de pobreza sem apoios sociais.


Jerónimo Pamplona
                                                                            Alcaria, Cartaxo, 18 de outubro de 2025

MISTÉRIO NO ALENTEJO

 


Uma primeira decisão de avaliar o potencial da construção de uma represa no Rio Guadiana, no Baixo Alentejo, foi tomada no ano de 1993. Dois anos mais tarde, o governo de então decidiu avançar com o projeto de construção da barragem, uma visão estratégica que ambicionava um desenvolvimento energético e económico para boa parte do Alentejo. Alguns anos de construção, e finalmente em 2004 era inaugurado o maior lago artificial da Europa, com 1.100 km de margens, que une cinco concelhos alentejanos. Investidores portugueses e estrangeiros apostaram na produção agrícola de bens de elevado consumo de água, vencendo a histórica escassez. A água do Alqueva trouxe oportunidades de exploração agrícola no Alentejo como nunca tinha acontecido naquela região. Com a abundância de água vieram os investimentos, mas faltava a mão de obra, tradicionalmente escassa no sul de Portugal. A solução foi abrir as portas a mão de obra estrangeira – do Paquistão, do Bangladesh, do Nepal e da Índia, principalmente, vieram milhares de trabalhadores, para quem os baixos salários alentejanos eram bem superiores aos salários dos seus países de origem. A paisagem humana de muitas aldeias alentejanas transformou-se, com estes novos habitantes.

 

Novos e relevantes investimentos na preparação para novas e velhas culturas agrícolas trouxeram muitas máquinas para os campos. Na ausência de armazéns apropriados, muitos desses materiais para utilização agrícola ficavam de noite ao relento: fio de cobre para controlo dos motores das bombas, dos sistemas de controlo, da iluminação, dos sensores que monitorizam a humidade do solo e outras aplicações. Num fim de semana, parte desse material foi roubado. Na vastidão da planície e na escuridão das noites de lua nova, ninguém pôde testemunhar ao vivo e acusar o autor dessa façanha. Criou-se uma suspeição sobre quem poderia estar interessado nesse material, para uso pessoal ou para venda de um bem tão caro e tão procurado, como é o cobre. A GNR tomou conta da ocorrência e pediu ajuda à Polícia Judiciária. Um amolador de tesouras, de facas e de outros instrumentos de corte, que visitava frequentemente as aldeias da região, referiu numa taberna que se tinha cruzado, altas horas da noite, com um grupo de cavalos puxando carroças a alta velocidade, alumiadas por lanternas de pilhas, que lhe causou estranheza, mas que não pôde identificar pessoas. Pela força das chicotadas nos cavalos, pareceu-lhe que aquele grupo estava em fuga de alguma maldade cometida. Pareceu-lhe ouvir gritar por “verdasca”, mas não percebeu se era ordem para malhar nos cavalos ou chamamento por alguém.

 - Verdasca é um conhecido traficante de pistolas, que por aqui passa de vez em quando, disse o taberneiro.

- Então a Polícia Judiciária já pode ter aí uma pista, respondeu o amolador.

- Ontem esteve aqui o Zé Varosa, que pertence ao novo partido, o tal que quer limpar o país desses malfeitores, que vivem do contrabando, da droga e de subsídios. Falámos no assunto do roubo do cobre e concluímos que esse Verdasca anda de carro de luxo, não me parece que tenha dificuldades, referiu o taberneiro. 

No processo judicial que resultou das investigações da PJ, iniciadas a partir de uma denúncia anónima, foi a tribunal o citado indivíduo conhecido por Verdasca. Um jovem advogado vindo de Lisboa, conhecido do arguido, foi contratado para o defender. E conseguiu provar que não havia provas, pelo que o dito Verdasca foi ilibado. Na comunidade, o jovem advogado ficou com a fama de grande causídico, embora jovem e de proveniência onde o grau de instrução é muito baixo.

Alguns meses passaram depois do julgamento. Foi comprado material para substituir o que fora roubado. As novas explorações agrícolas estavam já em pleno funcionamento. As aldeias da região, outrora em processo de esvaziamento populacional, eram agora habitadas em grande parte por imigrantes vindos da Ásia. 

Entretanto, uma jovem indiana, Ujala, de dezassete anos, ficou grávida. Não se sabia, nem ela, quem era o pai da criança. A jovem dizia apenas que um senhor que se apresentou como o dono da herdade, falando inglês, lhe pediu várias vezes para ir limpar a casa, levando-a e trazendo-a de automóvel. E disse também que nessa casa ele lhe deu dinheiro e lhe fez promessas de vir a ter um papel importante naquela herdade, forçando-a a ter relações sexuais. 

Passaram quatro meses depois da primeira ida da moça à casa da herdade, e a partir daí ela confessou aos colegas que algo de estranho se passava na sua barriga. Não sabia o nome de quem a tinha violado, não sabia o tipo de carro que ele usou, só dizia que era alto e forte e que falava bem inglês. Os habitantes da aldeia não reconheceram ninguém com aquela descrição. Assumiram que ela estava a tentar culpar algum senhorio para receber as tão prometidas recompensas e que, vivendo numa casa com muitos colegas, não saberia quem era o pai da criança. 

A criança nasceu, saudável e com aspeto europeu. Foi acarinhada por todos os amigos da jovem e teve uma evolução normal. A discussão sobre a paternidade foi lentamente saindo da ordem do dia. 

Dois anos passaram. As aldeias da região encheram-se de cartazes de propaganda eleitoral para as eleições autárquicas. A maioria deles apelava ao voto de mudança. “Vamos acabar com a corrupção”, “Vamos limpar o país”, “Imigrantes para a sua terra”. Na comunidade dos novos habitantes das aldeias do Baixo Alentejo a apreensão era notória. “Vamos ser expulsos?”, comentavam. “E quem vai fazer o nosso trabalho, não há aqui mais ninguém para trabalhar! Pagámos tanto dinheiro para vir para aqui e agora vamos embora? Não temos direitos, não temos apoios, quem nos vai valer? E a Ujala, que tem nos braços um filho de português, quem lhe vai valer? protestavam ansiosos. 

Especulava-se que o pai da criança poderia ser o putativo ladrão do cobre, que só aparecia de vez em quando. Ele negava, dizendo apenas que era meio escuro e a criança era bem clara. Da fama não se livrou, e a moça não estava segura para o denunciar. 

Chegaram outros cartazes do novo partido, a inundar a aldeia onde aquela comunidade vivia, com fotografia do candidato á Camara Municipal do concelho ao lado de um conhecido político nacional. 

- Foi aquele, foi aquele, gritava a Ujala, apontando para um cartaz onde apareciam duas figuras, a de um político nacional e a do líder desse partido na região. Quem abusou de mim foi aquele senhor sem gravata, aquele senhor de bigode. 

Ninguém queria acreditar. O candidato não mais apareceu naquela aldeia durante a campanha eleitoral. Entretanto, rapou o bigode…

 

 

Vitor Carvalho

 novembro de 2025

 

MARÉ ALTA

 


Ondulantes, alvas, dançam águas no horizonte.

Águas turbulentas, travesseiros de noiva sobre alcova em movimento, sob véus esvoaçantes. Emerge a brancura no regaço azul do mar sem fim casado em perfeição com o firmamento. Na ténue linha do horizonte desfaz-se a ilusão, alaranjado, avermelhado, o sol impõe-se, mostra a onda, evidencia a corrida, revela a brutalidade dos sentidos, a força da luta mar e terra, a violência da relação, do abraço que une homem e mulher, o êxtase no seu expoente, onda de maré alta que resfolga no rochedo.

Esmorece, cai o dia, tudo serena, as águas viram espelho, prazer da natureza, satisfação dos sentidos, tudo adormece, acorda a paz.


 Luísa Machado Rodrigues
2025.11.20

NOITE DE LUAR

 

É fim de tarde. Faltam 2 horas para a lua aparecer no seu esplendor num céu ainda pouco escuro de uma noite de verão. A temperatura do ar aponta para os 29º. O mar pinta-se num azul nevoento com ondas a espraiar serenamente na areia, ainda molhada. Próprio da baixa mar. Que logo, logo estará na maré vazia.

Já se vê o topo das rochas antigas outrora descobertas e nuas.

Há casais que passeiam mais seguros sobre a areia compacta.

Fazem os últimos mergulhos.

Há ainda 3 grandes chapéus coloridos que cobrem os verdadeiros amantes da areia e mar desta praia. Preparam-se para jantar.

Há 2 ou 3 barquinhos ancorados no mar…

Gaivotas de penas cinzentas sobrevoam a beira-mar.  Voam em bando, atentas à liderança que as conduzirá ao silêncio, ao descanso da noite.

Nas arribas dá-se o oposto.

Brilham as luzes, brilham os corpos bem alimentados de óleos e perfumes. Brilham as musselinas leves, esvoaçantes e coloridas. Ouvem-se risos fáceis.

É hora de saborear um belo peixe grelhado saído daquele mar, pescado para chegar à mesa de quem o pode pagar.

Há música adequada, tocada por mãos hábeis e caras sorridentes. Música subtil que prende o consumidor.

A noite está propícia a grandes conversas e olhares furtivos.

Mãos tranquilas e lânguidas elevam os copos com delicadas bebidas. Alimentam o fogo que as faz dançar ainda sentadas.

As pessoas procuram-se, descontraem-se, procuram viver e fugir do desencontro e voracidade do dia a dia. Vivem momentos. Aproveitam momentos que se tornam únicos. O que virá a seguir beneficiará da sucessão destes momentos.

Por que, também, são de aprendizagem.

O sentido valioso da aprendizagem entre pares torna o homem e a mulher experientes, cultos e mais capazes de liderança.

Em si próprios. Criando lideranças entre pares com benefício na sociedade do Homem.

Uma noite de luar. Uma sucessão de momentos…

 

Maria Regina Ferreira

20.11.2025

 

RESILIÊNCIA


Em Memória de todos os jovens
vítimas dos campos de batalha,
quando o vento uivava despido
do eco distante de todos os tiros,
 e o céu pesado e cinzento afundava
esmagando a réstia de esperança
dos dias em que nos afundávamos.

Cada movimento era uma dor nova
cada respiração doía como castigo
já não se sentia nem dedos nem medo
só fadiga surda de quem viu demais.


Quando os olhares se cruzaram, pararam;
dois homens arrastando-se pelo matagal
 igual sofrimento, bandeiras diferentes
nenhum levantou a arma. O vento amainou,
pensavam não restar ninguém naquele local.

Falavam a mesma língua e a mesma fome
sentaram-se, lado a lado junto ao tronco caído
mas já em nada acreditavam. Abraçaram-se.

O sabor do pão seco, amargo, soube pela vida.
 É a minha filha, disse tirando uma foto do bolso,
chama-se Leonor. O nome de minha irmã, escutou
falaram de casa, do cheiro a pão quente e do amor.

Levantaram-se devagar apoiados um no outro,
caminharam em direcção ao horizonte branco,
para trás o campo de batalha ficou silencioso
como se a terra esquecesse a vergonha dos homens.

O primeiro pássaro cantou, e por instantes o mundo
pareceu recordar que ainda poderia recomeçar.

 

                                                                                                         Fernando Baptista
                                                                                                Linda-a-Velha 2025.11.16